Poemas, frases e mensagens de dantebelmonte

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de dantebelmonte

Uma sombra sem aura.

 
Nascido a 22 de junho de 1988, Dante Belmonte é um homem que habita as frestas do tempo. Atualmente com 37 anos, o seu percurso não se mede por marcos ou conquistas públicas, mas pela lenta acumulação de silêncios e pela observação rigorosa daquilo que a maioria deixa passar. Residente em Lisboa, percorre as ruas da cidade, mantendo sempre uma distância prudente que lhe permite ver o mundo sem ser absorvido por ele. Para Dante, a cidade não é um cenário incomum, mas um labirinto de histórias anónimas onde ele escolhe ser apenas mais uma sombra.

A sua infância foi moldada pelo ritmo de uma casa antiga, onde os livros acumulavam mais tempo do que leitores. Cresceu entre o cheiro a papel guardado e o som metálico de máquinas de escrever que já ninguém usava. Dante começou a sua primeira coleção, não de objetos mas de singelas observações.

Aquele ambiente vazio não era algo a ser preenchido, mas sim compreendido. Para o jovem Dante, a escrita surgiu não como um talento, mas como uma ferramenta de sobrevivência.

​Ao longo das últimas décadas, Dante Belmonte cultivou a escrita como um momento introspetivo.

O que surge agora não é uma simples ambição literária súbita, mas anos de rascunhos, cadernos rabiscados e papéis soltos. Textos esses que nasceram na noite ou na pausa de um dia longo, escritos sem a pressão do olhar alheio e sem a preocupação de seguir correntes ou modas.

Este autor ​reflete uma filosofia de vida muito clara. Para Dante, vivemos numa era de excessiva exposição, onde tudo parece exigir um brilho artificial, uma aura que muitas vezes esconde o vazio. A sua escrita é apresentada na sua forma mais bruta e honesta e não pede licença para ser sentida. Dante escreve para quem ainda valoriza a pausa, para quem sabe que uma frase curta pode carregar o peso de um dia inteiro e para quem não tem medo de encarar o que habita no avesso das palavras.

​O heterónimo Dante Belmonte não procura o reconhecimento da sua identidade, mas a libertação dos seus textos.

Para ele, o que importa não é quem segura a caneta, mas a marca que ela deixa no papel.
 
Uma sombra sem aura.

Olhos cor de lua.

 
Aquela porta encostada
deixa-nos vasculhar a alma
de um amor desajeitado.

Ó poeta, caro poeta, que pensas tu?
A vida não parou, muito menos ressuscitou.

Não permitas a melancolia apoderar-se das tuas letras
outrora revividas e sentidas
por Deuses Imaculados.

Esta imagem
deixa o meu coração de poeta
nu de si mesmo.

Este sol madrugador
abençoa aquela manhã,
em que aqueles olhos cor de Lua
abraçam fortemente a escuridão.

As pombas levantam voo
em direção a um qualquer escárnio
angustiado.
 
Olhos cor de lua.

Antes de ser... passado.

 
Antes de ser,
alguém já o era,
agora sem ser,
alguém já desespera.

Amanhã ninguém espera,
auroras sem fim.

Amanhã, todos acordam
atados,
amarrados ao passado.
 
Antes de ser... passado.

O peso de um mero sopro.

 
A vida, muitas das vezes, torna-se incompreendida, amargurada e com sabor a fel. No entanto, é difícil que seja simples e singela… mas, sinceramente, não quero que o seja. Amanhã posso nem estar aqui, para que me serve, então, pensar no ontem com amor? Valerá a pena mutilar a minha pobre alma, vezes e vezes sem conta? A vida é exatamente este sopro, este segundo que deixas partir por entre os dedos marcados por uma existência cruel.
 
O peso de um mero sopro.

Devaneios do Dante - I

 
Nesta noite sombria e fria, as sombras negras algemam os inocentes moribundos.
 
Devaneios do Dante - I

Devaneios do Dante - II

 
Estes inocentes não sabem que caminhos caminhar, pois são reféns dos diabos negros. Estes diabos, que outrora foram luz, hoje perdem-se na escuridão das sombras.
 
