Poemas, frases e mensagens de klopes

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de klopes

Sombras

 
A rua mastiga passos de breu,
o céu desaprendeu as estrelas.
Procuro-te onde a luz falhou
— não na chama,
mas na cera que escorre
quando finges arder.

Dizes que o peito incendeia,
mas o fogo não aquece.
Há palavras lisas na tua boca
como vidro polido:
não ferem
porque nunca foram verdade.

O meu querer tem peso,
cai.
O teu passa —
vento que aprende nomes
e esquece rostos.

Ergui um castelo com a tua voz,
tijolo de promessa,
argamassa de silêncio.
Hoje sei:
era névoa com forma de abrigo.

No escuro, sem nó nem margem,
não sou rio —
sou a água que ficou
quando o leito desistiu.

Carlos Lopes
 
Sombras

Berma

 
O risco atormenta o sangue como um rio,
fustigado.

Quem se tranca no egoísmo
vegeta,
sem saber.

Só quem ama corre o perigo de perder.
— O que somos não é para nós.

Os meus braços estendo
ao espaço sem teto.

Frágil.

Mas livre da paralisia
dos dias de cinza.

O que sou não me pertence,
é posse vã.

Nasci
para dar.

Prefiro a queda abrupta,

enquanto outros,
à distância,

continuam na berma,

perdidos.
 
Berma

Cais

 
Na rua do desespero,
sou casco que range no asfalto frio —
destino…
um mastro erguido contra o vento.

Cais de ferrugem.

Vou sulcar a maré revolta de betão;
a esperança, cabo fino —
se arribar for o agora,
o que o porto não entrega.

Por bombordo, a alegria de escuma;
a estibordo, o esforço bruto.
Vaga…
vaga que me despe,
eco de mar sem dono.

Vem na alheta a pancada,
resiliência em través;
a meta…
muro de sal —
salitre a morder-me os pés.

Porto de abrigo?

Mito incerto.
Nesta lida de mar e povo,
o cais é eco perto…
ancorar
é outra forma
de deriva —

e o fundo
é seixo escuro.

No asfalto.
 
Cais

Privação do Mar

 
Dizem que o pão agora é um luxo opaco
e confiscam os pincéis, na essência da arte.
Fecham as portas da frente,
temos de recusar o trinco.

Querem-nos deitados na gaveta do esquecimento,
e fazer do pensamento um ferro velho, calado.
Mas o silêncio imposto tem fendas
por onde cresce o caruncho da pergunta.

A praia esquece o entardecer dos dias quentes de verão,
os ventos tempestuosos que a destroem e redesenham.
Apaga-se a memória da areia fina,
mas fica a ferida aberta, a aventura,
essa necessidade de ter mar.

Mas o homem guarda um livro proibido no bolso
e mastiga a raiva como quem mastiga a côdea dura.
A liberdade não é um hino lírico,
é o esfolar dos dedos na areia da rotina.

Clamar quando a mordaça tem sabor a ferro,
insistir no traço, na tela clandestina, no pão partilhado.
Eles ditam o ponto final na página rasgada,
mas nós escrevemos à margem, com a unha,
a vontade que nenhum decreto consegue limpar.

(Inspirado na canção "Canção Sem Fim", de A Garota Não)
 
Privação do Mar

Prendas

 
Prendas
 
Numa relação, seja ela de curta ou de longa duração, são várias as conjunturas em que temos dificuldade em receber, sejam cumprimentos, manifestações de amor, simpatia, admiração, ideias novas, sinais de interesse, ou objectos.
Esta dificuldade, origina uma oposição a propostas, a certos impulsos, através da rejeição em receber, reagimos, de forma negativa, como “pacientes do receber”.
Como entender este mecanismo? Porque desvalorizamos o entusiasmo do nosso interlocutor e a nós próprios?
O presente mal recebido magoa quem o oferece.
Ao acolhermos mal um presente, remetemos, quem o deu, para a sua incapacidade, para a sua impotência ou para a sua solidão.
A visão que temos de nós próprios será, desta forma, tão hirta, tão rigorosa, que em nome da perfeição, de uma verdade ou de um ideal absoluto, não podemos aceitar uma prenda, um reconhecimento merecido?
Muitas pessoas recusam receber, preferem dar, parece-lhes mais fácil... A dar mantenho-os à distância das minhas próprias solicitações.
Porque receber é uma faca de dois gumes, é uma abertura ao outro, é um risco de intrusão, de penetração do nosso universo, da nossa “verdade”. Receber é correr o risco de ser influenciado, logo de mudar.
Mas, é na coincidência dos desejos que permite receber verdadeiramente o que nos é oferecido e, uma dádiva recebida na sua plenitude também preenche quem a dá.
Desta forma, gostaria de presentear os poetas que me acompanham nesta viagem.

