Poemas, frases e mensagens de idália

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de idália

As rugas da vidraça

 
Estremeço ao aproximar do crepúsculo

a passar

rente aos meus olhos de bruma

há um espasmo líquido

debaixo da pele

um eco

a deixar um rasto de gelo.

Poderia ser então o murmúrio triste

da chuva

uma réstia impura da memória

o entrelaçar dos tempos

da partida

da chegada

as cicatrizes nos dedos

uma silhueta anónima.

Vacilo na viagem

ao interior da lágrima

fendas nas veias

o rasgar da folha

a dor em grito

no cerrar das pálpebras

o dia a soluçar

em gotas de melancolia

a

p

i

n

g

a

r

nas rugas da vidraça.
 
As rugas da vidraça

Contracorrente

 
O reflexo de um fio de letras

nas águas que vão fluindo.

É uma crença que a luz apagada

me ensinou

sempre que pouco mais sei

do que resistir

à corrente onde verbos estranhos

me aprisionam o dia.
 
Contracorrente

Serenamente, o silêncio

 
Passeio os dias
a curar a acidez dos espelhos. Palavras de água
abrigam sombras transitórias e são
talvez
à vez
degraus de espuma
ou estalidos do tempo.

Crepúsculos de adolescência cantam
a pele do vento
em longínquos horizontes de mar.

Há ilhas de agosto
a soprar a solidão da pedra
em olhos repletos de verdes conformados

a preparar a linguagem da casa
para a jornada seguinte.

Depois
serenamente

o silêncio.
 
Serenamente, o silêncio

O voo largo da gaivota

 
Não deixes que nos teus olhos adormeça

a rota

do voo largo da gaivota,

que a turvação do sal te anoiteça

a corda do relógio

feitor de papoilas e madrugadas,

que a lassidão do grito te emudeça

o eco de palavras resgatadas,

que o vento te rasgue da memória

os gestos desnudados

na orla da paisagem renovada,

que o tempo te sopre da folha branca

os sóis que resguardas

em linhas depuradas.
 
O voo largo da gaivota

Trago nos braços um mar invisível

 
Trago nos braços um mar invisível

e dentro de mim um rio

a recordar-me os pássaros

esquecidos na linha do vento

[ como quem se perdeu na viagem

e chegou atrasado ao tempo ]

e a vastidão do azul

que a passagem da luz amplia.

Ancorei sonhos dentro dos meus olhos

escrevi a vida à beira de um cais

[ em folhas submersas o céu

que se esvai ]

Resgatei das pedras a cadência do verso

celebrei as estrelas

nos fantasmas da noite

abri as portas às madrugadas.

Mas as sombras continuam a crescer

na mudez do corpo

aves de fogo

silêncios das minhas mãos.
 
Trago nos braços um mar invisível

Sombras de nós

 
Quando a cidade se faz silêncio
e o olhar uma paisagem de outrora
as marcas exibem histórias
e
de súbito
sentimos que somos grito adormecido.

Ilusória cosmética em que nos abandonamos.
 
Sombras de nós

Da simplicidade dos regressos

 
Caminho por dentro da palavra
e declino-a
no habitáculo do silêncio
onde te sei

[ permanência ]

na sombra lenta das horas.

Na arte do esquecimento guardas
os fios da memória e os restos
do rio em que aninhaste
o desejo
fértil
e vernáculo
de ser mar.

Caminho por dentro do silêncio
e sonho-te árvore
ramos a esculpirem o tempo
e os teus olhos de água
a entrarem por dentro da alma
a lerem na luz
a simplicidade
dos regressos.
 
Da simplicidade dos regressos

Quando o tempo é abrigo

 
O tempo é casa
com portas que rangem
e janelas que guardam
o cheiro dos dias.

Tem paredes gastas
onde encosto a memória
e um sótão
cheio de silêncios empilhados.

Há quartos
onde ainda mora a infância
e corredores
onde ecoam passos que já partiram.

O tempo é casa
e eu sou hóspede
de mim mesma.

Às vezes arrumo
as gavetas do passado
ou deixo o presente
a secar na varanda.

Mas nunca saio
sem deixar
a luz acesa.
 
Quando o tempo é abrigo

Ocaso

 
Sento-me ao lado dos pássaros
idos
onde desaguava o azul
em que nos procurei.

Abril acontecia
na voz quente
e louca
de palavras roucas

a razão perdia e eu lia
nos teus olhos
o encantamento do amanhecer.

Sonhei um abrigo debaixo
da tua pele
e no meu olhar lavado
tingi de verde
um espelho de orvalhos e de fogo
reinventado.

Calei o tempo
da voz gemida da floresta
ousei os segredos das aves
perfumei o pensamento de papoilas
e girassóis.

Mas há sempre
um silêncio
onde morre a primavera
e o ocaso se multiplica.
 
Ocaso

Desencontro-me

 
Movo as formas não explicadas
que estão perto
para que me possa ver

atiro para longe os passos velhos
esqueço a dor e a incerteza em que me sei.

Ardem-me palavras
de cores desbotadas

caminho a meu lado
na lonjura das memórias que matei.

Escorrem-me dos olhos horizontes de mel
e granito
onde me desencontro de um mito enclausurado

e o silêncio me grita o medo sufocado

de me saber só miragem

por me perceber
só imagem
feita de pó.
 
Desencontro-me

Não-tempo

 
Ainda me procuro naquele silêncio arrastado

que o vento levanta. Mas os meus olhos estão gastos

deles sobram apenas as raízes

e a luminosidade baça

que atravessa a vidraça

e arredonda o vazio da sala

repleta

de uma fumaça em dó maior

a pontilhar os móveis

que (no fundo) já lá não estão

também eles querem ser

desmemória.