Devaneios do Dante - II

Devaneios do Dante - IV

 
Nunca vira tal silhueta na minha vida, era desfigurada e assustadora. Alí não havia um pingo de Deus, somente a minha fé me podia proteger de tal demónio.
 
Devaneios do Dante - IV

A arrogância da lua.

 
A tristeza da noite, a arrogância da lua e a frieza das estrelas deixam as mentes mais desumanas sobrevoar as esquinas escuras e frias de um leite derramado. Ouvem-se passos pesados de desconhecidos que riem, sem revelar à vida os seus crimes mais cruéis.
 
A arrogância da lua.

A alquimia do amor.

 
Às vezes, penso que comecei a escrever para não sufocar.

Como se transformar dor em linguagem
fosse a única forma de continuar habitando meu próprio corpo.

Porque existe um cansaço profundo
em sentir demais
e não encontrar eco no mundo.

Durante muito tempo,
minhas palavras foram só isso;
um lugar onde eu podia respirar,
organizar o caos,
e tocar, ainda que de longe,
aquilo que doía em mim.

Mas algo muda
quando alguém realmente lê você.

Não “consome”.
Não “passa os olhos”.
Lê.

E, nesse instante,
acontece uma coisa quase sagrada,
a sua dor deixa de existir apenas dentro de você.

Ela atravessa.

Encontra morada em outra consciência.

Encontrei a minha morada noutra consciência.
Foi nesse exato momento
que tu me encontraste.

​Eu também escrevia para não sufocar,
mas as minhas palavras eram nuas,
como uma cidade cinzenta
onde os meus demónios insistem em sufocar-me.

​O meu corpo é um vazio de amor,
espera desesperadamente, que o tempo perdoe a falsidade de outrora.
Mas quando a tua dor atravessou a minha,
a minha alma despertou.
Despertei para um sentimento que nunca sentira,
não foi apenas amor,
foi porto de abrigo.

​Descobri que o meu caos,
afinal, não era único.
Era o mesmo que o teu.

​A minha metade encontrou o teu rosto
naquela neblina soalheira.
Gritava por ti, querendo, ferozmente, ter-te ao meu lado.

​Agora, este amor já não guarda segredos solitários.
Somos duas sombras que aprenderam a sangrar na mesma página
e que, ao partilharmos as nossas letras,
apaixonaram-se por esta singela leitura.

Este poema foi escrito por:
Dante Belmonte e Letícia Souza
 
A alquimia do amor.

Devaneios do Dante - VI

 
Tento caminhar por esta viela, mas os passos são pesados e sem controlo. Esta rua é tão escura como a minha alma passada, uma alma que nem sempre foi compreendida, aceite e, muito menos, acarinhada. Hoje, vejo-me aqui, de mãos sem tez, de rosto amargurado e com um corpo sem casa.
 
Devaneios do Dante - VI

Revolta sem fim.

 
Há uma revolta,
um mar furioso que não pede licença,
fustigando a frágil
e pequena embarcação.

​O tigre que habita o Oceano,
entre o diáfano e o ingénuo,
faz resplandecer a raiva
que trago ancorada no peito.

​Este coração, ainda inocente,
obriga-me a escrever com tinta no papel rasgado,
único modo de drenar a alma
corrompida pelo mofo da mágoa.

​Mas sobre o limiar do ontem,
entre o fumo e o milagre,
as cinzas aprendem a voar.
A Fénix ocupa o seu verdadeiro lugar.
 
Revolta sem fim.

Estrada sem fim.

 
Há estradas que não nos levam a lugar nenhum. Levam-nos apenas para dentro de nós.

Percorremo-las em silêncio, acompanhados pelo peso das memórias, pelas palavras que nunca dissemos e pelas pessoas que já não caminham ao nosso lado.

O mundo insiste em perguntar onde queremos chegar, mas raramente pergunta aquilo que realmente importa, "quem nos tornámos durante a viagem".
 
Estrada sem fim.

Natureza vil.

