Poemas, frases e mensagens de gillesdeferre

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de gillesdeferre

Pele

 
no quarto o cheiro do teu corpo nu

e anoitece

a luz inclinada no chão encerado

na lembrança do teu ventre povoado

fosse eu tirano e feiticeiro

fossilizar-te neste instante

mas sem asas
como posso cheirar a pele com que me deixaste
 
Pele

Tudo está no seu lugar

 
Das cinzas elaborou-se a respectiva ata.
Os mortos foram a enterrar
os corpos sobrantes.
Abriu-se cova para uma criança bombardeada pelos mísseis da liberdade.

Santa liberdade.
Como todos os santos que se perfilam no caminho para o céu
depois de eleitos.

Deus e os patriarcas celebram com uísque e tremoços.

O povo gosta de tremoços.
Nosso Senhor não participou.
Um palerma, disse o Pai. Só tem ideias estranhas sobre gente que não interessa. Isso passa-lhe.
Deixem-no estar.
Todos os dias morrem crianças. Que havemos de lhe fazer.
Ámen, Senhor meu Deus.

E a criança desceu aos encontrões até ao fundo. Mais um bocadinho e está no Inferno.

Tudo está no seu lugar.
 
Tudo está no seu lugar

Dominical 10

 
a festa de domingo
celebrando a melancolia do Senhor

os passos do deserto
escutados atentamente nos subterrâneos da Terra

a habilidade dos habilidosos

as dores de parto de uma mãe esquecida

a solidão no interior de um ovo

a ressurreição, finalmente.
 
Dominical 10

Da tua natureza própria

 
a sobriedade do teu corpo
o segredo que escondes nos teus seios quentes
a flor da tua boca cheirando a hortênsias
o teu cabelo como o vento do norte
a palidez do teu olhar
sóbrio sóbrio

não consigo respirar a tua dignidade
e resguardo-me nas formas de mulher
nos teus seios quentes agora livres
bebo do teu sal de mar
pela última vez

desisti da tua força,
da perfeição

quero a dissolução do carácter
não quero carácter
quero que desistas e derrotada chores comigo.
vem a mim, como um pardal amedrontado, tremendo como eu.
 
Da tua natureza própria

Parece mas não é

 
era uma alegria de laranjas
de cestas e uvas
e nos dias de chuvas
lareiras e gatos

revistas e livros
ouvir o diálogo dos pingos contentes nas vidraças

(um pouco sujas, uma certa indolência, um bichinho algures moendo)

(talvez, repito, talvez
a cesta um pouco
mal tratada, os vimes deslaçados)

um entusiasmo de vento agitando a fixidez da casa,

um pensamento de crepúsculo nos objetos, nas coisas em geral,
com a sua cor digna e final

uma alegria de origens, de manhãs do mundo

águas rompendo das pedras de uma ilha primeira

uma tristeza nascendo num esconso da sala
junto aos gatos da lareira

sombra onde antes um despertador amarelo e divertido sempre nas sete e meia

uma felicidade de cabelos de mulher
e pêssegos
não na cesta descuidada
nas mãos

uma alegria de seios morangos muito vermelhos crepúsculos e gomos

um olhar que esconde outro olhar
e outro e outro e outro

fome de cão na noite deserta interrompendo os lábios mornos

um frio que atravessa o corpo passando pelo centro da terra

(malta, estudar os eixos imaginários da Terra)

um eixo imaginário correndo no sangue débil
esbranquiçado

sangue triste de mesa de café antes de fechar

uma alegria de margaridas tristes

tu que já não moras aqui

(onde estás afinal)

laranjas de alegria triste

o sabor de um beijo antigo
logo se refugia nas margens da luz

coada na nuvem de ontem ao final da tarde quando pensei que eras tu
 
Parece mas não é

da personagem

 
sou eu que me perdi
nesse texto imenso
aguardo a minha vez
nesta sala que me habituei a chamar de casa

nos interregnos da minha personagem.

Na vida que levo depois da história acabar.

Não cuidam de nós
os autores
usam e abusam

percorro o limbo, terra de ninguém

algures na catacumba de uma prateleira infinita
 
da personagem

Assassinato

 
Perto,
imensamente perto,
sufocante de proximidade,
sou sem oxigénio
nem água
nem terra,
tão próximo
intrusão deste eu
rodeando de mãos longas
a garganta por onde regurgito uma lenda de identidade.
 
Assassinato

por amor a ti

 
o pássaro da alma voa distante
dos sonhos de um homem nu
quando penso em ti
os teus olhos são como a cor do voo

queria tanto desenhar o beijo do teu rosto no meu

só que uma pressa de pássaro logo te dissipa em asas bruscas

e a nudez do meu corpo confronta-se com o autómato-rei das imanências
 
por amor a ti

Ermida

 
a tua mão de fora
desamparada na noite de chuva e relâmpagos

na solidão da ermida onde se juntam o de hoje e os de ontem

fui acarinhado à luz amarela de duas velas indecisas

o vento ensinava aos montes as vozes dos antepassados

eu escutava aconchegado próximo dos mortos

pensando a noite de natal com suas bolas coloridas e lustrosas

e jurei levar o menino à capela
ensinar os doutores

perturbá-los à volta dos seus livros de fantasmas
 
Ermida

O rosto que aconteceu

 
Há quanto tempo não via o teu rosto
a sua perfeição,
os teus olhos de perdição
os lábios de mosto
o nariz imponente
decidido
o cabelo indomável a um vento eterno que o fustiga
as rugas que são regos de água,
as orelhas como labirintos de grutas
a expressão de coragem contagiante.
Só agora te vi.
Não foste tu mas eu que nasci
da cegueira dos dias contados.
Morro sem ver tanta coisa.
Mas morro vendo realmente o meu amor.
Vi um rosto. Intensa singularidade que me justifica.
 
