Punição
Tenho aqui nas gavetas da minha memória,
Algumas palavras – e lembranças doridas,
Que os meus dedos feridos ainda podem tocar,
Registradas num código secreto.
Tão secreto, que algumas delas não consigo mais decifrar.
Nem tenho mais a noção do que está além da minha janela,
(Quase não a abro nos últimos tempos).
Nem sei mais o quanto de amor a ti doei,
Nem quantas vezes a minha alma aos teus pés ajoelhou,
Na frustrante tentativa de impedir a tua partida.
Tornei-me escrava das tuas mentiras,
Refém das tuas desculpas estúpidas,
Ré de um crime que não cometi,
(Bateste o martelo feito juiz, impondo-me a punição).
(Tenha certeza: deste-me a melhor condenação).
Deixei-me amarrar pelos teus grilhões,
Aceitei o ferro com o qual me feriste,
Ofertei as minhas costas para as tuas chicotadas,
Dei a face para que bateste sem dó nem piedade: a direita e a esquerda.
Se pudesse voltar o tempo,
Nada em mim mudaria.
Te ofertaria o mesmo amor,
O mesmo sorriso,
As mesmas palavras de apreço,
O mesmo silêncio diante do teu tribunal,
E a aceitação de um destino que não era e nunca foi o meu.
(Para todo pecado existe absolvição - para o teu, também).
Porém,
(E sempre existe um porém),
Já liberta dessa saga que ao fim chegou,
Confesso abertamente e sem rodeios,
Diante do céu e do inferno,
Que depois desse martírio eu não te deixaria jamais,
Em qualquer dia ou tempo,
Arrancar do meu peito,
Tudo aquilo que hoje,
Não consegues mais me devolver....
Um dia comum
Caminhando a passos largos,
Apressadamente,
Como todos os transeuntes,
Deparei-me com o nada.
O som ensurdecedor das buzinas,
Apenas indicava que o mundo estava vivo,
Que o comércio não fecharia,
E que num piscar de olhos, a noite apontaria.
As crianças sorriam e brincavam,
E tudo parecia estar no exato lugar,
Onde as coisas deveriam estar.
Onde eu mesma deveria estar.
Diminuí a velocidade,
E parei para contemplar a igreja em festa.
Os fiéis em oração.
À espera por tantos milagres que eram solicitados.
Entrei no local de tanto fervor e esperança.
Fiquei quieta, apenas olhando para as imagens sagradas,
Borradas de lágrimas – algumas com sangue,
E não me atrevi a pronunciar um único som,
Enquanto a homilia era cantada.
Respirei fundo.
Fechei os olhos em sinal de respeito.
E lá deixei a minha rosa vermelha - a oferenda que eu tinha no momento.
Lá, ela ficou.
Como um sinal da minha palavra muda.
Um sinal.
Sinal de que, talvez, eu retornaria,
No dia seguinte.
Tempo
Tempo
Esse maldito tempo que pelos dedos escoa
Que insiste em badalar e abalar os ponteiros do relógio
E que marca toda uma vida
Vida finita no respirar
Vida infinita na forma de olhar
Os segundos giram
As horas passam
E o amor não dá sinais
Não vem
Não se instala
Desdenha os corações
Escarnece dos que creem
Cega os que insistem, mas nada veem
Melodias são feitas
Sambas são cantados
Marcas aparecem
E envelhecem
E o tempo não dá espaço
Apenas escoa
Voa
E não volta mais.
Sobrevivência
Cada segundo que se passou – ainda que por mim não percebido,
De uma certa forma registrou-se por dentro,
E os passos dados em retorno,
Apenas desenharam a minha frustração e arrependimento.
Não prometeste vir em nenhum momento,
Sequer deste um aceno para iludir os meus sentidos – ou me enganar,
Mas no fundo sempre soube que jamais retornarias,
E não te culpo por isso – tampouco a mim mesma.
Dentro de casa as chamas das lamparinas estavam diminutas,
Iluminando somente o caminho para o quarto,
Única opção neste momento, para que o esquecimento pudesse ser sufocado,
Mesmo que eu soubesse que o dia raiaria, sem que o sono me dominasse.
