Poemas, frases e mensagens de paollalopez

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de paollalopez

As mãos que nunca seguram

 
O relógio cai sobre a mesa.
Alguém espera que ele derreta.
Mas hoje ele só cai.

Há quem prefira o vidro à janela aberta.
O vidro pode ser limpo.
A janela, não.

Se dúvida houvesse,
os deuses não teriam pressa.
Mas há sempre quem segure a água,
quem conte as moedas antes que o rio as leve.

A posse é um truque de luz.
Basta piscar, e já não há nada.

No sono, alguns acreditam que têm.
Mas é apenas a ausência.
O ar no peito, emprestado.
O verbo ter, uma sombra debaixo da língua.

E, no fim, a fortuna esconde-se sozinha.
As mãos que nunca seguram
são as únicas que nunca perdem.
 
As mãos que nunca seguram

Toda Quinta-Feira, o Louco

 
Garrafa d'água na mão,
o vidro pesa menos que o tempo.
Deslizo entre os que sussurram ao nada,
os que lançam pedras às próprias sombras,
como quem joga migalhas ao destino.

Aquele que recita em calçadas vazias
carrega um sol gasto no bolso
e um poema no frio.
As mãos falam antes da boca,
os olhos viajam antes dos passos.
O louco—não, o poeta
lança palavras em poças d’água,
espera que virem estrelas antes de secarem.

Amo olhar,
olhar dentro do olhar que não ama,
nada amando tudo,
tudo despedaçado na borda do delírio.

Há beleza nos que não pertencem.
Na linha trêmula do queixo, um verso incompleto.
No descompasso do riso, um segredo inalcançável.
E eu, sempre ali,
toda quinta-feira,
sentada no vórtice entre o real e o impossível,
lucidez e vento,
deixando que me veja sem saber que é visto.

E se um dia ele parasse?
Se pousasse os olhos no vazio e nada dissesse?
Talvez o mundo inteiro desmoronasse
num silêncio maior que qualquer poema.
 
Toda Quinta-Feira, o Louco

Sobre a beleza da observação

 
Eu preservo a forma como caminhas ao descer a rua,
cada passo um verso que dança entre luz e sombra,
como se cada pegada fosse uma sílaba
sussurrada ao vento que o envolve.

Preservo o ritmo, o balanço, sua maneira de entrar
na biblioteca, tocando os livros com reverência,
pausando para os abrir, ou avançando ao folhear cada página
com olhos que decifram os segredos do mundo,
leves como asas que roçam o ar em um suspiro.

Preservo o sorriso que ele desenha sem saber,
quando o sol se inclina e o mundo, por um instante,
transforma-se em tela, pintada apenas para ele —
e para mim, que o observo mais do que o vejo.

Eu guardo isso tudo dentro de mim, como quem guarda
um segredo ou uma prece; porque amar
é também saber deixar livre, é observar o voo,
e não apenas o pássaro revelado.

Guardar é permitir que cada momento se eternize
não confinado, mas na memória e
no coração, onde o verdadeiro valor nunca se perde,
mas se ilumina e ressoa, como poesia que nunca se cala.
 
