Poemas, frases e mensagens de rebecarocha

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de rebecarocha

O eco do silêncio

 
 
Cresci antes do tempo, na sombra de um gigante,
Quatro anos de infância roubados num instante.
O monstro vestia a pele de um homem de bem,
Amigo da casa, confiava-lhe alguém.
E na mesa posta, onde a fé era o escudo,
O lobo inventava o seu reino de tudo.
Aos treze voltei a morrer no mesmo altar,
Onde a culpa do mundo me tentou vergar.
Disseram que a mulher tem de ler a maldade,
Calaram as lágrimas da minha tenra idade.
Eu disse que não com o corpo e com o olhar,
Mas a bota do monstro continuou a esmagar.
Hoje voltas, na teia da rede virtual,
Para ver se a ferida ainda sangra igual.
Sondas a vida, o perfil, o pormenor,
Procuras o estrago do teu ato de horror.
Mas o poço de dor onde me quiseste afogar
Virou um oceano que te vai devorar.
Não criaste uma vítima cega de pavor,
Criaste o fogo que queima o agressor.
A dor fez-se escudo, a raiva fez-se lei:
Pelas mulheres que amo, o monstro serei.

O primeiro monstro se chamava Luís.
O segundo, Cláudio.
 
O eco do silêncio

Permanência

 
Permanência

Eu pensei que poderia impedir a tua chegada, mas de nada adiantou a minha vontade. És rebelde, e há bandeiras de perigo que gritam o teu nome em todos os meus montes.
Cavaste um rio dentro de mim, e agora percorres a minha existência num fluxo que não pede licença.
Queimo as minhas antigas raízes enquanto a lembrança do teu orgasmo invade a minha carne. A tua chama é o oxigênio que me sustenta, mas o teu silêncio é a minha dor.
No teu mar, não tenho bússola, não sei ler os teus mapas, e temo não encontrar abrigo em terra de ninguém!
Meu Deus, há uma fogueira em mim! Faço-a com os carvalhos do teu navio.
A chama arde, mas tu não estás à beira dela.
Vem! Quero tanto te aquecer! Tenho tantos braços para te matar o frio!
Se tiveres sede, dou-te de beber com o vinho que escorre do meu peito.
E, com o mel que brota entre as minhas pernas, alimento-te a vida!
Não percebes? Não vês que fomos feitos um para o outro?
Os meus cabelos trazem o teu cheiro, minha pele guarda as tuas digitais.
Está tudo aqui, e é teu!
Vem exigir o teu direito sobre a minha vida. Vem criar jardins no teu terreno!
Não deixes que outro invada a tua casa, que roube a tua cama.
Aqui, no meio do meu colo, é o teu lugar de repouso.
Sou tua.
Mesmo que eu não queira, sou tua!

Rebeca Rocha
 
Permanência

Carne Viva

 
Veneno que escorre do teu beijo para os meus lábios desnudados. Tenho a boca aberta, a língua exposta, como quem diz: «Afoga-me e mata-me.» Porque eu aceito morrer em ti.

Sussurra ao meu ouvido os teus segredos obscenos. Coloca na minha garganta cada verso do teu maldito amor. Condena-me ao teu desejo, cavalga-me com o teu verbo, fode-me e explode dentro de mim o teu universo. Ama, com verdade, a minha carne. Ama a minha fragilidade, o meu corpo cru, inteiro e vulnerável.

Mata em mim essa necessidade de ser acolhida, de ser mantida na tua pele, como se nunca tivéssemos sido coisas separadas.

Segura os meus seios entre as tuas mãos e alimenta-te daquilo que um dia dará vida aos teus filhos. Olha-me nos olhos. Colhe-te em mim, planta-te em mim e farta-te de me engolir o suor doce.

Diz que me odeias todas as manhãs, porque sabemos que sou a tua fragilidade.

Segura o meu rosto como se ele pertencesse às tuas mãos, como se fosse uma peça que só pudesse encaixar em ti, impossível de ser moldada em qualquer outro lugar, porque se coseu à tua pele.

Enrola-te no meu colo. Fragiliza-te. Liberta-te daquilo que precisas ser para o mundo, mas não para mim.

Muda a tua vida. Muda a minha. Nasce e morre comigo. Planta comigo os teus dias. Escolhe com cuidado o teu propósito.

Tens apenas uma vida.

Sou eu.
 
