Poemas, frases e mensagens de efemero25

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de efemero25

Vila Embratel - Praça Sete palmeiras - epilogo

 
IV


Às duas da tarde restava apenas Pezinho, curtindo uma pesada carraspana deitado no chão. Depois que secaram a garrafa, todos procuraram os seus destinos. Gato foi para a casa da mãe. Jamanta e Jorginho foram buscar os seus quase nada. Matraquinha cambaleante seguiu rumo à sua, dormiria a tarde inteira, nem almoçaria. Um cão dormia enrodilhado ao lado de Pezinho com as patas sobre os olhos.
Um caboco alto, escanzelado, rosto chupado com uma caixa numa das mãos andava devagar olhando para os lados, como se procurasse algo. Cuidadosamente colocou a caixa sobre o assento de um dos bancos, concentrou-se nos trens de Pezinho amontoados rente à parede debaixo das cadeiras. Eram as coisas que achava ou davam para ele, um prato rachado, uma colher sem cabo, roupas peidadas, sandálias gastas, uma garrafa térmica sem tampa, um despertador sem ponteiro e outras bugigangas sem valia, mas que aos olhos do caboco assumiam grande valor. Cauteloso como um gato, cercava-se dos trecos e sutilmente começou a vasculhar os poucos nada de Pezinho que ressonava. Então o cão abriu os olhos e empinou as orelhas, primeiro rosnou, sentou-se sobre o traseiro e latiu, despertando Pé, que sentou-se meio sem jeito e fechou o semblante ao ver o sujeito mexendo nas suas tralhas.
- O que tu quer aí, Agostinho? – gritou para o caboco cujas enormes mãos suadas reviravam as suas coisas. Levantou-se, sacando do cós a enorme faca de cabo branco e partindo para cima do mexilhão. – O que tu quer aí, larga as minhas coisas.
- Ei seu moço, tá vacilando, eu tava ajeitando que tava tudo revirado - respondeu cinicamente com a cara mais limpa do mundo, aprumando-se.
- Agostinho tu é ladrão sem vergonha e te afasta daí caralho! – Deu um empurrão no peito do magro velho que tombou para trás.
- O que é Pé, tá vacilando, seu moço? – Argumentou, andando de costas até sentar-se no banco.
- Agostinho, já te avisei, larga de tá mexendo nas minhas coisas.
- Grandes coisas – ironizou com um ar de mofa.
- É grande coisas mesmo, são minhas e tu quer roubar, safado. – Pé espumava de raiva com o filha da puta. E voltou para seu lugar.
Agostinho cruzou as suas longas pernas finas. Olhou para os lados. A sapataria Trindade fechada, apenas a loja Nordestina com seus vendedores na porta curiando e conversando entre si. Agostinho pegou a caixa, ergueu-se e saiu caminhando tranquilamente, como se nada tivesse acontecido, rumo à quadra de futebol de salão.
- Vai miserável – gritou Pezinho, fazendo um bico. – Tá é com sorte.
O cão aproximou-se dele, cheirou-lhe o pé defeituoso. O homem deu-lhe um safanão que quase acertava o focinho do bicho, que, espantado, correu e escondeu-se debaixo do banco.
Diziam que Agostinho não dormia, virava bicho à noite, andando e espreitando os quintais e terraços em busca de alguma coisa para pegar e correr para trocá-la nas bocas por uma pedra de crack. Nada passava batido, tudo lhe servia como moeda de troca. Na feira, quando entrava, os feirantes o vigiavam, pois sabiam que alguma coisa ia desaparecer. Era uma persona non grata. Ninguém cofiava nele, apenas dois lhe davam serviço: seu Bereta, o peixeiro, e Zé Barros, da sapataria Trindade da esquina. Era brabo e boca dura.
Ele fora pedreiro, diziam também que era latrocida.
Andara pelo Norte nos interiores do Pará e da Amazônia. Agora, velho e quebrado, vivia zanzando de um lado para outro, a família o desprezara. As vezes amanhecia dormindo nos bancos das praças. E sempre tinha alguém à sua captura para aplicar-lhe um corretivo, mas parecia que o homem tinha o corpo fechado, ninguém nunca o encontrava.
Pezinho foi à torneira, lavou o rosto, encheu o litro. Arrumou seus trecos dentro das sacolas e caixas e achou o bandeco debaixo das roupas. Agradeceu a consciência dos parceiros pela consideração. Sabia que o bandeco viria, quase todos os dias, o soldado de plantão no trailer trazia-lhes. Alegavam que não gostavam da comida, preferiam almoçar e jantar nos restaurantes próximos. Destampou a película de alumínio do bandeco e lambeu os beiços de contentamento.
O cão que estava deitado debaixo do banco levantou-se e veio como se não quisesse nada, foi chegando até sentar-se sobre o traseiro diante de Pezinho e o encarou arfando com a língua de fora, e com uma das patas dianteiras raspava sutilmente o joelho de Pé.
- Tá com fome? – Inquiriu Pezinho gentilmente.
E o sacana do cão, ardiloso como o diabo, balançou a cabeça e latiu baixinho.
- Pega – jogou o pedaço de osso da coxa de frango assado. – Come, miserável, mas presta atenção, da próxima vez que aquele filha da puta do Agostinho aparecer e mexer nas minhas coisas, morde ele. – O cão faminto esmagou com ferocidade o osso e assentiu, balançando o toco do rabo.
O cão tinha dono, era de um senhor da rua São Félix. Vasco (era assim que a moçada o chamava por causa do pelo branco encardido e uma mancha preta nas laterais) preferia a companhia deles, principalmente de Pé, que o acompanhava a todos os lugares e dormia ao seu lado. Às vezes passava dias sem aparecer, então o pessoal sabia que estava preso na casa do dono. Mas quando este dava uma bobeira e deixava a grade aberta, Vasco escapulia e vinha em disparada para a praça. Era um cão inteligente e solidário, se dava bem com todos. Pé acariciou-lhe a cabeça e ele deitou a seu lado e ambos cochilaram mais um pouco.
Morria a tarde e uma generosa sombra amenizava o calor. Uma réstia de luz solar bateu nos olhos fechados de Pé, que espantou-se e bicudo olhou para todos os lados. Levantou-se de supetão, era a hora de ir apanhar os apetrechos da barraca de CD de Goiaba no começo da ladeira do Piancó. Faria umas duas viagens no carro de mão, trazendo as armações de cano, as cadeiras e as caixas com produtos e depois voltaria para empurrar o carro de guaraná da Amazônia da esposa de Goiaba. Era o seu compromisso todas as tardes – concluída a tarefa, Goiaba dava-lhe um trocado e a esposa ofereceria um copo de guaraná feito na hora e um bom pastel. Então Pé, descontraído, sentaria no banco de pernas cruzadas como um lorde, saborearia sem nenhuma pressa. Vasco, malandramente, sentava-se sobre o traseiro e ficava atento a cada pedaço que ele jogava, apanhando-o no ar.
Um baixinho meio calvo todo ligeirinho achegou-se e sentou-se ao lado de Pé que comia pausadamente.
- E aí Pé, o que meu compadre tá fazendo?
- Estou merendando – disse ironicamente, olhando para o outro lado. -Por quê, tem alguma coisa? – Perguntou mastigando o ultimo pedaço e secando o resto do guaraná do copo.
- Vamos fazer um corre?
- Na hora, e o que é?
- Entregar um botijão que vendi ainda agorinha.
- Onde é?
- Na rua dezenove, na casa de um bacana, depois tu pega uma cabeça.
- Na hora. – Levantou-se e foi até as suas tralhas, ajuntou, arrumou e colocou tudo dentro da caixa e a deixou debaixo das cadeiras, onde estava antes.
Vasco quis lhe acompanhar.
- Não, tu fica aí e não deixa aquele miserável chegar perto – disse para o cão que o ouvia atentamente – Te deita lá perto.
E Vasco obediente deitou-se ao lado das coisas de Pé, farejou a caixa e espirrou.
- Quem foi o filha da puta? – inquiriu o baixinho de camisa desabotoada popularmente conhecido com Kisuqui, morador da rua dezenove, filho da saudosa dona Concita e irmão de Buriti.
- Não foi aquele miserável do Agostinho? Acordei com o latido de Vasco e o filha da puta não estava com a mão nas minhas coisas? Ainda vem dizer “Não Pé, eu estava apenas ajeitando que tava tudo fora do lugar” – fez uma cara de riso. – Cara, aquilo me deu uma raiva, levantei, dei um empurrão nele e puxei o ferro...
- E por que tu não deu umas duas cutucadas nele – falou rangendo os dentes. – Não gosto daquele bicho, tentou roubar as lâmpadas do terraço da casa do meu irmão. Ah se eu pego, não ia conversar, era tanta facada que nem os médicos do IML conseguiriam conferir. – Concluiu com seu passo leste e balançando para os lados. E desapareceram por trás dos bares.
O movimento recrudescia de transeuntes e de veículos. O barulho peculiar de motores e buzinas. O zoar de uma esmerilhadeira, faiscando fagulhas incandescente vermelhas e diminutas na porta da oficina do serralheiro Zé Filho em frente à quadra de futebol de salão, onde a rapaziada jogava e outros em pé, segurando no alambrado ou sentados na arquibancada esperavam o desafiado. No meio da praça, os guris improvisaram uma quadrinha com trave de caixa vazia de banana.
No canto da entrada da rua dezessete, ao lado do enorme poste de concreto de alta tensão, uma senhora branca e forte posicionava um carro de batata frita sobre a calçada, depois espalhava os mochos de plástico ao redor.
Os pombos revoavam sobre a praça, pousando em algum lugar e ficavam bicando restos no canteiro. O crepúsculo caia suavemente sobre a praça com sua grande manta negra. Raios alaranjados vinham do poente. As lâmpadas de mercúrios dos postes de concreto acendiam simultaneamente.
Na calçada em frente ao antigo Adolescentro, os passageiros desciam estafados dos ônibus lotados que vinham do centro, onde os vendedores com seus carros de mão cheios de produtos apregoavam as mercadorias expostas nos tabuleiros improvisados.
- Olha o peixe fresquinho, madame – gritava um mais afoito a cada passante.
- Banana fresca senhora, cinco reais a dúzia - e para rematar jogava uma pilha. – Mulher bonita não paga, mas também não leva.
Alguns armavam suas barracas com dificuldade para vender espetinhos de carne assada na hora num enorme fogareiro. Do outro lado da avenida, a fumaceira da galeteria empestava a rua com o cheiro de galinha assada. A buzina dos automóveis num longo engarrafamento, todos agoniados... Numa mesa mais afastada a vendedora de salgadinho sentada numa cadeira de plástico, imune ao barulho circundante, tricotava tranquilamente com a netinha ao lado.
A noite na praça era outro clima. Goiaba e família já recolheram os seus trens, alguns casais espalhados e abraçados pelos bancos.
Os rapazes jogando na quadra em frente à oficina do serralheiro Zé Filho.
Alguns remanescentes da rapaziada ainda insistiam em secar uma garrafa sentados no banco em frente à avenida e conversando amenidades do dia a dia.
- Ele pelou foi uma porca, o cara ia dar uma garrafada nele - comentou Gatinho piscando bastante.
- Era bem feito, ele é muito saliente, quer tomar gosto com mulher casada, eu que não iria me meter – rebateu Jamanta, olhando para Jorginho que cochilava sentado, balançando pra frente e pra trás.
Pezinho ainda se arrumava sacolejando-se puxando sua mochila cor de rosa com rodinha que ganhara de uma garotinha, pela frente dos bares, procurando alguém para filar uma dose. Os casais espalhados no escurinho. Jamanta e Jorginho deitados sobre o papelão apertavam uma cabeça de crack.

Vila Embratel, 2019
 
Vila Embratel - Praça Sete palmeiras - epilogo

Os primeiros dias de fevereiro - 2026

 
Fevereiro
Domingo, 01/02/2026
- Sr. Constantino! – intimou a Sra. Vince, ele lia a biografia ficcional de Pasolini – ela em pé diante a lavandaria improvisada, debaixo da caixa d’agua – Encha essa bacia – ordenou sem muitas delongas. A bacia de alumínio servia de bebedouro para os seus amados e atentados felinos.
Ouvindo o programa sertanejo “As cordas da Viola” na rádio Senado FM com os clássicos da musica caipira de raiz – com Tião Carreiro e outros bambas.
Começando a parceria entre o renomado diretor italiano Frederico Felini e o escritor ‘maldito’ Pasolini.
Meio-dia e uns quebrados na lojinha de meu cumpadre K.B.Ludo
O mestre Bardaux foi deixar um recurso inesperado, fruto de uma comissão de um serviço que lhe arranjei. Um parceiro honesto nos seus negócios.
13:30 – De volta ao computador. Umas doses de vodka foram ingeridas no mercado, mas propriamente no comandante Lasierra, que não apresentar seu programa na radio Educadora FM.
Dona R, a mulher do prequitão cobrou-me dois reais de uma vodka que não me lembro. Me tirando de tempo.
Segunda-feira, 02
De volta ao atelier, após quase duas semanas ausente, sem abri-la somente perambulando pelo mercado, bebendo e perturbando uns e outros. Enfim alisou-se por completo.
O poeta enfezado, ou seja, predisposto com uma prisão de ventre – o intestino cheio de merda, devido a minha dieta radical de embutidos.
O meu agente cultural entregou-me o Certificado de Merito Cultural outorgado pelo Conselho Estadual de Cultura do Maranhão -CONSECMA pela minha contribuição ao desenvolvimento cultural no estado. Mostrei a Juvan Senior que se prontificou arranjar uma moldura para pregarmos na parede do atelier.
- O do Ministério da Cultura como mestre em Cultura Popular ainda não chegou – disse-me o meu agente Cultural.
Começo da tarde.
A decima primeira dose de vodka fiada no Lasierra. O compadre fez uma boa venda. Em frente as barracas na calçada do horto, o casal Tico e sua bela ambos mamado. Seu Juan de la Croce deu-me dois reais.
A descoberta aleatório de uma serie “A Bela e o Bilionário” e os vídeos do “Proximo Porto” de um taifeiro do navio petroleiro Marcilio Dias da Petrobras – cotidiano a bordo – pegando carga no oriente médio -Omã, Emirados Árabes e outros e imaginem onde vai aportar? Aqui em São Luis – umaviagem de trinta dias, descendo o oceano indico contornando o Cabo da boa Esperança e atravessando o Atlantico .
 
