Poemas, frases e mensagens de Darwinantonio

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Darwinantonio

Ensaiar a sede com o mar

 
 
na franja
do tempo
[virgem]
vagueia a esperança
embriagada de juventude
diante dos corpos
maduros
caídos
murchos
sem folhagens
novas

creio que a tarde
das coisas belas
não demora

resta o pôr da estrela
o horizonte na beira
e a verdade
de amar

ainda recordo
a nossa chegada
trazíamos a timidez
movediça
no olhar
e todas as sementes
prontas a galgar
vontades
em par

esquecemo-nos
que éramos feitos
de ondas
de marés
pedaços soltos
de um mar
que todos choramos

fomos vencidos
num empate
sem sabermos
ao certo
do resultado
do embate
dos corpos
com fome

do perfume dourado
passando pelo azul salgado
da transparência doce da espuma
ficámos presos
nos areais do entusiasmo
e das incertezas
perdendo a beleza
e todos os instantes
depois
 
Ensaiar a sede com o mar

Todos os gomos vão dar à romã

 
Todos os gomos vão dar à romã
 
 
fui,

deixei,

voltei...

sempre escondendo o adeus,
cerrando os lábios,
fechando os dedos.

naquele tempo,
lançamos palavras
e fizemos um mar.

contudo,
só tínhamos a areia da ampulheta
para tornar o sonho praia,
numa hora e meia.

fomos indelicados com a sorte,
e ficamos mudos,
num beijo.
imóveis num abraço.

no final,
levantou-se a brisa
de um afago que transpirou
o corpo de desejo.

meu Deus,
foi o começo
para que os silêncios
ganhassem os nossos nomes,
e a saudade, uma grade
com a chave no lado de dentro
do nosso peito,
separado.

foi o início de um laço
que se tornou nó,
enlaçado em dois lados
cortados,
sem estarem bem apertados.
 
Todos os gomos vão dar à romã

Anamnese

 
 
existem alturas
difíceis,
a nossa
era alcançável.

carecia de uma vontade
guinada á norte,
e a travessia
da carícia,
em corte
desenhada
pelo tronco dos dedos,
no limbo dos sentidos.

seria o início
de uma avalanche de mimos…
aquela derrocada de afagos,
caída nos lábios,
desmoronando
a timidez dos silêncios.

um amor que passou a quimera,
ficando a centímetros da terra.
uma cegueira à vista,
tão perto da testa,
uma afronta ao que fomos,
desiludindo o sonho.
 
Anamnese

La famille est le socle le plus solide d'une maison

 
La famille est le socle le plus solide d'une maison
 
 
Pintura realizada a 5 /02 de 2024

Quando a desenhava este esboço, recordava a infância feliz que tive, o pouco tempo que durou. Éramos uma família pobre mesmo assim, tínhamos casa, por mais modesta que fosse. Uma casa que tinha tudo e, o mais importante, família. Não faltava amor, nem comida, por vezes pouca, mas chegava para enganar a alma do estômago.



Recordo as manhãs daquele tempo, após o pequeno almoço, todos deixavam as suas humildes casas para irem trabalhar, e as suas vozes se dispersavam, ficando o silêncio quebrado pelo resmungar tímido do mar.



Dentro daquela casa, gostava de imaginar a origem de certos sons, uns pareciam tão perto, outros tão longe.

Recordo um galo rouco que desafinava quase sempre, parecia estar no telhado, outras vezes se afogava na praia. Lembro de uma espécie de grilo escondido no quintal que faltou ao coro da noite.

A única coisa que a vida ainda não separou, dos meus olhos, daquele tempo são as gaivotas, as eternas andorinhas brancas do mar.
 
La famille est le socle le plus solide d'une maison

O caminhar das gaivotas

 
O caminhar das gaivotas
 
Deixam suas asas
Longe do céu
Inertes nas costas

Aproximam-se
Dos homens

Procuram
Caminhos
Peregrinos
Para matarem
A fome

Le vol des goélands

Ils laissent leurs ailes
Loin du ciel
Inertes sur leur dos

Ils s'approchent
Des hommes

Ils cherchent
Des chemins
De pèlerins
Pour apaiser
La faim
 
O caminhar das gaivotas

Tanta sena para tão pouca libélula ou o pinga-azeite perdeu a oliveira antes de chegar à azeitona

 
Tanta sena para tão pouca libélula ou o pinga-azeite perdeu a oliveira antes de chegar à azeitona
 
 
Quando caminhava,

encontrei uma flor de sena.

Há quem lhe chame arbusto de vela…

Vê-la fez recordar as primaveras apressadas,

os filhos dos pássaros a nascerem precoces,

antes do ninho ganhar a forma de asa dobrada.



Fez-me lembrar o nosso encontro.



Eu, libélula de cor ténue,

fugindo de ti,

imperatriz dançante de beleza,

escondendo a raiz do íntimo e da tristeza.



Olhei-te como olhei esta flor

e ganhei suspiros,

engordei sonhos.

