Poemas, frases e mensagens de magnoerreiraal

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de magnoerreiraal



O sono

 
O sono me puxa
Pelos cabelos que não tenho.
Desperto um pouco,
Vejo-me no meu lugar,
Que eu não sei onde é.
Perco-me em um labirinto que está dentro de mim.
Corro com uma faca nos dentes
Para não sair da minha mão,
Que eu não sei se é minha.
O sono dá um tempo para mim.
Um tempo como todo tempo,
Com presente, futuro e passado
Correndo abraçados.
O relógio não para.
No meu pulso ainda vejo alguma coisa.
Na luz do dia nada vejo.
O sono passa e leva com ele
Algo que é meu.
Meus olhos, meus ouvidos,
Todos os sentidos,
Pelo sono atingidos.
O sono adormece o meu ser,
Põe a minha alma no mar,
Para deixá-la sem peso,
Para ser facilmente levada pelos ventos.
O sono antes de pegar o corpo
Tira a alma pra dançar.
O sono dá razão à falta de razão.
O sono da razão é um pesadelo,
Que embrulha os sentidos em um novelo
Que rola de ladeira abaixo.
 
O sono

Ananias

 
Os descendentes do doutor Jerônimo
Estão andando para trás,
Disse-me seu Ananias.
O doutor Jerônimo era mais humano,
Tinha mais coração, mais cabeça;
Não tinha essa fome que come
A humanidade do homem.
Não sei se o seu Ananias sabia bem o que dizia.
Mas eu sei que os filhos do doutor
Não são flor que se cheire.
E os netos são piores que os filhos.
Os bisnetos são piores que os netos.
A cada geração é mais forte o odor.
Onde vai parar esse trator?
Olhando para a árvore do doutor Jerônimo,
O seu Ananias dizia:
As coisas avançam, mas as pessoas estão ficando para trás.
Às vezes, eu acho que o seu Ananias falava demais.
Mas não há como negar
Que a fome de ter o outro na mão
Coloca uma pedra no lugar do coração
E faz os olhos brilharem cegos de paixão
Pelos ventos da estação.
Nessa atmosfera, cada vez mais,
Tudo está em poucas mãos.
Tudo está nas mãos de poucos
E a maioria sobrevive no sufoco.
A fome de ter o outro na mão
Deixa cego de paixão
Pelos pés que não pisam o chão,
Pela cabeça que não se equilibra no pescoço,
Pelo velho disfarçado de moço.
A fome de ter o outro na mão
Deixa cego de paixão
Por tudo e por nada,
Pelo trânsito fora da estrada,
Pelo trem que atravessa a rodovia,
Pela via que engole a correria
E por que mais seu Ananias?
 
Ananias

Alta nobreza

 
Texto apagado por desrespeito à política de conteúdo do site
 
Alta nobreza

Sonhos incendiados

 
Sonhei que eu era uma criança,
Vendo o fogo lamber a minha casa.
As chamas antes de lamberem a morada,
Lamberam os meus filmes.
Nos últimos minutos, subiam as letrinhas.
Lamberam os créditos, os agradecimentos, as festinhas...
As chamas antes de lamberem a morada,
Lamberam meus aniversários,
Meus desenhos animados,
Minhas musiquinhas pra dormir...
Lamberam a formatura da alfabetização,
Os abraços dos meus pais, do meu irmão.
Lamberam meu sorriso com uma janelinha
Que eu apreciava nos olhos de minha mãe.
Lamberam meus voos, sobe e desce,
Dos braços para os braços do meu pai.
Lamberam os sonhos meus e de meus coleguinhas.
A gente sonhava em ser escritor,
Professor, ator, cantor, jogador...
Sonhava com a lua, com as estrelas,
Com a praia, com uma pátria…
Apagaram tudo.
Acordei sem saber onde pôr os pés.
 
