Poemas, frases e mensagens de Beatrix

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Beatrix

Dança do rio pardo

 
 
E minha mãe me disse para ser feliz
assim fiz__

como parecia pequeno o carro
naquela ponte, naquele rio picado
pró-mar, de águas cinza, densas e
cheias, dançando com a espuma
de tardes como esta,
silenciado pelos vidros fechados
e o sono__

depois sonhei contigo
que estavas comigo
um fio com alianças__
quando morrer quero que mo ponham
isso e os meus brincos de lápis-lazuli

__morro, mas serei morta bonita
foi minha mãe que mo disse também

quero ser cremada, as minhas
cinzas depositadas
numa árvore de família
uma placa pequena
com o nosso nome: da árvore e meu

quero viver a minha morte
com a vida de uma árvore

contigo sei que não ficarei
___em vida
na morte__
encontrar__te__ei?
 
Dança do rio pardo

Papel Parede

 
 
-
Santa Rita de Cássia acordou
no dia em que nasci frente ao papel
minha madrinha deu o que agora sou
um corpo ambulante preso na pele

os santos não querem saber se vou
na minha hora num caixão de dossel
não vão proteger carcaça que dou
tampouco chorar minha morte fel

cresci na metade dos gases nobres
entre símbolos imperiais sóbrios
com ares e mares de letras nuas

desconheço quem sabe o que tu cobres
nas meias teias de nobres opróbrios
nas luas cheias que são vénus cruas

e deus sabe as minhas provações soltas
ignora a história da minha mente
o passado das pequenas revoltas
aquilo que mexe, esquilo, no presente
o que se pode aproveitar dum pente
rejeitar moedas de sedas caras
enjeitar crentes crendo diferente
enquanto choro e coso plantas raras
sei agora do paraíso onde paras
do coberto quente que tu fizeste
das estrelas que roubaste e separas
apenas uma amparas e me deste

..mas da luz fugiu e fiquei com sem nada
..afinal é normal: papel parada
 
Papel Parede

Coração Brulée

 
sento-me à janela embaciada
vejo árvores, carros, pessoas, movimento
em algum momento me perdi
e vim aqui parar, perto mas longe de ti

como demoras a chegar até mim
queres mesmo este corpo vivido?
à janela, os pássaros dizem que sim
mas desacredito-os no futuro ido

não sou aquela que tinhas, em tempos, lido
sou outra, díspar, ímpar, número primo
tivessem os pássaros falado e teria sabido
que só escolhes quem contigo partilha o cimo

o cume da perfeição
o lume de dragão

adeus a um coração queimado
braseado com atenção
encostado à janela do portão
 
Coração Brulée

Menino sem voz

 
.
ainda és cria a precisar de asa
não sabes ainda voar
não sabes ainda caçar
não conheces o céu

olhas as estrelas como se as fosses apanhar
uma a uma, colar nas paredes do quarto
contar em inglês, à noite, para dormir
só com vogais

dormes com a chupeta para que te não fujam os dentes
tens medo que saiam e não voltem
tens medo do escuro sem mãe
ou de pernas vestidas de calças que não as do pai

ouves Puccini com atenção de entendido
a música e o canto entram-te pela boca dentro
deixas, gostas, é magia embalada

como gostas de dançar e de ser aplaudido
as palmas das mãos dos outros e o som
só para ti

só para ti
o mundo inteiro
uma vida toda estendida e esticada como uma cama acabada de fazer
só para ti
o infinito

o teu esforço multiplicado por fadas e deuses
ao teu dispor nas noites de lua cheia
para viajares e saberes o que é o céu
e que tesouros guardou ele para ti

só para ti
 
Menino sem voz

Disseste amar-me

 
Disseste amar-me no monte dos mochos brancos
nas marés altas da praia
na boca de um gárgula

Amar-me-ias ao segundo,
ao terceiro.
Na vida do meio-dia
e de dias e noites inteiras, cheias.

Na minha morte lá estarias
e juraste que cuidarias
do meu corpo inerte.