Carne Viva

Dom Quixote

 
A noite avança e eu insisto:
Escrevo poemas que nunca alcançarão os teus olhos
Choro lágrimas que nunca secarão nas tuas mãos.
No silêncio, sou um livro fechado
Um nome ecoa dentro de mim:

.....

Adormeço e desperto na órbita do teu pensar
Guardo, como relíquias, retratos e pinturas
de amores que jamais seremos,
retratos de histórias que não escreveremos juntos

Na minha mente, és meu Dom Quixote perdido,
e eu, tua Dulcinéia invisível
No nosso enredo sem Sancho, sem dragões, sem moinhos,
há somente a urgência de sermos um do outro
e a escolha de não sermos de mais ninguém

No nosso enredo, beijamos cicatrizes que nunca tocaremos.
Nos salvamos das dores que nunca partilharemos.
Na nossa história de papel e vento,
eu sou, e tu, és.
És sem medo, sem escudo, sem chão.
E nós... somos

Mas nunca, nunca seremos

E, nunca lerás este poema,
nunca adentrarás a porta desse abrigo frágil.
E no soluço rouco e mudo de mim para mim mesma,
repito: nunca seremos.

E, nunca lerás este poema,
nunca ouvirás minha voz na tua madrugada,
nunca tropeçaremos nas esquinas da cidade
Nunca seremos, verdadeiramente,
um do outro, embora eu já seja tão tua
E vc, nada meu

Não és digno do que trago nos confins de mim mesma

Ainda assim, escrevo poemas,
Poemas que nunca lerás.

Então, por favor, se não vens,
não faças de mim teu lugar de descanso.
Deixa-me partir, que eu te deixo ir também.

Não leias nunca este poema.

.....

Eu pensei que era você

Mas não é.
 
Dom Quixote

Vulva Sagrada

 
Há dias que eu só quero ancorar e descansar em alguém.
Em quem?

Há quem queira apenas carne, sexo, uma vulva molhada de desejo.
Mas a minha é preguiçosa.
E os meus desejos são, na verdade, de afagos, verdades, lágrimas sinceras, corpos sem armadura... almas?!

Estou tão cansada que esse cansaço não cabe em mim.
Sinto falta do que não existe.
Crio personagens — Dom Quixotes, Templários, anjos rebeldes — qualquer um que se revolte contra o absurdo da existência.
Qualquer um que veja além.
Qualquer um que sinta.
Que tenha, como eu, o sagrado no sangue.

Mas qualquer um, não.
Não quero.

Portanto,
tenho os olhos molhados e a vulva seca.

Ó, Deus!

Não há quem suporte isso.
Sou um problema.
Deveria ser uma boneca, mas tenho vida própria — vontades, sonhos.
Meus desejos vão além da matéria.

Simbiose espiritual?
Talvez.

Mas ninguém quer conexão.
Ninguém quer ancorar no caos do outro.
Ninguém quer dias nublados ou acordes de Paganini.
Todos querem funk, prostitutas felizes e só.

Talvez, se eu me vender — sendo vendida —, me torne mais amada, mais amável, mais aceitável.
Uma puta com dinheiro e feliz é melhor que uma cabra revoltada, problemática, com excesso de verdade na língua.

Deus me perdoe: não nasci santa.
Nasci bruxa e trago entre as pernas o caos das mulheres que sentem com a alma, com o espírito, com a verdade.

Há dias em que eu queria sentir apenas com o corpo.
Mas não adianta.

Mentiras me deixam seca.
Que seja.
Amém.
 
Vulva Sagrada

Pila Sagrada

 
Pila Sagrada
 
 
Ficaste impregnado em mim.
Ficaste agarrado como um corpo dentro de outro corpo! Sim!

Escolheste a morada errada! Vai pro caralho, penso eu!

Habitas em mim e eu te levo como um cemitério ambulante.
Eu já estou morta.
Vivo na minha tumba sentimental,
fechada com o teu único nome!

Os outros nada me dizem.
Maldito seja!

Ainda que me atirem beijos e pilas eretas,
nada me dizem!
Posso até ficar úmida,
ainda assim, nada me dizem.

Por que eu deveria agarrar com as pernas
outra pila que não a tua?

Não é outra que quero.
Quero a tua!
A tua como alimento.
A tua como se pudesse saciar
toda a minha sede e fome.

Sim, quero a tua.
Não a outra.
Não outras.

Sonhei contigo como se fosses Osíris.
Acho que foi de tanto reivindicar a tua presença fálica.
Sim, o sonho tinha pila, obviamente.
E eu era tua Ísis, claro.

Eu ri.
Juro.
Acordei rindo.

