Pele
no quarto o cheiro do teu corpo nu
e anoitece
a luz inclinada no chão encerado
na lembrança do teu ventre povoado
fosse eu tirano e feiticeiro
fossilizar-te neste instante
mas sem asas
como posso cheirar a pele com que me deixaste
Tudo está no seu lugar
Das cinzas elaborou-se a respectiva ata.
Os mortos foram a enterrar
os corpos sobrantes.
Abriu-se cova para uma criança bombardeada pelos mísseis da liberdade.
Santa liberdade.
Como todos os santos que se perfilam no caminho para o céu
depois de eleitos.
Deus e os patriarcas celebram com uísque e tremoços.
O povo gosta de tremoços.
Nosso Senhor não participou.
Um palerma, disse o Pai. Só tem ideias estranhas sobre gente que não interessa. Isso passa-lhe.
Deixem-no estar.
Todos os dias morrem crianças. Que havemos de lhe fazer.
Ámen, Senhor meu Deus.
E a criança desceu aos encontrões até ao fundo. Mais um bocadinho e está no Inferno.
Tudo está no seu lugar.
Dominical 10
a festa de domingo
celebrando a melancolia do Senhor
os passos do deserto
escutados atentamente nos subterrâneos da Terra
a habilidade dos habilidosos
as dores de parto de uma mãe esquecida
a solidão no interior de um ovo
a ressurreição, finalmente.
Da tua natureza própria
a sobriedade do teu corpo
o segredo que escondes nos teus seios quentes
a flor da tua boca cheirando a hortênsias
o teu cabelo como o vento do norte
a palidez do teu olhar
sóbrio sóbrio
não consigo respirar a tua dignidade
e resguardo-me nas formas de mulher
nos teus seios quentes agora livres
bebo do teu sal de mar
pela última vez
desisti da tua força,
da perfeição
quero a dissolução do carácter
não quero carácter
quero que desistas e derrotada chores comigo.
vem a mim, como um pardal amedrontado, tremendo como eu.
Parece mas não é
era uma alegria de laranjas
de cestas e uvas
e nos dias de chuvas
lareiras e gatos
revistas e livros
ouvir o diálogo dos pingos contentes nas vidraças
(um pouco sujas, uma certa indolência, um bichinho algures moendo)
(talvez, repito, talvez
a cesta um pouco
mal tratada, os vimes deslaçados)
um entusiasmo de vento agitando a fixidez da casa,
um pensamento de crepúsculo nos objetos, nas coisas em geral,
com a sua cor digna e final
uma alegria de origens, de manhãs do mundo
águas rompendo das pedras de uma ilha primeira
uma tristeza nascendo num esconso da sala
junto aos gatos da lareira
sombra onde antes um despertador amarelo e divertido sempre nas sete e meia
uma felicidade de cabelos de mulher
e pêssegos
não na cesta descuidada
nas mãos
uma alegria de seios morangos muito vermelhos crepúsculos e gomos
um olhar que esconde outro olhar
e outro e outro e outro
fome de cão na noite deserta interrompendo os lábios mornos
um frio que atravessa o corpo passando pelo centro da terra
(malta, estudar os eixos imaginários da Terra)
um eixo imaginário correndo no sangue débil
esbranquiçado
sangue triste de mesa de café antes de fechar
uma alegria de margaridas tristes
tu que já não moras aqui
(onde estás afinal)
laranjas de alegria triste
o sabor de um beijo antigo
logo se refugia nas margens da luz
coada na nuvem de ontem ao final da tarde quando pensei que eras tu
da personagem
sou eu que me perdi
nesse texto imenso
aguardo a minha vez
nesta sala que me habituei a chamar de casa
nos interregnos da minha personagem.
Na vida que levo depois da história acabar.
Não cuidam de nós
os autores
usam e abusam
percorro o limbo, terra de ninguém
algures na catacumba de uma prateleira infinita
Assassinato
Perto,
imensamente perto,
sufocante de proximidade,
sou sem oxigénio
nem água
nem terra,
tão próximo
intrusão deste eu
rodeando de mãos longas
a garganta por onde regurgito uma lenda de identidade.
por amor a ti
o pássaro da alma voa distante
dos sonhos de um homem nu
quando penso em ti
os teus olhos são como a cor do voo
queria tanto desenhar o beijo do teu rosto no meu
só que uma pressa de pássaro logo te dissipa em asas bruscas
e a nudez do meu corpo confronta-se com o autómato-rei das imanências
Ermida
a tua mão de fora
desamparada na noite de chuva e relâmpagos
na solidão da ermida onde se juntam o de hoje e os de ontem
fui acarinhado à luz amarela de duas velas indecisas
o vento ensinava aos montes as vozes dos antepassados
eu escutava aconchegado próximo dos mortos
pensando a noite de natal com suas bolas coloridas e lustrosas
e jurei levar o menino à capela
ensinar os doutores
perturbá-los à volta dos seus livros de fantasmas
O rosto que aconteceu
Há quanto tempo não via o teu rosto
a sua perfeição,
os teus olhos de perdição
os lábios de mosto
o nariz imponente
decidido
o cabelo indomável a um vento eterno que o fustiga
as rugas que são regos de água,
as orelhas como labirintos de grutas
a expressão de coragem contagiante.
Só agora te vi.
Não foste tu mas eu que nasci
da cegueira dos dias contados.
Morro sem ver tanta coisa.
Mas morro vendo realmente o meu amor.
Vi um rosto. Intensa singularidade que me justifica.