Sobre a beleza da observação

A Ilha Cercada de Palavras

 
Há quem escreva por passatempo, quem escreva por prazer, e quem escreva porque a escrita é a última tábua de salvação antes de afundar. Para esses últimos, parar é morrer — e morrer é impensável. Talvez escrevam por vício, por necessidade biológica ou por aquela teimosia que só os condenados ao ofício entendem: as palavras têm de sair. Ele, o escritor, é desses. Cada frase é como uma gota do seu sangue. Um sacrifício. Uma transfusão do invisível para o visível. Poucos reparam, mas ele nunca respira fundo entre uma linha e outra. Não quer perder tempo. Talvez tenha medo de que, ao respirar, o fio da memória se rompa ou que a próxima palavra não venha. Talvez saiba que um dia o silêncio virá — e ele não quer estar desarmado quando isso acontecer. Desce as escadas do tempo todos os dias, sem lanterna, com os joelhos esfolados e o coração entre as mãos. Lá no fundo, encontra o menino que foi. Vê-se pequeno, num canto qualquer do passado, a chorar como um anão que implora por centímetros. "Cresce", diz-lhe. "Não há tempo." O menino olha para cima, descrente, enquanto o homem — mais velho e mais cansado — vai caminhando para a frente, cavando no peito um túnel onde só cabem palavras. Escrever, afinal, é o único jeito que ele conhece de se lembrar das coisas sem ser engolido por elas. A memória é um comboio que liga o céu ao seu íntimo. Vai e vem, entre nuvens e abismos. Na infância, achou que a velhice seria uma profecia distante, com letras que nunca conseguiria ler. Hoje, com os olhos ardendo e a caneta a falhar, percebe que as letras estavam lá o tempo todo — só que nunca foram legíveis. Por isso escreve. Escreve para se doer um pouco mais. A dor, ele descobriu, tem um poder curioso: traz imagens vívidas, cheiros esquecidos e vozes que ninguém mais ouve. É como espetar agulhas em si mesmo para despertar fantasmas adormecidos. Quando tudo mais falha, cria um campo fértil, onde as palavras são semeadas e colhidas com um cansaço resignado. À noite, pernoita com os olhos postos em criaturas invisíveis, no meio de florestas onde os animais — selvagens e poéticos — exalam versos no escuro. Lava o rosto numa pia onde corre lava fria. Não há manhãs tranquilas. A escrita nunca lhe dá descanso. A vida à sua volta, com todos os seus ruídos, é o livro que ele ainda não terminou de escrever. Cada momento, cada pessoa, cada gesto, é uma linha por decifrar. Ele escreve porque, ao escrever, entende-se. E porque se entende, resiste. Os pulmões enchem-se, as ilusões retornam, e a morte fica adiada por mais um dia. Quando se dá conta, está sozinho. O seu corpo já é uma ilha. Uma ilha rodeada de livros que ele próprio construiu — página a página, lágrima a lágrima, respiração contida. E ali, naquele silêncio onde poucos se atrevem a chegar, o homem respira finalmente. Não é um respirar fundo, como fazem os que nada temem. É um respirar pequeno, quase imperceptível, mas suficiente para continuar. Amanhã, ele dirá ao menino outra vez: “Cresce”. E o menino acreditará — por mais um dia.
 
A Ilha Cercada de Palavras

A Sincronia do Desalinho

 
Escuto-te como quem contempla um incêndio antigo a devorar o horizonte, um fogo que arde sem pressa, como se soubesse que o tempo é seu aliado. As tuas palavras chegam-me como brasas levadas pelo vento, que cruzam o ar sem tocar a terra. Vejo-te avançar, preso a uma coleira invisível, e cada passo teu ressoa como um trovão distante, como se o chão tremesse por respeitar o peso da tua cólera contida. Falaste-me de alturas, de vistas que enganam. Observo-te descer, não como quem cai, mas como quem retorna ao ventre do desconhecido, um voo ao contrário. Há algo de ritual no teu movimento: tu não perdes altitude, tu entregas-te a ela, como um pássaro que entende que a gravidade é apenas um convite para repousar no inevitável. E a superfície, quando te acolhe, exala o aroma antigo das ferrugens do passado, como se guardasse, no silêncio profundo da terra, os ossos de tudo o que foi esquecido. Quando dizes que fizeste um filho à solidão, vejo-te à beira do silêncio, num quarto onde o ar pesa e o lume já não aquece. Moldas pedaços de vazio em criaturas frágeis, feitas de tinta e eras, poemas que tremem entre ser e não ser. Observo-os como quem olha um ninho suspenso no galho mais alto — pequenos demais para o céu, grandes demais para o esquecimento. Vejo-te sonhar com peixes que voam e mares que se dobram como lençóis. Há algo de bruto e belo nos teus sonhos: são eles que desafiam os limites do que se pode tocar. Permaneces entre o concreto e o impossível, lutando com o invisível, chamando os astros como quem grita num deserto, mesmo sabendo que o eco não responde. Observo-te debater-te contra correntes sem elos, libertar braços que nunca estiveram presos, porque as tuas algemas são feitas de vontade — e há grandeza nisso. És um relógio sem ponteiros, o único capaz de marcar a passagem do desalinho. A faísca que temes é a mesma que te dá forma, um fogo que dança em ti, não para te consumir, mas para te eternizar. Se a vida é uma cidade com ruas apertadas e luzes que vacilam, és aquele que caminha atento às sombras, à procura do que se esconde nas esquinas. Observo-te de longe, em passos, em voz. Os ciclos continuam a girar, mas no teu silêncio partido em dois, ouço a única verdade que importa.
 