Não havia mito melhor
para invadir o meu mundo astral.

E lá, deixaram a tua pila
à porta do templo.
E reluzia!

Acordei do sonho.
Lembrei que a tua pila é branca, azeda.
Não é de ouro!
Mas, é linda.

Não é minha,
mas é!

Talvez seja até sem graça
para outras mulheres.
Para mim, não!

Você me dá arritmia.
Maldito seja!

Envia a pila pelo correio,
já que você não vem.

Mas, por favor, coloca a morada certa.
 
Pila Sagrada

"Ossãnha"

 
Beijei o teu lábio com verdade,
Você beijou só uma boca, por vaidade.
Não sei dizer,
Ou talvez saiba bem o porquê.
Acolhi o teu corpo como se eu fosse um ninho,
Mas, como em todo ninho, você era passarinho.
Não sei para onde os teus acordes queriam ir,
Mas sei que em mim eles decidiram residir.
No teu calor, o meu mundo expandiu,
Permiti-me ser, e você também se permitiu.
Tinha o teu retrato que o fogo consome,
Tinha o teu colo, onde a minha simbiose ganha nome.
Éramos dois, em um laço invulgar,
Dois que não queriam ser par, porque o amor é ímpar.
Você era um navio sem rumo, um leme sem direção,
E eu era o mar, aceitando a tua imensidão.
 
"Ossãnha"

Intangível

 
Esperava o homem-bicho, o inexistente. Aquele cheiro sem nome grudado na espinha. O olhar longe. A cara fria cortando o peito feito navalha.
Se despir para outro? Nojo. Ânsia de vômito.
Ela já nem sabia.
Era um fantasma parido pela própria cabeça.
O tempo vago era preenchido de livros-coisa. Não lia, mas tocava-os. Amantes de papel cheios de tudo o que faltava nela. Já que não queria ninguém, que ficassem os livros.
Banco da praça. Noite. Saía para tropeçar em si mesma.
Dançava qualquer som. Sentia qualquer espasmo.
Queria vida. Paixão. Faísca.
Mas os olhares da rua eram todos pálidos. Fantoches de gesso.
Voltava para casa. Adormecia. Esquecia.
Acordava, ia vivendo, dava pedaços de si aos "próximos". Quem? Ninguém era próximo. A intimidade dava-lhe medo. Socializar virara um dialeto esquecido. Nem queria aprender de novo.
E ela, a blindada, a que não amava ninguém, estava presa a um único rosto.
E odiava-o por isso.
 
Intangível

Geologia

 
 
Falava baixo, mansa e amável.
Julgavam que seria assim para sempre, como se a alma fosse matéria estática, ou um autómato programado para repetir os mesmos sentimentos e gestos.

Não podia indignar-se. Não podia perder o prumo. Não podia reagir aos desatinos alheios. Exigia-se dela o silêncio e a brandura, o espelho da mulher lúcida e pudica que o mundo insiste em idealizar.

Até a dor lhe era vedada: se o absurdo a colhesse, a culpa seria sua, e não da atrocidade do abusador.

Diante do absurdo da vida da hipocrisia dos homens, ela cobriu-se de gelo. Não por maldade, nem por falta de leveza. Era apenas uma mulher a carregar o caos que a história sempre impôs ao seu género.

Era calma como a terra, mas trazia em si a força de um terremoto. Porque até na natureza a paz tem limite.
 
Geologia

O som do Vento

 
Queria parar de te ouvir nos pássaros, mas parece que eles sempre me trazem tuas mensagens.
Queria deixar de te ver nas pessoas que lembram você — essas que, de tempos em tempos, surgem com alguma frase tua, com algum olhar teu, com algum sentido que não faz sentido algum. Mas que está lá, escondido sob véus de misticismo e vibrações que ainda me ligam a ti.

Nosso fio ainda existe. E, mesmo que eu caminhe por outras ruas, ele não se rompe, não apodrece, não se desfaz.
E eu ainda te grito por todas as explicações que você não me deu.
Mas, se não deu, por que me deixou com perguntas? Com palavras que pareciam querer dizer algo?

Outro dia, encontrei uma pulga na minha cama.
Não era só um inseto. Era um presságio.
Lembrei do teu nome.
Como se aquela presença dissesse que aquele lugar não pertencia a ninguém.
Como se viesse do meu filho de Hécate e das suas cadelas.

Eu não tenho cachorros. Nem gatos.
Mas havia ali uma pulga sugando meu sangue — justo enquanto eu esperava que fosse Drácula quem o fizesse.

