Ensaiar a sede com o mar
na franja
do tempo
[virgem]
vagueia a esperança
embriagada de juventude
diante dos corpos
maduros
caídos
murchos
sem folhagens
novas
creio que a tarde
das coisas belas
não demora
resta o pôr da estrela
o horizonte na beira
e a verdade
de amar
ainda recordo
a nossa chegada
trazíamos a timidez
movediça
no olhar
e todas as sementes
prontas a galgar
vontades
em par
esquecemo-nos
que éramos feitos
de ondas
de marés
pedaços soltos
de um mar
que todos choramos
fomos vencidos
num empate
sem sabermos
ao certo
do resultado
do embate
dos corpos
com fome
do perfume dourado
passando pelo azul salgado
da transparência doce da espuma
ficámos presos
nos areais do entusiasmo
e das incertezas
perdendo a beleza
e todos os instantes
depois
Todos os gomos vão dar à romã
fui,
deixei,
voltei...
sempre escondendo o adeus,
cerrando os lábios,
fechando os dedos.
naquele tempo,
lançamos palavras
e fizemos um mar.
contudo,
só tínhamos a areia da ampulheta
para tornar o sonho praia,
numa hora e meia.
fomos indelicados com a sorte,
e ficamos mudos,
num beijo.
imóveis num abraço.
no final,
levantou-se a brisa
de um afago que transpirou
o corpo de desejo.
meu Deus,
foi o começo
para que os silêncios
ganhassem os nossos nomes,
e a saudade, uma grade
com a chave no lado de dentro
do nosso peito,
separado.
foi o início de um laço
que se tornou nó,
enlaçado em dois lados
cortados,
sem estarem bem apertados.
Anamnese
existem alturas
difíceis,
a nossa
era alcançável.
carecia de uma vontade
guinada á norte,
e a travessia
da carícia,
em corte
desenhada
pelo tronco dos dedos,
no limbo dos sentidos.
seria o início
de uma avalanche de mimos…
aquela derrocada de afagos,
caída nos lábios,
desmoronando
a timidez dos silêncios.
um amor que passou a quimera,
ficando a centímetros da terra.
uma cegueira à vista,
tão perto da testa,
uma afronta ao que fomos,
desiludindo o sonho.
La famille est le socle le plus solide d'une maison
Pintura realizada a 5 /02 de 2024
Quando a desenhava este esboço, recordava a infância feliz que tive, o pouco tempo que durou. Éramos uma família pobre mesmo assim, tínhamos casa, por mais modesta que fosse. Uma casa que tinha tudo e, o mais importante, família. Não faltava amor, nem comida, por vezes pouca, mas chegava para enganar a alma do estômago.
Recordo as manhãs daquele tempo, após o pequeno almoço, todos deixavam as suas humildes casas para irem trabalhar, e as suas vozes se dispersavam, ficando o silêncio quebrado pelo resmungar tímido do mar.
Dentro daquela casa, gostava de imaginar a origem de certos sons, uns pareciam tão perto, outros tão longe.
Recordo um galo rouco que desafinava quase sempre, parecia estar no telhado, outras vezes se afogava na praia. Lembro de uma espécie de grilo escondido no quintal que faltou ao coro da noite.
A única coisa que a vida ainda não separou, dos meus olhos, daquele tempo são as gaivotas, as eternas andorinhas brancas do mar.
O caminhar das gaivotas
Deixam suas asas
Longe do céu
Inertes nas costas
Aproximam-se
Dos homens
Procuram
Caminhos
Peregrinos
Para matarem
A fome
Le vol des goélands
Ils laissent leurs ailes
Loin du ciel
Inertes sur leur dos
Ils s'approchent
Des hommes
Ils cherchent
Des chemins
De pèlerins
Pour apaiser
La faim
Tanta sena para tão pouca libélula ou o pinga-azeite perdeu a oliveira antes de chegar à azeitona
Quando caminhava,
encontrei uma flor de sena.
Há quem lhe chame arbusto de vela…
Vê-la fez recordar as primaveras apressadas,
os filhos dos pássaros a nascerem precoces,
antes do ninho ganhar a forma de asa dobrada.
Fez-me lembrar o nosso encontro.
Eu, libélula de cor ténue,
fugindo de ti,
imperatriz dançante de beleza,
escondendo a raiz do íntimo e da tristeza.
Olhei-te como olhei esta flor
e ganhei suspiros,
engordei sonhos.
Até filarmónica tocou no estômago.
Naquela tarde,
toquei de leve no teu calo.
Tive medo e o tempo certo errou
num cálculo simples.
Naquele momento,
só poderia ser multiplicado pelo bem querer,
materializando a coragem de amar-te,
atracar em teu corpo como um navio de longo curso,
delicadamente,
como fazem os flamingos
quando chegam ao estuário,
de pernas coradas
e de penas
ligadas à liberdade.
O rastro das lágrimas doces
desmantelámos
os horizontes rasteiros
e as passagens diretas
para a Meca
dos nossos sonhos.
fomos ultrapassados
pela roda dentada
do tempo.
restam-nos
os vasos
das palavras,
a fé da primavera,
seguindo o rasto
das doces lágrimas.
aguardamos
a perícia do jardineiro
[do universo ]
e a sua arte de alinhar
as estrelas
no sentido
certo
dos olhos
arcaicos
da saudade.
quem sabe se reencontrarei
a mais bela seara
espigada
nas fontes da cara?
quem sabe
se a nossa sina
se liga à morte
do inverso da sorte
e nos brinda
com a vinda
do nosso amor
em doble
em verso
em cacho ?
quem sabe, sabendo que é tarde...
quem sabe,
escondendo a corrosiva lágrima
inventa pela narcisa tristeza
daquela tarde …
quem sabe…
Julgamos a luz sem pisar o chão das estrelas
criámos sustentos de amor
nos galhos
de uma árvore ainda menina
exigimos que ela fosse mãe e protegesse
os ninhos das nossas esperanças
regámos [com as nossas lágrimas]
as suas raízes
abanámos seu tronco
procurando o fruto escondido
um dia acordámos
e sentimos o abandono
e a chegada do outono
oferecendo a saudade nova
daquela árvore
que acabou de desabrigar
o nosso teto
e abalar
com a sombra
nas costas
e todos os assobios com asas
Ombros soltos nos vazios
desconhecemos a violência tão lenta do tempo,
nessa moldagem de nós mesmos,
e das expectativas amornadas
pela vontade gasta,
nas voltas
à volta
do sol
e da alma.
já não basta,
contrabalançar
nos balanços,
solavancos desta jornada,
a meio da vida,
da vida,
já olhamos ao redor dos nossos ombros
e não vemos membros
sustentados
nem qualquer gesto
semelhante
a um abraço.
não há volta a dar.
os anos afiam os silêncios
e já dói chorar.
a solidão envelhecida,
de uma ferida
nascida
de um não.
De que cor eram suas Lágrimas?
as sombras rodadas,
não são baile,
são desgraça.
e não existe
alegria pura
nas abaladas,
nem mesmo aquelas
que são desejadas.
é o caso
do cisne verde,
nunca foi levado a sério,
menosprezado pelos pássaros.
ignorado pelos bandos.
rodopiava,
e ninguém o escutava
rodopiava,
e ninguém o olhava.
nas suas últimas partidas
deixou na retina
lágrimas
nunca enxugadas.
foi?! não se sabe.
agora,
dizem que
voava em ziguezague,
as más-línguas
dizem que ainda está
vivo
num lugar paradisíaco.
talvez a verdade
seja,
estar perdido
num lugar-comum
onde nunca foi visto.