Transformo seus traços em liberdade. Acentuo meus travessões em seu nome. Cravo minhas vírgulas em seus detalhes. Te descrevo impetuosamente, sem ressentimento.
Em seguida, te apresento o resultado, clamando por resiliência.
Seus olhos revelam a verdade, entregando sua verdadeira face.
No espaço entre as linhas, percebi que já era eu quem pedia pra ficar.
Eu sei — teu amor nunca existiu fora de mim.
Mas, ainda assim, te amo.
Não por esperança, mas porque é tudo o que me resta de bonito.
Te sinto tão perto que chego a sangrar, como se cada respiração fosse lâmina. Teu olhar perfura minha alma nua, teu silêncio rasga minha pele por dentro.
Amamos e nos despedaçamos ao mesmo tempo, cada abraço negado é martelo no meu peito, cada gesto teu é faca que gira, lenta e precisa, cada palavra tua é ácido queimando veias.
Estou preso a ti, como cão acorrentado, mas tu és vento, imaterial e cruel. Não posso tocar, não posso possuir, mas cada célula minha te sente e te implora.
Meu coração é trincheira de dores repetidas, onde prazer e tormento coexistem, onde desejo se mistura à destruição, onde amar é sangrar mil vezes sem fim.
E ainda assim, meu apego me corrói: te quero inteiro, ainda que me fendas, te quero mesmo que me dilacere, te quero mesmo que eu morra um pouco a cada olhar.
Amar-te é suicídio cotidiano, um amor que corta, que consome, que destrói. E, mesmo assim, sou prisioneiro desse veneno, porque um amor de mil facadas não escolhe coração — ele o devora.
Me coloque em um molde em seu quarto, conte ao mundo que existi. Repita os versos que escrevi sobre a vida, decore meus pequenos gestos, espalhe ao vento a minha melancolia.
Fale de mim, ainda que sem amor, para que reste algo, nem que seja uma sombra daquilo que sonhei sozinho.
Pois assim não serei desarrazoado, não serei papel em branco,
Te conheci num acaso tão breve que quase parece cena ensaiada: um sorriso entregando página, um gesto simples abrindo universo.
foi pouco tempo, eu sei, mas houve verdade ali — daquelas que não pedem licença, apenas acontecem.
você, com seus silêncios cheios, com o cansaço escondido nos olhos, com o coração meio bloqueado, mas ainda capaz de pensar em mim ao fotografar a lua às três da manhã.
eu, com essa estranha coragem de sentir, com palavras que sempre encostam na PONTA DA LÍNGUA, tentando não dizer demais e, ao mesmo tempo, sendo inteiro.
fomos quase. quase encontro, quase começo, quase destino.
mas dentro desse quase houve algo inteiro: o instante que vivemos, o gesto que guardo, a memória que não pesa.
talvez se fosse outro dia, outro tempo, outra versão de nós, o caminho tivesse sido mais longo.
mas hoje eu entendo: a beleza do que não continuou ainda assim valeu a pena.
porque eu aprendi a me proteger, e você me viu sem que eu precisasse pedir para ser visto.
e no fim, fica só isso — a leveza de ter conhecido alguém raro no momento errado, e a certeza de que, mesmo breve, foi verdadeiro o suficiente para nunca ser esquecido.
Venho através dessa carta te informar o seguinte ocorrido.
Me sinto alguém só, meu coração esta deitado ao alento e parece não mais se importar com nada, ele esta cansado, sem forças, não enxerga coisa alguma.
Desde o ultimo ocorrido ele se recusa a abrir os olhos, se martiriza, se fecha.
Não consigo ajuda-lo e ele também parece não querer ajuda.
É como se estive-se em transe com algo que sabe que é a melhor opção Ele sabe que não há escolhas, que não tem mais motivos...
Confesso tenho medo, medo de perde-lo, de não conseguir mais acessa-lo De esfriar e perder a chama que sempre foi sua característica.
Eu até entendo ele, sei mais do que ninguém o quanto foi difícil E mais do que ninguém de como será difícil se curar.
Sábado passado chamei um medico para examina-lo, O medido deu o veredito, não há chances, não há cura, eu sem chão apenas pude aceitar, não há o que ser feito, Ele se entregou ao alento e de lá não quer mais sair.
Por isso venho através dessa carta te informar,
Eu tentei...
Fiz o máximo que pude, Nada conseguiu tirar os monstros que lhe atormenta Ele foi envenenado, massacrado e não quer se recuperar.
Eu juro que fiz tudo ao meu alcance Mas, foi tudo em vão.
Espero que quando esteja lendo isso, saiba que eu nunca fui covarde.
Nunca foi metade, sempre fui inteiro, e mesmo assim.
Eu trago te em minhas mãos o inesquecível Fraturo os ossos que me sustentam Meus gestos são fatos finais de um livro Repondo as dores que me atormentam.
Meu poema lúdico repassa o sofrer De uma coisa inerte ao sofrimento.
Te declaro não tenho culhão Deixo me levar pela linhas de um Inato E entrego o controle sobre meu ser.
Fiquei solto pelas entrelinhas Amargurado pelo gosto do talvez Embriagado pelas possibilidades.
E ainda assim, permaneço. Mesmo sangrando, mesmo ciente, fico aqui — amando-te nas ruínas, como quem encontra beleza no próprio fim.
Cravei o mastro no chão. Lancei ao vento minha chegada. Deixei a vista completa e inata.
Me olhei no reflexo e enxerguei o absoluto. Brilhei como nunca — ao me ver.
Fiz histórias com minha conquista, clamei ao pódio que eu nunca alcancei. Soltei as amarras que me prendiam, absorvi a luz como se fosse a primeira vez.
Mas há dias em que o brilho me cega, e volto a temer minha própria claridade.
Ser luz dói — porque, pra brilhar, precisei morrer muitas vezes.
E às vezes me pergunto se ainda sei existir sem a dor que me criou.