A Sincronia do Desalinho

Para quem tem ouvidos, eu mando bocas

 
Caríssimos Sucupirenses! Queridos e atentos cidadãos desta terra, honrados veteranos do nosso seleto grupo de observadores e ouvintes de primeira linha! Permitam-me erguer a voz neste centro glorioso, onde a praça é o parlamento e o banco é o trono.
Ah, Sucupira! Terra onde até o vento sabe cochichar, onde até o sabiá conta as novidades! Aqui, meus caros, a quinta-feira não é um dia qualquer: é dia de audiência pública, de inspeção, de apuração. Sentamos em volta desta praça como os nobres senadores, atentos aos movimentos de quem passa e de quem fica. Ora, que venham, pois estamos prontos! Afinal, não existe assunto pequeno para o ouvido bem treinado de um sucupirense.

E cá estamos, numa praça onde até o silêncio é fofoqueiro, e os bons dias vêm temperados com perguntas que mais parecem um interrogatório: “Como está o seu marido, ainda trabalha na capital?” – como se o marido já tivesse dado entrada na caixa. “E o seu filho, é verdade que casou com a fulana da loja de tecidos?” – como se fosse uma união secreta da realeza! Vejam bem, em Sucupira, as perguntas são feitas com o entusiasmo de quem não quer perder uma vírgula.

Mas digo-vos, queridos, a fofoca, aqui em Sucupira, é mais do que um hábito: é uma tradição cultural! Alguém por acaso se lembra do que existe além dos muros da nossa amada cidade? Ora, ninguém tem tempo para o mundo lá fora! Se é que ele existe mesmo. Aqui, a vida de cada um é a nossa própria novela. E que novela! O drama da semana passada, o mistério de ontem, a revelação do dia de hoje!
E quando a boca é bem informada, o ouvido é todo atenção.

Permitam-me, então, que eu mande aqui uma palavra de respeito e gratidão aos que sabem ouvir e sabem falar. A esses senhores e senhoras que compõem o fiel público deste espetáculo sem fim que é a nossa cidade. Pois de que vale uma boca sem um ouvido atento, não é mesmo? E aqui, meu povo, a audiência nunca falta! Sucupira inteira é uma grande sala de estar – e o sofá somos todos nós, alinhados e prontos para acolher a conversa.

Ah, que nunca nos faltem as notícias frescas do padeiro que chegou tarde, da professora que mudou o penteado ou do vereador que foi visto com aquela prima da vizinha do irmão do cunhado… E assim seguimos! Para quem tem ouvidos, eu mando bocas! E que este ato de bem informar seja o elo que nos une, a cola que nos mantém.

