Anjos peculiares
Nos meus sonhos os anjos são peculiares
Nos fazem sorrir quando nos esquecemos
E eles vem cantando de diferentes lugares
Trocam as asas pela força dos instrumentos
Aquela sensação de um olhar apaixonado
Que nos faz tremer do beijo que se repete
Um arrepio que corre e nos move inspirado
Acordes que trazem mensagens e bilhetes
Cada vez que do nada me visto de outono
Que perco o sal da maresia em minha boca
Os anjos vêm tocando e logo volto a ser dono
De meu sorriso parece uma coisa meio louca
Mas meus anjos com suas asas brancas roubaram o vento
Fizeram do som as canções que eternizam meus momentos
Deus abençoe os anjos peculiares
Carlos Correa
Pulse
Estranha a sensação que tenho agora
Presto atenção tudo se foi bem veloz
Mas fecho os olhos e viajo tempo afora
A mesma canção emoção a mesma voz
Ainda lembro como chorar...
Se o rosto frio traz as marcas inevitáveis
O coração ainda guarda cada pedaço de vida
Se hoje são tantos os sonhos impraticáveis
Vêm-me as memórias que não serão esquecidas
Ainda lembro como amar...
Hoje eu sento e mantenho os olhos abertos
Vejo o mundo além de todos os espelhos
Naquelas vezes que me sinto só neste deserto
Ouço a canção e meu sangue ainda pulsa vermelho
Ainda lembro o que significa estar vivo
Deus abençoe os que sentem
Carlos Correa
Pequenos versos molhados
Eu sempre soube da noite e sua tristeza
Ouvia suas lágrimas quebrando ao chão
Era como se soltasse as emoções presas
Revelando o que havia dentro do coração
Gritos escondidos sob o rugido do trovão
Percebidos na urgência do brilho intenso
Logo retomando o seu lugar na escuridão
Restando ali o perfume sutil de um incenso
E no meio daquela confusão de sentimentos
Eu via os anjos e demônios com seus violinos
Como se criassem a trilha sonora do relento
Deixando-me sem ação junto a tanto desatino
Até que entre as tormentas e as tempestades
Entendi que se eu sabia da noite e suas tristezas
Era porque a madrugada era a minha verdade
E as chuvas revelavam o que havia de clareza
Dali em diante sempre que ouço os relâmpagos
Vou até a janela apreciando o céu tempestuoso
Fecho os olhos e deixo que venham até o âmago
De minha alma no contraste de um caos afetuoso
Deus abençoe a chuva que cai
Carlos Correa
Estrelato
E se o brilho das estrelas fosse nada mais
Que o fulgor dos olhos dos que já se foram
E se bastasse olhar ao alto para que jamais
Nos sentíssemos sozinhos partes que caíram
Sinto dizer estrelas são apenas estrelas...