Bem hajam
 
Prendas

Rumo

 
Avanço.

Não porque saiba o caminho —
mas porque sei o teu nome.

Há ruas cegas
onde o mapa não se atreve.
Entro nelas.

Se for erro,
que me atravesse.

Trago o fôlego
que a hesitação
ainda não descobriu.

O meu corpo é o eco
de um abraço
que ainda
não aconteceu.

E se houver uma porta,
que seja a tua.

Carlos Lopes
 
Rumo

Ofício de Linho

 
Trouxe as sílabas ainda mornas do pulso,
algumas húmidas de um matiz vago.
Pouso-as
neste deserto de linho.

Podei o excesso da sombra no verso
sem que o galho ou o ramo pedissem licença.
Colhi
apenas o que o silêncio consentiu.

Tu chegas agora, com esse olhar de balança
que dita o peso de cada letra.
Eu
cedo-te o meu lugar.

Vê quem vê, lê quem lê,
e o gosto é um rio que corre por si.
A soberania
é agora o teu fôlego.

Carlos Lopes
 
Ofício de Linho

É SÓ MEU ESTE AMOR

 
Amo te em voz baixa, sem retorno,
conto passos na rua do teu não.
No vidro embaciado moldo o teu nome,
desfaço-o, mas não do coração.

A casa é grande, cabe o meu transtorno,
os móveis já não me querem ouvir.
É tarde e o relógio esquece as horas,
só tua ausência insiste em repetir;
num eco que se perde no sem-fim,
é o silêncio vivo que mora em mim.

Volto da noite com as mãos vazias,
trago o perfume da chuva e cidade.
Ponho a chave na porta com cuidado,
como se tu dormisses na metade.

A solidão e eu, vidas vazias,
frente a frente deixamos de exprimir,
cada um aprendendo a não falar,
só tua ausência insiste em repetir;
num eco que se perde no sem-fim,
é o silêncio vivo que mora em mim.

Quando o dia começa, vou contigo,
mas és sombra que foge para além.
Fico preso ao rasto do teu gesto,
só tua ausência insiste em repetir;.
num eco que se perde no sem-fim,
é o silêncio vivo que mora em mim.

Carlos Lopes
 
É SÓ MEU ESTE AMOR

Ancora

 
Deveríamos ter o coração ancorado na mais longíqua estrela e os pés bem escorados no chão, seríamos inabaláveis e audazes, amados e ousados... Ficando, assim, livres na direção do outro, como heróis sem capa, no amparo da auteridade do quotidiano.

Carlos Lopes
 
Ancora

Curto e Intenso - desafio "versos com café"

 
Escorre o grão acastanhado
no papel branco.
Um curto, intenso,
espesso de vida.
Bebo-te em rima.

Às vezes, é de saco,
lento, coado,
poema que demora
a arrefecer no peito.
Ou de cafeteira antiga,
com borra e memória.

Viver sem isto?
Manhã fosca,
verso sem norte,
vida sem sorte.
O mundo seria
apenas
água tépida.

Pouso a chávena,
partilho a estrofe.
Tu trazes o açúcar
ou o amargo silêncio
nesta mesa de afetos.

Moer a palavra,
queimar a língua.
Versos com Café:
vício
partilhado
que nunca arrefece.