Os primeiros dias de fevereiro - 2026

reflexões madrigais

 
Reflexões

Insosso, insipido e inodoro – assim que me sinto, alquebrado pelo esforço físico desprendido em prol do vil-metal. Uma estafa dos diabos entristece a alma sufocada de sentimentos traumáticos. Goethe morreu pedindo luz e Gogol uma escada para subir aos céus – e eu? Apenas o essencial para alcançar o paraíso literário da prosa espontânea e uma pedra angular onde posso descansar o decrepito corpo subjugado pelo peso da idade. Um farol para guiar-me nas madrugadas insones quando vagueio perdido nas brumas do esquecimento e das palavras perdidas.
 
reflexões madrigais

Friday ou Sexta-feira na cesta e sabado, 31/01/2026

 
Friday ou sexta-feira na cesta, 30/01/2026
10:00 – Despertei novamente as quatro e meia da manhã e lembrei-me do meu filhote no refeitório do alojamento preparando-se para encarar a lida na linha de corte no frigorifico meia-hora depois nos cafundós do Pará. Liguei a tv do quarto, zapeie por uns canais, nada de interessante, voltei a deitar-me e a deixei ligada. Acordei, o dia claro entrava por tras da cortina vermelha da janela de vidro, levantei-me, abri-a e uma lufada de vento bafejou o meu rosto. Na sala de estar, mesma coisa e liguei a telona – uma dorzinha chata de barriga forçou-me ao banheiro, uma insignificante barrigada, o banho, a troca de bermuda e o retorno a sala de estar para enxugar as frieiras – então o café morno de anteontem, leite e uns pedaços de broa de milho e bolo de tapioca, ambos duros como pedras. De volta a sala, apanhei “Calila e Dimna” e a biografia ficcional do mestre Pasolini e deitei-me no sofá para lê-los. A cidade amanheceu sem ônibus, os motoristas entraram em greve.
10:48 – O almoço no fogo – arroz, a mesma receita de ontem -repolho, feijão cozido, cebola, alho, pimentinha e pimentão e meio copo a mais de arroz e para acompanhar quatro ovos cozidos com casca. Tenho que ouvir o compositor estoniano Arvo Part que inspirou no silencio para criar as suas sinfonias.
11:03 – Apago o fogo dos ovos e os resfrio com a agua da torneira da pia e os deixo lá. O arroz pronto.
11:27 – Tudo pronto – os quatro ovos descascados e colocados dentro da panela de arroz para absorver o seu saboroso aroma.
Tarde
13:26 – o almoço foi servido e o poeta caiu matando sem cerimônia, mas deixou a metade para o jantar.
17:38 – Tv Brasil reprisa o “Sem Censura” de ontem com a Escola de Samba Unidos da Tijuca homenageando a grande dama literária Carolina Maria de Jesus, autora do consagrado e emblemático “Quarto de Despejo”. Pasolini e seu vicio sexual de deitar-se com seus alunos de menores numa aldeia tipicamente cristã italiana, foi obrigado a deixar junto com a mãe sua Casarsa e fugir para Roma, a cidade eterna. O presidente Lula operou da catarata o olho esquerdo – fez o da direita em 2020 – Eu ao contrario, fiz do esquerdo há três anos e tenho que fazer do direito. Não sei quando, só Deus sabe.
Depois da siesta no sofá, mergulhei novamente na envolvente vida do diretor Pasolini que morreu assassinado na Praia de Ostia por uma bofe de aluguel e ainda passou o carro por cima do corpo do mestre.
18:00 – Hora do Angelus e da missa da Basilica histórica de N.S. Aparecida, rezada pelo arcebispo.
O banho vespertino, o milho do galo arisco, no meio da tarde coloquei um punhado no local onde fica, o sacana metódico não bicou nada, tive que ajunta-lo e fazer como faço, joga-lo por trás do portão de ferro, então elegantemente veio desconfiado e vigiando-me, começou a bicar os grãos espalhados no cimento.
19:45 – Jantei e guardei as gemas para mais tarde fazer uns sandubas.
20:45 – Preparei os dois sandubas com as gemas, queijo e presunto, os decorei com um copo de leite assistindo um filme nacional na Tv Brasil “Corisco e Dadá” com o ator Chico Diaz, que conheci pessoalmente nos anos 80 com a passagem do Circo Voador aqui em São Luis.
Bitita era o apelido da pequena Carolina Maria de Jesus dado pelo seu avõ materno em Minas Gerais, foi também ele que a incentivou a aprender a ler e a escrever.
Sabado, 31
Meia-noite e uns quebrados – Ainda na sala de visita no terceiro dia como o guardião do castelo.
Um sanduba com pão de fôrma, maionese e mostarda e meio copo de leite – assistindo um documentário com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o FHC – o pai do real, derrotou Lula duas vezes na Tv Senado – “O Presidente Improvavel”.
Manhã ensolarada
10:00 – Fui dormir as duas e meia da manhã, assistindo Senadoc – documentários da Tv Senado sobre a democracia – Marcos Marciel – e os anos de chumbo que pairou sobre nós entre 1964 a 1986.
Acordei as sete. Abri as janelas do quarto e da sala, liguei a telona – uma insipida barrigada, banho com shampoo e depois o café com pedaços de bolo e etc. Voltei a sala de visita, deitei-me no sofá e encafuei na vida de Pier Pasolini, enquanto aguardava a retrospectiva do Reporter Mirante coma reportagem de maranhenses em Paris – então emocionou-me porque também estou em Paris ou melhor o meu livro “Le Cahier Rouge du Pere Joseph” editado pela Edilivre e ela doou um exemplar para a imponente e simbólica Biblioteque Nationale Françaises da Rue Richelieu – Um banho de autoestima caiu sobre mim. Perdi o meu exemplar, emprestei o ator Auro Juricié e ele o esqueceu em algum lugar dessa amada cidade.
A morte da atriz Catherine O’hara que interpretou a mãe do encapetado Kevin (Macaulay Culkin) em “Esqueceram de Mim – I e II” – Aos 71 anos.
10:56 – O almoço pronto – Baião de dois e um guisado de linguiça defumada com repolho.
Leite, óleo de cozinha e embutidos são alimentos que provocam inflamação, dever serem evitados.
Final da tarde
De volta a velha, barulhenta e boa pensão da Sra. Vince, depois de dois dias e meio no Paraiso. O Mano Vince chegou no meio da tarde, surpreendendo-me, eu cochilava no sofá. Sem perda de tempo, recolhi as minhas tralhas e zarpei – (a greve dos motoristas de ônibus continua por tempo indeterminado) – debaixo de um sol escaldante das três horas da tarde. Vim pelo Piancó e suas ladeiras cansativas. Apanhei os pães e me recolhi, hiper cansado e sedento.
- Tio Constantino, que bom que o senhor chegou! – recepcionou efusivamente a pequenina.
Empoleirei-me diante do computador e digitei os meus textos atrasados e depois assisti vários filmes, um deles baseado em fatos reais “A Justiça da Mafia” como grande Samuel L. Jackson. Jantei uma boa galinha cozida, arroz e feijão e fui deitar-me meia noite.
 
Friday ou Sexta-feira na cesta e sabado, 31/01/2026

03, 04, 07 de fevereiro de 2026

 
Terça-feira, 03 de fevereiro
Meia-noite – banhei-me no quintal nu em pelo com uma belíssima lua cheia a iluminar-me com seus raios de prata. Uma boa sensação poética. A pequenina enche os litros com a agua do velho filtro de barro e os coloca geladeira. As cadelas deitadas exalam o bodum característico de pelo molhado. Ontem fui dormir as três e meia da manhã e acordei as sete.
Manhã
10:14 – Nuvens plúmbeas fecham o céu. Um servicinho extra, confeccionar dois pares de porta retranca para sexta-feira que vem. Já separei as barras, depois de muito procura-las na velha sucata do atelier.
Quarta-feira, 04 de fevereiro
Dentro de uma lotação (os motoristas dos ônibus continuam em greve) em frente o antigo Oscar Frota e do outro lado da avenida Magalhães de Almeida o velho mercado grande na sua ultima semana antes da mudança para as novas e improvisadas instalações no Anel Viário, enquanto reformam o velho prédio. Fiz uma bela caminhada com os fones nos ouvidos, sai da pensão as seis e meia da manhã.
Sabado, 07 de fevereiro
As mãos tremulas, efeito depreciativo do consumo excessivo de álcool. Ontem passei o dia todo deitado e levantando-me apenas para vomitar no quintal. Dores no corpo – o álcool começou quarta-feira no Mercado Grande, depois da caminhada involuntária de quase uma hora. Ao chegar no grande mercado, levei quatros pães e comprei quatro salsichas, queijo e presunto e fui devorar um sanduba misto no Lelis com uma latinha básica de Glacial. De lá subi pela a Avenida Magalhães de Almeida, onde encontrei uma pobre venezuelana mendigando sentada na calçada. Acocorei-me ao seu lado, dei-lhe cinquenta centavos e um sanduba misto, a pobrezinha alegrou-se:
- Muchas gracias, señor!
- De nada, hermana!
Continuei a minha caminhada até o Instituto de Criminalística na esquina das ruas da Palma e 14 de julho. Depois de alguns minutos espera recebi a sonhada nova CIN – Carteira de Identidade Nacional com o numero do CPF. Desisti de ir ao Centro no Diamante, estava muito cansado e voltei pela avenida – a venezuelana havia desaparecida, entrei novamente no mercado e mais um sanduba misto e logico uma latinha de Glacial. Apanhei um lotação em frente as Lojas Freitas onde outrora funcionou o icônico armazém Oscar Frota.
Chegando a Vila Embratel, guardei os documentos e cai no campo etílico comemorar a nova carteira que possibilitará dar entrada no benefício social.
Na quintal emendei – conhaque de São João da Barra no comandante Lasierra – ele não tinha vodka e de lá dei um pulo no Ed Paul e tome vodka. Então como de praxe entrei em amnesia, ainda bem que não dormi nas calçadas e nem nos bancos da praça. Também não comi nada
- Pera ai, vou já botar uma pimenta na tua boca para tu te a sossegar – Ameaçou a Sra. Vince, enquanto fazia o curativo na cadela Beautiful.
Minha rede está rasgando, um pequeno buraco bem no meio dela, a tendencia é aumentar.
Little Black lambe a cadela doente. Tomei café com cinco bolachas, amenizar a fome canina que grassava o meu combalido estomago.
- Vou já dar umas murradas nessa cachorra atentada para se orientar – é somente ameaça, que nunca chega as vias de fatos – a Sra. Vince é assim, ela não maltrata os seus animais – mas Little Black tira-a de tempo.
Finalmente um bom almoço – arroz, feijão e um bom fígado. Até sai no meio da tarde para apanhar os pães na Padaria Renascer na Praça Sete Palmeiras para o meu jantar. E aboletei-me diante o computador e fui assisti uns filmes até a meia noite.
 
03, 04, 07 de fevereiro de 2026

Segunda, 09/02/2026

 
Segunda-feira, 03
Despertei com uma voz conhecida chamando-me do terraço, levantei-me de supetão da rede e de imediato abrir uma banda da janela. Era o mestre Bardaux. Combinamos ontem de nos encontrarmos na oficina, as seis e meia, onde pretendia confeccionar umas argolas. E já eram sete e uns quebrados, o tempo nublado e um pouco frio me tirou a noção do tempo. Peguei o chaveiro sobre a cômoda e entreguei-lhe e prometendo-lhe que iria depois.
Foi uma madrugada muito fria, que me obrigou a apanhar na última gaveta da cômoda um lençol limpo para enrolar-me e assim amenizar a friagem que me afligia perversamente – e era somente 23 graus positivos e eu quase batendo o queixo. Um frio exorbitante para quem não estar habituado e morando quase perto da linha do equador. Nem banhei, apenas abluir-me levemente e ainda sonolento sai, depois das minhas obrigações religiosas.
Quinze minuto depois chegava ao atelier, após apanhar os pães na padaria da praça das sete palmeiras, de prosear um pouco com o venerável mestre Jorlene, vulgo Jojó ou Skidin no meio da ladeira em frente ao prédio de sua quitinete. Mestre Bardaux terminava sua tarefa.
Depois de envergar a minha fétida farda de trabalho, sentei-me para ler a as últimas páginas de “Pela mão de um anjo” de Dominique Fernandez – interrompi para ouvir Dezão vindo do café matinal do Restaurante Popular ouvindo os comentários depreciativo de Bá, um fulero que adora falar, mal da vida dos outros, chegar até inventar. Após a sua saída fui apanhar o café no Little Fats e encafuei-me novamente na leitura da biografia ficcional de Pasolini.
As dez horas: - Fecha ai e vamos numa missão – ordenou o mestre Juvan de dentro do seu bolido.
Mudei de roupa, arriei cuidadosamente a porta e passei os dois cadeados e embarquei rumo ao desconhecido. Para minha alegria fomos ao terminal Marítimo da Ponta da Madeira no Itaqui apanhar uma encomenda que mandaram de Cedral . Foi lá, enquanto o esperava que conclui tristemente o livro com a morte trágica de Pier Paolo Pasolini – o grande diretor de “Evangelho Segundo Mateus”, “Decamerão” e outros, também foi um grande escritor com mais de vinte livros publicados. De volta a base, fiquei no mercado e fui ferrar uns trocados no meu compadre. O comandante Lasierra não se encontrava, a taberna fechada. Ao meio dia e uns quebrados rumei para a pensão – banhei-me no quintal e almocei um bom escabeche de Traíra e bodei. Recomecei a ler “Os Contos de Manhattan” de Auschinloss.
 
