Poemas, frases e mensagens de souzacruz

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de souzacruz

EM SILÊNCIO (soneto)

 
VERSÃO I

Em seu suor me sinto colado,
Pulsando a vida em cada veia,
A cada batida, uma nova teia,
Guardando o respirar sagrado.

Enquanto dorme, fito acordado,
E nos sonhos, sob luz serena,
Velo o descanso, a mão pequena,
No calor do teu corpo desejado.

Te sigo leve, dançando no espaço,
Lembro cada olhar, movimento,
A cada curva, mesmo compasso.

Se a tristeza a tua face comove,
Digo: "tua alma é puro sentimento",
Assim que o mundo teu se move.

VERSÃO II

Em seu pulso trabalho calado,
Sentindo a vida em cada veia,
A cada batida, tecendo a teia
No templo do peito teu, guardado.

E quando dorme, velo acordado,
Nos sonhos em que a luz serpenteia,
No toque de pele, na lua cheia
No calor do teu corpo desejado.

Sigo tua dança, sombra e espaço,
Leio-te a alma em movimento,
Em cada laço, mesmo compasso.

Quando a tristeza te comove,
Sussurro: "és mais que sentimento"
— Única, és paixão que me move.
 
EM SILÊNCIO (soneto)

FINGIR

 
Eu sempre perco o que preciso
Finjo que esqueço meus medos
E vencer é viver em um cerco
Sempre a fugir, em segredos.

Busco forças, aliviar tanta dor
Algo que sei, sei que já passou
Seguir sem estrada, ou um amor
Sempre em frente, sei que acabou.

Compro amor, esqueço o coração
Recuso pagar pelo que não tenho
O que me resta é só uma ilusão
Me consola saber de onde venho.

Me espera só mais um fracasso
Noites vão em clima de ausência
Dias fluem em noites de cansaço
Percebo que o silêncio é essência.

Compro amor, esqueço o coração
Recuso pagar pelo que não tenho
O que me resta é só uma ilusão
Me consola é saber de onde venho.

Sei mentir ao me ver no espelho
Preciso crer em minhas fantasias
E até sorrio quando me aconselho
E sempre encontro novas alegrias.

O que me resta: mais uma ilusão
Me alegra é saber de onde venho.
Perco amor, pago com o coração
O que me resta é tudo que tenho.
 
FINGIR

DA INGENUIDADE À SABEDORIA (SONETO)

 
A inocência dá lugar ao despertar,
O mundo visto sem seu véu dourado,
Perde o coração o seu significado,
E a dura realidade vem nos visitar.

Cresce a raiva. Falha, sem se curar.
Contra o muro a mão segue quebrada;
Querer escrever linha já traçada,
Cego, o ego, nada poderá mudar

Fere, há dor, se reagir, ao se render,
Impossível o vento conseguir dobrar,
Mas da aceitação nasce outro poder.

A força é vã, de querer, vencer, lutar,
Abraça o aprender, busca compreender,
E encontre na Ciência o transformar.
 
DA INGENUIDADE À SABEDORIA (SONETO)

O AMIGO IMAGINÁRIO (soneto)

 
O AMIGO IMAGINÁRIO (soneto)
 
꩜-★-1️⃣ VERSÃO 1️⃣ -☆-𖦹

Refugia a criança, intenta se amparar,
além do real, em um mundo imaginário.
Inventa alcançar um ser extraordinário,
sanar o sofrer e a tristeza suportar.

Juventude, vida adulta, eis igual procura:
Amigos virtuais, tão distantes, aparentes,
fantasmas frios, sem virtude, indiferentes.
— A solidão tortura. Onipresente! Há cura?

Tecnologia deturpa a realidade:
Esvai o sobrenatural. Frágil a esperança,
procura no virtual agrava a enfermidade.

E o verdadeiro amigo? Onde ele esta? Ao lado?
Ou ao largo? À margem? Perdeu a confiança?
O real sumiu! Será que foi apagado?
_________________________________
𖦹-☆2️⃣ VERSÃO 2️⃣ -★-꩜

A criança se esconde e busca se amparar,
fugindo do real, num par imaginário.
Inventa alcançar um ser extraordinário,
pra dor aliviar e o medo suportar.

