ESquizoFRenIA
há um caos em ti
que me pacifica
um horror esquálido
que me engrandece
e também estrilhos
que me embalam
há um escândalo em ti
que me exulta
uma mortificação reles
que me traslada
e falácias estéreis
que sossegam
há um pesadelo em ti
que me faz sonhar
e um lastro pútrido
que me adoça
nas cavernas gélidas
que me afogueiam
haja o que houver
amo-te
com todas as ganas
24-02-2024
Em papel escaldado - desafio "Versos com café"
é um café para mim
sem princípio nem fim
em papel escaldado
com creme de querubim
uma pedra de frenesim
de saudade e fado debruado
já verto o pacote de musa
de amor e paixão profusa
doce que a mão remexe
de mendinho à moda lusa
a saber-me de alma infusa
enquanto o verso floresce
o primeiro gole será meu
que às vezes não sei se eu
sou a espuma do poema nascido
assim que me chegue ao céu
da boca, do gosto que deu
vocês que o bebam, aquecido
03-04-2026
Desfeito Não É Defeito
Pousaste a mão onde não era peito
Despeito de quem corre só por fora
Penhora que é a água sem conceito
A eito, por um rosto que não chora
Pandora numa caixa com defeito
Desfeito é o sonho, sem escora
Agora já nem vive sobreleito
Refeito só de muros alma afora
Embora que o tempo é já vencido
Gemido não trará o que não volta
Revolta é o tom do esquecido
Perdido não verá reviravolta
Escolta esse peito sem sentido
Despido, só por outro amor à solta
28-03-2025
Popó de Talco
aí esta bem lavadinho
quase roça a perfeição
mas ainda falta o paninho
a puxar o brilhozinho
que o dono quer atenção
não pode haver impureza
a macular a pintura
há que polir a beleza
escravo é de certeza
fachada ou alma insegura
bibelot de quatro rodas
já rola de extremo brio
ocupa as larguras todas
às ruas que são das modas
com braço de fora ao frio
mas brilho de parar brisa
tem sempre algum senão
a luz do sol enfatiza
quaisquer olhos martiriza
tamanho é o clarão
talvez pela mesma razão
a passarada que gravita
em tamanha confusão
lança misseis de aflição
e borra-lhe a escrita
lá vai de volta o fulano
desolado com o cocó
de água, um oceano
e mãos à obra no pano
a rebrilhar o popó
22-08-2025
Quase ponte
reparou na soleira ocupada
havia um degrau chorudo
e o cigarro apontado ao momento
consumia-se na calma consumada
combustão lenta de quem espera
sabendo da rua o outro lado
como se adivinhasse de uns olhos incertos
a certeza de um soslaio irreverente
quente o brilho a espremer-se ao lado de cá
seguiu de olhar atrás
fluiu, fulgiu, fingiu que não viu
sumiu
ninguém ousou a travessia
sabendo da ponte nascida
suspensa
26-07-2026
Bode respiratório
sendo ou não culpado
assumindo ou não a culpa
culpado ou não da inocência
inocentemente ou não
livro-me dos embaraços
entrego-os ao estranho que me habita
e só assim respiro
22-05-2026
poema de uma Musa desolada
nesta mágoa
ando a água
e pão sem ló
vem já a mim
Benjamim
tira-me o pó
terás assim
papel sem fim
e mão sem dó
14-09-2025
a um amigo :))
De Digerir e Não Chorar Por Mais
da alma cozinhada em frio
é um instante até ao prato de lágrimas
sem lume
um só gume
nos pulsos de cebola
a jorrar um choro quente
para a última estrela michelin
um chef só de si
adiante só servirá salgados
de olhos em fios
a quem pague com flores e círios
a reserva feita
no seu restaurante RIP
talvez algures, atrás
se tenha esquecido
que se chamava VIP...
afinal, os clientes eram fieis
17-12-2024
Teu? Só...
Teu? Só...
se rei
serei
09-08-2025
Céu da Liberdade
Era eu naqueles cravos, nas metralhas,
E tu também no mesmo encarnado,
Foi todo um povo, ali, que já cansado
Se fez Abril em flores, sem batalhas!
Calaram-se as divisas, do alto estado,
Ante a Nação Valente de cangalhas...
Dos Homens verde-sangue. às escumalhas,
Não se morreu um só! Foi sem pecado!
A guerra foi do grito, a voz dum povo,
A debandar de si o estado novo
Que, de novo, caduco era à verdade!
Morreu somente o velho despotismo,
A opressão... a censura... e, do abismo,
Abriu-se a nós o céu da liberdade!