Irias furtar-me a alma e o espírito
para os plantar
junto com minhas cinzas
junto à árvore da casa
junto a ti

Disseste amar-me
mas não
Para sempre
mas não
Com verdade
mas não

Porque
uma velha senhora planta e rega pão no jardim
e
o gato corre fugindo das patas

E tu deixaste
E deixaste
me
 
Disseste amar-me

enquanto espero por D. Sebastião

 
 
Bebo Tuborg enquanto espero d. sebastião

e
aguardo dias melhores ____ em que possa fazer joias de plástico
em que consiga tocar piano ____ de joelhos
onde me possa deitar ____ numa autoestrada
viver siderada ____ numa estante de biblioteca
voar como morcego ____ sobre os cisnes do lago
lamber as abelhas ____ para obter o mel
varrer do céu as estrelas ____ e com elas construir uma neve espacial
morrer de braços abertos ____ e levitar sobre pinheiros cobertos duma nave glacial
 
enquanto espero por D. Sebastião

Convites para o inferno

 
 
que importa que o chão
tenha desabado
e só tenha sobrado
este pedaço imperfeito, imperial?

que importa o que importa
se
de todo
não importa sequer

e se este pedaço também desaparecer
descemos ao inferno
de atilhos à cintura
para que a nossa unidade escura
se assim mantenha mantendo
a unidade dupla de entrada
no inferno preparada

era isso que dizia o convite
celebração do inferno aos pares

se ímpar, o atilho...
o gatilho

o fim da unidade em duplas

a procura
escura tortura

é o princípio
e o fim
 
Convites para o inferno

O Futuro é Ateu

 
 
jantamos juntos sempre que vens
dormimos num só, quando tens
vontade de mim e desejos assim
consomes minha alma até ao fim

e regressas ao teu presente
fico eu contigo num ausente
tempo longo demais para sorrir
horas contadas e repetidas
a subir um súbito recôndito
lugar só meu

sabias que o futuro é ateu?
um presente embrulhado em papel vegetal
transparente o suficiente para ver o mal
espantá-lo, riscando o papel
não o vivendo, nem sofrendo
com ausência do mel

vens quando queres e sem aviso
vês como te leio de improviso?
 
O Futuro é Ateu

Os Amantes

 
Era costume encontrarem-se à noite
Quando as luzes se apagam e as gentes
Surgem com medo de quem leva açoite
Pois que fugir tem de ser com repentes

As sombras surgem sem contornos quentes
Os ruídos aparecem com ecos
Diferentes e iguais aos das frentes
Confusão de quem se vê entre os mecos

Entre a luz da lua cheia de secos
Amantes sob um céu meio nublado
Meio cego sem nada nem os becos
Que os dois usavam p'ra trocar um fado

Trocar a pele fria pelo lado
Do outro em ansiedade maluca tida
Numa velocidade de atrasado
Correndo p'ra não perder a corrida

Só os amantes se lembram que é vida
As mãos húmidas da pulsação forte
A ânsia do toque já bem sabida
Desejo que irrompe do vento norte

Beijo lampejo de dor tal a sorte
Lábios sem freio pintam castelos
Braços e pernas perdem todo o porte
E o corpo que se rende aos falsos belos

O vento sonda as sombras dos cabelos
A noite afunda-se e vai naufragar
Os amantes em magia sabê-los
Do prejuízo do que se vai passar

Seguem juntos p'ro mar destino par
Seguem juntos como que por magia
Sabem segredos a não revelar
Que o tempo vive e morre num só dia
 
Os Amantes

O saco de juta

 
A humilhação num cone de gelado
Um doce instante de magia negra
Um beijo que finge fugir
Um baloiço que range ao subir

Casas-aquário onde moram redes verdes de seiva

Memórias que escondo num saco de juta,
fechado com um atilho de pão

Um testamento vazio, não branco
Uma canção de verão que ninguém quer cantar
Uma ida à praia de fralda-cueca
O campo e os lírios roxos pra cortar

Não quero ir, hoje não vou,
tenho vergonha,
tenho medo...
nunca me deixes

Ondas brancas que só molham os bravos
A areia que queima os pés nus
O meu pé na tua mão
A tua língua no meu ombro
Sussurros do tato em vão

E dizes que vais embora.
Não porque queiras,
mas por um acaso.

Esperas de horas e rodas a grande velocidade
Nuvens baixas de mosquitos que assolam
as paredes de maldade
O gato que come as minhas plantas
e as minhas palavras

Leva contigo o animal, que lambe como tu,
isola o que queres,
e não como postes te encostes a mim
Já não suporto exemplares assim

Devolve o que foi meu, e não dá
Pureza inexistente de um credo mentira
Ausência que rasga as entranhas
de ponta a ponta
Emergência futura que conta

Um porta-agulhas, cadinho, fio de sutura,
fórceps, sei lá, e panos pró fim limpar

Trazes-me o saco de juta
Porquê?
Achas que acabou a história?