No jovem, no adulto, reforça igual procura:
perfis em carrossel, presenças aparentes.
São vultos digitais, frios e indiferentes.
A solidão segue cruel, fere e tortura.

A tela nos impõe uma estranha novidade:
expulsa o que é sagrado. Eis brusca mudança,
onde falta conexão, sobra a enfermidade.

Cadê o real amigo? Ele esta ao lado?
Perdeu-se na distância? Ou foi desconfiança?
Sumiu o toque! Será que foi deletado?
 
O AMIGO IMAGINÁRIO (soneto)

AMOR EM REDONDILHA MAIOR [VERSÃO EXTENDIDA]

 
I. A GRAMÁTICA DO AMOR

Amar é verbo transitivo.
Mas o amor é intransigente,
se age de modo reativo,
mesmo quando é displicente?

Verbos sempre nos enganam
Criando sintaxe do peito:
Todos eles positivam
Se o sentimento é perfeito.

Conjugam-se os verbos da alma
em tempos que não existem,
Presente que nunca se acalma,
nos futuros em que persistem.

Eis que surge a gramática
impossível delimitar
A indomável semântica
que nos aquece ao abraçar.

II. ESSÊNCIA DO AMOR

Amor, mesmo indiferente
Busca cuidar de quem se ama
E assim o é para toda gente
Cujo desejo se inflama

Amor busca e faz proteção,
Pois é refúgio e é perigo,
É bússola, é barco e direção
É tanto amigo e um abrigo

Dois nós se atam num só laço,
são dois seres na mesma lida,
É o que refaz mesmo traço
É caminho, busca e partida.

Essência que o multiplica
São mil formas de resistir,
Uma força que nada explica
Na perda, insiste em se unir

III. O AMOR COMO ENCONTRO

Quando os olhares se seduzem
E reconhecem sua sede,
As almas enfim se conduzem
tecendo uma mesma rede

Amor que encontra resposta
floresce em mútuo jardim,
E cada gesto é proposta
de uma primavera sem fim

Porém, quando um ama sozinho
e a pessoa amada, distante,
Marca um triste e só caminho
marca o coração mendicante.

Rompem fios que ainda restam
Entre nós que o tempo desfaz,
Dois que se foram, reencontram:
que quando renasce é capaz.

IV. O AMOR COMO NATUREZA

Coração que livre espera
se entrega sem devolução
no mar, o vento supera,
vencendo a arrebentação.

Mesmo estando em águas turvas
seu sentimento persiste,
É rio que mesmo nas curvas
e não há pedra que resiste.

Assim flui o rio eterno
que nem o mau tempo consome,
igual fogueira no inverno
segue acesa, sem quem a dome.

É terra que espera a semente,
É o fruto tenro que cai,
É o vento que sopra, insistente,
é a chuva que vem e que vai.

V. O AMOR COMO RESISTÊNCIA

Amor, primavera constante
floresce sendo igual ternura
Mesmo ao suspirar distante
Persiste na fé, sem censura

Se o tempo tenta arrefecer
calor que pulsa desta chama
Mais forte ele faz renascer
o sentimento de quem ama

Em meio a dor ou na alegria
firme anda, com o olhar atento
Dá cor e vida a poesia
abrigo se no desalento

Amor derrota o denso medo,
ecoa a voz em cada fenda;
volta do distante degredo,
e do sofrimento faz lenda.

VI. O AMOR COMO PROTEÇÃO

Quando a noite é só cansaço
E quando o receio arde fundo,
Amor busca criar o espaço
para criar um novo mundo

O amor protege o frágil ser,
o aquece no peito, no frio,
faz do pranto um doce viver
É luz no silêncio sombrio.

Tece o fio, instiga prudência
Faz seguro o passo a guiar
Possui própria inteligência
traz o corpo para amparar

Quando quer apenas dormir
e sonha sem ser exigente;
levanta, insiste em existir
céu de dia claro, fluente.

VII. CICLOS DO AMOR

Nasce o amor como aurora
que tímido então desponta,
Cresce em cada nova hora
que a vida sempre reconta.