Sonhos incendiados

Mata verde

 
Na festa de Mata Verde,
Atores e personagens se confundem.
Saci-pererê, mula sem cabeça,
Bicho-papão, lobo mau…
Vão bem de verdade.
Eles falam o que querem
E falam sério.
Brincadeira é querer amadurecer
Na festa de Mata Verde.
Querer diferenciar o ator do personagem
É bobagem,
É sarna pra se coçar,
É nadar contra a corrente,
É demais.
Ultrapassa os limites da brincadeira,
Que de brincadeira não tem nada.

Na festa de Mata Verde,
Há vantagem em brincar de criança.
Só meia dúzia de crianças se dão bem.
Mas o que importa na Mata é viver verde.
As chaves que abrem as portas e as porteiras
Não se movem de brincadeira,
Movem-se para fazer a festa
De quem nela não está.
Na Mata, matérias verdes
Apodrecem sem jamais amadurecer.
A festa de Mata Verde é isso,
Não é pra brincar em serviço,
Botam as crianças pra dançar,
Tiram os pés do chão e a cabeça do lugar.
Nessa festa quem quiser enxergar,
Ouvir, ou sentir com os próprios sentidos
Vai dar de cara com um vespeiro enlouquecido.
 
Mata verde

Quanto vale a vida?

 
Ontem algumas vozes diziam que o homem vale o que tem.
Hoje é a aparência a maquinista desse trem.
Quem da maquinista não se declarar devoto,
Ousar não consumir pra aparecer na foto,
Nos olhos da maquinista não vai poder se ver.
O ter engoliu o ser e vomitou o parecer.
O parecer não tem nada a ver com o que é verificado.
O endereço certo é o errado.
Quanto vale a vida
Nessa corrida sem chegada e sem saída?
A vida é um passeio
Que meu coração não quer que acabe,
Mas sabe que vai acabar.
– É preciso aproveitar enquanto durar.
Não sei bem o que é aproveitar.
Consumir?
Olhar pra câmera e sorrir?
Pôr o passeio na bolsa ou no mercado?
Ser mais um produto enlatado?
O passeio passa como um passarinho
Que cruza o espaço azulzinho.
Não quero passar o passeio correndo pra chegar a algum lugar.
Quero ver, ouvir e sentir o vento e tudo que me toca.
Quero saborear a minha pipoca.
Quero falar o que eu penso,
Quero usar o meu lenço.
Meu passeio não cabe na bolsa nem no mercado
Se eu trocar o passeio por uns trocados
Gasto o tempo todo, pra ganhar a vida.
Gasto a vida para ter outra vida.
Que vida? A vendida, a comprada?
Mas a vida é uma só.
E assim as duas vidas em vida viram pó.
 
Quanto vale a vida?

Demônio dos santos

 
A verdade é uma moça sem roupa.
Não pode sair à rua.
Mataria de vergonha a família bem vestida,
Que passeia em charretes de rodas de açúcar.
A moça sem roupa causaria alvoroço,
Agitaria os ventos que iriam:
Virar e revirar tapetes, capas, cartolas,
Derramar lágrimas, taças de vinho, vômitos,
Desfazer cortinas de fumaça,
Mostrar o que se passa,
Jogar luz na adega,
Mostrar as mãos dos que dão as cartas.
A moça sem roupa
É o demônio dos santos,
Deixaria a família bem vestida com a cara no chão,
Sem saber onde pôr os pés.
Ela os deixaria sem poder abrir a boca.
A moça sem roupa pode fazer chover
E as rodas da charrete são de açúcar.
 
Demônio dos santos

As armas não servem a mim

 
As armas empurram a bandeira verde-amarela
Pra aquarela do calmante,
Para a novela alucinante.
As armas estão nas mãos
Dos que sequer aqui estão.
Cristãos não são não,
São demais pra servir Cristo,
Servem-se com voracidade
E devoram com capricho.

As armas estão nas mãos
Que movem a direção,
Nunca estiveram com os irmãos.
Os que mandam nessa praça
Rasgam terra, água e céu
Escondendo seu papel
Numa cortina de fumaça.