Segunda, 09/02/2026

O mundo do sr. Con - No hospital II

 
No hospital (cont)
O soro acabou e a incomoda dor também e aguardo a transferência para o hospital da Mulher fazer uma tomografia – sonho com a Italia, meu livro “ O Mundo do sr. Com” publicado por lá – as duas cartas ainda não foram devolvidas, talvez acharam o endereço correto. Todo espaço é pouco pra escrever. O gosto amargo, sinal que o tramadol faz efeito e suou no ar-condicionado da enfermaria.
Cinco para sete da noite – troca de turno, funcionários despedem-se e desejam bom plantão para os quem entram agora. O barulhinho típico da nebulização. Ainda pouco uma ânsia de vomito e suei novamente.
As atendentes da noite esperam o pessoal da farmácia chegarem para liberarem os medicamentos.
- A farmácia que disponibiliza – desculpa uma delas para uma agoniada paciente.
Uma mulher passa mal e vomita na lixeira. Um enviado da Mais Velha vem saber noticias minhas – na pensão todos preocupados por que ainda não cheguei – explico-lhe que vou ao hospital da mulher fazer uma tomo.
- A senhora é alérgica a alguma medicação? – perguntou a atendente – Vai tomar dipirona e benzetacil – prepara a seringa e aplica a injeção no braça da impaciente.
Um auxiliar todo empertigado num jaleco branquíssimo, assim como a calça e o tênis, uma touca de plástico na cabeça e mascara, empurra uma mesa para coletar sangue para exame.
São nove da noite e nada da ambulância, mas atendente primaz me garantiu que serei chamado e ter paciência e aguardar, me refugio em Isaac Bashevis Singer em “Breve Sexta-feira” – A Mais Velha vem novamente saber o que tá pegando – explico-lhe tudo novamente. Quis me dar dinheiro para merenda, mas recusei polidamente. Uma senhora numa cadeira de roda geme. Uma vovozinha geme baixo e é confortada pela bela neta morena com um pelo par de rabo.
Onze e meia da noite – duas faxineiras fazem a sua tarefa de assear o ambiente e deixa-lo asséptico – as plantonistas conversam a respeito de uma vaquinha para uma pizza – tento entrar no grupo mais sou barrado tecnicamente, o meu estomago não pode ter muito volume devido ao exame. Volto a minha cadeira tumular.
Começo do sábado, aleluia, finalmente sou convidado a acompanhar uma simpática moreninha até o pátio, onde uma vistosa ambulância me esperava. O motorista abriu a porta traseira e entrei meio cambaleante e deitei-me, a cabeça pesada. Menos de quinze minutos estávamos de volta – deu tudo certo, fiz a tomografia sem problema. Aleluia! – esperar o resultado quatro hora depois, que seria enviado on-line para o nosso hospital – Coisa de primeiro mundo, aos poucos vamos chegando lá.
Uma senhora chega amparada pelo filho que a trata carinhosamente e de imediato as atendentes lhe dão captopril para baixar sua pressão.
02:00 – Peço um pouco de café e sou novamente negado, tem que esperar o resultado do exame. O casalzinho da Vila Embratel, ele embriagado com dor de cabeça e ela deu um tratamento no cabelo e ficou mais simpática.
03:00 – Sete pessoas medicadas, inclusive uma habitué que vem todas as madrugadas, depois do trabalho tomar suas medicações – no passado segundo disse a bom som, foi cantora de sucesso, de uma canção que fez muito sucesso nos anos 90 – “Sou Mulher roleira” – traz café e bolos para todos.
Vou ao consultório do medico pedi-lhe duas folhas de Chamex, mas o sacana a muito custo me dar uma.
De volta a enfermaria, aplumo-me na cadeira – o filho abraça a mãe, na minha frente um careca fortão no celular – ao meu lado, uma morena dorme confortavelmente enrolada num lençol, na outra uma nebuliza-se e atendente dorme nos braços sobre a mesa.
Apagaram a metade das lâmpadas. As quatro e meia. Um choque, o resultado da tomo deu problema e ainda não enviaram nada – mas a jovem atendente disse-me para ter calma e voltar a dormir. E assim o fiz, cochilei pesadamente até as seis. E uma das atendentes fez-me o sinal para aproximar-me do balcão, cocei a cabeça para esperar o pior.
- Deu tudo certo seu Constantino, vou apanhar o laudo e o sr. vai leva-lo para o medico.
Minuto depois voltou e entregou-me e fui de imediato ao consultório mostra-lo ao novo medico de plantão. Depois de ler as folhas e ver as gravuras – concluiu que tenho um pequeno nódulo no rim direito – nada grave – encaminhou-me para um urologista – agradeci e voltei a enfermaria onde fui agraciado com um bom copo de café com leite e um pão massa fina.
- O senhor merece – disse a afável primaz entregando-me – Tive hora que tive pena do senhor, esse tempo todo de jejum.
Agradeci a todas pela boa acolhida e elas desejaram as minhas melhoras
 
O mundo do sr. Con - No hospital II

O mundo do sr. Con - tarde sexta e Samedi matin, terça-feira, 21/07/2026

 
Tarde de sexta-feira
Aleluia!Aleluia! Finalmente dei os meus parabéns para o meu amado filhote distante nos cafundós do Pará – Sai do frigorifico, estar na Fazenda Rio Vermelho “Rei do Gado” como técnico de enfermagem. Emocionei-me.
- Poxa, pai, eu sinto muito a sua falta – disse
Eu quase lacrimejava, mas o encorajei a continuar a sua jornada.
Samedi matin, 18 de julliet de 2026
Não aguentei a emoção de falar com o meu amado pequerrucho distante, entrei em catarse e não segurei e acabei quebrando o meu jejum etílico. Desde outubro que não nos falávamos. Bacana.
Então banhei-me e rumei para o mercado. No estação Lasierra não tinha vodka e então entornei a primeira dose no finado Bispo e ofereci a ele, aonde estivesse! Dei um pulo no meu cumpadre na lateral do mercado na 16, fechado – rumei para o Ed Paul na avenida Sarney Filho e encontrei casualmente Seu Benedito, filho do capitão Patacho que espontaneamente pagou-me duas doses e retornei para a pensão entrando em amnesia.
O casal de carroceiro na labuta.
- Agora é no braço – disse o motoqueiro apeando da moto, desceu na banguela e agora vai empurra-la para subir a ladeira. – Vou encarar no muque.
Um conterrâneo de Arari, Nova York na radio Senado FM – o mestre Zeca Baleiro . Uma dorzinha chata no baixo ventre. Gordilho aconselhou-me a largar essa coisa de escrever, que isso não tem futuro aqui na terrinha. Pauvre Gordilho – ele pensa que escrevo por necessidade, escrevo por que faz parte de mim – com futuro ou sem futuro continuarei o meu sacerdócio
“Os tecelões tecem o tempo
A vida passa
Sem bater o ponto final” –
Ninguém escolhe ser poeta e a poesia que escolhe você.
Mãe Telma doidona que a mão esquerda. Ela e o filhote vão para o hospital do Bacanga. Seu Rorré radiografou o saco de lixo na calçada do vizinho em frente – encostou a magrela na parede da oficina, atravessou – desatou o nó e catou as latinhas secas de Heineken – as amassou e jogou dentro de uma sacola. Reciclador não perde nada. Uma branca da igreja se embandeirou por ele, mas ele a descartou.
- quero uma mulher que me ajude – disse amarando a sacola no guidão da magrela. Deu-me dois reais.
A mulher do verdureiro deu-lhe um saco de tanja, guardou junto com os cadeados para não esquece-las. O casal de carroceiros retornando com uma caixa da agua de fibra de vidro. Inesperadamente o poeta vendeu a antena de Seu Jojó para o filho da vizinha ao lado – Vinte mil-reis.
A ‘vicodin” faz o efeito anestesiando-me por completo – lembrou do loucão do Burroughs, amigo de Kerouac que comprava elixir paregórico para extrair a tintura de opio. Mudaram a formula.
A galera voltando do Papular com seus bandecos nas sacolas.
- Já encerrou – disse irritado Mutante que chegou atrasado.
Maninho também pegou o dele.
Dona Telma e o filhote voltando do hospital, queriam transferi-los para o Socorrão da Cidade Operaria – mas não tinha ambulância. Então tome álcool.
- Nois somos é bebedor de cachaça! – desabafou o pixixitinho.
Depois do meio-dia – o poeta caiu na bagaceira geral – bebendo no finado Bispo.
Terça-feira, 21 de julho de 2026
De volta a labuta no atelier – depois de dois dias de zoeira, enchendo ou melhor cheirando o copo – Ele sabe que é fraco, mas insiste em ser uma coisa sem futuro. Ontem nem saiu da pensão, pelas tabelas fraco e vomitando.
Esse poeta é um tremendo mané.
 
O mundo do sr. Con - tarde sexta e Samedi matin, terça-feira, 21/07/2026

Quarta-feira 29/06/2026

 
Quarta-feira 29/06/2026
- Olha a bosta! – gritou a irmãzinha agente de saúde do município alertando a parceira bem no beco. Um dog mal educado, desses que andam por ai e aperreado resolveu sem a menor cerimônia descarregar o barro bem no meio da calçada.
O encontro com Blind em frente a casa do radialista Collorzinho na avenida Sarney Filho cedo;
- Ontem rolou cabeça de nego lá em cima – puxou do bolso dianteiro da bermuda, o litrinho que nunca seca. Sempre o liquido cor de gasolina – desarrolhou-o e simulou sorver uma dose com os lábios fechado.
- Tá,tá bem! – Disse o poeta descendo sem dar muita trela, se parasse ouviria muita lorota.
- Bom dia, moço! – saudou-lhe dona Bita da rua 22, uma cliente das antigas e vizinha de frente do saudoso Black e uma das cuidadoras do cão Peter.
Quase onze horas da manhã de volta ao atelier. O cabeça fria, tenente reformado da marinha vindo de sua propriedade pras bandas do Aquiles. Juvan Senior, a patroa e os gêmeos moram por lá, numa confortável mansão de canto. Sr. Com que fez as belas grades coloniais que ornamentam todas janelas, portas e muros da suntuosa residência – época que o poeta era mestre da serralharia.
Sr. Com chegou no posto de saúde da rua 14, Vila Embratel, quase de horas e a impassível atendente do aquário ceifou suas esperanças enfaticamente: - Tem que chegar as sete. Dona Wanda vai remarcar a consulta.
- Ok, baby você venceu – pensou com a cara de tacho mal lavada. Ainda bem que levara “A náusea” do mestre Sartre, o homem que salvou Jean Genet e ficou a lê-lo no hall deserto.
Um bebezinho agoniado berrava renitentemente e o paizinho ainda verde e nervoso com ele no colo andava de um lado para outro na ante sala da triagem. Seu Jojó com um frasco de Besetacyl. Uma ex funcionaria triste, teve seus tempos áureos em pé na frente do guichê:
- Vou marcar particular! – e de cabeça baixa saiu com o encaminhamento na mão.
O mundo dar muitas voltas – pensou sr. Com - o poeta caiu nas graças de Sartre, muito melhor que Joseph Haller e deu-lhe razão para recursar o Prêmio Nobel de Literatura e da bela Simone Beauvoir se apaixonar por ele. Na verdade, o poeta se identificou com o personagem, assim como aconteceu com Haller, o lobo das estepes de Hesse. E assim o levou para almoçar dois pratos de feijoada no Popular. Um pouco de Charles Parker – 1990 assistiu com sua amada Van no cine Alpha no São Francisco. “Bird’ – a cinebiografia dele. Na época moravam na rua da saúde – centro e viviam uma longa lua de mel- good times!
 