Maduro fica como vinho
que o tempo faz mais suave,
Conhece cada caminho,
E possui sua própria chave.

Na memória se eterniza
passado que permanece
No futuro se desliza
o que se espera e acontece.

Amor que nasce, envelhece
mas mantém a sua beleza,
É o tempo que permanece
Para além de toda certeza.

VIII. O AMOR COMO CRIAÇÃO

Da ternura cria esperança
brota nos lábios a sorrir
e do riso gera a mudança
do campo que insiste florir

Do encontro que nasce o desejo
Semeia mais cor e alegria
Transborda no mais puro beijo
e cria no peito a euforia

É água da fonte a escorrer,
É chuva que semeia no mar.
É silêncio que fala e que vê,
E mesmo ao dia faz um luar.

Amor que completa e divide,
que se unem sem nunca prender,
É força que sempre reside
no íntimo de cada ser.

IX. CONCLUSÃO

Ser feliz é ser amado
Amar a quem te ama
É nada ter a temer
Quando o amor tece a trama

É sempre o novo amanhecer
Renascendo em sua dança
Que ensina a compreender
Amor como esperança

Longe e sempre lado a lado
É maior poder que inflama
Mais forte que toda vaidade
Que o dinheiro e a fama

Mais que o verbo: é sentir
Viver construindo a vida
A quem se ama, permitir
Felicidade acolhida
 
AMOR EM REDONDILHA MAIOR [VERSÃO EXTENDIDA]

O PESCADOR E O EXILADO (soneto)

 
Um ser guardou para si toda alvura,
Mas curva-se ao peso do rancor;
Já outro encara o rio, sem temor,
lavando os pés na correnteza escura.

Um, na lama humana, paira em candura.
Já outro nada no turvo furor.
Clara a água, banha-se no calor.
Seu encanto segue leve, sem censura.

Um, feito de luz, foi sacrificado;
Outro vai nas trevas, sem se perder;
Fez da vida lição, sem ser manchado.

E este sabe, enfim, o que é viver;
Vai de alma limpa, e pé sujo: sagrado.
Levando o cantar ao entardecer.

O conto nasce de um diálogo ocorrido (ou imaginado) às margens do rio Canglang, na China do séc. III a.C. No original, 漁父 (Yú Fǔ), atribuído ao poeta e ministro exilado Qu Yuan (屈原), narra o encontro entre dois homens diante da mesma água: um que recusa contaminar a sua pureza com a lama do mundo e perece nessa recusa; outro que aprende a nadar no furor sem se perder, e parte cantando. A canção que o pescador entoa ao afastar-se — "quando as águas estão claras, lavo as fitas do chapéu; quando turvas, lavo os pés" — é o coração da mensagem. O leitor deve procurar 漁父: Canções de Chu (楚辭).
 
O PESCADOR E O EXILADO (soneto)

DOIS MUNDOS (SONETO)

 
A luz de vela e lampião, e cartas à mão,
Nasci num tempo lento, em ritmo compassado.
Hoje, os dados vêm e vão, em fluxo acelerado,
E o futuro veloz, emerge sempre em turbilhão.

Vi erguerem-se postes, faíscas tão raras,
Na fronteira entre o ontem e o dia por nascer.
Hoje a vida pulsa em telas, sem tempo a perder,
E os gadgets brilham tanto quanto joias caras.

Ao morrer, minha alma à nuvem será suspensa,
Memória a se converter em binário imortal,
Num ciclo eterno, ou vazio, em máxima recompensa.

No céu digital há um administrador querubim?
Conexão banda larga com destino triunfal?
E o inferno: erro quatro zero quatro, sem fim?
 
DOIS MUNDOS (SONETO)

SÍSIFO (QUADRAS)

 
Pobre vida em uma tela
Vista de dentro da cela
Prisão podre, uma aula
Que sela janela na jaula.

Humano se contenta
No rito que alimenta
Todo dia, se corrompe
Ciclo que nunca rompe.

Repete, e traça o mapa
Becos que nunca escapa
Igual ontem, a cada dia,
Inventa no vício alegria.