Quem disse que eras minha memória?
 
O saco de juta

Chamas de Azul

 
Garça

pensaste-me círculo, e eu sempre fui esfera
volume, área, dimensões a três
força
com que me expulsei de ti
ainda de cordão umbilical

:Esplanada com vista, caderno com lápis e marijuana pra fumar. Três essenciais pró dia a dia. Pra escrever, práfundar:

rogas que fique, que viva, que sonhe, que dance e contigo
morra em cinzas azuis. a cor das árvores que habitámos, coxas.
Meu tigre alado, de onde me conheces?

o manicómio é a minha casa e visto Dior e Chanel, até a dormir. visto Perfume.
remanescências da casca
o mesmo lume da tasca.
quente. tudo quente. e Tudo a latejar.
das drogas, dos mundos, dos nervos.

:sentas à minha frente!!! de costas:

óculos pró sol, chapéu óbvio. um lenço Hermès pró caso…
passeio alegre na costa, carta livre até à noite.
as calças rotas nos joelhos não me denunciam.
talvez o sapato novo. caro.
um luxo no pé. bom de pisar.
pra ninguém. pra mim. alguém?

:senti-te:

vou pedir adesivos com pasta de cocaína pra pôr no Umbigo
como quem enjoa no movimento
como quem deseja um ardor violento
doente. até ao fim. uma crença eterna

:qualquer coisa te mexe, te incomoda:

Criança que morreste em mim, jura
não quero qualquer tipo de cura, mas
uma peste de Camus,
uma cegueira de Saramago,
branca e leitosa, anestésica como propofol
um statu de quasi coma cego e branco
morto pra luz pra lua, não o lume
que continua a arder, a queimar

:Viras-te, mas já sabes: sou eu…:

o mundo eu não quero a vida só assim
num reator nuclear, um átomo em reação de fissão. a forma da usina
uma cama a arder, sem alarme ou extintor
uma casa em obras por Portas partidas
com janelas caídas

:rocha!:

levaste-me num Tango teu, nosso… leeento, leeento, rápido, rápido, leento, leento…
oito, oito
braços fortes que me seguram
as costas e empurram e puxam, comandando, conduzindo,

como se nosso fosse tudo,
sempre e agora,
como se o meu fosse uma extensão do teu corpo que gira e
um sapato vira com
a velocidade da volta
coxa como as Árvores,
liberto o outro

e sinto muito
o chão, o piso, o deslizar da pele do pé

:os teus olhos:

e eu, com um pé ainda nervoso, gracioso do sismo da valsa vienense que enlançamos sobre o vidro no mar
volteia. roda agora. circula em círculo. espera! Esfera?
completo e perfeito esse empernamento
desfeito

:os meus não vês mas é irrelevante:
:olhas através de mim: como radioatividade:

o vinho em lençóis de linho bordados
lembra a tasca rasca onde morámos

:como íman levantas e vens:
:levanto e vou:
:e sentes apenas o perfume que se afasta:
:volume que queres, queres e não tens:

com cursos de água no rosto,
sem diques,
um mar no peito apaga as minhas chamas Azuis,
doença de quem pode apenas
lembrar o futuro

De Alice Maya
 
Chamas de Azul

a janela partida

 
Olhas a janela sentada muda
O rosto pesa-te mulher cansada
A mão emprega-lhe não de moda absurda
A água vertical chama-te parada

Pensas deveras assaz que são noites
Julgas coerente o este do próximo
Nadas premente na erva dos açoites
Cravas os dentes crus num hiperóxido

Impera em ti o desejo de Próspero
Soubera quem e ias daqui além
Vem cavaleira sela do teu prócero
Voa em galope antes de que refém

Colhe a vida em ramas verdes e secas
Embarga o ar antes que te enlouqueças
 
a janela partida

Rastejantes

 
Rasteja um meio sorriso na minha meia direção.
Deixo que se aproxime, sem expressar qualquer sentimento.
Observo. Apenas.
Parada.
Atinge-me e o rastejante deixa-se estar, enquanto decido se me servirá de alimento e o como, ficando com aquele meio idiota estampado no rosto.

Serei pessoa de meio sorriso?
Sou eu que te vou salvar?
Para que queres continuar a viver, parvo?

E piso-o.
Certifico-me que nada ficou aceso, como as beatas. Da igreja.

É parvo e não merecia viver. Ou não me teria escolhido para objetivo!