Quarta-feira 29/06/2026

O mundo do sr. Con - friday night & Samedi matin

 
Friday night
No final da tarde, o sr. Vince teve uma crise anunciada no banheiro, suas pernas falharam e foi a lona e não conseguia levantar. O sr. Com e o genro o suspenderam e o levaram-nos aos trambolhões para o quarto e deitando-o na cama.
Cruz-credo pensou o sr. Com lendo “Fogo-fatuo” de Lins do Rego. Preocupava com a suade do sr. Vince, um dente inflamou inchando seu rosto, agora as pernas falharam e acima de tudo diabético. Sr. Com tomou a ultima dipirona – uma musica brega vem dos bares da Praça das Sete Palmeiras. O nariz entupido e vez enquanto espirrava.
AGOSTO
Samedi matin, 01 aoüt 2026
Volney carregava um fogão no carro de mão, deixou-o quase no meio-da-rua e entrou para falar com ‘profeta’ rapidamente:
- Tá bom, sim. È para fazer o meu almoço. Tenho um irmão que é gaiato e para não matar ele, vou levar para fazer a minha comida no meu quarto – desabafou, tresandava a cachaça e muito revoltado.
Tio Chagas com a bíblia debaixo do braço e o guarda-chuva pendurado no braço a caminho do culto matinal sabático na Adventista e o fiel Chocolate desconfiado o acompanhava de longe.
- Ei! Seu Constantino! – disse o vizinho barbeiro varrendo o rego da calçada em frente a oficina.
O circunspecto vizinho da frente monta na bicicleta. Seu Bin, o fofoqueiro do mercado, o leva e traz e inimigo figadal de seu Raimundo Zarrolho desde quando era um dos vigias do mercado.
Um gato atravessa ligeiro bala a avenida, enfurnar-se no beco, varando pela grade. Vinha da putaria ou da gataria – a noite é o reino deles – isso é em qualquer lugar – seja nos becos de Manhattan, NY ou no Convent Garden de Londres. Você ouvirá a miadeira e os esguinchos. Os da pensão são caseiros, principalmente as fêmeas. A sra. Vince e a filhota não dão moleza e sempre os vigiando – mesmo assim alguns ardilosos escapolem para a noitada.
De manhã cedo Lucki Lukiano assombrava na janela fechada de Gordilho – chamando-o. O poeta suspendera a porta e fez-lhe sinal para aproximar-se.
- Gordilho não tai, deve ter ido ao mercado – disse-lhe poeta.
- É! Trazia um anel de aço inoxidável que achou de bobeira – e ai? Mostrou-lhe com aquela malicia de ladrão velho.
- Eu não uso essas coisas – enfatizou o poeta
- Tá! - E ganhou a rua.
Minutos depois, Gordilho abria uma banda da janela e suspendia a porta da quitanda. O poeta pousou Sartre/Roquentin sobre a mesinha e apanhou a caneca emborcada no gargalo de um litro seco de um uísque baleado e rumou para lá com a bermuda rasgada na bunda que teima em usar.
No meio da manhã. Aleluia! Aleluia! Negociou um ferro com seu Jorge, deu uma real para Luki Luciano que moscava por lá.
O negro cachaceiro Passarinho encabulou o mestre seleiro José Amaro com suas historias de cavalaria que aprendeu com um cego quando foi seu guia ainda menino – Esse Lins do Rego é porreta, da mesma estirpe de Guimarães Rosas, Graciliano Ramos, Jorge Amado e Rachel de Queiroz – escritores que não fugiram de suas raízes.
Enquanto a esposa colocava os sacos de lixo na beira da calçada, o marido saia com dois botijões secos de agua mineral.
Desde terça-feira que Dezão não aparecia, internou-se com umas gorotinhas na segunda feira. Muitos dos habitués do Popular ficaram a ver navios – foram apenas 250 bandecos prontos para viagem. Mano Brown foi um deles.
Quase meio dia. Gordilho foi comprar bolo de macaxeira para o pai merendar a tarde. O poeta esqueceu de acrescentar na prateleira de seu Isidorinho – as latas de leite Ninho e Gloria, os enlatados de carne da Swift e as sardinhas Gomes da Costa.
Será que a Anny de ‘Nausea’ era a grande mestre e bela Simone de Beauvoir? Roquentin retorna a Paris despois de quatro anos em Bouville. E a reprodução do retrato de Emily Bronté pintado pelo irmão alcoolatra.
- Seu Constantininho, o senhor ainda tá ai?: - pergunta idioticamente o cunhadinho do barbeiro ao lado.
Chuvisca na Vila Embratel, umedecendo o asfalto e o aroma infantil de terra molhada rejuvenesce as recordações do poeta. O papo cabeça entre Roquentin e Anny – obra prima do existencialismo puro. E ele volta para Bouville e ela parte para Londres com um cavalheiro que a sustenta
 
O mundo do sr. Con - friday night & Samedi matin

Sunday Night

 
Sunday night
Descobri aleatoriamente zapeando no you tube, um filme divino que iluminou a minha fundida cuca – “Sacerdote do Amor” – os últimos anos do mestre D.H.Lawrence, autor de vários livros, entre eles os icônicos “Mulheres Apaixonadas” e o polemico e proibido “O Amante de Lady Chatterley” – escrito em 1928 em Florença, Itália. A interpretação impecável do ator Ian McKellen – nos mostra um vigoroso escritor que não se deixava abater pelas adversidades. Antes assistir “Sete anos no Tibet” um filme britânico dos anos 50, feitas com imagens do próprio autor com uma câmera que o próprio Dalai Lama lhe emprestou.
Monday morning
O sol já começava a incomodar o Sr. Com, sentado na estropiada cadeira esquelética com assento improvisado de madeira encostada na casinha, começara a reler “Mulheres Apaixonadas”. Descera ainda pouco até a quitanda de Gordinho no intuito de quitar seu debito parcialmente. Na Praça das Sete Palmeiras, Vila Embratel, um espetáculo digno de um cartão postal, quatro vacas agachadas no canteiro, ruminavam ao bel prazer enquanto banhavam-se ao sol. O poeta parou. Na parada debaixo da centenária mangueira recente podada, os passageiros alheios aguardavam ansiosamente o ônibus – uma cena banal para eles, um espetáculo para o poeta que não sabe porque lembrou-se do presépio natalino. Seu Raimundo, o octogenário da bicicleta, em pé apoiada nela, impaciente e zangado murmurava imprecações contra o sistema de abrir as barracas do mercado somente as oito horas – Barbudo, as vezes eu choro por essa desgraça – confessou ao poeta a sua indignação.
Caçulinha procrastinou a sua ida para agendar um exame de sangue numa clinica do Coroadinho para a próxima segunda. Motivo o dente caiu. A sra. Vince e a filha maior foram ao caixa eletrônico buscar seus proventos. Sr. Com muda de lugar, encostando a cadeira no muro oposto que ainda tinha sombra..
O poeta seguiu o seu roteiro, descendo a ladeira da avenida Sarney Filho – nenhum conhecido a vista. O lixo da lixeira de Lourival espalhado pela calçada. Para sua tristeza, a janela e o comercio fechados, sinal que Gordinho saíra. Deu meia volta e ao passar pela barbearia e ver Seu Costa e a companheira fazendo a faxina no salão, bateu no vidro da porta e quando este abriu deu-lhe uma cédula de vinte reais, pagando a tosquia completa do cabelo e a barba ‘nojenta’ na terça-feira passada.
- Isso é muito bom, Seu Constantino, receber de manhã cedo. Muito obrigado – agardeceu com sua voz fanhosa.
“Pronto, falta somente Gordinho e Ed Paul” – pensou com seus botões.
O encontro nada agradável, saindo da rua 19, o arquinimigo do meu amigo Lasierra, quase se esbarraram. Passou na Padaria Renascer e apanhou seus pães. As vacas de pé, sempre ruminado como quem masca fumo de rolo e então J.C.R, o xerife da praça aproximava-se com um cabo de vassoura para enxota-las.
Mais outra viagem debalde – Gordinho e Ed ainda fechados as nove horas de uma manhã ensolarada. A Praça das Sete Palmeiras cheirava a bosta das vacas, o odor nostálgico que anestesiava as narinas do poeta com lembranças de sua infância.
A loura, dona de uma das lojas no imóvel do barão, descia elegantemente de sua Hilux estacionada na rua 19 e a inspecionava dando volta ao seu redor.
- Que chic! – exclamou o poeta.
Do outro lado, seu Chico pedreiro aposentado, ajudava a esposa a sair da lotação estacionada em frente a autoescola, ela com uma bengala dobraram para a rua 19.
 
Sunday Night

O mundo do Sr. Con

 
O MUNDO DO SR. CON – 2020
Con sem compromisso, começou a esboçar o novo projeto literário. A noite avançava a passos de cagádos para a madrugada de um novo dia. Não jantou, queria acostumar o estomago e a mente. O alarme do Corolla estacionado em frente a casa do PM disparou e tocou até a chegada de uma moto. Era um entregador de pizza. Con para não aparecer indiscreto fechou a janela. Apanhou “história de Pobres Amantes” do italiano Vasco Pratollini, releu as primeiras páginas, nesses últimos dias vinha relendo vários livros, apesar que ainda tinha seis livros cabaços comprados com a parcela do auxilio emergencial de Papai Bolso.
Decimo-quarto-dia – quinta-feira
Saiu da pensão com o sol bem alto. Dormira mal. Nem sentou-se para ler na praça. Estava atrasado. Seu Raimundo, o baixinho da bicicleta, mesmo com a mão direita inchada encarou a magrela. Pensou em encarar um a pescaria, mas desistiu. Descobriu que um selim quebrou uma peça. Ficou zangado com Con por este não ter as chaves para desparafusar o selim. Agoniado foi em casa e trouxe uma, e assim Con fez a solda necessária, ganhando 16 reais. Beleza. Gasparetto deu-lhe um vale de cinquenta reais. Então o diabo virou moleque.
No dia seguinte Dr. Smith deu-lhe meio litro de um uísque, um tal de Blach-street Honey e dai o homem resolveu feriar....
No sábado, o carroceirinho veio buscar as grades de Janos e o poeta já mordia uma lata, pediu emprestado cinco reais para Gordinho e subiu o morro. Pegou umas latas no credito na Jurema e saiu a charlar.... No final da manhã, o ápice final, Janos lhe pagou o restante – duzentos mil-réis – Ai meu irmão, não deu pra ninguém, o homem explodiu – deixou noventa com a senhora Vince e voltou para o mercado e se chapou na boa, emendando até a noite – acordou hoje ruinzão, o estomago naquele estado – mas ainda tinha vinte reais – Mas como todo bom fulero mordeu umas quatro latinhas que seu cumpadre lhe pagou.... amanhã será outro dia....

Decimo-oitavo dia - segunda-feira
Cães vadios extenuados pela noite insone vagando pelas ruas lúgubres da vila Embratel., descansavam merecidamente deitados na larga calçada do Valdecir, onde o poeta comprara um litrinho de agua mineral com gás e desceu para oficina. O céu nublado e abafado. Fraco, tremulo e suarento, qualquer pequeno esforço físico o cansava.
Para acompanha-lo naquela insipida manhã de segunda-feira, levava “Plexus” de Henry Miller, escritor nova yorkino, nascido e criado no Brooklin, autor do clássico “Tropico de Câncer” publicado em 1934 em Paris e por muito tempo proibido nos Estados Unidos. Con era fã incondicional dele e tornou-se seu discípulo. Teve o livro “Tuberculose” aceito por uma editora mineira, assinou o contrato, meses depois ela faliu. Decepcionado, resolveu não publicar mais nada.. mas continuaria a manter o seu inseparável diário. Fazia uns bicos na oficina pela manhã não queria mais encarar grandes encomendas e nem nada de responsabilidades. Levava uma vida de poeta errante, perambulando a esmo pelas vielas do mercado, tentando reavivar a sua ferve poética, sempre com uma latinha de Glacil como companhia. Ferrando uns e outros para inteira-la. Talvez o bom e velho mestre Miller o incentivasse a voltar aos seus sonhos de adolescente. Certa vez comentei a esse respeito:
- Vá se foder, o meu tempo já passou, se quando eu era mais novo não decolei, agora que sou um velho decrepito que vou? Não meu amigo, as ilusões já foram perdidas.

Finalmente almoçou um bom cozidão de uritinga com o caldo bem grosso, três dias que não comia nada, só enchendo a cara. Pobre homem sem fé em si mesmo -Incitado por Miller resolveu correr a vista em “Tonio Kroeger” do mestre alemão Thomas Mann. O que ainda fazia viver era a literatura, quando não estava nas águas deliciava-se com os clássicos que tanto amava. As vezes pensava que viraria um Dom Quixote moderno pirado de tanto ler. Quem sabe um dia os ventos mudassem de rumo e ele de pensamento.....

Com muito esforço e bota esforço nisso, serrou as seis pontas das cantoneiras do portão chapeado das irmãzinhas. Esbaforido, banhado de suor, destilava como uma chaleira. Esse lhe tirava de tempo, eram tantas as preocupações negativas – uma hora achava que as cantoneiras eram muitas estreitas e que a estrutura ficaria muito a desejar, tinha também a chapa que prometera botar inteira, mas infelizmente tivera que cortar em três secções. O que poderia acarretar a aborrecimento ao dono e assim uma carreta de problemas aflorava na sua frágil mente. Ainda na pensão na cabeça a beleza musical da icônica banda cubana “Buenas Vistas Social Club. Eram uns simpáticos senhores músicos de Havana que encantam o mundo.
Depois da tarefa, agora era sombra e água fresca – pensou quando após beber o substancioso café com leite e pão que apanhava todos as manhãs na casa do amigo Gordinho, mudou de farda aboletou-se confortavelmente na velha cadeira abacial para reler “O Planeta do Sr. Sammler” do grande Saul Below. Mas aos poucos foram chegando os habitués para conversar e tirar-lhe a concentração da preciosa leitura e assim com aportaram partiram silenciosamente como aves de arribação. Então finalmente poderia relaxar e fazer o que mais gostava – ler e viajar por cidades que nunca visitaria. Dessa vez é Manhattan, o bairro central de Nova York onde mora senhor Sammler, um judeu polaco, inglês por adoção, viúvo que perdera a mulher na Polonia em 1940. Um excelente livro que comprara em setembro no sebo Paço Prosa, no bairro da Praia Grande(Projeto reviver) com a primeira parcela de 600 reais do auxílio emergencial – Oh! Doce saudade.
Ao meio-dia sentado na calçada do Adolescento na rua 16, na lateral direita do mercado, debaixo de um vistoso Ipé-Rosa. O compadre pagou-lhe duas latas de Glacial – as funcionarias das lojas Maycar despediam-se efusivamente como alegres colegiais – Seu Manuel genro do finado Manoel dos Fogões sentado a porta do estabelecimento herdado pela esposa atendia uma bela cliente de pernas grossas. Secou a lata e entrou no mercado. Os boxes todos fechados, Seu Lucas, o peixeiro arrumava suas tralhas sobre o tabuleiro azulejado, observado pelo decano colega e vizinho Seu Berrete que ouvia o radio sentado num banco alto de madeira – O irônico camaroeiro Seu Lucas ensacava seus produtos para guarda-los num pequeno deposito algumas quadras adiante. Com uma latinha na sacola Con rumou para a pensão. Almoçou um macarrão frio, torta de frango. Enfim uma pequena siesta. Os pedreiros continuavam na labuta. Desta vez no quarto de Caçulinha e depois no do casal. Um marceneiro montava um armário recém-adquirido. Os cães agoniados presos na sala de computador. E Con relia deitado nos seus humildes aposentos um em livro francês “Je reste um barbare” de Roger Boutefeu... C’est la vie d’un poète.
 