Mundo é medo, espanta
O ócio, desafia, encanta
Mas tudo é simples, fácil
Tornar-se doce, e dócil.

Dia passa, tempo breve
Quebra a grade, atreve
Busca leve a descoberta
O despertar não liberta.

Onde a certeza é prisão
Onde liberdade é ilusão.
Poucos curam tal ferida
Viciados escolhem vida.

Alguns furando a retina
Desligam própria rotina
Até a formiga estranha
Emaranhada artimanha

O cinza fúnebre acalma
Furtando cores da alma
Destino escuro sem vela
Só no caixão, vida vela.

Presentes corpos ausentes
Fantasmas fluorescentes
Existem mas não vivem
Respiram, não convivem.

Nascem os mortos online
Zumbis, prazos, deadline
Mas um dia a tela quebra
Alguém acorda e celebra.
 
SÍSIFO (QUADRAS)

POÇO SEM FUNDO

 
Em parte me enganei
porque quis me enganar,
em parte fui esganado,
pela verdade sem par,
sempre a escorregar.

A guarda baixa e a dor,
o jamais guardado ator,
mas o amanhã aguarda.
Nem no passado houve,
nem no futuro haverá.

A esperança é sincera
no presente sem lugar,
erra ao querer encontrar
no peito a dor ausente —
mente o amor a andar.

Cego em mundo errante,
esquece o que é lembrar.
Pode então encontrar?
Vida, singelo descanso,
a vila de passo manso?

A procura é sem sentido,
a dor é cera de ouvido,
só o subjetivo arranhar.
O segundo se é contado,
jamais foi um dia vivido,

Assim, o ser só existe
insiste, na incerteza há.
Falta é poço sem fundo,
do muro a desmoronar —
mora sozinho, sem lar.
 
POÇO SEM FUNDO

FUGITIVA (soneto)

 
Conquisto. Nunca mendigo migalhas.
Viver, saciar a sede na saliva,
Colher o sal da pele na língua viva,
E ouvir no teu silêncio o mar que espalhas.

Meu desejo é asa: fende e batalha.
Na mulher que prende, morde e cativa;
Na carne, pernas, ventre — fugitiva,
Beijo que morde — foz que me agasalha.

Dorme, fica o corpo, calma enseada
Leito de rio, cais vazio, peito,
És presença: o laço, enlace, espasmo.

Ardo em ti: maré que não foi domada.
Naufrago em ti, neblina — doce estreito,
Renasço em ti: onda, maré, orgasmo.
 
FUGITIVA (soneto)

PONTO CEGO (soneto)

 
PONTO CEGO (soneto)
 
Do trono dourado domina o vasto mundo,
e faz de si o próprio medo, força e armadura.
Ignora que a muralha mais alta e segura
tem pontos fracos, frestas e fendas sem fundo.

Controla tudo e todos a cada segundo.
Ergue o ódio, guerra e caos à própria altura.
Segue envolto em vício, oculta sua fratura,
em cada espaço mais protegido e profundo.

Ignorância que sucumbe a própria ganância
Por ângulos sutis que a vista desconhece,
E desaba ao peso da própria arrogância.

Constrói ruínas, ao se achar permanente.
Tropeça nos próprios pés, perde sorte e prece.
Por fim, dissolve sem pedaços, plenamente.
 
PONTO CEGO (soneto)

MELHOR

 
Quem tem raiz é planta
Quem tem essência é perfume
Melhor o suspiro do vento
do que chorar o chorume.

A rosa é promessa que fere
Falta flor, semente, verdade
Água chove, corre, vale mais
do que o pântano de maldade.

Falta-me a raiz e a essência,
Sou o grito que o vento deu.
Melhor o desatino, ausência
do que o fruto que apodreceu.

Sem muro, sem porto seguro,
Felicidade: maré, onda, ousadia.
Melhor ser bússola em mar escuro
do que âncora em praia vazia.
 
MELHOR

O TEMPO (SONETO)

 
O TEMPO (SONETO)
 
Em medos vãos, o tempo jaz, guardado,
persiste e turva a vista do presente.
Enquanto a alma, errante e impaciente,
revive cada instante, já passado.

