Á luz do amor
Tomo posse
De ti, meu doce
Que te derretes
Como um suspiro
Ao calor de minha boca
E te repetes
Se eu respiro
Nesta sede louca .
Sede que mato
E te arrebato
Com beijos molhados
De água crescente
Nos meus lábios atrevidos
Sentindo, delicados,
O prazer ardente
Nos teus rendidos.
Em cada poro
Que te exploro
Dás-te um pouco mais
Como uma flor
Que á luz se deleita
E em arrepios sensuais
Á luz do amor
És paixão perfeita .
Faço poética
A partilha frenética
De prazer consumado
Com um olhar terno
De respiração gemida
E meu coração saciado
Como se fosse eterno
O amor na vida .
O-tavico
O Sino
O Sino
Incessantemente lá do alto
Já toca o sino pela aurora
Solta-se um breve sobressalto
Cá, por quem teve a sua hora.
Quem será? Pergunto ao vento
Que nos transmite com perícia
O que é. de morte em sentimento
E que a igreja faz em notícia.
Toca o sino já alguém chora
Oiço aqui, vem do vento norte
Um pesar por tão triste sorte,
Mas quem a morte sente por fora
Sabe que há vida depois da morte
Não perde tempo, não se demora.
O-tavico
Dilema
Com franqueza!
Fujo do egoísmo
Sem pragmatismo
E cansam-me a beleza!
Mas em minha defesa
Com a solidão á vista
Encontrei uma pista
Entrei num dilema
Criei um poema
Fui egoísta.
Otavico
Alívio
Há uma arrogância aparecida,
Espontânea e indesejável amargura
Num gesto desta, já gasta, vida
Que me distrai uma ténue ternura.
Condeno-me na tristeza de um dia
Pela arrogância irrefletida que saiu,
O controlo do momento que me fugia,
E o arrependimento logo me perseguiu.
Uma pressão, por isso, acumulada
Escorre-me, em lágrimas, pelo rosto
Como um grito duma alma aliviada.
Abre-se no meu perfil recomposto
Um sorriso de companhia agradada
E uma expressão de gentil no rosto.
tavico
Homem vazio
Homem vazio
Noutro fugaz intuito
Meu, de alcançar o horizonte
Alguém que anda a monte
Dá-me um encontro fortuito,
Um ser, nunca vi, tão vazio
Que, sem eu querer, me dá pena
Ver esperança tão pequena
E só, em tal desvio.
Quero tratá-lo de amigo
Ao homem que não me dá mão,
Desconfio de solidão
Que não tem o coração consigo,
Literalmente me disse
Que dinheiro já não tinha
Nem um emprego lhe vinha
Nem nada que lhe sorrisse,
Que morreu para a amizade,
Numa família onde está a mais
É órfão de deus e dos pais
Com saudades de ter saudade.
Ó homem de coragem louca
O que eu disser às condições
Em que vives, serão palavrões
Pois sem palavras me fica a boca.
O-távico
CHUVA
A Chuva
Não sei porquê,
A chuva alvitra-me o passado
Talvez no acizentado
De ambos, me dê
Uma leve sensação
De ver o tempo parar
E nessa breve ilusão
Me deva reencontrar
Com a inevitável nostalgia
De onde vive a alegria
Que lá teima em ficar
Não sei porquê,
E não somente
Com a chuva bonita,
A vida me mente
E a alegria me evita
Mas sei que transbordo
Páginas de ânsia
Porque do que recordo
Uma curta distância
De mim se prevê
E me comove,
Mais quando chove,
Não sei porquê .
O-tavico
Em contramão
O amor não me abandonou
Ainda me vem a sede de amar
Foi a vida que me amargurou
O coração, que saiu do lugar
E me fez assim como sou:
Um viajante num deserto
Entregue a desvarios
Com o horizonte encoberto
Onde não há caminhos nem desvios
Onde o rumo é tão incerto.
Um apaixonado em contramão
Que se vê agora perdido
Em busca duma paixão
Que corre noutro sentido
A par da vida e da razão.
Vou ainda a par de nada
E me tarda o que procuro
Pois a vida não é uma estrada
Nem a sede que descuro
Vem de esperança saciada.
Porque o erro em que estou
E me deixa assim triste
Vem do amor que não dou
Pois é em dar que ele existe
E é para lá que agora vou.
O-tavico
Mulher
M U L H E R
M ulher pode ser flor,
U m sinónimo de amor
L uz, paixão e perseverança.
H umanamente protectora
E é por ser tão lutadora
R azão para ser esperança.
R i e por dentro chora
O uve e com alma sente
S ofre e não se vê por fora
A ma e ao coração não mente.
F ilhas, mães e avós
L igadas pelo destino
O rgulhosas trazem na voz
R estos dum parto divino.
O-tavico
Cabisbaixo
Ò Pedras da Calçada
Sois filhas de rochedos,
Que tão bem guardam segredos,
Ò pedras da calçada
Chão desta passada
Que se esvai,
Também guardai
Deste que aqui vai
E não contem nada
A quem lá vem.
Sabeis bem
Que em vós nada perdi,
Tão pouco acho
Nem nunca vos sorri,
Cabisbaixo.
Sei que me ouvem
E que calam
O que os pés falam
De quem tropeça
Numa arrelia
E sofre à pressa
Baixando a cabeça.
Sereis vós sem alegria
Dos passos que ouvistes,
Do esvoaçar duma folha,
Duma rua vazia
Como as vidas
Da tristeza que vos olha
E que assistes,
Desinibidas,
Sussurrando melancolia
Num passeio dos tristes
E sem escolha.
Eu já vos vi,
Não aqui,
Outras
De outra sorte
Espreitando montras,
Gemendo com carros,
Em moradas de morte,
Fumando cigarros,
Enfim…
Mas, feliz por elas
Lembro aquelas,
Outras,
Pousadas num jardim,
Rodeadas de flores
Testemunhando amores
E sorrindo para mim.
Serão todas assim
Quando eu, já
De cabeça levantada,
Voltar cá
A pisar a calçada.
Em boas marés
Posso nem as ver
Mas irão, elas, entender
Porque os meus pés
Vão-lhes dizer.
O-tavico
Simpatia
Passou por mim sorrindo
Trocámos um leve bom dia
E então lá fomos indo
Semeando simpatia.
A Saudação de magia
Veio sincera e sentida
Ofereceu-me um bom dia
Apaixonei-me pela vida.
Com a alma rendida
Pelo aroma de mudança
Numa paisagem florida
Vi o amor ainda criança.
Meu coração vai atento
Com um olhar apaixonado
Acho lindo o cinzento
Já o azul vejo dourado.
Sem varinha de condão
Não é segredo, revelo
O milagre da paixão
Mostra-me tudo tão belo.
A monotonia é pintada
Dá cor à minha sina
A tristeza vai cansada
A alegria vem rotina.
Tal gesto se resume
E retribui num concelho
O jeito vai no costume
Cola o sorriso no espelho.
O-tavico