O mundo do Sr. Con

Segunda-feira, 26/01/2026 e até quinta 29/01/2026

 
Segunda-feira, 26/01/2026
Dormi como uma pedra, totalmente chapado de vodka e cerveja. Acordei ainda zureta – mas consegui fazer o que tinha programado e aqui estou no Terminal da Praia Grande com o queixo quebrado. Foi uma queda brusca, inesperada, dei uma topada com o dedão do pé esquerdo num desnível na calçada em frente a Casa das Tulhas – Feira da Praia Grande e fui literalmente a lona. Recebi o recurso na Caixa da Praça João Lisboa e vinha todo alegre, sonhando em molhar a garganta com uma boa e gelada cerveja. Mas aconteceu e o sangue tingiu de vermelho a minha barba, obrigando-me a lavar-me no banheiro da feira. Na banca de Dona Loura como de praxe comprei dois livros: “Pela mão do Anjo” a biografia ficcional do diretor de cinema, escritor poeta italiano Píer Paolo Pasolini escrito belamente pelo escritor francês Dominique Fernandez e “Contos de Manhattan” do mestre americano Louis Auchincloss.
Quarta-feira, 28
O dedão do pé esquerdo lateja, desde a topada brutal na segunda. Ainda bem que era cedo e poucos transeuntes.
Comecei a ler os livros que comprei na segunda. “Pela Mão do anjo” de Dominique Fernandez e “Contos de Manhattan” de Auchincloss. Maravilhosos, principalmente a o primeiro a biografia ficcional do grande mestre Píer Paolo Pasolini – diretor de cinema – morte dele nos anos 70 me comoveu muito e escrevi um poema “Prantos para Píer Paolo Pasolini” ao estilo do que Frederico Garcia Lorca fez para o toureiro Ignacio Sancho Mejía. Pasolini trabalhou com Maria Callas e Sophia Loren. No sábado assisti o filme português interessante – “Snu – o amor que mudou Portugal” – a historia do romance do primeiro ministro Sá Carneiro e a dinamarquesa Snu.
Quinta-feira, 29
Eles se foram – primeiro foi o Tio Vince e minutos depois no raiar do dia Tia Fleur. E eu fiquei provisoriamente como o guardião do castelo aqui no Paraiso. Preparei um sanduba e o devorei com leite. O galo cantava no quintal – Serão quatro dias de completo isolamento. Terei que ir a Vila, ou seja, a pensão para apanhar o outro caderno de capa dura amarela e o shampoo que esqueci na pressa de vim ontem a tarde, depois que Mano Vince telefonou-me pedindo meus préstimos.
As seis e meia da manhã fiz o que tinha de fazer, ou seja, retornar a pensão Vince para apanhar as tralhas – além dos pães, trouxe o poeta Caeiro/Pessoa – Agora sim, tomo posse definitivamente de guardião – uma televisão com uma tela enorme, mas sem internet. All right!
Ainda é cedo, oito e dezessete. Levei as verduras, legumes e o feijão cozido para a cozinha. Antes de sair, joguei o milho para o astucioso galo e um pombo empoleirado no muro lateral o observava. Assistindo o migueloso apostolo milagroso Valdemiro Santiago, o líder da Igreja Mundial do Poder de Deus. Chi, esqueci a pomada das frieiras.
09:11 – O almoço pronto – um bom almoço vitaminado -repolho e feijão cozido que tia Fleur fez ontem a noite – um guisadinho de linguiça, repolho e ovos.
10:05 – Um pouco da filosofia oriental do escritor persa Ibn Al-Mukafa em “Calila e Dimna”. Morreu aos 35 anos, queimado aos pedaços no forno de um inimigo.
11:51 – O dedão do pé esquerdo voltou a latejar. Ontem a noite Mano Vince deu-me um comprimido de Infralax. As crianças brincam nas quitinetes do lado e do outro um pedreiro assenta uns tijolos batendo com a colher para fixa-los.
Meio-dia – Encantado com a prosa de Dominique Fernandez encarnando o mestre Pasolini – este livro ganhou o Premio Goncourt, importante premio literário francês.
O dedão arroxeado, acende o sinal de alerta, o medo de gangrenar. Foi assim que amputaram o dedo do comandante Lasierra. Chuvisca sobre o Paraiso. Os bombeiros da Defesa Civil vistoriam os casarões do centro que correm o risco desabarem, assim como a oficina do Sr. Con.
13:03 – A chuva volta, lavei o cabelo e a barba com shampoo e esfreguei-me com a palha. Depois de enxuga-las coloquei nas frieiras um remédio que encontrei sobre a cômoda do quarto que me alojei – um tal de “Colpadok -Nitrato de MIcanazol”.
Tarde – emocionado com a homenagem da Unidos da Tijuca para a grande mestre da nossa amada literatura Carolina Maria de Jesus – sou seu fã, a li uns quarenta anos atrás, comprei o livro icônico “Quarto de Despejo” fiado na banca do Irmão na Avenida Magalhães de Almeida. Perdi ou me furtaram nessas mudanças. Juvan tem um exemplar que o instiguei a comprar.
A merenda das três foi um copo de leite com bolacha. Ainda tem um pouco do almoço pra o jantar. Jogo milho para o galo – é final de tarde. A geladeira com mau cheiro.
18:00 – Hora do Angelus e assisto a missa da basílica histórica de Nossa Senhora Aparecida.
A distribuição da hóstia, levantei para acender a lâmpada da sala de jantar, o interruptor fica dentro do banheiro e segui para cozinha, fechar a porta do quintal, lavei as colheres e o prato voltei.
Ergo-me novamente para acender a lâmpada desta sala de estar e voltei ao banheiro para apagar a luz da sala de jantar, entro no quarto onde me alojei para fechar a janela.
O canto de encerramento e pedimos a benção a mãe Aparecida.
Em Brasília, 19 horas – A Voz do Brasil no Canal Gov.
19:32 – barriga cheia e o cricrilar dos grilos amorosos.
“Mãos Talentosas” a história do neuro cirurgião Bem Carson. O dedão do pé lesionado continua arroxeado, mas sem dor. Um copo de leite e outro sanduba. Uma cirurgia de 22 horas para separar os gêmeos craniópagos feita por uma equipe medica comandada pelo DR. Carson. O velho seriado “O Rei dos ladrões! Com Robert Wagner na Rede Brasil – um enlatado americano dos anos 70.
Mas um sanduba, enchi o litro de agua. Outro seriado e sono bate em minha porta.
 