O rosto que aconteceu

A lição

 
descobri o vento
sem o saber soletrar

escutei de fora
o mistério que traz o tempo

este vento
e o mar também.

os pés na terra
mais um pensamento de amor

engano mero engano

uma caravela encalhada
num peito descrente

continuar porém

admirar as fontes secas
na água dos séculos

e o sangue e o sangue

negro como verão de noite
quente de sangue morno e vinho grosso

os lábios encolhem de sede e sal

ouçam os gritos
aqui mesmo, tão longe

decorem os reis na ponta da língua
e um verso se calhar

o faro dos cães deu com os despojos na praia

cubram-nos que viremos mais tarde.
 
A lição

Poemito

 
Quantas vezes te olhei e não te vi
e hoje
a luz a cor o sorriso
quem sabe
a brisa no cabelo
a voz
o dia feito de outras horas
quem sabe
e não deixei mais de pensar em ti.
 
Poemito

a mãe

 
o brinquedo de plástico
no meio da sala grande
acordou a criança que morava ainda nos seios da mãe

num gesto banal
a mãozinha visou os lábios diligentes

e o regresso dos pássaros
no seu círculo eterno
esboçava sem preceito, como quem resume,
a obscura origem das asas

do olhar que se perde todo no amor
até se dissolver na flor que nasce
 
a mãe

despertar segundo Lázaro

 
acordar
como ressurreição
estar no dia na perplexidade de Lázaro
viver na sombra do sentido

os elementos climatéricos obscurecem-me o olhar

olho como água
como chuva

olho como soubesse do amor

na rádio:
precaução nas curvas
prudência porque o sol dos faróis

na rádio:
a cidade acordou preguiçosa
as autoridades competentes alertam o excesso de sono

doem as vísceras doentes
gritam em morse para entendimento geral

rádio:
última hora
meninas graciosas de patins à entrada da A3

Lázaro desperta do inominado
alonga-se na manhã difusa da cidade do futuro

as luzes disseminadas como vírus

Lázaro regressando
mas só cidade

uma árvore triste manda um beijo salvador

que acabará na Cruz
em esplendor
 
despertar segundo Lázaro

desencantos

 
havia a ausência do vento como sequestrado pelo lobo mau

e a floresta encantada com Peter Pan como intruso
esquecido de voar

não se ouvem histórias em Gaza

mil e uma noites de esgares na vez de sorrisos

olhos vazios na vez do espanto

a bolsa em alta debita dólares no fuso envenenado das algibeiras apaziguadoras
 
desencantos

Corpo

 
inédito, o teu corpo

cabem nele todos os poemas

as ondas do mar,
felizes
como mãos
 
Corpo

poema esquecido

 
faltam as palavras do poema
jogadas na roleta da vida
falta um poema inteiro
não redondo
um poema como súplica
escrito de carne
feito de corpo
beijos de amor
dentes de vampiro.

um poema cansado de ombros caídos
palavras decadentes

os poetas vingaram-se do poema que só queria dizer-se
dizer-te, meu amor

era para ti, este poema, e tu sabes

um poema ave
um poema como os teus olhos

um poema mar água
um poema pousado
imensamente pousado nesse mar mais o vento
um poema que regressa de mãos dadas

poema encontrado
por fim
 
poema esquecido

O teu corpo e a metamorfose da água

 
o abandono do teu corpo
mais o sorriso adivinhado
num frágil esboço de trevo
atravessaram os dias todos da semana

quase feliz
uma alegria de sorriso cheio e incontido
quis beber da tua mina
e do sal do teu gosto

as pedras do castigo
em diálogo com o Alto
devolveram-te o passado inteiro numa caixa com laço vermelho e azul
como fosse natal no deserto

doravante foste instituto da mulher
lugar oficial de partos e poemas de amor, obras de arte

de pacote
chicletes de hálito refrescado

na boca, uma água muda decifrava o meu espanto
 
O teu corpo e a metamorfose da água

Partida

 
Foste embora mas continuas na substância da pele que me veste e nutre

as fronteiras do corpo desabaram em terra

nesta me lavo da perenidade que caiu sobre ti

excedendo as formas rubras dos teus lábios

ouço o fôlego cansado do pulmão

e não quero respirar mais

contigo
 
Partida

O que passou

 
sentinela
nesta noite de demónios

cubro de terra o teu corpo
ouço ainda
(já sabes...)

morre a tua imagem lentamente
esquecida a carne concreta dos dias presentes

juntei todos os instantes dos teus lábios

nenhum beijo me devolveu
os finais de tarde de laranjas e mar distante

fica o tempo só
moendo as dobras dos lençóis vazios e secos
 
O que passou

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