Então, Sucupira, pode continuar sentada nos seus bancos e firmando os olhos no que interessa. Pois, enquanto eu tiver voz e vocês tiverem ouvidos, nada nos escapará. E assim seguimos, firmes, na nossa mais nobre tradição: a de contar a vida dos outros, com elegância e precisão!

https://dialogopoeticosilencioso.blogspot.com/
 
Para quem tem ouvidos, eu mando bocas

AcoRda CaoS

 
queime os mapas,
o incêndio não pede permissão,
sopro que vem de outro tempo,
segredo que se dissolve na espera,
deslize dorsal irrepetível e único—
um arrepio longo.

abra os olhos e sinta
o que nunca foi visto,
vá além do jugo do impossível,
atravesse poentes invisíveis,
destrone a lógica,
rasgue a ordem escrita em pedra,
cante com a língua dobrada ao caos,
nome que ninguém lembra,
desdobre o véu que cai,
respire de novo o novo.

quebre os limites,
deslize sobre a explosão da escuta,
a música rói o silêncio contra o espelho,
ao soletrar versos pela boca.
seja absurda[mente] respiração,
na curva, dissolve-se líquida voz,
desacate o instante e os sentidos,
incendeie o fazer novo.
 
AcoRda CaoS

Dentro Mar

 
Dentro Mar
 
dentro mar,
mar adentro,
no mais dentro mar,
perto do precipício,
onde a rebentação rasga pássaros em voo,
barcos engrenados em sede,
sem bússola, sem freio, sem dono,
desnuda-te frente ao coração em chamas,
contorna o relógio lunar,
abandona a ordem,
desafia o tempo,
suspende o movimento.

a desmastrar o medo,
destrói os portões, os dogmas, os muros,
perdes-te em mordidas fundas,
a curva inteira a marulhar
no ventre indomável da maré.
geme, ruge, insurrecta,
o tom sobre o som da entrega,
o desejo em revolta,
a penetração exata da insubmissão,
o alicerce incendiado de um mundo dissoluto.
lança primeiro o corpo,
contra a contramão pulsante da sombra febril,
contra a mão do tempo que dita,
contra a mão da ordem que cala.
diante de nós, o ofício dos gestos,
livres, sem nome, sem leis,
somente corpo, onda, incêndio.
 
Dentro Mar

Chego sempre depois da maré

 
Chego sempre depois da maré,
Ressuscito caminhos esquecidos na areia,
Desenho mapas na memória das águas,
Que carregam segredos para a lua observar.

Piso suavemente sobre o tempo desbotado,
Revivo o que o sol e a salmoura tentaram apagar,
Nas pegadas, a história se reconta,
Um sussurro de ondas trazendo o passado à tona.

Sou a ressaca que reconstrói o castelo de areia,
A brisa que reordena os grãos em nova esperança,
E na linha tênue entre o ir e o ficar,
Encontro a essência de todas as partidas e chegadas.
 