Talvez não eu posso ver algo bem diferente
Consigo olhar pro céu e ali uma arquibancada
Repleta de luzes piscando e toda aquela gente
Observando solos que fazem de mim madrugada
Existe uma parte que vive em mim sem poesias
Sem rimas um desses longos solos de tom azul
E tudo bem porque são eles que ao chegar o dia
Lembram-me qual meu rumo entre o Leste e o Sul
E nesse grande ginásio que é minha noite estrelada
Eu não fico no palco aliás estou bem distante da luz
Fico ali no escuro hipnotizado pelas cordas encantadas
Esse sou eu totalmente entregue a canção que me seduz
Sobre as estrelas eu acho que de fato estava errado
Não poderia ser o fulgor dos que partiram hoje eu sei
Que são os momentos mais felizes que passei ao seu lado
O teu brilho espalhado iluminando a madrugada que criei
Deus abençoe as noites estreladas
Carlos Correa
Blue Ballon
Tem vezes que de fato isso acontece
A gente senta sem qualquer pretensão
O pianista parece então fazer uma prece
O que escreve tecla imaginando um balão
Do piano do nada nasce uma linda melodia
Do escritor escapam palavras versos dizem
Lá em cima sobre as nuvens de melancolia
Elas se encontram se olham e vão bem além
Como num pub soturno muitos copos já vazios
Percebem juntos suas afinidades sua comunhão
A triste melodia se entrega ao verso firme macio
E no testemunho de um blues nasce uma canção
Deus abençoe o voo livre dos balões
Carlos Correa
Istmo
Suas palavras sempre foram meu guia
Sua voz a paz que precisa meu coração
Se certas lágrimas derramaram um dia
Eu sabia que seriam parte desta canção
Estive fora de mim por alguns segundos
Fácil se perder sem encontrar o retorno
Num lugar sereno entre os dois mundos
Ouvi o eco de meu nome e fiz o contorno
Trouxe de lá algo que havia já reprimido
Aquela vontade infantil de me eternizar
De estar ao lado sua voz em meu ouvido
Estar aqui sorrir bem quietinho e te olhar
Sempre será a minha canção mais bonita
E estarei aqui enquanto não voltar ao mar
Deus abençoe sua melodia
Carlos Correa
Beija-flor
A gente tem o costume de cantar tristezas
Versos azuis afogados em lagos sem braços
Isolados num mundo onde a única certeza
Vem de traços de solidão saudade e cansaço
Abrimos o peito deixamos que a inspiração
Crie personagens que por algumas linhas
Se fundem a tudo que se passa no coração
A sensação de que a mente não está sozinha
O resultado dessa tormenta se chama poesia
E ela sempre deixa cicatrizes em nossa alma
Prefiro acreditar sejam algo como uma magia
Vem voa como um beija flor e pousa na palma
De minha mão enquanto ouço uma velha canção
Deus nos abençoe
Carlos Correa
Trilha sonora de seus sonhos
Ah se eu pudesse entrar na canção
Fazer parte das estrofes e melodias
Estaria em seus lábios seria sua paixão
Tocaria seu coração jamais me esqueceria
Quando estivesse confusa iria me ouvir
Na tristeza me levaria aos seus ouvidos
E de repente sem perceber estaria a sorrir
Ficaria junto a ti tão perto quanto escondido
Ah se eu fosse sua canção preferida
Eu te acompanharia por toda a vida
Deus abençoe as canções
Carlos Correa
Bailados
Eu já procurei por entre todas as estrelas
Tanto as do céu como as do fundo do mar
Tentei encontrar velhos segredos daquelas
Artimanhas que fariam você vir e me amar
Imaginei você fazendo poesia nos tablados
Os pés criando versos de início com cautela
Até que suas pernas criam formas de bailado
Vertendo um frenesi que atiça todas as velas
Em meio à confusão e imagens esfumaçadas
Meus sentidos focam em teus olhos indóceis
Decretando sem alguma piedade a derrocada
De quem ousou aportar em campos tão férteis
Ah o mar sem entender a magia que a malícia
Cria quando a delicadeza ultrapassa os limites
Da sedução abre um caminho toques e carícias
Fazendo teu corpo enfim aceitar o meu convite
Deus abençoe o que o mar nos entrega
Carlos Correa
Boulevard
Deve ser muito solitário este seu lugar
Disse o homem com a guitarra na mão
O rapaz grisalho que cruzava o Boulevard
Desconfiado achou que era uma canção
Manter calados tantos desses sentimentos
Trancafiar desejos vendar toda esperança
Não transformar em versos os pensamentos
Um futuro que nunca será uma lembrança
Você ama porque tem amor dentro de si
Sofre por permitir que assim seja magoado
Mas sonha porque tem a magia dentro de ti
E veio até aqui sentindo-se ainda tão culpado
E após um solo que prendeu mais a atenção
Ouviu aquele refrão e ele falava sobre voar
Achar um jeito de abrir as portas do coração
Encontrar cada sonho que se escondia no olhar
Mas não sem antes fazer uma oração
Nunca encontrou aquela canção...
Deus abençoe as asas de cada um
Carlos Correa