Essa terra pra essa gente que nos ferra
É uma mãe de leite nas mãos do deus da guerra.
Sem se vestir, sai a minha alma por aí
Se achando meio perdida;
Com o baixo preço da vida.

Aqui decai o arranjo social.
Do cais despenca a alma animal.
Aqui é de quem dita a dança
E bota fogo na balança.
Sendo assim, a massa segue
Sem ter onde se pegue,
A andar com um pé atrás e ofegante,
Enquanto esse barco segue, segue
Como castelo dos senhores navegantes.
 
As armas não servem a mim

Seu Guerra

 
Seu Guerra é um fazendeiro que se diz de paz, apesar do nome.
De paz, mas mata os trabalhadores de fome.
Seu Guerra diz que ama a sua terra,
Mas as suas serras derrubam sonhos, esperanças,
Árvores e desejos de mudanças.

Na terra de seu Guerra não se cultiva flores.
Ela é pra ele e outros senhores
Que se banham de perfumes para mascarar odores.
Ela é o corpo de um escravo cravado por um vulto
Que não cava o chão, mas pega os frutos.
A terra de seu Guerra é a serra, é o corpo e é o touro
Que da massa tira o couro.

A terra de seu Guerra
É uma guerra embutida na paz,
É um faz de conta que faz,
É uma conta que não conta nada mais
Além do que interessa ao contador,
É um rio que afoga o nadador,
É a frente que fica para trás
Pisoteada pelos animais
Que não precisam nadar
Porque nada falta onde o bando chegar.

Na terra de seu Guerra há vidas e vidas.
Os que moram abaixo da avenida,
Nem sequer são peixes menores, são nelores
A serem tangidos conforme o querer
De quem dita como e onde o vivente vai viver.
Na terra de seu Guerra o filho chora e a mãe não vê.
 
Seu Guerra

Duas bolsas

 
Contemplando a evolução das tecnologias
Disseram-me que evolução humana brilha em nossos dias.
Essa afirmação me acompanhou feito uma assombração.
Para mim, em tal comparação paira uma grande confusão.
A evolução tecnológica é um avião de última geração,
Já a humana não passa de uma Maria Fumaça se arrastando pelo chão.

Naquilo que nos diferencia dos outros animais
E das inteligências artificiais
A evolução é uma Maria Fumaça que anda devagar demais.
– Rapaz, isso é muita areia para o seu caminhão!
– Eu sei que é, mas do jeito que der vou seguir a minha condução.
– Os outros animais não constroem avião!
– Sim, mas vamos ver a face humana dessa evolução:
A Maria Fumaça é uma das faces da moeda.
Não é toda a moeda que a gente pega.
Pegando a Maria Fumaça ponho os pés no chão
E sigo a minha viagem dividindo a bagagem
Em duas bolsas a serem levadas para pesagem.

O peso da bolsa de tecnologias salta aos olhos dia após dia.
O peso da bolsa da razão, da emancipação, da virtude, da harmonia...
É um peso abaixo do peso, um pesar,
Levado em caravelas que voltam ao seu lugar.
 
Duas bolsas

A minha xícara de café

 
Matutando sobre o que é Deus,
Não consegui ir além do eu que é só o meu:
Deus é um ser primitivo de forças infinitas e inexplicáveis.
Não sei como viajar nessa viagem.

Matutando sobre o que é poesia
Também me perdi em plena luz do dia,
Parece que é tão inexplicável quanto Deus.
Não! Não é. O exagero escureceu.
A minha vó está me tachando de ateu,
Herege, arruaceiro, subversivo...
Mas eu quero apenas o que eu vivo
E estar feliz
Por não pôr a venda o meu nariz.

Viver para sentir, para imaginar
O belo e o elo entre o duelo
E a harmonia que pode originar
O fazer e o prazer do caramelo
E a percepção do peso do castelo
Sobre o chiado do chinelo.

