Ração com sabor a pátria
Nação que só nos dá ração,
Com ou sem inflação,
Aqui andamos oprimidos
De coração nas mãos
À espera de uma nova nação
Como a poderosa e antiga,
Mas a ação é pouca
Para tal privilégio.
Haiku - Boémia Ventosa
Tasca boémia
Ó ventos de outrora
Antes da alva.
Prosa Poética sobre Águas, Verões e Pensamentos fugidios
Naquela tarde de calor e de uma humidade ridícula, joguei o meu próprio “próximo de se tornar cadáver” para uma piscina. O choque térmico entre a minha pele já encharcada de suor ao sentir o toque da água plana e clorada leu-me a sina, gotas de morfina pareciam atravessar, salpicar e formigar a minha barreira sanguínea. É de realçar que já havia tomado algumas bebidas previamente. O verão acabava no calendário e começava ferozmente na minha alma. Os amores de verão que não tive, os néons que não me cegaram em festivais, todas esses arrependimentos supérfluos e os menos frívolos esvaneceram entre a água e o corpo. Passagens literárias de autores irreverentes e alguns até sujos inundaram-me assim como a água me deixou. Inundado! Apenas com as minhas vias respiratórias fora de água, emulei a vida: fiz a posição do “morto” naquelas águas sem marés, mas repletas de resvés naquela tarde escassa em histórias. Esqueci os estranhos que haviam à minha volta (não era privado aquele poço azulado), ou talvez os estranhos fingiram que não viam toda’quela situação para não se sentirem envergonhados com a minha auto-veneração. Pensei nos marginalizados e o quão românticos eram eles, e patéticos os integrados neste mundo visivelmente degradado…
Será que existe bom e mau burlesco? Pensei eu. Talvez exista o bizarro e um outro um pouco mais erótico. No entanto, o segundo adjetivo por vezes é interligado ao primeiro pelos mais perversos e escondidos melancólicos. E o primeiro desconectado do segundo pelos púdicos visivelmente mentirosos. Boémio solitário, fumador ávido, complexado e por vezes narcisista convulso, continuo a autointitular-me de “novo”, a minha mente reivindica, o meu corpo desconfia de tal ego, o espelho mostra-me contradições, ah que punições sofro no meio deste opiáceo artificial que me corre neste corpo que tento não enrugar com pensamentos de verões desperdiçados e invernos esperançosos!
Soneto – Não há quem queira
Indecisões em tempos de espera,
Que horrores criamos na mente!
Não há quem queira
Sentir o lugar onde não há gente.
Noites de cansaço, noites…
Sonhos de fracassos
Onde tudo o que imagino são açoites,
Acordando sentindo-me aos pedaços.
Café torrado,
Cigarro inalado,
Assim começa o dia de quem anseia.
Não há quem queira viver assim,
Mas quando chega à hora
Tudo isto me chateia!
Soneto - Os calados e os alados
Sistemas imperfeitos anestesiam tudo,
Tudo o que é perfeito
Torna-se mudo
Sem alento e preceito.
O legislativo conta a anedota,
O executivo percebe a piada.
Continuamos a ser o alvo de chacota,
E nossas vidas suas criadas.
O judicial conta as notas,
Entretendo-se com as quotas
Do povo curvado e penetrado.
Laborem! Dizem eles entrelinhas
E entre cortinas,
E o povo aqui, desalado.
De cabisbaixo
Andavam sisudos
Por trabalhos carrancudos
Pagos por estúpidos,
Ainda aqui andamos
De cabisbaixo
À espera de salários
Menos baixos.
Ó inflações,
Regras impostas por não-eleitos
Aos eleitos ao degaste
E ao cinzento que paira
Na mente dos que ouvem
Falar sobre a futura nuvem carregada
De choros secos que se aproximam
Quase sempre.