Às vezes, penso que você tentou destruir minha autoestima apenas para me proteger.
Do que eu vivia.
Do que eu ainda viveria.
Mas não adiantou.
Você já me conhece. Há muito tempo!
E sabe: eu sou teimosa.

Mesmo com minhas inseguranças, você sabe — eu sou sua.
Sua V de Valente.
 
O som do Vento

Adeus ao meu Deus Ateu

 
Não era você.
Não era o teu beijo.

Nem o teu olhar,
nem a tua maneira desajeitada
de existir no mundo.

Não era o meu amor por ti.

Nem a minha paixão.

Não era você
com o cabelo caído sobre a face,
esse cabelo
que só em ti
se compõe
como uma máscara veneziana
e reluz negramente.

Era um corpo.

Da tua altura.

Com o teu desenho.

Com um sexo como o teu.

Mas podia ser qualquer homem.

E qualquer homem
continuaria
sem ser você.

Não era você
que puxava o meu cabelo
como quem arranca a minha alma
para a urgência
de viver,
sentir
e ser.

Nem quem me incendiava
com as mãos,
moldando-me
à vontade do teu desejo.

Não era o teu sexo
sobre mim.

Nem os teus gemidos.

Nem a tua fome.

Mas havia calor.

Um calor árido,
terrestre,
capaz de matar
o meu frio.

Não era você
que fazia de mim
a prostituta
dos teus lençóis.

Nem quem me fazia ajoelhar
sobre um tapete persa
para contemplar
o presente
que jorra
no meio do fogo.

Não era você
que borrava
o meu batom vermelho.

Nem quem mordia
a minha barriga
como se quisesse
entrar em mim
e nascer
pelo meu útero.

Não era você
que rasgava
a minha infame calcinha
e afundava os dedos
entre o meu sexo
e a minha vontade.

Nem quem arrancava
a minha roupa
e cuspia o linho
como quem cospe
o que jamais
deveria existir
entre dois corpos.

Não era a tua saliva
na minha boca.

Nem as tuas mãos
no meu pescoço.

Nem o teu leite
entre as minhas coxas.

Era alguém.

De outro gosto.

Outra pele.

Outro nome.

Mas tão deliciosamente nu
quanto tu.

Deixei-me levar.

Morri
nos braços dele.

Perdoa-me.

Porque o meu gozo contigo
é teu.

E, justamente por isso,

é nosso.

Somos danados.

Somos abençoados.

Naquele instante
tântrico,
violento
e cúmplice
em que morrer
é outra forma
de existir.

Somos
o outro
do outro.

Ainda te amo

Mas te digo adeus.

Adeus
ao meu Deus ateu.

Não eras tu, Vasco.
 
Adeus ao meu Deus Ateu

V de vulgar

 
Na minha língua, a tua língua
No meu útero, o teu pau
Na minha carne - em ferida - está a maldita letra do teu nome: V (de vulgar).

Fiquei sem saber o que fazer com tudo isto.
Não me deste um manual, só algumas palavras rasas com as quais tive de me encontrar.

Não me ensinaram a não sentir.
Quando fodo, fodo com o sangue, o suor, a saliva e a alma.

Tu, pelo visto, só fode com a carne.

Há tantos meses que não te vejo, mas ainda estás aqui.
E a pergunta que nasce junto a lágrima é: por que deixo-te permanecer?
 
V de vulgar

" Os Amantes" de René Magritte

 
" Os Amantes" de René Magritte
 
Lembro-me de que a tua roupa não condizia com a tua personalidade.
Lembro-me de pensar que eu mudaria tudo aquilo e que talvez pudesse começar com um beijo.
Lembro-me de querer sentar no teu colo enquanto todos olhavam.
Lembro-me de beijar o teu rosto. Lembro-me da vontade de querer beijar a tua alma e todas as tuas cicatrizes.
Confesso que queria amar-te com calma e também com voracidade. Tive vontade de te chupar os lábios. Tive vontade de te engolir. Eu tinha fome de ti. Havia alguma coisa no teu cheiro. Havia alguma coisa na nossa pele que fazia com que eu te quisesse em mim.
Eu queria-te nos meus poros. Eu queria-te nas minhas veias. Queria o teu nome gravado em brasa. Tu ardias e eu incendiava.
Tu me fodias, mas eu amava-te.
 
