O sono
O sono me puxa
Pelos cabelos que não tenho.
Desperto um pouco,
Vejo-me no meu lugar,
Que eu não sei onde é.
Perco-me em um labirinto que está dentro de mim.
Corro com uma faca nos dentes
Para não sair da minha mão,
Que eu não sei se é minha.
O sono dá um tempo para mim.
Um tempo como todo tempo,
Com presente, futuro e passado
Correndo abraçados.
O relógio não para.
No meu pulso ainda vejo alguma coisa.
Na luz do dia nada vejo.
O sono passa e leva com ele
Algo que é meu.
Meus olhos, meus ouvidos,
Todos os sentidos,
Pelo sono atingidos.
O sono adormece o meu ser,
Põe a minha alma no mar,
Para deixá-la sem peso,
Para ser facilmente levada pelos ventos.
O sono antes de pegar o corpo
Tira a alma pra dançar.
O sono dá razão à falta de razão.
O sono da razão é um pesadelo,
Que embrulha os sentidos em um novelo
Que rola de ladeira abaixo.
Ananias
Os descendentes do doutor Jerônimo
Estão andando para trás,
Disse-me seu Ananias.
O doutor Jerônimo era mais humano,
Tinha mais coração, mais cabeça;
Não tinha essa fome que come
A humanidade do homem.
Não sei se o seu Ananias sabia bem o que dizia.
Mas eu sei que os filhos do doutor
Não são flor que se cheire.
E os netos são piores que os filhos.
Os bisnetos são piores que os netos.
A cada geração é mais forte o odor.
Onde vai parar esse trator?
Olhando para a árvore do doutor Jerônimo,
O seu Ananias dizia:
As coisas avançam, mas as pessoas estão ficando para trás.
Às vezes, eu acho que o seu Ananias falava demais.
Mas não há como negar
Que a fome de ter o outro na mão
Coloca uma pedra no lugar do coração
E faz os olhos brilharem cegos de paixão
Pelos ventos da estação.
Nessa atmosfera, cada vez mais,
Tudo está em poucas mãos.
Tudo está nas mãos de poucos
E a maioria sobrevive no sufoco.
A fome de ter o outro na mão
Deixa cego de paixão
Pelos pés que não pisam o chão,
Pela cabeça que não se equilibra no pescoço,
Pelo velho disfarçado de moço.
A fome de ter o outro na mão
Deixa cego de paixão
Por tudo e por nada,
Pelo trânsito fora da estrada,
Pelo trem que atravessa a rodovia,
Pela via que engole a correria
E por que mais seu Ananias?
Alta nobreza
Texto apagado por desrespeito à política de conteúdo do site
Sonhos incendiados
Sonhei que eu era uma criança,
Vendo o fogo lamber a minha casa.
As chamas antes de lamberem a morada,
Lamberam os meus filmes.
Nos últimos minutos, subiam as letrinhas.
Lamberam os créditos, os agradecimentos, as festinhas...
As chamas antes de lamberem a morada,
Lamberam meus aniversários,
Meus desenhos animados,
Minhas musiquinhas pra dormir...
Lamberam a formatura da alfabetização,
Os abraços dos meus pais, do meu irmão.
Lamberam meu sorriso com uma janelinha
Que eu apreciava nos olhos de minha mãe.
Lamberam meus voos, sobe e desce,
Dos braços para os braços do meu pai.
Lamberam os sonhos meus e de meus coleguinhas.
A gente sonhava em ser escritor,
Professor, ator, cantor, jogador...
Sonhava com a lua, com as estrelas,
Com a praia, com uma pátria…
Apagaram tudo.
Acordei sem saber onde pôr os pés.
Mata verde
Na festa de Mata Verde,
Atores e personagens se confundem.
Saci-pererê, mula sem cabeça,
Bicho-papão, lobo mau…
Vão bem de verdade.
Eles falam o que querem
E falam sério.
Brincadeira é querer amadurecer
Na festa de Mata Verde.
Querer diferenciar o ator do personagem
É bobagem,
É sarna pra se coçar,
É nadar contra a corrente,
É demais.
Ultrapassa os limites da brincadeira,
Que de brincadeira não tem nada.
Na festa de Mata Verde,
Há vantagem em brincar de criança.
Só meia dúzia de crianças se dão bem.
Mas o que importa na Mata é viver verde.
As chaves que abrem as portas e as porteiras
Não se movem de brincadeira,
Movem-se para fazer a festa
De quem nela não está.
Na Mata, matérias verdes
Apodrecem sem jamais amadurecer.
A festa de Mata Verde é isso,
Não é pra brincar em serviço,
Botam as crianças pra dançar,
Tiram os pés do chão e a cabeça do lugar.
Nessa festa quem quiser enxergar,
Ouvir, ou sentir com os próprios sentidos
Vai dar de cara com um vespeiro enlouquecido.
Quanto vale a vida?
Ontem algumas vozes diziam que o homem vale o que tem.
Hoje é a aparência a maquinista desse trem.
Quem da maquinista não se declarar devoto,
Ousar não consumir pra aparecer na foto,
Nos olhos da maquinista não vai poder se ver.
O ter engoliu o ser e vomitou o parecer.
O parecer não tem nada a ver com o que é verificado.
O endereço certo é o errado.