Então invento um refúgio

num chão

feito de um não-tempo branco

[ onde também eu perdi a cor ]

e de portas trancadas por dentro

que me asfixiam

na dor.

E naquele silêncio arrastado que o vento levanta

há ecos de passos

que passam sem passar

e fogem fogem fogem

e deixam uma voz

que na brisa me avisa

_ Antes ser pó

esquecimento e cansaço

no meu descompasso

do que ser laço lembrança

veludo ou aço

na árvore em que não sou

nem folha nem sombra da vossa história.
 
Não-tempo

O jogo

 
Toda a tarde pensei

em ti

enquanto me estendiam sobre

a mesa um turbilhão

de abstrações.

Os zumbidos gritavam salas vazias

e não cheguei a perceber se

eram genuínas as intenções

ou se apenas jogávamos

entre névoas

perdidas

ou arrependidas.

E eu

trepadeira de ausências

o pensamento a passear

coração adentro.

E eu

inteira

fui toda uma tarde

uma parte de ti.
 
O jogo

Ciclo de pedra e de luz

 
Assim se inicia o novo ciclo da vida

tecitura de pedra sob a
varanda do olhar.

Tela de ponto cruz
ou loja de conveniência

sobras de tintas sob o tapete
da porta de entrada.

Filtradas pelo verde da pérgola
candeias azuladas de uma
luz esquecida

germinam ventos e searas
em aromas de fim de tarde

e estendem raízes no poema.

Sobressaltos de crepúsculos entrelaçados
em fugas de maios prometidos.

Limpam-se as ervas daninhas para
que permaneça a certeza

da textura lisa
da pedra fria.
 
Ciclo de pedra e de luz

Já não sei se há domingo

 
Já tive uma rua inteira
aberta
cheia da luz de domingo
e uma porta deslumbrada
por onde essa luz entrava
completa.

Tinha também um rio
que passava ao pé da porta
de águas mansas e frescas
onde a vida se espelhava
e o meu corpo suspirava
pelo brilho de domingo
das flores
e das borboletas.

E nos meus olhos de mar
sorria a pureza do mundo
cabia um céu de gaivotas

[até deus tinha um lugar]

dentro dos meus olhos de mar
ao domingo.

Já não tenho nada
já não quero nada
já não sei o meu lugar
já não sei se há domingo
nem mesmo se quero o sol
a nascer detrás da noite
a ofuscar o luar
em cada madrugada.
 
Já não sei se há domingo

Fluindo

 
Fluindo

fruindo

água nítida

inocente

sempre

sempre

e a vida

vai

por dentro

cristal

da manhã

rasto azul de

aquário

transparente

amor presente

sempre.
 
Fluindo

Construtora de sonhos

 
Embebo-me de claridade

e construtores de sonhos os meus dedos

tateiam

persistentes

os mares de prata da lua.

A manhã ondeia

e a nudez do céu flutua

em etéreos véus de seda branca.

O tempo vai

o tempo vem

desenha círculos de melancolia

recolhendo aves que o vento fustiga.

Cresce o torpor da neblina

adensa-se a prostração do dia

e de asas defraudadas os meus olhos

vagueiam nos umbrais de um rio

onde definha a fugitiva sombra

de uma sonâmbula

impossibilidade.
 
Construtora de sonhos

Vigília

 
É possível que eu não saiba a primavera nos gestos leves

das minhas mãos

e que as estrelas sejam breves

nas minhas noites claras.

Nada prometo aos pássaros

que acendem no mar

a lua

deixo escapar entre os dedos

os céus que se estendem entre chuvas de mel

sob as minhas pálpebras.

Nunca entenderei bem os silêncios

da casa

apenas escuto os sinais invisíveis

da vida

enquanto guardo palavras inacabadas dentro dos búzios

das madrugadas.
 
Vigília

Os barcos chamam por mim

 
Os barcos chamam por mim

e eu poiso a cabeça

sobre o equilíbrio dos dedos

a traçar ruas de acácias dentro do silêncio.

Lá fora a noite chora

entra pela janela

e deita-se nas sílabas invisíveis

que povoam a pele da casa.

O tempo demora

e há mapas cansados

por decifrar

a sobreviver

no entardecer do meu olhar.

Os barcos chamam por mim

o silêncio chora

as acácias voam

no rosto do vento

e o tempo demora.
 
Os barcos chamam por mim

Limbo

 
Contemplo no espelho o grito exangue
da minha eternidade

[não sei por onde vagueiam os meus olhos descrentes
talvez errantes nos silêncios do céu]

sustento a minha alma moribunda
num vazio baço
que me proclama pó.

A sombra cai lentamente
veste de sal as águas do meu rio
a chuva grita solidão
e as nuvens
presas ao sol
são barcos que me querem
nos pássaros que já fui.

Fogem-me as horas
distantes
desertas
e o vento
de asas abertas
agita-me um mar
disperso entre os dedos
leva-me a lua de seda feita
e deixa-me só.
 
Limbo

Guardo silêncios debaixo da pele

 
Não me querem bem as palavras

que hoje me queimam os dedos.

O futuro corre atrás de uma porta fechada

e nas veias arde-me um tempo

a sufocar na raiz de um grito.

Morro e renasço em imagens

que choram na frieza de uma tela abandonada

e me segredam hipérboles

entre a claridade e a escuridão.

Assim como quem parte para além do corpo que me guarda

visto-me de sílabas desajustadas

e deixo a alma atrás de um silêncio

que me diz tudo

sem dizer nada.
 
Guardo silêncios debaixo da pele

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