Café com amor
Entre goles de silêncio e açúcar dissolvido,
te encontro — não como presença,
mas como um rumor quente na borda do instante.
O café esfumaça memórias
que nunca vivi contigo,
e ainda assim reconheço teu nome
na forma como o amargo aprende doçura.
Amar-te é isso:
beber o tempo em pequenos incêndios,
onde cada gole queima devagar
o que em mim ainda insiste em ser ausência.
E no fundo da xícara,
onde o mundo repousa escuro e inteiro,
fico —
esperando que teus olhos
me leiam como destino.
O tempo o vento e o adeus
Um vento me sonhou.
Toquei o nada —
e o nada sorriu.
Talvez nem te lembres mais de mim,
nem de como o tempo parava
quando teu olhar cruzava o meu.
Havia um mundo ali, e agora há só vazio.
Mas eu ainda sonho contigo,
todas as noites — como se o tempo voltasse
Te vejo sorrir no meu abrigo,
e acordo só, com o eco do teu nome preso em mim.
O tempo levou o que fomos,
mas não levou o que sinto.
A saudade dorme ao meu lado,
me abraça, me prende...
e sonha por mim.
E você?
Já não sei mais nada de ti —
só sei que ainda dói, quando olho
no espelho e ver meu olhar
tão parecido com o teu.
É só um vazio vestido de luz
A lua se espalha pelo céu
como um pensamento antigo,
um coração suspenso entre sombras e luz.
Derrama ternura em fios de prata,
acaricia o mar, o vento,
o rosto dos que amam em segredo.
É relógio sem horas,
espelho sem reflexo,
testemunha dos sussurros
que ninguém escuta,
guardião dos sonhos
que dançam entre nuvens e marés.
Talvez seja apenas vazio vestido de luz,
ou o próprio universo
sussurrando para si mesmo,
enquanto a noite se curva
para ouvir sua canção silenciosa.
Leia este suspiro
No coração nasce um suspiro apaixonado
É um poema escondido no peito
Esperando ser lido
Por quem o fez nascer.
Silêncio de nós dois
Quando te vi ali,
tão perto de um toque das mãos
tão ao meu alcance — quase destino,
bastava abrir os braços e receber o abraço, tão desejado.
E ainda assim
distante de mim…
foi como segurar o instante
com mãos feitas de vento,
como chamar teu nome
num eco que não sabe voltar.
Havia em teus olhos um caminho,
mas meus passos eram silêncio,
e entre nós crescia
um espaço invisível
feito de tudo aquilo
que não ousamos ser.
E eu fiquei —
entre o quase e o nunca,
te vendo existir
num lugar onde eu pensava que
não cabia.
Teu olhar — horizonte aberto —
e eu, feito neblina,
aprendendo a existir sem deixar rastro.
Entre nós, um quase:
quase encontro, quase palavra, quase tempo.
Mas o silêncio… ah, o silêncio sabia demais
sobre tudo aquilo que não tivemos coragem de ser.
Mundo louco
Na esquina do universo, um meteoro conversa com a lua,
o sol bebe café com o silêncio e mastigam palavras cruas.
Um relógio cansou de marcar horas, e agora corre contra o tempo,
cada segundo é um grito pintado de esperança
As árvores dançam tango de braços dados com o vento
Um peixe filosofa: “Cansei do mar quero nadar em terra seca
E eu, sentado num trem que nunca anda,
coleciono borboletas feitas de propaganda.
No céu, estrelas jogam dominó com trovões,
os planetas apostam sonhos em canções.
Enquanto isso, minha mente gira feito pião,
um caos colorido, batendo palma na minha mão.
Doce encanto
Sinto-te na noite que chega, no silêncio profundo das madrugadas.
Sinto-te por auto-proteção, porque me faz bem sentir-te assim.
Queria que soubesses que, entre pensamentos, carrego-te
num colo carinhoso, bem no cantinho direito do meu coração.
Recordo-te como Rapunzel que, do alto, soprava bolinhas de sabão,
e, sorrindo, insistia em recolher as tranças
sem ouvir o apelo das poesias —
poesias como cartas para Julieta,
à espera da doce íris do teu olhar.
Mesmo vivendo em ansiedades, ainda sei cultivar flores,
sei falar de amores.
És menina delicada que desabotoou minha vida,
exibiu meu peito… e sorriu.
Tu és conto de princesa, minha perfeita Cinderela,
linda e encantadora como Branca de Neve à espera do despertar,
do beijo apaixonado do poeta que te escreve.
Benditos meus olhos que, por vezes, te viram sorrir.
Regressa das névoas do silêncio,
em vestes brancas, imaculadas.
Como magia de fada, deixa que a vida seja sempre primavera.
Brinda-me com a docilidade
que te veste de ternura.
O peso sa saudade
Ontem—
mergulhei sem corpo
no fundo sem fundo das minhas memórias
e lá,
onde o esquecimento não alcança,
algo em forma de você
ainda pulsava
não era lembrança—
era um resto de presença
vazando pelos cantos do nada
toquei o invisível
e ele me atravessou,
desde então,
carrego um eco sem origem
me chamando de dentro
como se o passado
nunca tivesse aprendido
a terminar.
mas partiste antes de entender
que certas ausências
gritam mais do que qualquer despedida
e agora
fico —
não como lembrança que se apaga,
mas como aquilo que te visita
quando o silêncio pesa demais.
Silêncio? Estou sonhando
Numa casa esquecida pelo tempo
faz brotar uma saudade ... e
o amor deixa de ser palavra
para virar claridade atravessando janelas, mas o silêncio castiga
há algo em minha presença
que desmonta os invernos
e não gela a alma,
e quem passa por mim
leva nos olhos
a estranha vontade
de voltar a acreditar no impossível.
Eu tenho tudo que preciso
mas as vontades dormem
em quartos separados,
há rios atravessando meus ossos
e constelações escondidas
na poeira das horas
o vazio que me visita
talvez não seja falta
talvez seja espaço
aprendendo infinito
porque existe em mim
uma porta sem nome
onde até o silêncio
se ajoelha para ouvir.
O amor dos meus sonhos
Você é meu sonho preferido
mesmo que eu acorde no vazio,
com o gosto do beijo nos lábios,
com o toque sonhado nas mãos,
e o coração cheio de vontades.
Mas ainda guardo em mim
a doçura desse instante inventado,
pois até mesmo o sonho
tem o poder de nos fazer amados.
Hondy