Segunda-feira, 26/01/2026 e até quinta 29/01/2026

Vila Embratel - Praça Sete Palmeiras - II

 
II

No momento em que Pé de Pato atravessava a rua 17 para entrar no mercado, Matraquinha, um valetudinário amarelinho e carcomido pelo abuso de álcool, entregava a sacola de pão para a mãe de Dona Edila, e em troca recebia umas moedas. Com elas na sua mirrada mão seguia com dificuldade até o quiosque de seu Mundé, nos fundos da horta da família de Cata Vento ou senhor Miaqui. Pedia uma dose de temperada tão forte que descia rasgando e se alguém acendesse um fosforo era capaz de inflamar-se. Quem o atendia era o próprio proprietário, um homem rude e de poucas palavras, que enchia o copo. Matraquinha apanhava-o com sofreguidão, a mão trêmula, e o entornava num só gole e sem cuspir, lambia os beiços de prazer e os olhos mourejavam, queria engulhar mas se segurava, arrotava, se aprumava e caminhava todo empertigado.
Matraquinha era de Alcântara, morava com a mãe e os irmãos da parte dela, num quartinho fora da casa no corredor. Fora durante muito tempo ajudante de pedreiro com o padrasto e com um dos irmãos. Trabalhara numa reforma de um edifício no Rio de Janeiro. Na juventude fora garrote, descabaçador de moças donzelas, teve inúmeros filhos espalhados por aí. Então aos poucos o álcool foi tomando-lhe as rédeas até entregar-se totalmente a ele. Não trabalhava mais, o irmão não o convidava, alegava que mais atrasava do que ajudava.
Atravessou a praça do Bacurizeiro com seus passos trôpegos debaixo das árvores e seus galhos, entrou na feira pelo portão do comércio de Bruno, passaria por trás dos bares da rua dezessete e sairia na porta de seu Biné, em frente ao prédio de seu Toinho Cabeça Branca.
A sapataria Trindade e outras lojas ainda estavam fechadas. Mancando sempre, antes de atravessar a avenida estreita, olhou para a parada de ônibus debaixo da frondosa mangueira, os passageiros impacientes esperavam ansiosamente os ônibus que passavam lotados na direção do centro ou do terminal da Praia Grande e não paravam, obrigando alguns a caminhar até outras paradas mais abaixo. E os carros de lotação buzinando à cata de clientes.
Mordia os beiços, a fissura para beber mais uma dose. Sentou-se no banco e olhava para os lados em busca de algum conhecido ou parceiro. Foi quando uma reluzente moto Honda vermelha subiu na calçada e estacionou debaixo do toldo em frente ao bar de seu Carrinho Cotia. E dela desceu um bacana, balançando a chave e na ginga de malandro aproximou-se de Matraquinha.
- E aí camarada, cadê Pé de Pato? - Perlustrou para os lados. – E aí, já benzeu o corpo?
Matraquinha balançou a cabeça negativamente.
- Espera aí, vou pegar uns amendoins e na volta trago uma garrafa. E se Pé de Pato aparecer diz para ele mim esperar, certo?
- Na hora, Doutor Osvaldo – prontamente concordou com um sorriso nos lábios tristes.
Pé de Pato retornou com uma sacola de ovos vencidos que ganhara de um quitandeiro da feira. Cumprimentou Matraquinha e olhando a moto perguntou:
- Cadê Doutor Osvaldo?
- Ele foi apanhar amendoim e disse para tu esperar ele.
- Tá bom. Vou fazer o fogo para cozinhar estes ovos.
Arrumou três tijolos, jogou uns gavetos e um pedaço de papelão e acendeu o fogo nele que queimou. Botou uns pedaços de ripa que juntara na véspera em cima da brasa. Apanhou uma lata de leite grande, encheu de água da torneira e com cuidado despejou os ovos. Levou a lata, colocou sobre os tijolos onde as labaredas subiam das ripas.
Matraquinha alegrou-se ao ver o Dr. Osvaldo chegando com a garrafa de pinga e o copo plástico, que lhe entregou. Ele lambeu os beiços de contente, os olhos brilharam de prazer e sem perda de tempo serviu-se de uma generosa dose. Dr. Osvaldo foi para junto de Pé de Pato, que estava de cócoras e com um pedaço de cabo de vassoura cutucava o braseiro.
- E aí, camarada Pezinho, como estão as ‘coisas’ lá em baixo?
- Tá de boa, tá carregado – respondeu levantando.
Dr. Oswaldo meteu a mão no bolso dianteiro da calça social, puxou um maço de notas amarfanhadas e delas pescou uma cédula de dez reais e a estendeu para Pezinho, que limpou as mãos na bermuda e a apanhou com avidez.
- Descola dois ‘dólar’ pra gente.
- Na hora, Doutor – e virou caminhando para o extremo da praça, em direção à ladeira do Piancó.
Gato Guerreiro agachou-se perto de Matraquinha, pegou a garrafa, colocou uma boa dose no copo, bebeu num gole só e sentou-se ao lado dele.
- Tu tava tirando espirito, tá suado que nem chaleira – brincou Matraquinha com a língua enrolada.
- Tava fazendo um corre, fui jogar um cachorro morto lá em baixo. Oh! Bicho pesado. Cadê Pezinho?
Quem respondeu foi Dr. Osvaldo, sentado no outro banco, malandramente de pernas cruzadas, comendo os amendoins que surrupiou no Merete e jogando as cascas no chão.
- Ele foi ali e disse pra vocês olharem o fogo.
Gato Guerreiro ergueu-se e foi observar o fogo. Que queimava certo.
Dr. Osvaldo era também conhecido como Troira, Puxa Ovos, Mão de Paca e Bacana. Era aposentado por invalidez e para completar a renda fazia um bico como mototáxi. Nascera e se criara nos baixos do Bairro de Fatima. Teve vários empregos, o primeiro foi de ajudante de pedreiro, não passou da manhã, abandonou o serviço depois de descarregar uns sacos de cimentos e sentir a coluna. Mas antes passou no restaurante, almoçou e ainda bebeu umas doses na conta do patrão, que à noite foi reclamar para seu Donato, o pai dele.
Vendeu jornal nas ruas, mas nunca fechava a conta, sempre faltavam uns trocados, alegava que se enganara na hora de dar o troco. O velho Donato conseguiu-lhe um emprego no jornal O Imparcial como ajudante. Trabalhou como cobrador da empresa Taguatur e da Itapemirim nos ônibus intermunicipais pela baixada. E finalmente, graças a seu Donato, entrou para o tribunal de Justiça como boy e ali se aposentou depois de se chocar com um ônibus. Era separado, morava sozinho em uma casa na travessa da rua treze. Uma neta trazia-lhe, todos os finais de semana, a boia e a roupa lavada pela ex-mulher.
Minutos depois Pé de Pato voltava amarelo e ofegante.
- Porra, Bacana, sujou lá embaixo – desabafou jogando-se no banco entre Matraquinha e Gato Guerreiro.
- Me dá uma dose mano, ainda estou nervoso, corri que nem um condenado – e arquejava. Matraquinha pegou meio copo e entregou-lhe.
Dr. Osvaldo olhou-o de soslaio, levantou-se e ficou a sua frente.
- E aí, comprou?
Bebeu a cachaça, deu uma cuspalhada.
- Pelei foi uma porca. Ainda bem que ouvir o barulho das portas do camburão, peguei o bagulho da mão da boca e corri para o fundo e rasguei por dentro do mato.
Meteu a mão no fundilho e tirou dois ‘dólar’ bem servidos e colocou na mão de Bacana, que num gesto automático levou o bagulho ao nariz e espirrou.
- Valeu, Pezinho – dividiu um no meio e deu metade para ele.
- Agora vou me chilar no barraco e depois vou no BF. (bairro de Fatima) visitar Seu Donato.
Rumou para a moto, montou e deu a partida, antes de arrancar fez sinal para Pezinho que correu até ele. Deu-lhe uma cédula de cinco reais.
- Falou, Dr. Osvaldo – agradeceu, guardando o dinheiro no bolso da bermuda.
Gato Guerreiro tomou outra dose e estalou o beiço.
- Os ovos estão cozidos – disse para Pé.
Com cuidado tiraram a lata do fogo e a colocaram debaixo da torneira, abriram-na e o jorro esfriou.
Matraquinha pegou a garrafa e a levantou até a altura de seus olhos, a aproximou mais da vista e a examinou meticulosamente, estava abaixo da metade. Ficou satisfeito, encheu o copo até a metade e emborcou goela abaixo.
Pé de Pato e Gato cada um pegou um ovo dentro da lata, a água ainda estava morna e começaram a descascá-los.
- E lá vêm aquelas duas malas sem alças – comentou Gato com a boca cheia, apontando para duas figuras que dobravam a esquina da sapataria e cruzaram correndo a pista. Um carro buzinou e eles pularam pra calçada.
- Cuidado que estão matando cachorro - gritou e os três gargalharam.
Era Jamanta e o seu inseparável parceiro Jorginho. Duas personas dispares. Um era alto e forte e falava grosso e o outro baixinho, meio lerdo, mas ardiloso. Vinham discutindo. Foram chegando e logo se serviram sem cerimônia. Isso desagradou Matraquinha, que zangado arrancou o copo das mãos de Jorginho, encheu até o meio e entornou violentamente. Os outros entreolharam-se, mas ninguém comentou nada.
- É quirança, é hora do feijão – balbuciou com dificuldade. Ergueu-se devagar, apoiando-se no encosto do banco, balançando que nem cuia de cego, e começou a andar.
- Tu não qué pra mim te atravessar? – brincou Gato, levantando-se também.
- Não precisa, desço na vazante – continuou todo aprumado com os passos cambaleantes, encostou-se no balcão do bar fechado e parou e lançou um olhar vazio. Fez uma careta.
- Essa miséria já está bêbado – falou Pé de Pato. – E ainda secou a porra da garrafa. Ah! Desgraça.
- Ele bebe de manhã cedo, aquela temperada do Mundé, por isso se embriaga cedo, nem bebe café. Dona Cândida diz que ele dorme em cima do prato – disse Gato Guerreiro em pé, observando-o.
Matraquinha deu um passo em falso e ia caindo em câmera lenta, Gato correu em seu auxilio e o ajudou.
- Vou te levar, teimoso – completou. Ele quis sair, mas Gato era forte, passou o braço pelo ombro dele e o rebocou devagar, atravessaram a estreita pista e desapareceram na esquina da rua dezoito.
- Crianças a cachaça acabou – advertiu Pé de Pato descascando outro ovo. – Vamos inteirar...
A muito custo Jamanta puxou de bolso uma cédula de dois reais e entregou-lhe. Jorginho, malandro velho, disfarçou olhando para a sapataria.
- Que milagre é esse? Vai chover – ironizou Pezinho de pé e ajeitando a bermuda, aparecendo o cabo branco da faca. – Mas antes vamos falar com Deus – e entocou-se no meio das cadeiras. Rasgou um pedaço de papel e enrolou tranquilamente um ‘birro de macaco’ e o acendeu. Jamanta e Jorginho avizinharam-se em volta dele – É na ‘paulista’, um pau pra cada um – sentenciou e passou o pequeno chaule, um verdadeiro fino de cadeia para Jamanta. Este, afoito, puxou fundo, engasgou-se e começou a tossir, andando de um lado para outro.
- Êta é da boa – bradou Gato, que foi logo pegando a bia e sugou tudo até queimar o beiço, cuspindo-se todo.
Gato Guerreiro logo se recompôs, assim como Pé de Pato que passava a mão no rosto e Jorginho de boca aberta como um palerma e Jamanta lacrimejando.
- Morreu, agora vamos inteirar uma garrafa – propôs Gato com uma moeda de um real.
Pezinho entregou-lhe a cédula que recebera de Jamanta.
- E quem vai lá descolar? – indagou com o dinheiro na mão.
Todos os olhares se convergiram para o coiriento Jorginho que ia sentando-se no meio fio. Gato deu-lhe os três reais, mas antes o advertiu:
- Agora vai fazer como naquele dia.
- E aí Gato, tu tá me tirando?
Gato o olhou com desprezo:
- Não te digo nada. Não vai dar uma de doido que o pau te acha.
Jorginho, contrariado, afastou-se lentamente rumando para a pequena mercearia de seu Zidorinho na esquina da rua dezenove, onde a garrafa era mais barata.
- Hoje eu estou injuriado – comentou Jamanta e abancaram-se debaixo do toldo.
Pé de Pato encostou-se no seu lugar e os dois no meio-fio.
- A mulher está muito enjoada. Hoje vou dormir aqui na praça, não quero mais olhar a cara daquela miséria.
Gato Guerreiro e Pé de Pato trocaram olhares de espanto, quando Jorginho surgiu com a garrafa aberta e um copo e a colocou no meio deles, depois sentou no chão de costas para as mesas.
Cada um se serviu, apanharam os ovos e começaram a descascá-los.
- Ela tá cantando muita marra e eu já me invoquei com a cara dela. Ela que vá à puta que pariu. Vou só buscar minha mochila e venho pra cá.
- Taí um companheiro pra ti, Pé de Pato – ironizou Gato Guerreiro apontando pra ele. – E tu Jorginho?
- Esse aí tá mais sujo que pau de galinheiro, não roubou umas roupas do cunhado e a irmã o expulsou de lá? – comentou Jamanta.
- Esse bicho só faz besteira – disse Pé de Pato levantando-se. – É, meninos, a praça tá aqui, vou no mercado fazer um trampo, levar umas caixas de peixe para seu Bereta.
- Seu Bereta? O secretario dele não é Zé Augusto? – indagou Gato.
- Zé Augusto? Não, roubou o carro de mão de seu Bereta. Esse é outro que só faz merda. Seu Benedito Mondego, presidente da associação dos feirantes, tá injuriado com ele. Proibiu a entrada no mercado. Toda vez que ele entra lá, desaparece alguma coisa. Vou lá ganhar esse trocado e um peixe para gente comer assado. Não tem nem farinha e nem sal, tem que fazer um corre...
- Deixa comigo – assentiu Gato.
E Pé de Pato, arrastando o seu pezinho defeituoso, seguiu para o mercado.
- Vou procurar uns papelões – disse Jamanta bebendo uma dose.
- A tua cabeça é teu guia – falou Gato Guerreiro. Esquivando o braço para pegar o copo e garrafa, serviu-se de uma generosa dose que lambeu os beiços.
- Eu não vou dizer nada, cada um carrega a sua cruz.
Jorginho, chilado, os olhos mortos, estirou-se no cimento e cochilou.
A conversa foi interrompida com a aproximação do um homem alto, moreno, de barba grisalha, trajando calça social preta, assim como camisa de manga comprida, sapato bico fino bem lustroso e um chapéu de filtro preto. No braço esquerdo um vistoso relógio de pulso folheado a ouro e no pescoço um cordão. A feição séria denotava estar chateado ou zangado, trazia uma sacola.
- E lá vem seu João – murmurou Gato Guerreiro, que arqueou e franziu as sobrancelhas para apurar melhor, a vista já ofuscada pelas doses e THC. – E vem brabo.
- Cadê o safado do Pé de Pato? – perguntou com a cara fechada e intimidando os dois.
Jamanta olhou-o de cima para baixo e teve a impressão que estava diante de uma grande autoridade e ergueu-se rapidamente, perfilando-se diante dele.
- Pronto, autoridade.
Seu João fechou a cara, dando expressão de mais bravo ainda, e lançou um olhar de desapreço.
- Cadê o pilantra do Pé de Pato?
- Seu João, ele foi pro mercado fazer faxina nos boxes dos peixeiros.
- E como eu passei por lá e não vi esse corno? – lançou um olhar para Gato que continuava sentado enchendo o copo. – E tu safado?
Cutucou com o bico do sapato a costela dele. Gato sufocou-se com a dose que quase o engasgou.
- Nada – ergueu-se como um boneco de mola, passando a mão na costela atingida.
- Pega, vai fazer um corre – entregou-lhe a sacola – É um CD zerado, tem nota fiscal. Custou 150 reais, mais vendo por cem. E cuida, vou te esperar aqui que ainda vou no centro – ordenou laconicamente e encostou-se na frente do bar. E Gato, sem pestanejar, saiu ligeiro rumo ao mercado.
Jamanta sentou-se de novo e o observava por baixo. Um senhor negro, forte, de camiseta e bermuda com um boné, sentou-se no banco em frente e fez sinal para seu João que o atendeu imediatamente, acomodando-se ao lado. Entabularam uma conversa baixa. Seu João, sério, só escutava e fazia “hum, hum”. Quinze minutos depois Gato retornou ligeiro e suado com a sacola na mão.
- O que foi, caralho? – Gritou seu João.
- Tem um caboco que quer dá cinquenta reais.
- O QUÊ? – Rugiu como um leão faminto, levantou-se com o susto – Esse caralho não é roubo, manda se fudê. Comprei na loja. Porra Zé Buceta, tu falou?
- Falei – disse Gato. – Mas ele não quer saber, disse que dá os cinquenta, me mostrou o dinheiro.
- Quem é esse filho de corno?
- E o homem da Juçara.
Seu João andou de um lado para o outro, a cara enfezada e um bico.
No banco o amigo olhou-o e chamou-o.
- João, se eu fosse tu segurava esses cinquenta, a coisa não tá fácil. Aproveita que o homem tá te oferecendo – aconselhou-o.
- Andei esse mercado todo e ninguém quis – justificou-se Gato agachado, bebendo uma dose.
- Infelizmente, tu tá certo – concordou mais tranquilo e olhou para o amigo – E Chico, tu tens razão. É! Safado, vem cá pilantra – gritou para Gato que passava o dorso da mão na boca, levantou-se e aproximou-se, apanhando a sacola que seu João lhe estendia. – Caralho, presta atenção. Pega esses cinquenta desse filho de corno – entregou-lhe um papel, era uma lista de compras. – Faz essas compras e vai deixá lá em casa. Traz o carro de mão e pega o babujo dos porcos. E vai ligeiro e nem olha para trás. O troco é teu.
Prosseguiu olhando para Jamanta. – E tu, filho da mãe, se chegar um cara ai de carro, diz que fui pro centro, só à tardinha que estarei aqui, entendeu?
- Sim, meu patrão – assentiu Jamanta perfilado.
- Vamos Chico, deixa esses papudinhos aí – e seguiram em direção à parada de ônibus.
E Gato, veloz como um raio, atravessou a pista e entrou na feira.
 
Vila Embratel - Praça Sete Palmeiras - II

Domingo,08 - o segundo do mês de fevereiro de 26

 
Domingo, 08 – o segundo de fevereiro de 26
Depois da meia-noite – Chov sobre a Vila Embratel, esfriando um pouco. Os mosquitos nos seus afazerem habituais, zunindo nos nossos ouvidos e picando-nos. O meu olho operado ardia, não descobri o porquê. As irascíveis frieiras dos pés não saram. Deixei os meus andrajos de molho para tira-los daqui a pouco ao amanhecer. Preocupado com o pequeno rasgo na rede. E se rasgar de vez? Onde vou dormir? Problemas.
Quase o final da manhã
Choveu a madrugada toda até ainda pouco. São seis e meia da manhã. – Tec, tec, tec – barulho repetitivo dos pingos sobre o telhado de barro. Mesmo assim lavei os meus andrajos, mas não as pendurei no varal -a conselho da sabia Sra. Vince, as deixei dentro do balde até o sol aparecer. A água chegou cedo. Um bom filme com a bela Jodie Foster e Dennis Hopper em “Atraída pelo perigo” .
Um bom almoço dominical feita pela laboriosa sra. Vince – arroz, macarrão, toicinho cozido e frito e crocante, o molho do refogado e uma saladinha básica de couve com alface. Guten Apettit!
Uma tarde friorenta de 25 graus – confesso que me incomoda obrigando-me a vestir duas camisetas. A filhota ouvindo os hinos de sua congregação enquanto engoma as roupa dela e do marido para o culto.
- Muita perseverança – desabafa a sra. Vince assim que acabou de fazer o curativo em Beautiful – Só Deus na causa!
- Vou pegar o cinto, preta dos diabos! – ameaça inocuamente a exaltada Sra. Vince para Little Black – Cadela atentada!
Alguém a chama do terraço, debaixo do chuvisco que cai.
- É Jonh, veio trazer as latas – confessou a Sra. Vince que pediu para o Sr. Com compra-las e este categoricamente se recusou alegando estar péssimo – Então é assim – disse.
Começo da chuvosa noite de domingo, a sra. Vince um pouco acima do chão, depois de mamar varias Glaciais. Uma boa comedia britânica em black & White de 1963 – “Mulheres de Negócios”.
A vizinha veio buscar o jantar para o seu companheiro Jonh e eu me adianto. A filhota e o marido chegaram do culto e já jantaram preparam-se para zarpar rumo ao seu lar. A sra. Vince prepara o bandeco da vizinha, calada sentada na cabeceira da mesa, aproveito para me servir também: o resto da torta de carne, macarrão, feijão, a carne de porco frita -todas sobras do lauto almoço dominical e fui devora-los em frente ao computador assistindo “As garotas de Liverpool”.
Tentei assisti “Medeia” do grande Pasolini com a divina diva grega Maria Callas num de seus piores momentos existencial – quando foi escanteada pelo fulero do magnata Onassis – trocando-a pala recente viúva de Kenedy, a bela Jackie. Mas não consigo, assim como o clássico “O Cão Andaluz” de Buñiel e Dali. Acho que tenho a inteligência curta....
 
