Sonhos açucarados
Encontrei a madrugada comendo sonhos
açucarados e percebi que eram os meus que escaparam dos meus olhos insones por querer a doçura de outro olhar.
O mar poderia ser a mar
Se lágrima fosse suficiente
para ser mar e a sujeira
do mundo fosse lavada por ela
...Não haveria terra firme
O sal das lágrimas faria oceanos
infinitos.
E, quem sabe, o mundo se dissolveria,
junto com sua crueldade,
nas mares de quem sente.
Mas o mundo...
... o mundo parece impermeável à
dor alheia.
Inunda-se, mas não se lava.
Não participante do evento "Estação das Letras"
Fragmentação
A madrugada entregou-se
em fatias ardidas
para o dia com céu em estilhaço
com justa causa a ferir o chão.
Na insurgência do tempo, palavras
acomodavam-se nos vãos das horas
como antigas estatuetas
sem cor na memória a observar
o rastejo de sentimentos
em assoalho áspero de histórias.
Despinhos
Os espinhos vieram;
trouxeram pressa,
trouxeram ruído.
O que encontraram
em mim?
- um chão que não corta,
- um peito amaciado.
Eles tocam
e desfazem-se...
e eu como fico?
Florindo.
Estações filosóficas
Primavera
No broto frágil
já pulsa o infinito _
vida desperta
Verão
Sol em excesso,
a terra queima e canta:
somos ardência
Outono
Folhas descem lentas,
mostrando que cair
também é caminho
Inverno
No frio silente
o vazio guarda em si
semente oculta
Quando aqui é setembro
eu floro
Vento
Às mãos do vento:
entrega-se a rocha
ao polimento.
Trânsito interno
Luzes mudam,
ninguém espera ninguém
na esquina do tempo
A cidade passa.
Eu fico parada
por dentro.