Até filarmónica tocou no estômago.



Naquela tarde,

toquei de leve no teu calo.

Tive medo e o tempo certo errou

num cálculo simples.

Naquele momento,

só poderia ser multiplicado pelo bem querer,

materializando a coragem de amar-te,

atracar em teu corpo como um navio de longo curso,

delicadamente,

como fazem os flamingos

quando chegam ao estuário,

de pernas coradas

e de penas

ligadas à liberdade.
 
Tanta sena para tão pouca libélula ou o pinga-azeite perdeu a oliveira antes de chegar à azeitona

O rastro das lágrimas doces

 
 
desmantelámos
os horizontes rasteiros
e as passagens diretas
para a Meca
dos nossos sonhos.

fomos ultrapassados
pela roda dentada
do tempo.

restam-nos
os vasos
das palavras,
a fé da primavera,
seguindo o rasto
das doces lágrimas.


aguardamos
a perícia do jardineiro
[do universo ]
e a sua arte de alinhar
as estrelas
no sentido
certo
dos olhos
arcaicos
da saudade.

quem sabe se reencontrarei
a mais bela seara
espigada
nas fontes da cara?

quem sabe
se a nossa sina
se liga à morte
do inverso da sorte
e nos brinda
com a vinda
do nosso amor
em doble
em verso
em cacho ?

quem sabe, sabendo que é tarde...

quem sabe,
escondendo a corrosiva lágrima
inventa pela narcisa tristeza
daquela tarde …

quem sabe…
 
O rastro das lágrimas doces

Julgamos a luz sem pisar o chão das estrelas

 
 
criámos sustentos de amor
nos galhos
de uma árvore ainda menina

exigimos que ela fosse mãe e protegesse
os ninhos das nossas esperanças

regámos [com as nossas lágrimas]
as suas raízes

abanámos seu tronco
procurando o fruto escondido

um dia acordámos
e sentimos o abandono
e a chegada do outono
oferecendo a saudade nova
daquela árvore
que acabou de desabrigar
o nosso teto
e abalar
com a sombra
nas costas
e todos os assobios com asas
 
Julgamos a luz sem pisar o chão das estrelas

Ombros soltos nos vazios

 
Ombros soltos nos vazios
 
 
desconhecemos a violência tão lenta do tempo,

nessa moldagem de nós mesmos,

e das expectativas amornadas

pela vontade gasta,

nas voltas

à volta

do sol

e da alma.



já não basta,

contrabalançar

nos balanços,

solavancos desta jornada,

a meio da vida,

da vida,

já olhamos ao redor dos nossos ombros

e não vemos membros

sustentados

nem qualquer gesto

semelhante

a um abraço.



não há volta a dar.

os anos afiam os silêncios

e já dói chorar.

a solidão envelhecida,

de uma ferida

nascida

de um não.
 
Ombros soltos nos vazios

De que cor eram suas Lágrimas?

 
 
as sombras rodadas,
não são baile,
são desgraça.

e não existe
alegria pura
nas abaladas,
nem mesmo aquelas
que são desejadas.

é o caso
do cisne verde,
nunca foi levado a sério,
menosprezado pelos pássaros.
ignorado pelos bandos.

rodopiava,
e ninguém o escutava
rodopiava,
e ninguém o olhava.

nas suas últimas partidas
deixou na retina
lágrimas
nunca enxugadas.

foi?! não se sabe.

agora,
dizem que
voava em ziguezague,
as más-línguas
dizem que ainda está
vivo
num lugar paradisíaco.

talvez a verdade
seja,
estar perdido
num lugar-comum
onde nunca foi visto.
 
De que cor eram suas Lágrimas?

La pure placenta du cœur

 
La pure placenta du cœur
 
 
abrigos

afagos

anoitecidos

naquele olhar

cheio de limos

por não chorar

a derrocada

dos pingos



prisão

dos sonhos

esquecidos

sorvendo

a geada

dos infortúnios

naquele olhar

perfurado

de mar



ai menino

de loiça

e de feno

tampando de branco

os ombros

com as asas

arrancadas

dos anjos



vem para dentro

eu prendo-te

com um cordão

agora dentro do peito
 
La pure placenta du cœur

A Cura das Asas

 
 
que som
tem o beijo
da água
após as partidas?

que palavra
mais amiga
acalma
o som das lágrimas?

perguntava uma ave ferida,
que perdeu a sua companheira
das grandes viagens…

talvez
nenhuma ave
voe alto quando chove.

talvez
nenhuma asa se cura
com choros e lamúrias.

contudo,
quando um bando se junta à volta da dor,
remendando a asa magoada
com todas as asas,
ultrapassa
as tempestades mais duras.
 
A Cura das Asas

O giz virgem na tela branca

 
 
Como giz
Afinado,
Procurando o quadro,
Para sentir
A escrita
De um amor sem fim.

Como quadro,
Com medo das aguarelas,
Ou de outras tintas,
Despido,
Virgem,
Depois de ti.