O futuro, mistério não chamado,
projeta suas sombras, torna pungente.
E entre o amanhã e o ontem, eternamente,
o agora segue abandonado.

Como viver o instante que não dura,
quando a memória e a ânsia, em seus extremos,
disputam nossa frágil criatura?

No presente que somos, e que temos.
Mas, preso entre o sonho e a amargura,
o hoje é real, não o desperdicemos.
 
O TEMPO (SONETO)

SENHORA⏳

 
Nada serve a memória.
A cada dia, a cada hora,
a saudade me destrói,
a saudade me devora,
a saudade me apavora.

A saudade é Senhora.
A solidão não minora.
E o agora é silêncio.
Ausência sobrou, ficou,
quando fostes embora

Solidão virou companhia.
Memória de uma alegria.
Em tudo de bom a vejo,
Tão quente está o desejo
que a paixão não esfria

Cada instante, pressente?
Na noite de lua a agonia.
distante a luz tão presente.
O vento frio sopra na rua
e invade minha vida vazia.
 
SENHORA⏳

A ROSEIRA (SONETO)

 
A ROSEIRA (SONETO)
 
Qual a rosa que definha em solo ressequido,
A alma dorme inquieta, e clama por amor;
No jardim do existir, o caule consumido,
E, entre espinhos, aguarda o fim de sua dor.

Em cada pétala há um sonho já perdido,
No sol da manhã, sem orvalho e sem frescor;
O coração pulsa, o soluço jaz contido,
Sem antiga púrpura, perde seu vigor.

Na noite atormenta mil sombras de abandono,
Vento seco castiga, em agreste acalanto;
Insiste em florescer, quer vencer o amargo sono.

Se na vida a chuva e a lama são de pranto,
E os sonhos criam raiz profunda a cada outono:
Renasce a rosa linda, mostrando o seu encanto.
 
A ROSEIRA (SONETO)

VIDA QUE SEGUE

 
Vida que segue, ainda que negue
Anda e desanda, e nos demanda

Nos tange cedo, acorda com medo
Encanto e pranto, sem rito santo

Mãos sujas, frágeis, e sem luvas
Catando uvas, as vistas turvas

Na chuva dorme, a lama chama
Olhos duros, sempre em apuros

A passos lentos, sob tormentos
Seguindo rotas, com roupas rotas

Sob cansaço, abraço sem laço
Mesmo no escuro, buscam futuro

Noite sem estrelas, sem lua ou guia
Nuvens nos olham, sem magia

Riem baixinho, pássaro sem ninho
Seguem sem prumo, e fé sem rumo.
 
VIDA QUE SEGUE

A ROSEIRA MURCHA [RASCUNHOS]

 
Sou a alma em pranto, que chora pela vida,
busca em cada canto a paz tão prometida.
Eu sou a paixão escondendo sua beleza,
cantando a solidão em versos de tristeza,

Sou a roseira murcha, esperando o sol nascer,
sonhando com a chuva, quer voltar a florescer.
Mas não é só uma flor que busca renovação,
a alma dorme em torpor, anseia transformação.

Canta apenas solidão, em versos de tristeza
quer encontrar beleza, plantando sua ilusão
Saudade, na verdade, é a escuridão acesa
Vaga por toda parte, escrava da liberdade

Sou a busca por sentido a me guiar na estrada,
Minha saudade é ruído turvando a vista cansada.
Cada passo o perigo, sem saber quando chegar,
no fundo busco abrigo onde eu possa descansar.

Sou o coração duro no labirinto da existência,
nada mais procuro, pois perdi a minha essência.
Já fui a busca sem fim na falta de um destino,
e de tudo dentro de mim restou só o desatino.

Sou a força a me curar, resistindo a dor sofrida
Seguindo meu caminho, redimindo minha ferida.
Na escuridão a brilhar, incerto e sem direção,
Sangro em cada espinho, em cada aperto de mão.
 