O que é poesia?
O amor, a dor, a tristeza, a alegria?
A escuridão da noite, a luz do dia?
A desconstrução da construção?
O espanto que explode com o trovão?
A senha que assanha a emoção?
O vagalume que pisca por segurança e diversão.
A lata que contém o incontível?
Os olhos que veem o invisível?
É um passeio pelo ar, pelo mar e pelo chão
Que limpa a visão e alegra o coração?
Sei lá o que ela é.
Pode ser a minha xícara de café.
 
 A minha xícara de café

Beco da correria

 
No beco da correria, o futuro
É um papel sobre o muro.
O presente, um corpo sem roupa;
O passado, uma biblioteca oca.
O tempo segue o ano anterior.
O porquê na pata de um porco se sujou.
O modo é um semáforo desligado.
O pensar pegou o ônibus errado,
Desceu em um museu,
Desviou do beco da correria e desapareceu.
 
Beco da correria

O papel que cabia

 
Mesmo onde não escondem a fome
Não se vê o nome
Das causas que impulsionam a caravela,
Não passam nas novelas.
O tempo passa, mas não passa a coisa fria
Que queima o papel que cabia.
O pronto socorro tem que existir,
Mas a vacina tem que vir.
Só remediar não dá liga.
Como é que pode atacar a formiga
Sem atacar o formigueiro?
Não é um combate verdadeiro.
As causas da fome comem
Tudo que falta ao homem.

Magno Ferreira
 
O papel que cabia

O Portão

 
Dormi no relento para entrar na escola.
Não foi bem dormir,
Passei a noite em uma rede a céu aberto
Olhando pra lua, pras estrelas e para mim.
Olhava para mim e saía de mim.
Não havia, nem eu queria, um espelho para eu me ver.
Eu me via com sono e com medo de dormir.
Medo de acordar com a chuva.
Medo do sereno não me acordar.
Medo de não acordar cedo,
Quatro da manhã.
Mas quatro da manhã seria suficiente
Ou a escola já estaria cheia?
Passar aquela noite que não passava
Para não passar pelo portão da escola
Era um pesadelo a ser tatuado na memória.
Não deu ficar na rede até às quatro horas.
Corri pra escola.
Já havia fila.
Meu coração acelerou.
A minha alma desapareceu na escuridão dentro de mim.
Quando o dia clareou passei pelo portão.
Mas passo mal quando vejo alguém dizer,
Com ingenuidade ou de má fé,
Que só não passa pelo portão quem não quer.
 
O Portão

As Placas

 
Quando eu era criança,
Enquanto me puxavam pelas mãos,
Eu ouvia o meu coração:
– Na vida adulta,
Escolherás teus caminhos.
– Aos dezoito, emancipação.
Seria eu nas minhas mãos.
Seria dono do meu nariz.

Eu achava que os adultos
Precisavam aprender com as crianças.
Talvez precisem um pouquinho.
Eu tinha a solução pra tudo,
Não tinha nada pra solucionar.
Pensava que ia escolher
Como e por onde andar.
Como se não existissem as placas
Para me condicionar:
Aqui é mão, aqui é contramão.
Entre por aqui, por ali não pode não.
Não pare aqui, não estacione ali,
Não ultrapasse tal velocidade.
Atenção: curva perigosa,
Estreitamento de via,
Cruzamento, passagem de ferrovia...

As placas estão fora e dentro de mim,
Não permitem que eu esteja em minhas mãos.
Não sei o peso das placas
Que indicam a direção.
Mas quem me diz
Que o resultado da minha caminhada
Depende apenas das forças das minhas pernas
Ignora ou esconde as condições do caminho.
 
As Placas

Fantasma

 
De olho em minha aldeia
A minha alma se aperreia,
Ao ver quem mais semeia
Queimar na fogueira santa
Sem colher o que ele planta.

Fica com o que sobrou.
O fantasma opressor
Colhe o que não plantou.

Queima a bandeira da alforria.
Mas abelhas me disseram que um dia,
A gente vê que o fantasma apronta
E quem não deve paga a conta.
 