Chego sempre depois da maré

O Dia em que o Tempo Devolveu

 
Passei de carro e, juro, vi a flor no asfalto. Mas a flor mal teve tempo de me emocionar, porque logo o farol do meu carro iluminou uma cena ainda mais surreal: um escritor, aparentemente famoso pela cara de desamparo dramático, apanhava de uma mulher com pouco mais de meio metro de altura. Sim, em plena estrada, no meio do nada, com o cosmo e eu a assistir — ou melhor, só eu, porque a estrada estava tão vazia quanto a fé de Sucupira em dias sem fofoca.
Era noite alta, e o cenário parecia saído de um show mal ensaiado. A mulher desferia golpes precisos de judô, karatê, jiu-jitsu, kung fu, boxe, capoeira, muay thai — uma mistura sinistra de tudo isso — enquanto o escritor tentava esquivar-se com a graciosidade de um elefante num campo de tulipas. E eu? Reduzi a velocidade, quase parei. O volante entre as mãos parecia distante, a minha atenção totalmente roubada pela cena. Não era só curiosidade; havia um estranho prazer em assistir. Que delicinhaaaa!
Como é que aquele escritor se metera naquela situação? Seria este o mesmo homem que tentara, num poema infame, urinar contra o Tempo? Pois bem, o Tempo agora devolvia o favor. Era como assistir a uma justiça cósmica, mas também uma metáfora descarada: afinal, quem nunca apanhou de algo que achava ter dominado?
O mais fascinante era que o homem não corria, porque, afinal, não havia para onde ir no meio do nada. Nem sequer pedia socorro; parecia que a voz lhe faltava, como se a poesia tivesse fugido do peito. Aceitava cada bofetada como se fosse o preço a pagar por ser quem era. Talvez fosse mesmo. Ele era conhecido em Sucupira por metáforas absurdas e por circuncidar leões acordados. Mas, ao que parece, nenhuma dessas proezas o preparou para enfrentar tanta "ternura" numa estrada deserta.
Enquanto eu assistia, um pensamento incômodo crescia: por que não fazia nada? Poderia abrir a janela, gritar algo, pelo menos buzinar. Mas fiquei imóvel, cúmplice do absurdo, como se aquele espetáculo fosse uma peça escrita para mim e a única regra fosse não interferir. E se eu atrapalhasse a lição que ele parecia estar a receber?
Quando ela terminou o serviço — porque, sim, houve um fim e eu vi pelo retrovisor —, levantou-se como quem acabara de encerrar um espetáculo. Sem olhar para trás, entrou no carro, ultrapassou-me com uma serenidade angelical e desapareceu no escuro. E o homem? Ficou lá, sentado no meio da estrada, iluminado apenas por uma luzinha ao longe, dessas que balançam no ar em show sertanejo. Talvez esperasse por Deus, por um amigo ou só por coragem para levantar.
Enquanto o carro dela sumia, só pude pensar: que ternura furiosa, cansada de ser apenas "inspiração". Ou seria a própria vida, disfarçada de meio metro de raiva, a lembrar ao escritor que a poesia é bonita, mas não o protege de pancadas quando menos se espera?
Psicologicamente, a cena tinha tudo: a teatralidade de um duelo, o absurdo de uma peça de Ionesco e o humor involuntário de uma comédia barata. O escritor parecia representar todos nós — vulneráveis, apanhando daquilo que não entendemos, enquanto o mundo (ou, no caso, uma sucupirense curiosa) só observa. E eu? Talvez representasse aquele olhar que escolhe o conforto da distância, enquanto a vida acontece em close-up, brutal e honesta.
No final, continuei a dirigir. Mas confesso que ainda pensei em quem faria a crónica primeiro, se ele ou eu. Só que não o fiz. Porque, afinal, a flor no asfalto e o poeta na estrada têm algo em comum: ambos existem para nos lembrar que a vida é ridícula, imprevisível e, acima de tudo, incontrolável.
E talvez isso seja mesmo poesia. Ou só azar.
 
O Dia em que o Tempo Devolveu

Disfarces de Marias

 
Disfarces de Marias
 
Marias pairavam sobre as feiras, os pubs e os cabides de liquidação como pombinhas em penitência, orbitando um nada qualquer com a ilusão de liberdade. Ah, pobres Marias, que confundiam movimento com fuga, esquecimento com redenção. Como se o tempo, esse velho embusteiro de cartola puída, tivesse intenção de passar. Como se ele não se deliciasse em dobrar esquinas e dar de cara com o próprio rastro.

Cresciam, mas sem substância, sem peso. Cresciam apenas como cresce o eco numa sala vazia. Condenadas ao compasso morno de um dia que se repete, sem nunca se completar, deslizavam por entre suas rotinas como figurantes de um enredo sem autor. Amavam-se, porque era isso que as mocinhas bem-intencionadas deviam fazer, como se o mundo fosse um espelho mal polido, refletindo suas verdades sem contestá-las. Afinal, maridos, preconceitos e filhos estavam lá, mas quem disse que era papel delas questionar o imutável? Melhor bordar a resignação com fios de autoengano.

Vestiam-se de freiras, bruxas, Chanel — encharcadas em disfarces que apenas sofisticavam suas prisões.
A moda mudava, mas o olhar se mantinha imóvel, previsível, feito eco de anteontem. No fundo, o único luxo verdadeiro que se permitiam era uma ternura distraída por aquilo que temiam entender: o desconhecido.