A ROSEIRA MURCHA [RASCUNHOS]

RESENHA (uma conversa entre Léo e Beto)

 
RESENHA (uma conversa entre Léo e Beto)
 
[Léo entra caminhando, Beto já está no palco. Se cumprimentam com soco fechado]

— Léo:

A nova, mano, já manjou a fita?
Aquele bagulho lá do outro dia?
Negócio no grau, o fervo agita,
Mas virou zona, entrou numa fria.

— Beto:

Tava escrito, brother, tava na cara
que o treco torto ia funfar assim.
Quando o cria deu de dar a vara,
Eu sabia que o esquema era ruim.

— Léo:

Era parada fácil. Só desenrolar,
Era fazer andar. Tocar sem pressão.
Mas surgiu um enrosco de lascar,
o trem todo entrou na contramão.

— Beto:

Foi quando pifou e parou a onda
Mexeu na geringonça sem a manha.
Cena ficou feia, desandou redonda,
E, na treta, no rolo, ninguém ganha.

— Léo:

Pior! Bicho no corre veio com migué,
disse que o movimento tava na mão,
E, na hora do vamô vê, meteu o pé,
sumiu, deixou a tranqueira no chão.

— Beto:

Que aperto! Só babado doideira!
E agora, resolve como essa brasa?
Ou coisa logo, ou vai virar leseira,
O B.O. bate e chega na tua casa.

— Léo:

Pode crer, mas eu já dei meu grau,
botei as bugigangas todas pra rodar,
quebrei o galho todo, coisa e tal,
agora só o paranauê... prá finalizar.

[Léo e Beto se olham, concordam entre si e viram para a plateia]

REFRÃO [duas vozes em uníssono]

[Estrofes 1 e 2: Léo e Beto cantam juntos]

No esquema, no lance ou no corre
Quando a bola esta na nossa cola
Na manha, suave, bora evitar o porre
Se pintar enrosco, a gente desenrola

A parada segue, segue o movimento.
Qualquer treta a gente faz o esquema.
Continua, no jeito, com nosso talento.
É nóis que toca todo esse sistema.

[Estrofe 3: Call-and-response com a plateia]

“No corre, no bagulho é cada mané” [Performers]
“Cada enrosco que cai na nossa mão” [Plateia]
“A manha é nossa, e não cabe migué” [Performers]
“É nóis na fita, irmão, nesse mundão” [Plateia]

[Finalização]

— Beto:
Firmeza então. Vai fazer o esquema
com os trecos e troços do pico?

— Léo:

Se vou. Se o negócio não dá problema,
amanhã o lance todo tá no tico.

— Beto:

E depois que resolver essa parada,
a gente faz aquele rolê da hora?

— Léo:

Rola, mano. Coisa garantida,
se o bagulho funfar é sem demora.

— Beto:

Saquei. Qualquer enrosco tu me avisa,
Vou zerar o rolo, eu manjo do riscado.

— Léo:
Valeu, parça. É disso que precisa:
alguém que entende o corre complicado.

— Beto:

Tamo junto, irmão. É nóis na fita.

— Léo:

Sempre.
Segue o movimento, giro se prepara,
o esquema pira, a manha é infinita,
e o bagulho todo ainda se repara.

[Ambos se abraçam firmemente, mano a mano, e congelam por 2 segundos antes de blackout/fade]

Concordo que meus escritos (via de regra) saíram de de livros velhos.

Para variar escrevi essa peça em dueto usando léxico-coringa em decassílabos (predominante).
 
RESENHA (uma conversa entre Léo e Beto)

A PAZ E A RAZÃO (SONETO)

 
Uns querem paz, outros querem ter razão,
Como se paz e razão brotassem do querer.
Uma falsa oposição, que gera confusão,
Refletindo a submissão a jogos de poder.

Diante da incerteza, a razão é a luz guia,
E não aquiescer. Paz é meio a conquistar.
Quem silencia se aprisiona a tirania,
E, por fim, nenhuma paz, terá a preservar.

Agindo em consonância, ambas florescem,
Razão com sabedoria constroem confiança
Porém, em desequilíbrio, ambas fenecem.

Querer vitórias vãs, ao invés de progredir,
Querer a paz, construindo falsa segurança,
É dançar sobre o vidro, se cortar e se ferir.
 