Fechei a porta, tirei meu casaco e joguei-me na cadeira ao lado,
(Ela estava pronta para receber o peso que me caía pelos ombros),
E por mais uma vez percebi que nada do que eu fizesse,
Mudaria o inexorável destino, que há tempos sinalizava o que eu sabia.
O dia raiou belo e esplendoroso
O sol iluminava o meu aposento.
Peguei o mesmo casaco,
E coloquei no bolso mais uma esperança,
De que eu sobreviveria a mais um dia,
Como tinha sido todos os outros.
Saí, sem pressa.
Sem afobação.
Sem o café.
Sem o pão.
Tendo apenas a única certeza de que nunca mais retornaria,
Para dentro de mim.
Mas afinal...
Tapava os ouvidos, porque ainda que não quisesse escutar,
O vento rodopiava nos tímpanos,
O apito do trem não cessava,
E o medo invadia...trazendo a possibilidade de uma loucura próxima.
Mas afinal, tens medo do que?
A brevidade é um doce macio,
E a vida, como o estalar de um dedo.
Não segures o vento,
Ele escapa por toda fresta que encontra.
Não retenhas as águas,
Elas fluem sarcasticamente e te enganam,
Mal surge a próxima curva do rio.
Retire as mãos dos ouvidos,
Esqueças o português bem construído,
Jogue fora os diplomas e as diplomacias.
Porque, afinal, teu medo nada significa,
A não ser a tua própria debilidade,
Que insiste em roubar a tua pouca sanidade...
Premonição
Os caminhos são sempre os mesmos...de dor em dor, a paisagem de mim, não muda...nunca...
O por do sol já não me traz aquela beleza antiga, as ruas não tem nome, ainda que as setas apontem o destino...da fuga de mim e das paredes com as quais meu corpo não quer se defrontar..
Estraçalhada está a imagem que me aplaca por dentro...com nuvens de poeira que se perdem de vista...essa crueldade e punição que me cerca a existência...
Com a chuva é assim também...prenuncia dentro de mim mais uma tempestade, na qual me abrigo diante das gotas gélidas que caem sobre minha face e, por ser ácida, corrói cada membrana que recobre o meu corpo...
Por onde eu vá a idealização continua seca....assim sempre foi...apenas a visão anterior estava turva...me enganando que as coisas seriam bem maiores e melhores...
Essa foi a minha maior covardia...falar sem ser ouvida...o meu único gesto onde me agarrei com tanta força e quando tudo veio abaixo, desabando pontes e muros interminavelmente, os papéis deixaram de cumprir a missão exata...
Ahhh...hoje só tenho folhas brancas e um nojo nauseante, cujos olhos não suportam uma letra sequer...uma única palavra...despi-me de tantas e outras considerações...insuportável me são os livros, páginas escritas e o tal orgulho derramou-se apenas em uma grande fragilidade que me vai por dentro...
Carreguei títulos esdrúxulos, desonestos, para que hoje, nem sequer seja possível se ter noção do quanto e por quanto tempo será a sobrevivência...
Tornei-me um escombro de mim...construções velhas...bombas destruidoras...a cada respiro sinto que é o último...e me questiono até quando a divindade existente entre o céu e a Terra terá misericórdia de quem apenas quer estar curado de lembranças e cenas que não querem se apagar...nem sequer ligo o drama, e lá está ele...inexorável, mudo, enlouquecedor como os rodopios de Dom Quixote, contra os seus moinhos de ventos inexistentes...
“A tudo lhe será devolvido no momento exato”...uma verdade ilusória...ter um coração contrito e crédulo nada garante...(e a mim nada garantiu – mas a visão pode ser quiçá mudada)...a não ser essa sensação de beirar uma loucura que nunca pensei em presenciar...e cujos grilhões me amarram a desvios e dislexias que bailam...
Mas, cerca-me um orgulho tamanho, que torna o meu conceito sobre mim, algo especial...capaz de retirar sorrisos dos meu lábios...
De alguma forma foi o início do fim...e em todas as releituras que faço, detecto que já dizia de forma assombrosa, tudo, sem ao menos perceber...
Era premonição....onde as ruas não tem nome....
(Baseado na música “Where the Streets have no name” – U2).