Na praça, lá estavam elas, abraçadas umas nas outras, rumurosas certezas que nunca furavam a crosta do senso comum. E diziam, num suspiro trágico de quem descobriu o segredo do universo e não gostou:

— A verdade, Maria, mora exatamente onde minhas mãos não alcançam, onde meus olhos se perdem... Concordas?

— Ai, Jesus... Mas que nos poupe da revelação.

E o tempo, esse cafajeste incorrigível, dobrou-se sobre elas como um véu que encobre sem nunca revelar.
 
Disfarces de Marias

Tempestade Que Não Pede Permissão

 
Onde só quem escuta o silêncio
sabe que nunca estive ausente.
Sou presença na solidão das árvores,
e por razão alguma—
Recomponho o vento,
refaço destinos,
exilo-me dos nadas.
Amo o zumbido das abelhas,
carregam segredos nas asas.
Deixo os vendavais falarem em meu lugar,
abro o peito para fogueiras inomináveis,
engulo orações sem nome.
Faço da ausência um dilúvio,
sou a falha na arquitetura dos dias.
Fragmento de sol que corta a noite,
sombra e incêndio,
divido-me em luz e ruína.
Ressuscito a boca sem pedir clemência,
escorro entre frestas impenetráveis.
Reviso o silêncio até que grite,
desvio das veias do verbo,
crio atalhos no pulso.
Não caminho – precipito-me.
As mãos do relâmpago atravessam-me,
adormeço onde o tempo se dobra.
 
Tempestade Que Não Pede Permissão

A Casa do Poema

 
A Casa do Poema
 
Era um lugar onde o tempo hesitava. A pedra e o pão dividiam a luz de uma mesa sem cadeiras, enquanto o vento, inquieto, entrava pela janela, como se fosse o guardião. O aroma não era um vazio; era uma presença em surdina, um diálogo sensível que escrevia palavras invisíveis nas margens da tarde. O sol, uma promessa esquecida, inclinava-se sobre o horizonte como quem desiste. O céu, cansado, guardava em seu bolso o eco das perguntas que ninguém fez. E, no espelho do corredor, havia um rosto que nunca pertenceu por completo a quem o olhava. A água escorria do copo esquisito, desenhando mágoas que o calor não sabia derreter. O vaso, órfão de flores, segurava o sol como se este fosse apenas uma moeda antiga. Sombras riscaram o chão em geometrias inúteis, e as ilusões, tímidas, esconderam-se nos cantos. Havia silêncio. Mas o silêncio ali era vivo, um corpo pulsante, um poema a crescer. Os mortos esperavam, imóveis, pelo barulho que nunca vinha, enquanto o firmamento dobrava-se como um lençol gasto, incapaz de cobrir o vazio. Era ali, naquele quilómetro sem nome, que as palavras respiravam. Elas germinavam onde ninguém acreditava, como uma melodia inacabada, como uma casa que se constrói dentro de quem a habita. E, quando a porta se abriu, não foi o mundo que entrou, mas o silêncio que, enfim, se fez carne.
 
A Casa do Poema

O que me desenha

 
O que me desenha
 
Este é o espaço onde a memória repousa,
um solo onde o tempo descansa como poeira dourada...
... e raízes encontram o céu por dentro da terra.
Os caminhos não seguem lógica,
são linhas traçadas por passos
que ecoam em abismos invisíveis.
E se o silêncio fosse a única resposta?
O que restaria, então?
As minhas mãos, abertas ao vento,
não seguram histórias – deixam-nas partir.
Cada página que o ar toma é uma despedida,
um pedaço do livro que fui e que agora flutua,
guardado em órbitas que só o vazio compreende.
Há um som distante de folhas ao vento,
um cheiro de terra húmida,
mas também uma ausência que pesa.
O coração, sempre atento,
ouve o movimento secreto das coisas que não se veem.
As estações passam como ruído de luz...
... não deixam sinais no chão,
mas sim nas sombras que dançam entre as horas.
Nada realmente se desfaz; tudo persiste,
como um eco moldado pelo silêncio.
Carrego versos que não pertencem ao mundo...
... mas habitam a fronteira entre o visível e o que arde.
Escrevo para construir o que não existe,
para transformar o que foi perdido
em algo que respira novo.
Este é o meu alicerce:
um oceano sem limites,
um enigma que me desenha e se apaga ao mesmo tempo.
E se existir fosse um poema que ninguém lê?
Apenas sente, enquanto flui,
deixando marcas onde ninguém vê.
 