A PAZ E A RAZÃO (SONETO)

ÀS VEZES

 
Às vezes me esqueço de comer
Às vezes só penso em desistir
Às vezes eu me canso de viver
Às vezes quero apenas é sumir.

Às vezes me esqueço de dormir
Às vezes mereço o que padeço
Às vezes desaprendo de sorrir
Às vezes até parece que pereço.

Às vezes meu lamento é alimento
Às vezes desdenho o que conquisto
Às vezes se esvai meu pensamento
Às vezes nem sei porque persisto.

Às vezes minha boca nem disfarça
Às vezes o que sei é sem sentido
Às vezes minha força é uma farsa
Às vezes o que busco até duvido.

Às vezes me invade o sofrimento
E a noite se estende ao infinito
Às vezes a alegria é meu alento
E o dia é pequeno para um grito.

Às vezes eu me esqueço de sair
Às vezes perco a hora de voltar
E o calor do sol me faz sentir.
Que aquece, às vezes, um olhar.

Às vezes me prendo num recinto
Às vezes participo, inconsciente
Às vezes a cidade é um labirinto
Às vezes a alvorada é meu poente.

Às vezes o meu inverno é eterno
Sofre em dia quente, teme o frio
Às vezes o meu paraíso é o inferno
Às vezes minhas lágrimas são rios.

Às vezes a jornada é temporária,
Às vezes a companhia desconheço
Às vezes a chegada, involuntária
Às vezes, na partida, me aborreço.

Às vezes vejo estrelas no caminho,
E, pelas ruas, caminho sem abrigo.
Às vezes, silêncio, estou sozinho,
Os amigos, às vezes, estão comigo.

Quando a dor invadir meu coração
Às vezes só a tristeza me redime
Às vezes o meu erro é a salvação
Às vezes só a fraqueza me define.

Às vezes a metade é sem inteiro
Na falta, não pode ser comprado
Às vezes o que falta é o dinheiro
Resta o desejo, jamais é saciado.

Às vezes naufrago em mar bravio
A nadar, a agir, seguir em frente
Enfrentar o pesadelo mais sombrio
Lembrança da esperança ressente.

Às vezes amor, ilusão e solidão
Os sonhos: miragens no deserto
Às vezes eu encontro a paixão
Às vezes, da dor, estou liberto.

Às vezes vejo que a vida é bela
Igual novela e barco sem destino
E, às vezes, lembro: a vida é vela
Se apaga no escuro, em desatino.

Às vezes minha vida é um enigma,
Mistério sem fim a cada instante
Para cada "às vezes", um estigma,
Um passo em falso, olhar distante.

O "às vezes", às vezes, é momento
E de ouvir, a ecoar, a voz serena
Os medos, fantasmas, tormentos
Descansam. A sina é amena, plena.

Às vezes há sentido. O "real" mente.
As emoções enganam, plenamente.
Felicidade fugaz, mas não indiferente.
Tantas respostas, porém ausentes.

||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||

— Estou com gripe. Não com depressão!!!!

O contexto criativo da obra deu-se após assistir a série "Uma Dose Diária de Sol" (Netflix, direção de Lee Jae-kyoo; Kim Nam-su), e conversas com várias pessoas sobre o tema tratado pela referida série.

Optei por revisar o poema com ajuda de profissionais (psicólogas e uma arte-terapeuta), que contribuíram com apontamentos importantes.

Também consultei quatro IA's (Inteligência Artificial) sobre como pessoas com depressão podem interpretar o poema.

Isso permitiu ajustes alguns em alguns versos, e a ordem das estrofes. É recomendável a leitura completa do poema para compreender a perspectiva do Eu Lírico.

Por sua vez, a leitura apenas das estrofes iniciais é perturbadora e desabonadora. Em todo o verso, mobilizo o recurso de "pensamentos intrusivos" e "fluxo de pensamento".

Em função disso, o arco narrativo do Eu Lírico é complexo. A leitura isolada de um verso ou estrofe, ou a primeira metade do poema, desconsidera a jornada do Eu Lírico, que termina por aceitar as incertezas como parte da vida.
 
ÀS VEZES

Souza Cruz

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