Quanto vale a vida
Nessa corrida sem chegada e sem saída?
A vida é um passeio
Que meu coração não quer que acabe,
Mas sabe que vai acabar.
– É preciso aproveitar enquanto durar.
Não sei bem o que é aproveitar.
Consumir?
Olhar pra câmera e sorrir?
Pôr o passeio na bolsa ou no mercado?
Ser mais um produto enlatado?
O passeio passa como um passarinho
Que cruza o espaço azulzinho.
Não quero passar o passeio correndo pra chegar a algum lugar.
Quero ver, ouvir e sentir o vento e tudo que me toca.
Quero saborear a minha pipoca.
Quero falar o que eu penso,
Quero usar o meu lenço.
Meu passeio não cabe na bolsa nem no mercado
Se eu trocar o passeio por uns trocados
Gasto o tempo todo, pra ganhar a vida.
Gasto a vida para ter outra vida.
Que vida? A vendida, a comprada?
Mas a vida é uma só.
E assim as duas vidas em vida viram pó.
Demônio dos santos
A verdade é uma moça sem roupa.
Não pode sair à rua.
Mataria de vergonha a família bem vestida,
Que passeia em charretes de rodas de açúcar.
A moça sem roupa causaria alvoroço,
Agitaria os ventos que iriam:
Virar e revirar tapetes, capas, cartolas,
Derramar lágrimas, taças de vinho, vômitos,
Desfazer cortinas de fumaça,
Mostrar o que se passa,
Jogar luz na adega,
Mostrar as mãos dos que dão as cartas.
A moça sem roupa
É o demônio dos santos,
Deixaria a família bem vestida com a cara no chão,
Sem saber onde pôr os pés.
Ela os deixaria sem poder abrir a boca.
A moça sem roupa pode fazer chover
E as rodas da charrete são de açúcar.
As armas não servem a mim
As armas empurram a bandeira verde-amarela
Pra aquarela do calmante,
Para a novela alucinante.
As armas estão nas mãos
Dos que sequer aqui estão.
Cristãos não são não,
São demais pra servir Cristo,
Servem-se com voracidade
E devoram com capricho.
As armas estão nas mãos
Que movem a direção,
Nunca estiveram com os irmãos.
Os que mandam nessa praça
Rasgam terra, água e céu
Escondendo seu papel
Numa cortina de fumaça.
Essa terra pra essa gente que nos ferra
É uma mãe de leite nas mãos do deus da guerra.
Sem se vestir, sai a minha alma por aí
Se achando meio perdida;
Com o baixo preço da vida.
Aqui decai o arranjo social.
Do cais despenca a alma animal.
Aqui é de quem dita a dança
E bota fogo na balança.
Sendo assim, a massa segue
Sem ter onde se pegue,
A andar com um pé atrás e ofegante,
Enquanto esse barco segue, segue
Como castelo dos senhores navegantes.
Seu Guerra
Seu Guerra é um fazendeiro que se diz de paz, apesar do nome.
De paz, mas mata os trabalhadores de fome.
Seu Guerra diz que ama a sua terra,
Mas as suas serras derrubam sonhos, esperanças,
Árvores e desejos de mudanças.
Na terra de seu Guerra não se cultiva flores.
Ela é pra ele e outros senhores
Que se banham de perfumes para mascarar odores.
Ela é o corpo de um escravo cravado por um vulto
Que não cava o chão, mas pega os frutos.
A terra de seu Guerra é a serra, é o corpo e é o touro
Que da massa tira o couro.
A terra de seu Guerra
É uma guerra embutida na paz,
É um faz de conta que faz,
É uma conta que não conta nada mais
Além do que interessa ao contador,
É um rio que afoga o nadador,
É a frente que fica para trás
Pisoteada pelos animais
Que não precisam nadar
Porque nada falta onde o bando chegar.
Na terra de seu Guerra há vidas e vidas.
Os que moram abaixo da avenida,
Nem sequer são peixes menores, são nelores
A serem tangidos conforme o querer
De quem dita como e onde o vivente vai viver.
Na terra de seu Guerra o filho chora e a mãe não vê.
Duas bolsas
Contemplando a evolução das tecnologias
Disseram-me que evolução humana brilha em nossos dias.
Essa afirmação me acompanhou feito uma assombração.
Para mim, em tal comparação paira uma grande confusão.
A evolução tecnológica é um avião de última geração,
Já a humana não passa de uma Maria Fumaça se arrastando pelo chão.
Naquilo que nos diferencia dos outros animais
E das inteligências artificiais
A evolução é uma Maria Fumaça que anda devagar demais.
– Rapaz, isso é muita areia para o seu caminhão!
– Eu sei que é, mas do jeito que der vou seguir a minha condução.
– Os outros animais não constroem avião!
– Sim, mas vamos ver a face humana dessa evolução:
A Maria Fumaça é uma das faces da moeda.
Não é toda a moeda que a gente pega.
Pegando a Maria Fumaça ponho os pés no chão
E sigo a minha viagem dividindo a bagagem
Em duas bolsas a serem levadas para pesagem.
O peso da bolsa de tecnologias salta aos olhos dia após dia.
O peso da bolsa da razão, da emancipação, da virtude, da harmonia...
É um peso abaixo do peso, um pesar,
Levado em caravelas que voltam ao seu lugar.