Domingo,08 - o segundo do mês de fevereiro de 26

Pai José - Alergia

 
Alergia

Ontem, domingo às cinco horas da tarde, estava deitado na rede, lendo o romance Alphonse Daudet "Le Petit Chose", apertado um narguilé comprara de manhã na Praia Desterro. Na TV, havia um programa aborrecido. Os gatinhos dormiam com Mãe Fome. Quando de repente senti uma forte dor de cabeça. Meus olhos subitamente ficaram borrados, então me levantei da rede e fui ao armário onde eu guardava os remédios que catava nas lixeiras das farmácias. Peguei dois comprimidos e voltei para a rede ... Fechei os olhos, mas a dor ainda era forte. Eu levantei novamente, molhei uma toalha e enrolei minha cabeça, então tomei outra pílula ... Deitei e dormi um pouco. A dor de cabeça persistia ... sentei na cadeira de balanço ... Fome e seus filhos estavam ao meu lado ... latiu, então prepararei a mamadeira dos gatinhos, desliguei a luz deitei-me... Os gatos brincavam com a cauda da Fome. Depois de uma hora, meu corpo começou a ficar vermelho e formigar, umas bolhas apareceram nos braços. Fiquei realmente mal. Eu decidi ir ao hospital "Socorrão". Peguei um ônibus na parada de Anel Viario e dez minutos depois encontrava-me a porta do hospital. Uma mulher de cabelos escuros e gorda preenchia pachorrentamente os formulários com meus dados, entregou-me e apontou um portão de ferro. Um guarda mal-humorado abriu e entrei no corredor cheio de pessoas sentadas ou deitados em bancos e macas encostados nas paredes em ambos os lados. Enfermeiras apressadas saíam e entravam nas enfermarias cheia de pacientes. Um homem com a cabeça quebrada por uma garrafa, um com o braço cortado por uma faca. Uma senhora idosa gemia sentada numa cadeira de roda, a mão de uma menina confortava-a enquanto a enfermeira aplicava-lhe uma injeção no ombro ... Um homem sem camisa tomava um soro na veia ... Um corpo sem vida enrolado num lençol branco saindo de uma das enfermarias numa maca, duas mulheres o seguiam chorando. Um médico cansado com papéis na mão entrou no consultório, seguido por uma enfermeira baixinha das pernas grossas que segredou-lhe alguma coisa no ouvido e ele fez um ar de riso . Sentei-me ao lado de um homem negro com um guarda-chuva. Uma mulher saiu e a enfermeira chamou o próximo paciente. Eu toquei no ombro para avisá-lo de que era sua vez de entrar. Ele caiu no chão desmaiado. As enfermeiras o colocaram em uma cadeira de rodas e entraram com ele. Mudei de lado e sentei-me no outro banco. Uma mulher angustiada acompanhava o filho, com o pé quebrado e mordia os lábios passaram perto de mim ... Momentos depois, o homem negro saiu. A enfermeira me acenou e entrei. O médico, um jovem estagiário com uma jaqueta branca curta e óculos, escrevia sobre uma pequena e fria mesa de ferro. A enfermeira arrumava medicamentos no armário. Ele não olhou para cima e continuou a escrever. Perguntou o que estava acontecendo comigo. Contei-lhe sobre a dor de cabeça e as pílulas que ingeri. indagou seus nomes ... Respondi e ele olhou para cima e então observou... - "Sr. Joseph, você tem uma alergia causada por pílulas", escreveu a receita e olhou-me novamente. - "Receitarei uma injeção, é muito poderosa você ficará em observação, está bem? " "Tudo bem, senhor", Assenti um pouco nervoso. Ele chamou a enfermeira e deu-lhe a receita dizendo-lhe para arranjar uma cama. Ela balançou a cabeça afirmativamente ... Na enfermaria, havia uma cama livre. Todos as outras estavam ocupadas. A enfermeira me pediu para deitar de bruços e abaixar a bermuda. Sem muita cerimonia aplicou nas nádegas. Eu dei um gritinho de dor ... Pediu-me gentilmente para ficar na cama e relaxar. Confesso que me senti estranho, como estivesse dopado e de repente apaguei. Acordei às seis da manhã. A enfermeira veio me examinar e disse que estava livre para sair. Agradeci e ainda um pouco disturbado, levantei-me da cama. Os outros pacientes dormiam, ora e outra um gemido. O corredor deserto, outra maca passou com outro falecido enrolado. Agora estou deitado na rede. Mãe Faim e seus filhos ainda ressonam, ainda me sinto chapado.
 
Pai José - Alergia

Outubro de 91 Terça-feira, 08 de outubro

 
Outubro de 91
Terça-feira, 08 de outubro de 1991
Todos chamam de “Porta Larga”, um pequeno puteiro escondido na Rua Afonso Pena. Somente os aficionados o conhecem. Uns engraxates, esses menores que perambulam de bar em bar com uma caixa, em busca de algum mané que mande engraxar os seus surrados sapatos. Olharam para os meus pés e depararam com sapatilhas de pano made in china – Um ventilador de teto ameniza o calor abafado do final de tarde e uma caixa sorumbática de som pendurada na parede. Mulheres de todos os feitios desfilam entres as poucas mesas. O Casio registra 17:10 – sorvo uma gelada acompanhada por um duro pastel folheado que comprei na lanchonete do canto. Uma figura esquisita de una mujer atravessa o salão oferecendo seus préstimos, tenta me seduzir a acompanha-la. Dar o preço, mas penso na minha Van que me espera na lojinha. As canções bregas.
Ainda pouco torturei-me ao entrar no meu templo (A livraria) – Encontrei-o quase que por acaso, adormecido como um leão, entre as feras repousava um grande Hemingway, entristecido sai com as mãos abanando. Leio a continuação do romance de Pearl S. Buck “A Boa Terra” – os filhos de Wang Lung, uma viagem a desconhecida China do século XIX. Tento encher o copo pela ultima vez, o pastel devorado e hora de sair fora.
Domingo, outubro de 1991
Uma manhã rotineira com todos os domingos, enclausuro-me nos meus domínios e consagradamente tento recompor-me na árdua tarefa de escrever. Ontem comecei a ler Miller, “Sexus” que surrupiei da coleção de professor na minha ultima visita a Casa Senhorial do Cohatrac, aproveitei que todos dormiam. Fumo tranquilamente um ‘baseado’, enquanto pensava na hipocrisia de nossos ilustres governantes, todos demagogos. A torneira enche o tanque no quintal. Além muro murmúrios dos obstinados jogadores de sinuca no boteco de Walters’s. Bebi três doses regulares de um preparado etílico composto de maçã, uva, pedaço de cana, abacaxi e a pura. Segundo a minha amada Dona Van estarei fadado a seguir o rumo dos pés inchados. Estamos em duvida quanto o tempo, o ceu fecha-se num plúmbeo encabuloso, ventos rasantes farfalham as folhas do nosso coqueiro, o fiel F1340 da Philips executa a tradicional musica africana dos domingos do programa Brasil/Africa/Caribe da Universidade FM. A ‘muca’ findou-se, resta-me apenas o cemitério das ‘bias’ numa caixa de fosforo cheio delas.. Forçosamente obrigado a mudar de lugar e de som. Na cozinha a branca prepara o almoço dominical regada a cerveja. Vou para o quintal, acender a churrasqueira para assar umas bistecas. Coloco Chitãozinho e Chororô para criar o clima romântico para pós almoço. Acompanho Van na cerveja, temos umas cinco na geladeira. Os pingos aumentam intensivamente, abrigo-me debaixo do telheiro – e o carvão aos poucos vai ficando vermelho. O sol vacila entre as nuvens, o som afro e Marley da o tom em “Its Love”. Dona Van sensual prepara a salada e eu grelho as bistecas. Uma tarde de amor nos espera.

Segunda, 21 de outubro de 1991
18:10 de uma noite que chega sem mita novidade, a televisão ligada num enfadonho noticiário local. Os ventos açoitam penosamente as folhas do coqueiro. Espero quase sem esperança a chegada da “chila”, mandei um chegado apanha-la. Ele se ofereceu para ir na captura dela, estava de bobeira na sinuca de seu Walter’s, chamei-o discretamente para informar-me onde eu poderia descolar um ‘dolar’.
Comprei mais meio litro de pinga e coloquei no preparado, descasquei um coco do meu próprio coqueiro, aproveitei a deliciosa agua e pus no litro e guardei no congelador. Terminei Pearl, mas confesso que não gostei porque não há conclusão, a estória continua em outro volume e sabe Deus quando o encontrarei. Um estranho assovio, colocou-me em alerta e corri até o portão, era o esperado mensageiro, infelizmente não encontrou nada e caminhou além da fronteira. A vizinha gostosa da frente, sentada tradicionalmente na sua cadeira de cano preto e plástico vermelho curiava atentamente a chegada do mensageiro, mandei-o entrar, falou rapidamente da infrutífera incursão e devolveu-me o dinheiro. Despachei-o sutilmente e voltei aos meus afazeres domésticos.
Domingo passado, quando encontrava-me no Cohatrac na sala dos Bambas a namorar os livros de bolsos enfileirados na estante do Prof. Eusabio, para minha surpresa deparei-me com o grande mestre Henry Miller e de imediato tratei de surrupia-lo, enquanto Mama Bamba cochilava sentada candidamente na sua cadeira de balanço no canto da sala, próximo a porta. Era uma e meia da tarde, todos descansavam em seus devidos lugares. Papa Bamba na sua imaculada rede branca no quarto dele. Dadá na sua espaçosa cama de casal no aposento da frente e os meus adoráveis sobrinhos forçosamente deitados.
Terça-feira, outubro
07:10 – Tempo nublado com serias ameaças de chuvas. Dona Van limpa impacientemente as panelas e tenta inutilmente desentupir a pia da cozinha. A torneira do tanque jorra a todo vapor o precioso liquido. O cachorro do vizinho do lado late, o motorista de ônibus acelera o motor para aquece-lo. A churrasqueira de pernas pro ar. O ultimo ‘basy’ das reservas está enrolado.
Tento desesperadamente trabalhar num conto intitulado “O Entardecer de Uma Alma”, conta os últimos dias de um poeta, prostado num quarto a espera da morte, tendo como visita apenas a irmã mais velha e um vizinho. Escrevi a primeira versão, tentei a segunda e espero conclui-lo para enfim datilografa-lo. Ding, o cãozinho negro que criamos morde seus piolhos.
17:25 – marca o barulhento Casio. Lia ainda a pouco o dinamite Henry Miller, depois de duas tentativas inúteis de chegar a algum lugar.
Antes das dezessete, sai alegremente para explorar o local. Segui por uma estrada não asfaltada até perto de uma cancela. Entrei e caminhei uns dez minutos na mais completa solidão, observando a mata nativa até esbarrar num descampado estranho com uma enorme placa: ‘AREA VIGIADA PELA TIMBIRA’ mas embaixo “Proibida entrada de pessoas estranhas” – hesitei em ultrapassa-la, observei atentamente o local, buscava encontrar o famoso “Sitio do Físico”. Além da mata de coqueiro e babaçus, o rio Bacanga ao longe, fiquei com medo de continuar. Poderia levar um tiro de um segurança esquizofrênico, titubei em segui uns fios nos toscos postes de madeira. Uma outra porteira bloqueava a estrada. Chateado retornei pelo mesmo caminho até a via principal. Ainda era cedo, outro portão impedindo. Perto da ultima e solitária casa, dormia na sombra um cão, passei bem devagar, para não desperta-lo e assim ser atacado por ele.
Quinta-feira, 16:27 de uma tarde entre ferros que te quero ferros velhos
Quase uma semana depois em outubro de 91.
Um jogo da seleção e muito rock. Segunda feira passada, assisti depois de muita ansiedade, o primeiro show de meu mestre Joãozinho Ribeiro no Teatro Praia Grande, no Odilo. A Ansiedade começou desde o primeiro contacto, através do jornal, num domingo rotineiro dos domingos caseiros. Lia em paz comigo mesmo o Estado do Maranhão. Lembro-me estava sentado na cadeira de cano entre o coqueiro e o pé de limão, atrás do de caju que começa a florir. Apertei um basy para me harmonizar com o universo circundante, minha amada Van lavava suavemente as nossas vestes, quando na segunda pagina do caderno B ou melhor Alternativo – na agenda de show:
“Show de Joãozinho Ribeiro e banda no Teatro Praia Grande no projeto alternativo” – meu coração disparou, my god, ele estava ali, em letras impressas convidando-nos para o seu tão sonhado show. Alegrei-me com há muito não me sentia. Comentei com minha querida e expliquei-lhe a importância desse evento e que faria de tudo para conseguir os ingresos. Ela insinuou, caso não conseguisse eles? Fui fulminante e antes que ela percebesse a importância da coisa, disse-lhe que iria de qualquer jeito e olhei a data “28/10 – 19:00 – TEATRO PRAIA GRANDE” e comecei uma lenta contagem regressiva, ainda restava duas semanas para correr atrás. Domingo quando abro novamente na mesma pagina, bem abaixo na seção de shows, o retrato dele, poeticamente sentado sobre a FLOR com o violão, tendo como fundo a antiga Praia do Desterro e o rio Bacanga. O poeta alcançará o seu apogeu e esse sonho se realizarão – pensei. Voltei ao passado e resgatei velhos e bons momentos passados juntos. Eu e o então Joãozinho, filho de Dona Mariquinha. O moleque João Pirata, o violinista de mão cheia, o irmão de Sebá. O menino prodígio que o bairro ungiu – Ali estávamos caminhando nas tardes de quinta-feira pelas ruas poéticas e decadentes da Praia Grande. Nunca esqueço as aulas de violão ao meu irmão mais velho, depois a experiencia de fazermos um projetor de desenho, um cinema alternativo com desenhos feitos sobre pequenas bobinas de papel de maquina de calcular que projetávamos simplesmente na parede do sótão sobre o comercio do velho Bamba. Ainda cobrávamos os ingressos. – O velho John, o primeiro leitor e critico dos meus idiotas primeiros poemas tolos. Ardoroso literário que certa vez me aconselhou a ler um bom conto de Hemingway a ver filmes imbecis como “King Kong” original. Emprestou-me os primeiro livros de poesias de autores da terra, o “Idiota” de Dostoievski, selecionou os vinte melhores poemas que escrevi em 1977 – Emprestou-me também os Lps de Chico Buarque,, Milton Nascimento, Aldir Blanc e João Bosco, fez-me a minha cabeça. Agora estava ali na foto convidando-nos par seu primeiro show. Na segunda feira fui a casa grande dos Carvalhos e ao mirante dela ferrar os ingressos com seu primo Toinho e assim marquei presença.
 