" Os Amantes" de René Magritte

Ode a carne com olhos para o céu

 
Perdi-me. Porque os bons também se perdem.
Não amei todos, mas na carne fui feliz.
Queria eu ter o amigo e o amante em uma única pessoa. Mas, hoje em dia, os seres Andróginos estão extintos.
Queria eu ser a puta dos meus sonhos... e dos teus. Mãe dos teus filhos. Ter uma casa cheia e feliz.
Queria eu ser mais bonita e inteligente. Ter uma vida organizada como a dessas mulheres dos filmes — essas que, além de lindas, fortes e perfeitas, são ricas e acordam como se já estivessem maquilhadas.
Mas eu...
Pobre de mim, sou uma mera mortal.
E tu...
Um Deus que cultuo no meu altar imaginário.
Podia quebrar a tua imagem, mas é tão linda. Como dizer a uma crente para abandonar o seu céu?

Que céu?
 
Ode a carne com olhos para o céu

Meu Lusíada

 
Ontem me pediram um beijo; neguei.

Como dar a outro o que é teu?
 
Meu Lusíada

Dom Vsc.

 
A noite avança e eu insisto:
Escrevo poemas que nunca alcançarão os teus olhos
Choro lágrimas que nunca secarão nas tuas mãos.
No silêncio, sou um livro fechado
Um nome ecoa dentro de mim:

.....

Adormeço e desperto na órbita do teu pensar
Guardo, como relíquias, retratos e pinturas
de amores que jamais seremos,
retratos de histórias que não escreveremos juntos

Na minha mente, és meu Dom Quixote perdido,
e eu, tua Dulcinéia invisível
No nosso enredo sem Sancho, sem dragões, sem moinhos,
há somente a urgência de sermos um do outro
e a escolha de não sermos de mais ninguém

No nosso enredo, beijamos cicatrizes que nunca tocaremos.
Nos salvamos das dores que nunca partilharemos.
Na nossa história de papel e vento,
eu sou, e tu, és.
És sem medo, sem escudo, sem chão.
E nós... somos

Mas nunca, nunca seremos

E, nunca lerás este poema,
nunca adentrarás a porta desse abrigo frágil.
E no soluço rouco e mudo de mim para mim mesma,
repito: nunca seremos.

E, nunca lerás este poema,
nunca ouvirás minha voz na tua madrugada,
nunca tropeçaremos nas esquinas da cidade
Nunca seremos, verdadeiramente,
um do outro, embora eu já seja tão tua
E vc, nada meu

Não és digno do que trago nos confins de mim mesma

Ainda assim, escrevo poemas,
Poemas que nunca lerás.

Então, por favor, se não vens,
não faças de mim teu lugar de descanso.
Deixa-me partir, que eu te deixo ir também.

Não leias nunca este poema.

.....

Eu pensei que era você

Mas não é.
 
Dom Vsc.

Um brinde

 
Foi um dia cheio. No fim, vim para casa. Abri a porta e chorei ao entrar. Aquele lugar não era um lar; era só uma casa. Um lugar onde pessoas "estranhas" habitavam o mesmo espaço. Ao menos uma vez por mês, mandava aquele homem embora. Mas ele não ia. Era como um câncer na casa e em mim. Eu não lhe queria mal, só queria dar continuidade à minha vida, já que as nossas já não se conectavam mais. Eu não aguentava mais. Que sociedade é essa, onde pessoas que não estão mais juntas têm que viver na mesma casa por causa do absurdo das rendas?
Cansada e irritada, joguei as chaves da moto, tirei o capacete, tirei toda a roupa, peguei o meu vinho e a minha solidão e me sentei no sofá; abracei o meu gato e os meus fantasmas.
Na minha mente, mais um nome.
Eu não queria sexo. Não tinha fome. Eu só queria um colo. E, ridiculamente, sentia a necessidade de um único alguém. O meu gato me olhava como se soubesse o nome dele.
Bebia em meio às lágrimas. Dizia a mim mesma que era TPM. Sabia, no fundo, que não era. Por que eu tinha apego àquela outra pessoa que já não me dizia nada? Que karma eu tinha com aquele ser?
Foda-se.
Bebi mais vinho e chorei mais um pouco. Tudo bem. Amanhã passa
Amanhã esqueço teu nome mais uma vez.
Amanhã lembro que já não sou mais uma adolescente.

Amanhã lembro da força de todas as cicatrizes que carrego.

Mas agora, ainda há vinho.
 
Um brinde

Um Corpo Nu

 
Lá fora, o mundo se contorce em sua dança febril. Aqui, porém, no santuário do nosso segredo, o tempo se adensa, carregado de silêncios cúmplices. Fechamos as portas para a turba profana, mas deixamos entrar o sol, esse astro melancólico que tinge de ouro o nosso isolamento.

