O jantar e o fim da vida
Em sua frente, na sala, havia banquinhos perto das pernas.
O da direita exala vapor vindo de um prato de comida,
Contendo em certa quantia: feijão, arroz, carne de panela e farinhas.
O da esquerda carrega pote de salada com cada ingrediente feito pela sua amada.
O sofá acompanha ele e os netos, que já comeram, pois comiam sem companhia.
E ali, ninguém sabia, somente Deus, que aquele pobre homem esqueceria,
Não só de comer, sua esposa, netos, mas também da filha,
Dentro do trem às 16:00 voltando de um trabalhoso dia.
E o fim chegou,
Pelado com desconhecidos,
Sofrendo sentado,
Esquecendo,
Movimentos
sorrisos
sonhos
dasafi…
Um ato de amor:
Chamam seu nome,
Mas nunca
Foi
Vô
marido
pai
filh…
Acho que vai chover, hein?
Ao céu empoeirado que instiga o meu ser
Abrange os olhos com o resplendor das nuvens
Trêmula os ouvidos com a chegada dos trovões
Obrigado, a alma se contenta
Não há culpa entre paredes frias
A porta encostada refere-se a proteção e não a covardia
A cama de cores diversas está vermelha
Não pela cor, mas sim pelo amparo
Quando você se for, terei o sol ao meu favor
A radiante saturação dará vida ao meu redor
Os passarinhos cantarão o que tem de melhor
E mais uma vez direi: obrigado, céu empoeirado
Pois trato o oposto como se tivesse o ganhado
Simplesmente abrindo a janela
Dê ao pano de prato uma família
Que toda fé, coisa, alguém
— ou destino!
Não me faça lavar louça
suja somente por mim.
Ter preparado a janta
para uma boca só.
Comida que escolhi
sobre a fome que tive.
O tempo sozinho me deu
tudo isso!
Se acaso aconteça,
guardar prato no armário,
seria uma tristeza.
O Gosto do Dia
Dedos dobrados como duas garras,
Eu, vejo elas se aproximarem
Até os lábios com duas serras.
Os vastos resíduos, que aderem
À minha boca o gosto do dia,
Se misturam, onde estiverem.
Neste ato cheio de pura ânsia,
Minha bolsa de carne é ferida,
Uma consequência da teimosia.
E com uma inocente mordida,
Engoli a sujeira da cachorra,
O sebo da espinha espremida,
Coliformes fecais da minha tela,
Suor seco da mão comprometida,
As comidas que ficaram no ralo,
Catarro retirado da narina,
O sangue e pus de uma ferida…
Bem, eu deveria ter escutado
Um simples aviso da minha mãe:
“Psiu! Tira a mão da boca, menino!”
Vontades
As coisas comuns não me animam.
Não quero casa, ela nunca será minha. Não quero a vontade de ter filho, quero a certeza que posso ser pai e isso não tem nada a ver com espermatozóide e óvulo. Não quero casar por conta do sexo, nunca escutei dele na lista de saudades de uma viúva. Quero amizades em que a fala séria é escutada, que a brincadeira acaba em risada. Sem vergonha nenhuma de mostrar a criança guardada, sem vergonha nenhuma de expor o adulto rancoroso.
Talvez eu queria viver em uma época que nunca existiu.