Fantasma

O Que Impera no Convento

 
O que não anda
Nas linhas traçadas pela máquina que comanda?
O jogo é de cartas marcadas.
A voz do povo é programada para não dizer nada.
A maquinação é o meio para o passeio do tubarão.
É sem paralelo esse verde-amarelo ser uma casa sem botão.
Pensam nesse habitat como um lugar a ser explorado,
Não como uma nação em um bom estado.
Comendo o pão que o diabo amassou,
O povo fica com o que sobrou.
Mocinhos de dentro se juntam aos de fora,
Fazem a festa e vão embora
E o seu José sobrevive esperando a hora.
A dignidade humana está em chamas.
Os caminhos estão sem luz e cheios de lama.
Alguns comemoram a era da informação,
Se veem na barca da emancipação.
Mas as minhas retinas não captam isso não.
Eu vejo é muita isca nesta embarcação.
Aqui coerência é uma roupa rasgada levada pelo vento.
Conveniência é a moeda que impera no convento.
A luz que ilumina não é a luz do dia.
Iluminação que deixa o barco da emancipação sem poesia.
Aqui o ser come nas mãos do ter.
Por quê?
Quem quer saber?
Saber por aqui,
Só sobre o que a máquina definir:
Efeitos do dólar, juros da dívida, risco Brasil...
Puta que pariu!
Estamos sendo consumidos
Como tudo que é vendido.
 
O Que Impera no Convento

A velha arte

 
A mentira sempre foi uma arte,
Para alguns que tocam o intocável.
Tocam... fazem a festa os artistas.
Nessa pista, dança quem lá não está.
A mentira nunca teve as pernas curtas
E desfruta de crescentes esconderijos.
A mentira sempre foi mais rápida que a verdade,
Sempre foi mais engraçada,
Mais solta, animada, viajada…
As birutas que indicam a direção,
A ela sempre estenderam as mãos.
Sempre a embarcaram em charretes, trens,
Ônibus, carros, navios…
E a ela deram asas para voar.
A mentira sempre desfilou nas vias de comunicação.
Os veículos levam a mentira,
Bem vestida, sorridente, bem penteada
Ou bem séria, inspirando e expirando verdades,
Transpirando verdades por todos os poros.
Ela sempre foi indispensável
No tráfego das principais vias.
Hoje com a informação na velocidade da luz,
Os grandes dessa arte espalham a palavra com o sinal da cruz.
É a festa das notícias falsas
Ou das falsas notícias.
Com os valores nas mãos do valor que vale,
O seu fulano leva a razão para o baile.
É a festa das notícias falsas.
Falso e fato estão na briga.
Os fatos estão fora da barriga.
As vísceras estão expostas.
O ar está cheirando mal.
 
A velha arte

Rédeas curtas

 
Parei para correr a vista sobre uma boiada
Tocada por dois cavaleiros e mais nada,
Ou por tudo que não está na cabeça dos bois,
Ou por tudo que lá está ou pelos dois.

Fiquei me perguntando, pra onde vai essa boiada?
O que passa na cabeça dos bois tangidos nessa estrada
Que leva a boiada para exploração?
Se ela estiver indo para o abate bate algo no coração?

Um boi não consegue vencer os cavaleiros,
Mas pra boiada eles perderiam ligeiro.
Essa boiada não sabe a força que tem.
Se soubesse, poderia se dar bem.
 
Rédeas curtas

Zé Preto

 
Jogaram o Zé Preto no lixo.
Envergaram a coluna do Zé.
Nunca vi nada igual.
Deve existir por aí, mas eu nunca vi.

Subindo uma ladeira,
O Zé, se quisesse andar de quatro pé,
Era só estender os braços para onde o nariz apontava.
Ele tinha que fazer contorcionismo
Era pra olhar pro céu.
O Zé Preto era um homem envergado
Pelo peso nas costas de seus ascendentes.

Lançar o recém-nascido no lixo
É a continuação de uma história.
Os proprietários da mãe do Zé
Precisavam de comida na mesa,
Roupa lavada e casa arrumada.
Jogaram o Zé Preto no lixo.
 
Zé Preto

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