Magnólias
..a memória parasitava minha rotina, com suas lembranças, como carne fresca, ainda. Não muda o mundo que se vive, quando se escolheu, não sei porque, um outro que insiste em nos religar. então está ela ali, bem sei que já está, hoje mudada, mas ela está ali, lá, a mesma do começo. As mesmas palavras, os mesmos gestos, perfumes, calor e sabor. Sempre será um prato divino, alimento dos deuses, que me permitiram provar, na forma, ainda, de um novo amor.
Prisma
...estou ancorado por causa de uma chuva forte, que aprecio pela janela. Estou ancorado pela vida,...áaa eu preciso de um par de asas, essas pernas, bem podem ficar, as asas, sim eu quero. Quero ultrapassar esse ser, ver o que há além dessa forma, dessa paz conivente. Estou ancorado numa ilha, mas o mar me quer, de novo...
Percebendo
..e ela se abaixa para pegar a flor, tantas ao seu alcance, mas ela quer aquela. Diz das coisas feridas, das belezas consumidas. Ela cheira a flor com cuidado, seu perfume já frágil também, lhe guardou o melhor, de tons leves, delicados. Estão ali todos os segredos. O tempo foi finalmente capturado, destilado. Ela teme que a flor se consuma pelo seu toque, mas me oferece, quer que eu prove, e aprenda, que nem tudo é quase nada.
Caichão
....cheio de cantinhos aqui e tem, vez em quando, um arzinho frio. Fora é úmido e quente. Só não entendo essas moscas virem justo aqui depositarem seus ovos, branquinhos como a neve, em meio ao aterro enorme, que vai virando uma sopa imunda, sempre servida á mãe terra. A Morte é boa para tudo, mas nem sempre, para muitos;
Bora lá?
..uma árvore nova com raízes velhas. Esses pássaros do passado já não querem mais partir. Depois de sessenta e tantos pisamos com mais respeito as terras. Sim, sou amerindio, afrodescendente, com Almeidas e Cavalcantes a salpicar. Bora lá..ofende a languides da vida..aqui o verbo pede licença a tanta coisa. Viciaram-nos em abraços e beijos antes de qualquer tipo de conversa..bora lá?
Aromas
....do sopro em sua mão mandou-me um beijo, já que, embora distante, ele viria na minha memória. Ao deixar o mundo não quero deixar ela, enviada para me fazer mais feliz, e aceitar, até, esse desalinho de tudo. Se o prazer era nossa praia, o amor era nosso mar.
Os pães
...as cores traídas pelas flores, que escolheram o o outono, agora preparam novas nuances...amizades frágeis como o gelo sob mim. O que cabe nos meus olhos se esparrama pela paisagem...dói meu coração com essa vida onde não me cabe nada. Se deixasse ..talvez se deixasse que me cobrissem com esse manto, finalmente ver-ia minha própria vida descansando ...finalmente sem mim.
Sol de Ida
..a vida já não é mais tão bela, embora ainda seja tão bela. Por certo as cores ainda povoam suas flores. Mas o que faço com esse sol, só , para mim; ou com essa noite , solitária, na nossa janela? Por certo as cores ainda povoam suas flores. Seria você, agora, tudo, exatamente tudo, o que, mais , amamos?
Pára tudo
...o cenário agora e só cenário. As coisas tem só uma utilidade comum. As janelas não abrem para nada e as portas fecham para coisa nenhuma. As estradas viram geometria fria e o sol , um calor eficiente. Músicas se tornam carrosséis de palavras bobas. As vezes uma falta, falta para tudo.
Nada
Eu sei que o correto e não dizer nada..esperar calmamente os presentes que foram passados e se vão para o, talvez futuro da vida..mas acho que não me enganam...esses minutos digitais. Bora lá esperar...até que piso num pensamento traidor e solto o verbo..tenho uma gata preta castrada que tenta me ensinar a viver ..mas eu..que pena..sou muito barulho e isso ofende os pássaros a minha volta..é humilhante ser esse ser e ainda ser..