Mesmo sem pronunciar o teu nome, grito-te: fica!

Quero que sintas o peso das minhas palavras, embriagadas de vinho e dor, destiladas do recanto mais sombrio da minha alma. Conta-me a tua verdade, ainda que seja amarga como o absinto que nos une e, ao mesmo tempo, nos separa. Brinquemos, então, de pertencermos um ao outro, entrelaçados nas sombras das nossas virtudes e dos nossos vícios.

Canta comigo as nossas frágeis virtudes, as nossas fraquezas secretas, como se fossem uma ladainha blasfema, uma ode à decadência. Eu te quero inteiro: na tua miséria e no teu esplendor, no grito sufocado e no sussurro rouco. Vem em verdade. Vem... e fica.

Deixa-me beijar as tuas feridas, sorver o teu sangue e a tua angústia. Não te protejas. Despe-te dessa armadura de ilusões e aceita que a dor é a nossa única certeza. Mas talvez, aqui, neste instante roubado ao tempo, possamos nos iludir de que ela já não nos pertence.

Depõe o fardo dos teus dias no meu colo. Evoca a tua infância perdida. Esquece a máscara que vestiste para o mundo. Lembra-te de quem foste antes que o tempo te deformasse, antes que a vida te corrompesse.

Ah, se pudesses ver, no vermelho do meu sangue, o teu nome gravado como um juramento. Na doçura amarga dos teus lábios, eu te reconheci. Eras tu, mesmo perdido na tua própria escuridão, sem saber de ti, sem saber de nós.

E, sem que eu soubesse...

eras tu.
 
Um Corpo Nu

Da Tua Pele

 
Da Tua Pele

Ficou perdido na minha boca o gosto do teu sal
Ficou em mim a tua alma e o teu sangue
Ficou comigo o fio negro do teu cabelo, o cheiro da tua negra essência que só as almas antigas possuem
Ficou comigo o sonho de sermos um e de estarmos juntos

Você se foi, não olhou pra trás.
Você se foi e cuspiu veneno nas mãos que eu te dei e nos abraços que libertei

Me sinto tão pequenina e frágil.
Nunca fui.
Mas de alguma forma você levou contigo toda a segurança que eu tinha de ser eu.

Te procuro nas ruas, nos carros, nas pessoas que conheço na esperança de te substituir. Mas você não está.
Não há você em lado algum.

Mas o desejo de voltar a ser tua nasce todas as manhãs enquanto lembro como me fodias.

Você nem fode bem. Você que me comeu sem me amar, só fodeu com a minha carne. Esqueceu que eu tinha alma.

Você nem fode bem.
Imagina se fodesse...

RMRR
 
Da Tua Pele

Um café, Uma vida.

 
Me convida pra um café.
Pra um café, não — me convida pra uma vida.
Vem ser parte de mim.
Mas parte já não és?
Digo-te que sim.
Vem então ser ritmo, frequência, presença.

Não brinques comigo.
Não sejas um gole breve.
Apresenta-me tuas bandas, teus livros.
Deixa-me conversar com teus demônios, pra ver se dançam com os meus.
Mete o pé na porta quando eu disser pra ir embora.
Diz que não vai.
Que se dane a minha insegurança, a falta de nome, de rumo, de jeito.

Diz que me ama — mas diz se for verdade.
Deixa essa máscara no chão.
Tudo bem, eu gosto de máscaras, mas não em você.
Prefiro que fiquem nas paredes.
Gosto da tua cara, dos lábios finos, do cabelo, da tua esquisitice.
Acho tudo tão lindo e tão ridículo que te odeio um pouco por isso.

Então vem.
Liga, mas fala a verdade.
Eu vou te ouvir.

Não quero ser uma foda a prazo de um check-out.

Faz check-in em mim todos os dias.
Adora o meu bafo, meus defeitos, minhas imperfeições físicas e emocionais.
Acolhe minhas merdas como se fossem bichos de rua pedindo carinho.
Acolhe meu caos e reorganiza tudo — só pra me deixar do teu lado.
Ou em cima.
Ou por baixo.
Há um Kama Sutra inteiro pra seguirmos.
Ou uma vida.
Uma estrada.

Então, só vem.
Só diz que vem.
E vem.

Ou vai de vez.
Vai com as outras.
 
Um café, Uma vida.

Sta. Rochaaa.

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