Carlos Lopes
 
Curto e Intenso - desafio "versos com café"

Poesia: História Vs. Tese

 
A história é aquilo que o leitor consegue acompanhar: o que está a acontecer?
É a sequência de acontecimentos, imagens e ações que permitem ao leitor entrar no poema e seguir o que nele se passa.

A tese é aquilo que o autor quer que o poema diga: o que significa isto?
É a ideia, a interpretação ou a conclusão que está por detrás daquilo que acontece.

Compreender a história, portanto, não é o mesmo que compreender a tese. O leitor pode perceber perfeitamente o que está a acontecer sem perceber imediatamente o que tudo aquilo significa.

E é precisamente nesse espaço entre a história e a tese que a poesia acontece.

O poema não precisa de entregar a tese ao leitor, nem de explicar diretamente aquilo que deve ser compreendido. Pelo contrário: precisa de lhe dar matéria suficiente para que ele próprio possa descobri-la.

O poeta não entrega uma conclusão pronta. Em vez disso, constrói as condições para que essa conclusão aconteça dentro do leitor.

Assim, a poesia não está apenas naquilo que o poema conta, nem apenas naquilo que o autor quer dizer. Está também na descoberta que o leitor faz ao atravessar o espaço entre uma coisa e outra.
 
Poesia: História Vs. Tese

Sabedoria

 
"A sabedoria não é um porto, mas um oceano - cada um de nós deve ser o navegador, agarrando humildemente o leme e segurando a bússola, na sua própria jornada."

Carlos Lopes
 
Sabedoria

Ter Amanhã

 
Ter Amanhã
 
Pés descalços no algodão do teto,
onde o azul tem frestas de silêncio.
Sou resto de meiguice,
mãos pequenas moldando o farelo da nuvem.
A infância é um pântano de mel
onde o tempo não escorre.

Joelhos esfolados, ainda quentes do vapor,
pedras brancas no bolso do pijama de estrelas.
Não explico o céu: invento-o.
Fruta doce — polpa de fumo e desejo de ter.
O amanhã é rumor de búzios.
Bate à porta, faminto e sedento.

De súbito, o peito ganha uma quilha.
A vela enfunada rasga o nevoeiro das sestas.
Já não sonho o mundo: conquisto-o.
Sou descobridor de continentes
no horizonte da sala,
viciado na vertigem do destino,
na aventura de não saber regressar.

Embriaguez de ser maré alta
sem perceber que a lua já dita o recuo.
Afoiteza.
O vigor é um grito que não precisa de eco,
uma corrida que ignora o relógio da cozinha.
Não sei que sou breve.
Tenho apenas este incêndio que queima.

Ter o amanhã na palma, como um sonho quente.
A criança ficou presa no algodão sob o teto
enquanto o jovem veleja por entre a espuma do mar.
Tudo é agora.
O tempo é um erro de cálculo.
Eu sou a fenda que o mar não prevê.

Carlos Lopes
 
Ter Amanhã

Sal e Bravura

 
Sal e Bravura
 
Sobre o Tejo que me assiste,
De Alcochete sou herdeiro;
Onde o rio não resiste
A ser fado marinheiro.

Veste o verde na memória,
barrete, jaqueta e brio,
traço em lã a minha história
na cinta negra e no frio.

Na festa de toiros viva,
onde o génio se agiganta,
há espera coletiva
que no peito se levanta.

Negro relâmpago mudo,
rasga o pó da tarde em flor;
O corno que investe em tudo
é fúria em puro vigor.

Mãos que prendem o infinito
no abraço que a vida entrega —
eis o silêncio de um grito
na coragem de uma pega.

Seda que a morte desenha
numa faena de luz;
Engenho que o peito empenha
na sorte que nos conduz.

Filho da terra e do mar,
neste quinhão de salinas,
sou o barrete a voar
nas ruas e nas campinas.

Carlos Lopes
 
Sal e Bravura

ERA VERMELHO

 
O rapaz, sangue em levante,
Ela, o riso ao livre vento,
Eram febre faiscante,
Carne viva e rutilante,
Sem pesar no pensamento.