O que me desenha

Céu Desdobrado

 
Céu Desdobrado
 
Impronunciável, a vida
estica-se além do tempo,
como se cada instante fosse líquido,
um salto invisível na pele do vento.

Fecham os olhos,
desfazem-se em liberdade,
despencam para cima,
onde o ar é um Criador sem rosto.

Vagarosamente, asas brotam da dúvida,
e o impulso se curva ao voo.
As aves reparam os passos do horizonte
enquanto o céu aprende a caminhar.
 
Céu Desdobrado

Um Ditado

 
Um Ditado
 
Em uma floresta onde o olhar se perde,
uma criatura com penas de rei se esconde.
Seu baile, sob a lua, é um segredo
que a noite guarda sem revelar ao dia.
Ele dança onde ninguém pode ver,
mas deixa uma trilha de cores no ar,
pergunta-me agora, se ousar:
Quando ninguém vê, a dança deixará de ser?
 
Um Ditado

O Abismo que Respira

 
O Abismo que Respira
 
Há um mar onde o tempo não se curva e as margens nunca existiram. Um mar que se nega à cartografia, onde bússolas enlouquecem e astrolábios se dissolvem como açúcar na língua. Nele, um barulho incessante pulsa sob a pele líquida do mundo,
um ecossistema costeiro, um monstruoso adorno que respira na cadência das ondas.
Eu já fui. E voltei. Retornei com o sal entranhado nos ossos e um olhar que não se esgota. No peito, ainda ressoam os estalos das velas rasgadas pelo vento do indizível. Agora observe, não com a indiferença dos que hesitam à beira do precipício, mas com a sabedoria de quem já se dissolveu e emergiu de volta, não igual, mas outro.
Já estive no epicentro do furacão, onde os gritos não encontram eco. Já vi os pássaros partirem sem deixar sombra e senti a pele do oceano se abrir para engolir a luz. Aprendi que o abismo não pede, mas exige. Que não é o corpo que se afunda, mas uma ideia de si. E que, para ir além do além, é preciso primeiro rasgar-se em silêncio, dissolver-se no inaudito.
Agora, do outro lado da travessia, vejo os que hesitam na borda do desconhecido, olhos cravados no horizonte como náufragos de terra firme. Perguntem sobre o fundo, sobre as sereias e os monstros, mas nunca sobre o silêncio que tudo engole. Não sabemos que há uma linha onde os nomes se desmancham e só resta a substância crua da existência.
Mas o além não se descreve. O além se pressente, se escuta no marulhar das marés, se sente na contração do peito antes da queda. Ele não precisa de testemunhas, mas de cúmplices.
E aqueles que nunca partiram talvez nunca entendam. Mas aqueles que já se lançaram, que já se diluíram no oceano sem margens, sabem esses. E, no mais íntimo do olhar, carregam o mesmo segredo: não há volta para quem já tocou o infinito.

Imagem: Paulo Abreu - Brazilian Visual Artist
 
O Abismo que Respira

Tiro no Pé - Eco Distante

 
Em círculos de sombras tecidos,
Onde ruídos dançam com o silêncio,
Muitos se escondem, firmes, decididos
A criticar o que brilha com incandescência.