Outubro de 91 Terça-feira, 08 de outubro

O mundo do sr. Con - Samedi nuit e Dimanche matin

 
Samedi nuit, 25
Bodei feio que nem me lembro, sei que estava digitando e quando despertei deitado na rede no meio da tarde, ainda meio grogue. Levantei-me e fui almoçar uma boa linguiça com ovos, arroz e feijão.
Uma hora antes – um café com dipirona e meia de alprazolam. O efeito ainda não chegou, assistindo “O Dono do Jogo” a historia do americano Bob Fischer, enxadrista que desafiou a supremacia dos russos nos anos 70 e aqui nós tínhamos o prodígio Mequinho. Devidoa esses gênios uma onda de jogar xadrez cobriu o Desterro, todo mundo queria jogar até o Sr. Com que chegou a comprar vários livros sobre o assunto e tinha dois tabuleiros que deixavam sempre armados. Mas sempre foi um jogador pífio, não tinha a concentração tão necessária.
Sem ouvir os conselhos dos meus gurus Halls(IA), sai teimosamente a esmo por dentro do mercado em busca de uma luz, mas graças a Deus que não encontrei nada e pensei em marcar no meu cumpadre, para espairecer um pouco ouvindo as bobagens – apesar que tem um senhor que gostaria de ouvi-lo, foi vigia do mercado grande la no centro por trinta e cinco anos – aposentou-se por lá. O mercado fechado para uma reforma que nunca sai do papel. Pois bem, sentindo que a ‘bicha’ vinha se aprochegando devagar voltei a base e fiquei no you tube.
Domingo matin, 26 de julho de 2026
O genro da sra. Vince chegou antes das seis da manhã, aproveitando a carona de um vizinho que veio fazer caminhada na praça das Sete palmeiras, Vila Palmeiras. O poeta abriu as janelas e ficou embalando-se na rede pensando, uma coisa era certa tinha que escrever – pensou em “Processos na mesa” – mas esqueceu o papel almaço na oficina. Maninho, o serigrafista do fundo amanheceu inspirado pregado aos ‘peixes’ – ontem o belo banho no quintal ao luar. Semana que vem os ‘pixixitinhos’ vão tá tudo naquela base – alvoraçados – até ele também. O bom banho no quintal depois que a pequenina tirou suas roupas do molho e as estendeu nos varais. Sr. Vince ainda na padaria.
Apanhei o Paraiso-Bacanga das seis e cinquenta na parada em frente ao D.Bol e a papelaria do metre Salomas – ambos no mesmo prédio na Avenida Sarney Filho entre as ruas 19 e a 20. O transito tranquilo dos domingos, um sol amistoso refletia no espelho d’agua da lagoa da barragem do Bacanga. O motora conversava com um parceiro, esse levantou para uma jovem deficiente visual sentar naquele banquinho perto da porta e um conhecido lá do Desterro aproveitou que a pixixitinha e mãe desceram sentou-se na cara dura. O assunto era a convenção dos partidos que mobilizaram o centro, mas provavelmente o anel viário. Teve uns daqui da vila que ganharam trinta reais para bandeirar.
Azafama dos peixeiros e seus ajudantes aviando seus clientes em bancas avulsas sobre o canteiro central da avenida de frente ao Entreposto de Pesca, no Portinho Desterro e da velha praça do Pescador do antigo Inferninho O velho malandro desceu pela frente, simulando uma carteira qualquer – o motora nem fez questão já o conhece – é colega do outro que conversava era vendedor de cocos. Esse desceu no dentro do terminal seguia para a Ponta D’areia onde tem um tiosque.
O poeta deu o seu rolê, atravessou a ponte Bandeira Tribuzzi, olhou o rio que vai para o Vinhais, um dos primeiros povoados da ilha, da época dos padres que vieram com os franceses em 1612.
Passou pela DPU no Renascença em frente ao UNICEUMA e pensou na burocracia jurídica que o espera para resolver um simples problema – Dia 17 estarei aqui para dar entrada, marcar a audiência e esperar a sentença e dai só Deus sabe – com certeza o INSS recorrerá e dai por diante. Tudo que pede é não perder o seu auxilio e saúde.
Na volta pela ponte Sarney Filho de 1970, a maré cheia – ele foi na inauguração com o velho Bamba. Nenhuma garça a vista e nem mesmo um navio entrando ou saindo na barra - Há um bom tempo que não os vê.
 
O mundo do sr. Con - Samedi nuit e Dimanche matin

O mundo do sr Con - quinta-feira 30/07/2026

 
Quinta-feira, 30 de julho de 2026
Quase três horas da madrugada e não tenho sono – deitei-me as dez e meia, depois de ler “Fogo-fatuo” do mestre Lins do Rego e seus personagens tipicamente regionais – o ronco do sr. Vince, a tosse seca da companheira, a monofonia dos grilos entorpecendo o tempo, o zumbido dos chatos mosquitos nos meus ouvidos, o cheiro azedo das urinas dos gatos pairando abafadamente sobre o cubículo as escuras – tomo a metade de uma Alprozelam, o disparo dos compressores da câmara fria do Frigo Lucio – depois desses indeferimentos do BPC, todos meus sonhos foram por agua baixo e as esperanças ceifadas abruptamente – Tinha tantos planos – um deles era me mudar para o centro, alugar um quarto ou até mesmo uma casa e retornar para onde nasci e me criei – assim como fazem os salmões no fim da vida – enfrentar as correntezas, desovar e subi aos céus. A lembrança do mestre Valois, o Quinca berro D’agua ludovicense, abandonou a família e foi morar num quartinho no Desterro, perto da putaria que tanto amava. O pai dele era francês Monsieur Valois.
Jumar, filho de tia Elza, o doidão que banha nu na frente da casa solta bombinhas na madrugada. Os cães ladram distante, um jumento também zorrilha, o calção fede a urina. Bebo agua na boca do litrão de Pet que tenho aqui nos aposentos, me abstenho de beber agua gelada – bebo normal e de torneira. Os dedos dos pés vitimados pelas micoses das frieiras incharam e assemelham-se aquelas salsichas enlatadas da swift.
A consulta será remarcada e os exames expiram. Jumar não regula bem, as pedras e as diambas dilapidaram o seu inócuo cérebro. O primeiro bocejo, bom sinal. Acho que Mano Vince tem razão a respeito dos indeferimentos do BPC tem relação com o auxilio. Mas vamos esperar e ver o que os brancos de gravatas do DPU vão fazer. Triste, não encontrei “Ilhas das Correntes” do mestre Hemingway. Tudo bem Sartre fechou comigo é parceiro e mestre e vou para Bouville acompanhar o monsieur Roquentin.
No meio da manhã.
Pasmem! Acordei quase nove horas e o sol alto batia na janela fechada e ainda groque da Alprozelam. Constato que realmente perdi “A Ilha das Correntes” – forço-me para lembrar se o levei ou não no sábado – Porra, que droga! All right -Uma amiga de Xenor, o genro da sra. Vince deu-lhe um teclado usado, mas bom e usava quando sai da pensão e no terraço me cruzo com o sério Sr. Castro, o factótum entrando como um relâmpago. Perder um Hemingway, é perder um pedaço da minha alma. Frank Puro espirra e está na dele. Ontem a noite a lua maravilhosa inundava o quintal com sua luminosidade de prata e eu nu banhava-me e depois encarei o seleiro e mestre José Amaro nas suas andanças na noite de lua.
Janoca, a graúda exalava concupiscência de seus enormes atributos físicos dentro de uma colada e justa lycra.
Encontrei com Juvan Senior no Popular, ficamos frente a frente e deu-me uma boa noticia – tinha um livro no Lasierra de capa dura vermelha. Aleluia! Aleluia! – Então cai de boca na suculenta dobradinha com linguiça, dois pratos como ontem – dois reais. Mas uma galera esperava impaciente o frango assado. Subi a ladeira pesado como o Berg Stahl a caminho de Roterdam.
Resgatei Hemingway no Lasierra, o abracei e o beijei – que alegria! E o trouxe de volta ao seu aprisco
“Há de ter cuidado com a literatura. É preciso escrever ao correr da pena sem escolher as palavras” – ensina-me Roquentin/Sartre. Levo-o para o banheiro, enquanto deliciou-me com sua sabedoria filosófica, descarrego maciamente o barro, fruto da feijoada de ontem e logico das laranjas. Um banho no quintal. As frieiras comicham e eu as coço selvagemente até sangrarem e depois passo pomada.
A goiabeira desnuda de folhas como as arvores do Central Park de New York no outono, falta somente os esquilinhos travessos. A laranjeira carregada. Benza a Deus, depois do rango vou apanha-las. Miles Davis azuleja a abafada tarde cinzenta com seu maravilhoso trompete. Bouville existe? Ou é uma criação do mestre Sartre?
 
O mundo do sr Con - quinta-feira 30/07/2026

Samedi nuit, 01/08/2026

 
Samedi nuit de aoüt
Seu Carlos, o factótum chegou ainda pouco e eu fritava dois ovos para jantar com caldo de carne de panela, feijão e arroz. Assisto a série “Marie da Morte” – a Kerkovian de saia – a medica que assiste a eutanásia em doentes terminais com doses letais de Pentobarbital. Um filme idêntico ao drama que uma amigo viveu e morreu – Seu Milson não tinhas parentes, vivia jogado e ébrio, dormindo no inferninho da Praça do pescador, Portinho – Viera do Rio de Janeiro, assim ele me contava – pois bem por obra do destino uma senhora Dona Honoria o resgatou, ele virou um abstêmio convicto e ela montou um box para ele na feira da Praia Grande (Casa das Tulhas), bater e vender juçara, camarão e farinha. Nessa luta diária conheceu o doutor, um bacana, advogado, professor universitário que morava no Renascença, que o convenceu a trabalhar para ele como caseiro. Seu Milson mudou de malas e cuias para a casa do doutor – factótum. Legal, todos ficamos felizes.
Uma bela manhã, chegou contente na oficina, na época no Beco das Picas no Portinho/Desterro.
- Seu Constantino, o meu patrão é gente boa e gosta muito de mim, me gaba muito – disse exultante com seu cinto de fivela de peão de rodeio de Barretos.
- É mesmo? – perguntei curiosamente.
- É fez até um seguro de vida para mim. Não é muita amizade e confiança?
Parei de malhar um ferro em brasa na bigorna, na epoca um vigoroso ferreiro de beira de forja. Olhei-o. – Fez um seguro de vida para o senhor?
- Fez, seu Constantino, fez.
Achei estranho, pois o seguro beneficiaria alguém, menos o morto. Mas o inocente de seu Milson não via maldade nenhuma e nos despedirmos.
Passou uns tempos as visitas nos finais de semana rarearam e um dia chegou a triste noticia: Seu Milson morreu de causas desconhecidas. Talvez nem o autopsiaram e foi enterrado num interior num caixão selado. Não é estranho? Coincidência lúgubre e ninguém até hoje não sabe de que. E no filme o mesmo enredo – a patroa faz o seguro de vida da jovem empregada de 35 mil dólares em nome do filho, um dia depois, ela despenca de um despenhadeiro a beira do oceano pacifico, num passeio com os patrões. Um acidente muito duvidoso. Bem até hoje tenho essa pulga atrás da orelha – uma vez, nos encontramos casualmente e ele me levou até a casa – uma mansão.
Antes das dez da noite despedi-me do sr. Roquentin que voltou a Paris com uma renda de 1.200 francos mensais e vivia tranquilo – pagava o quarto e alimentava etc. Sr. Com sonhava com os 1.600 reales – daria tranquilo para realizar seus sonhos. Recomeçou “O Pobre de Deus” do grego Niko Kazantzakis e ingeriu o quarto comprimido de dipirona para anestesiar o cotidiano noturno. Na sala a sra. Vince já um pouco alta desfiava seu rosário de reclamações contra todos. Procurando chifre na cabeça de cavalo.
Deixou o grego e São Francisco e voltou ao sertão paraibano do “Fogo-fatuo” – o bicho pegando para o mestre seleiro José Amaro, o cangaceiro Antonio Silvino – e o coroné querendo expulsa-lo de suas terras.
Dimanche, 02 de aout de 2026
Uma hora da manhã – vou a lona outra vez, levanto-me, fecho a janela, antes espio a bela lua, apago a luz e deito-me.
 
Samedi nuit, 01/08/2026

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