Como pincel
Seco,
Esquecido
Num banco de jardim,

Como banco,
À espera do primeiro dia de abril,
Para que a verdade não seja tão fria.

Em todos os cenários,
A espera do milagre
Trespassa o corpo
De esperança,
Depois da íntima ferida.
Desenhar o teu nome
Em infinitas
Partículas.
 
O giz virgem na tela branca

Enraizando as asas

 
 
entrefolhos
debruçámo-nos
na delicadeza
de um começo.

recordo-te
como sonho
perdurável
nos desassossegos
inocentes.

trazias nos cabelos
o doce vento
já prescrito
pela prosa
dos dedos.

e o olhar
repleto
de renúncias
e de desejos,
um dialeto silencioso
das flores
que embelezam o chão
admirado por todos,
adubado por poucos.

quis desvendar
as raízes dos teus medos,
encontrei no recife
do teu olhar
a esperança
de amar.

amar
como ave
que nunca soube
pairar
os azuis
longe do seu lar.

acabaste
por enraizar
as asas,
para te salvares
das neblinas
atlânticas.
 
Enraizando as asas

Tenuidades intemporais de Deus

 
Tenuidades intemporais de Deus
 
Connaissez-vous un moment comme celui-là, tout commence comme ça : vous êtes dans votre lit bien à l'aise et soudain, un moment de peur, de frissons, peu importe où vous vous trouvez.
Imaginez seulement : vous dormez, quelques mèches de vos cheveux reposent sur votre visage, vous transpirez dans une position de repos, et là, vous transpirez, vous transpirez tellement que vous avez l'impression de brûler. Votre corps a une odeur de transpiration, et là, vient la braise d'air vous caresser le visage, vous caresser le corps, brûlante. Et là, une souris se met à votre visage.
Personne ne saurait identifier ce sourire, car ils ne connaissent pas l'amour, la caresse, l'espoir qui vient d'envahir tout cela. Pour dire que Dieu est même dans les plus petits détails. La braise du vent qui vous réconforte n'était que la Mère de Dieu sur votre visage.
 
Tenuidades intemporais de Deus

A beleza que a estima floresce

 
A beleza que a estima floresce
 
 
a verdade da mentira
pode enganar-te,
sem arte,
usando
a estima
ausente
em toda a parte.

olha para
o céu tão velho,

vê como o horizonte
coxeia,

observa
a fraqueza
da idade
do mar,


como os teus olhos
mentem ao espelho
a teu respeito.

esquece a pele
disfarçada de luz
que não é a tua,
és estrela
desde a primeira gotícula,
desde o primeiro suspiro,
desde a primeira faísca,
desde o primeiro incêndio.

és mar a céu aberto
nos horizontes
magníficos.
és sol,
farol,
barco,
mira,
anzol.

és o abrigo,
o refúgio
dos sonhos,
aquele lugar
onde a delicadeza
quebra o gelo.
 
A beleza que a estima floresce

O napron de linho

 
 
a minha bisavó contava
que os habitantes da aldeia
teriam de ter o copo e o napron mais bonito
preparado
para quando chegassem os estrangeiros ricos
pudéssemos oferecer-lhes água
de forma vassala
reza a história, se não o fizéssemos
algo de ruim iria nos acontecer
guardei esta história
com medo no meu peito

até que um dia
um sismo estrangeiro
chegou
acho que ninguém tinha o copo
e o napron preparado,
ele se revoltou
tudo desabou
tudo o que tinha desapareceu
a casa, os sonhos, amigos, a infância
contudo, tive um anjo que me salvou
e fui resgatado

enviado para a terra natal do meu pai
Portugal
para começar uma nova vida
hoje guardo no hall de entrada
o copo mais bonito
sei que não haverá estrangeiros a chegar,
mas dentro do meu corpo
a voz da minha bisavó
diz para colocar o copo
sobre o napron de linho
 
O napron de linho

Um auto-retardado

 
 
o pó e a azia da garganta,
escondida
atrás das unhas
e um teclado
com o abecedário clicado,
sem linhas...

muitas alcunhas para o mesmo fado,
muitos retratos para a mesma figura,
e uma bravura semeada
na brandura das lutas
contra as mesmas sombras
do verão e do inverno.

eis uma breve descrição
de um futuro poeta
que acredita
que conduz um avião
andando de trotinete.
 
Um auto-retardado

Entre dedos e céus existe um caminho de regressos

 
 
no caminho
(im)preciso,
segues,
no avesso dos meus dedos,
enfrentando o promontório
à frente dos olhos
[ateus],

mas se julgas ser maior,
Só,

lembra-te…
é preciso de um Par,
de asas e de olhares
para ver,
[de perto ou de longe]
o espreitar do sol
nos horizontes.
 
Entre dedos e céus existe um caminho de regressos

Anamnèse des belles choses

 
Anamnèse des belles choses
 
O antigo, mais antigo
Só sobrevive à memória
Se for marcante e bonito.

L'ancien, le plus ancien
 
Anamnèse des belles choses

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