Acendo, calmamente, um cigarro para acompanhar a próxima cerveja.
E observo, apenas, parada.
 
Rastejantes

O céu é verde

 
Naquele dia
não devia

Ao invés beijei-te
e aceitei o acaso com garbo

Marcaste-me escrava
tomaste tudo o que não tinha
e deste-me a angústia para a chorar

Tomei-a no colo
alimentei-a
e cresceu como as plantas

Meu corpo nu, um fauno

Toldada pela ânsia da partilha
rapidamente me consumi
e droguei-me
até à inconsciência
à anafilaxia
ao âmago em ti

Em ti em coma
por tua existência
por tua presença em mim
a forçar respiração alternada

Longe de imaginar
um sono agitado
contigo ao lado
olhando

Meu amo, meu ser
minha dor, meu parecer
onde foste buscar-me

Leva-me de volta
desprende as amarras
porque não somos já
ímpar
nem eremitas na nossa
modorra
 
O céu é verde

Ómega ou o alfaiate

 
 
em ti. testei a flexibilidade. dor
quis saber o que pode o corpo ler
valer. perder. gemer verbos de mor
valor fingido em poses de saber ser

sabias?

poetas leem versos pró seu aval
descontam pontos se o corpo morder
notam desvios se o escrito disser
vulgar pensar sem nenhum sinal. sal

o que vês tão perto, perto, perto? o quê?

no elástico que és encontrei jogos
comentar outros. ver seu interior
saltar à corda sem qualquer pudor
e assim olhar os meus. teus. nossos. fogos

meu fim absoluto. de imensidão incerta. espero. minha queda irreversível por perto

certo é teu sabor a mentira da sorte.
minha morte. sem ti.
nado-vivo. em corte
 
Ómega ou o alfaiate

Do arrependimento

 
 
tive saudades tuas antes de te conhecer
inspirei-as à nascença

onde foste tu buscar-me?
sou tão difícil de encontrar
tão normal que sou
tão igual que vou
e tu
pegaste-me

levaste-me agarrada ao tronco
como marsupial
fui, sem saber porquê
apenas que tinha de ir
e era ali o meu final
a minha meta do princípio

amaste-me demasiado

não fui capaz de tanto

sou pobre de alimento
chamas-me ingrata e acredito
sou fraca de sentimento

tive saudades tuas muito depois
expirei-as no meu último momento
 
Do arrependimento

As sandálias do pecador

 
 
vem d’azul diferente o meu divino
pecador sem perdão nem penitência
urgente ardor a dor que toca o sino
valor de mão dada com consciência
e manietada sem anuência
peça de corte com mais valor diz
o pecador eu já sou permanência
ajoelha e chora comigo a giz
dores faltas jarras sem flor-de-lis
e os sinos tocam p’ra chamar o povo
os pés nos chinelos vão p’ra matriz
e regressam iguais nenhum vem novo

o azul do pecador é borboleta
e segue-me amando: eu, seu cometa
 
As sandálias do pecador

urgência

 
 
esse abraço não se mede em metro
onde o compraste?

não quero bondades tuas
no fim da estrada
a meio caminho
entre entrada e saída
sem sinalização de emergência

não te quero emprestado ou dado
quero-te meu minha teu tua
quero-te de necessidade
nosso meu e meu

preciso que a urgência te inunde
de me querer também

já

vertiginosamente
 
urgência

À teoria de Darwin

 
volto ao princípio do mundo.
o outro findou

não é evolucionismo
é devolução. segregação

os devolvidos choram. imploram. pedem...
eu não

o meu mundo já havia acabado há muito
 
À teoria de Darwin

Mostra

 
 
chamou-me e eu vou
porque
nem posso recusar
nem quero ficar
onde estou

vou de cabeça rapada
com uma simples túnica preta
adornos, nada
só
o japamala vão
e descalça
para deixar de vez o chão

quero uma caixinha
em vez de um caixão
e
folhas secas do parque
flores do nosso jardim
folhas soltas dos livros
e
folhas escritas por mim

tudo junto numa pira
numa queima quente
recolhida fria, como presente
numa urna negra gazela
a fechar pela mão
do que estiver com ela
a zelar por quem
se detiver a olhar
a vida nem
de uma mulher bazar
que raramente vem
nem nome tem
e
de que ninguém se vai lembrar
 
Mostra

I got that feeling
That bad feeling that you don't know
(Massive Attack)

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