Vinha a febre da loucura
Sem saber o amanhã,
Mastigavam a ternura
Como fruta em polpa mura,
Como a brisa da manhã.

Era o golpe contra a sorte,
Só a fúria da alegria;
Ter o mundo, ter a sorte,
Num abraço, o laço forte
Que o amor fortalecia.

Rói o mofo o tecto mudo
Nesta casa onde estou;
Aquele amor vagabundo
Perdido noutro mundo
Que a vida adulta levou.

Sinto a falta da incerteza
Neste chão de solidão,
Onde o sonho se comprime
E a vontade se reprime
De ter os pés bem no chão.

Hoje o amor não tem cor,
Nem a chama que senti;
Causa um tédio, causa dor,
Sofro o mudo e vil horror
De estar só e estar aqui.

Carlos Lopes
 
ERA VERMELHO

Estilhaços

 
Estilhaços
 
O herói exibe o seu brilho,
No vidro que o sangue come;
A bala que corta o trilho,
Mastiga o corpo sem nome.

O trapo risca em papel,
Ouro que a tela encobre;
Escorre o fel pelo mel,
E a moda fere e nos cobre.

A sorte dorme em papel,
Grita o reclame no peito;
O corpo rende-se fiel,
Perde a lotaria no leito.

O sol morre na calçada,
Neste pó que nos invade;
A bofetada dourada,
Suga o rosto da cidade.

No fundo sobra rotina,
Neste uso dos cansaços;
No corpo fica a ruína,
Na queda que me destina,
Num mundo de estilhaços.

Carlos Lopes
 
Estilhaços

Riso Emaranhado

 
Pela berma desta rua,
A tristeza logo encosta,
Veste a pele toda nua,
Mas a gente não a atua,
Pois a vida traz resposta.

Neste asfalto duro e frio,
O serviço é bem urgente,
Contra o cinza mais sombrio,
Coze o riso em desafio
P’ra aquecer toda a gente.

Amassa a massa do dia
Com farinha de esperança,
Leveda a fome do dia.
E reparte em poesia
O calor da vizinhança.

Lavam todos o cansaço
Neste gozo de lavar,
Onde o peito, passo a passo,
Desata o nó do cansaço
Como roupa a pingar.

Mesmo o pobre sem moedas,
Leva a graça no avental,
Sobe o riso por veredas,
Pisa as dores mais azedas,
Faz do frio pão e sal.

Dizem vozes na calçada
Que o menino traz no bolso
Futuro em forma alada,
Pequena chama guardada
Contra o mundo mais revolto.

Mas o riso foi silenciado —
Calou-se a vizinhança,
Todo o brilho amordaçado
Sob o peso acumulado
Desta gente sem esperança.

(inspirado em "Emaranhada", de Juliana Linhares)
 
Riso Emaranhado

Ouvir com a Alma

 
Quando nos focamos em "consertar" situações ou em aliviar os sentimentos alheios, deixamos de estar verdadeiramente presentes. De forma semelhante, ao interpretar as palavras dos outros através das nossas próprias teorias, apenas os observamos, mas não os acompanhamos. A empatia vai além da compreensão intelectual ou da solidariedade; é estar plenamente presente com o outro e com a sua experiência, oferecendo uma conexão autêntica e profunda.

O filósofo chinês Chuang-Tzu afirmou que a verdadeira empatia requer que se escute com todo o ser:

Ouvir somente com os ouvidos é uma coisa. Ouvir com o intelecto é outra. Mas ouvir com a alma não se limita a um único sentido - o ouvido ou a mente, por exemplo. Portanto, ele exige o esvaziamento de todos os sentidos.

Carlos Lopes
 
Ouvir com a Alma

Amigo

 
O jaspe é rocha de brio,
No chão do tempo guardada;
Amigo é o curso do rio,
Que firma a nossa jornada.

Carlos Lopes
 
Amigo

Presença

 
" O importante não é estar em todo o lado.
É ser inesquecível para as pessoas certas."

Carlos Lopes
 
Presença

“Ausento-me na quietude das folhas que caem, quando a música do verbo se cala e a alma se agasalha em si mesma.”

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