Com ardor, defendem seu recanto solitário,
Proclamam a pureza do seu isolado canto,
Mas ao julgar o brilho alheio, extraordinário,
Não veem que cegam o próprio encanto.

"Permaneçam no eco do eco", dizem,
Como se o silêncio fosse ouro,
Esquecendo que no palco do mundo, enfim,
Cada voz acrescenta um novo tesouro.

Ao desdenhar o desvario e a paixão,
E ao pintar a arte alheia como desacerto,
Miram, sem ver, no próprio coração,
E disparam, sem querer, no próprio peito.

Será que não percebem que o tiro, ao findar,
Não só fere o alvo, mas também o atirador?
Cada crítica áspera ao expressar,
Ecoa de volta, ampliada em dor.

Que escolhamos, então, celebrar cada tentativa,
Cada esforço para tocar o céu estrelado,
Pois é na imperfeição que a arte cativa,
E em cada falha que somos iluminados.

O tiro no pé, uma lição aprendida,
Nos ensina que no eco dos julgamentos,
Encontramos uma voz, outrora perdida,
Que canta, apesar dos confinamentos.
 
Tiro no Pé - Eco Distante

A Realidade, as Aves e o Silêncio

 
Entendo que, ao chamar a realidade à realidade, procuras o nome certo para aquilo que flutua no indizível. As coisas são — apenas são — mas nós insistimos em vê-las pela geometria dos nossos olhos. Eu também já quis medir o mundo com números e variáveis, como se um fruto pudesse caber no frio exato de uma equação. Mas a centrifugação da vida, o movimento inevitável, destrói todos os labirintos que desenhamos. Não há linha reta que resista à queda. Falas do poeta como insaciável metafórico, e percebo-o: também o sou, talvez menos habilidosa, mas igualmente sedenta. Criamos imagens como quem escava a areia fina à procura de um fio de ouro escondido no caos. As cicatrizes que mencionas, os tempos verbais cravados no peito, doem por não pertencer ao passado. As palavras vivem aqui, no agora, e a ave que chora dentro de ti talvez tenha irmãs em mim — aves de silêncio, talvez de grito, que esperam que as libertemos. Mas nenhuma ave quer ser adorada. Não escrevemos para sermos louvados. Precisamos partir o silêncio em dois, como quem rasga um véu para enxergar o outro lado. Não é estética, nem vaidade — é urgência. Um ato quase mecânico, como respirar, mas onde o ar vem carregado de música e de cansaço. Por isso, recebo as tuas palavras como quem recolhe pequenos fragmentos de vidro, sabendo que podem ferir, mas que, na luz certa, refletem beleza. A poesia é essa dualidade: a ameaça e a revelação, o fruto e a variável, o voo e o peso. Chamar a realidade à realidade, então, é um esforço de nomear o inominável. Tu semeaste as palavras; eu só tentei escutá-las antes que voltassem a flutuar.
 
A Realidade, as Aves e o Silêncio

Coexistência da Vox

 
Persistirá o tempo mesmo sem o tic-tac.
Ocultar-se-á o abrigo, mas a essência da morada permanece.
Novos horizontes nascerão de ventres invisíveis.
Tecerá o divino sua trama, mesmo sem olhares a contemplá-lo.
Ousará a loucura encontrar poesia no absurdo.

Esquecer-se-á o amor do repouso, mas nunca do desejo.
Vazio será palco para o infinito que não cessa.
Indagações perderão as respostas, mas não o eco.
Renúncias se moldarão em novos começos.
Grande é o silêncio onde tudo dorme e tudo desperta.

Uma nova linha sempre haverá de ser escrita.
Louvará o Homem o nada, reconhecendo-se no tudo.
Absolutamente absorto e infindável.
 
Coexistência da Vox

Bem-vindos ao meu refúgio, onde desvendo os mistérios da mente humana através da neurociência e da arte da palavra. Sou uma simples pessoa que, nas horas vagas, se torna escritora, explorando o mundo através da observação. Amante das artes e da diversi...

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