 
Naquela noite das sete luas, ela reapareceu perante mim, misteriosamente. Ali, sentada, completamente branca, alva e pura. A lua primaveril resgata, sem dor, a Natureza vil. Está por nascer um novo mundo, um mundo cheio de malvadez que brota debaixo de pedras declives e rudes.
Levantou-se lentamente e aproximou-se com passos incertos no meio da neblina. Ao longe, ouço a água quase cristalina a correr pela íngreme cascata, sinto o cheiro da terra húmida, a brisa a bater no meu rosto e o assobiar de um ser ainda desconhecido.
Estes terrenos calvos e sedosos forçam bruscamente o nascimento de uma planície. Uma luz brilhante, forte e quente conforta esta nova vida. A dor sentida perante uma perda nunca fora antes atingida por vidas já passadas. Esta criatura espelha sofrimento e ódio pelos novos campos, ainda desenfreados pela sociedade mórbida.
Quando os seus passos incertos finalmente cessaram diante de mim, o frio da neblina dissipou-se num sopro que me trespassou a alma. Não havia pureza na sua alma, apenas o reflexo de tudo o que foi destruído. Ela estendeu a mão, não para me tocar, mas para me mostrar que as pedras debaixo dos meus pés eram feitas de antepassados que ignoraram a sua vinda. Naquele instante, percebi que a Natureza não se vingou, apenas retomou o seu lugar no trono. E eu, parado, deixei de sentir a amargura para me tornar habitante daquele mundo.
 
Natureza vil.

Carris sem destino.

 
A locomotiva parte sem destino e sem passageiros, simplesmente parte. Segue sem rota, sem norte aparente. Quando atravessa caminhos e vales, desperta nela um desejo ardente de nunca ter partido, de ter deixado a sua mente fechada numa gaveta sem respostas.
A locomotiva, quando para na estação que lhe foi destinada, sonha, ou melhor, desespera pelos passageiros prometidos. Mas parte, uma vez mais, com as carruagens mergulhadas em silêncio profundo.
Quando a noite já vai alta, deseja perder-se na imensidão daquela floresta tropical que, antes de renascer, já era suportada pela fé. Em momentos de crença, tudo seria perfeito, mas para a locomotiva tudo se tornara nu. Sem motivos para continuar o seu caminho de dor, angústia e melancolia, ela avança pelos carris sentindo um ódio carnal, uma raiva incontrolável sobre as injustiças aclamadas.
 
Carris sem destino.

Feliz Dia da Mãe.

 
Mãe, dizem que hoje é o seu dia. Apesar de todos os dias serem o seu dia. Foi consigo que aprendi a respeitar, a sentir, a valorizar e a sonhar. A Mãe é o berço da humanidade. A Mãe é vida, é abraço, é conforto, é força... Mãe é Mãe.
​Hoje, o meu abraço procura o vazio e encontra a sua voz no silêncio das minhas orações. A sua ausência é um peso que carrego. Carrego com dor, como quem carrega um luto nunca esquecido. A Mãe foi, e continua a ser, a minha margem, o meu porto de abrigo.
​Mesmo que o tempo tenha levado o seu rasto, o seu sangue continua a ser o meu e, em cada batida do meu coração, relembro a minha infância. Afinal, não se morre quando se deixa um legado de amor nos olhos de um filho. A Mãe não partiu, simplesmente deixou um mar de saudade.
 
Feliz Dia da Mãe.

Devaneios do Dante - III

 
Estes Diabos gritam aos meus ouvidos, fazendo a minha alma quebrar um coração carregado de dor. As minhas mãos, amordaçadas, continuam feridas e sem tez.
 
Devaneios do Dante - III

Melancolia da dor.

 
A melancolia das palavras também adoece, uma pitada de dores no corpo, uma outra de dores de cabeça, finalizando com uma febre alta. O apetite está de folga. A vontade é mesmo estar a descansar e dormir.
 
Melancolia da dor.

Devaneios do Dante - V

 
Este demónio corrói o que ainda resta de humanidade dentro de mim, deixa-me possuído e controla o meu sangue. O meu corpo já não me pertence, abandona-me sem permissão e sem dar luta a este cruel e maligno monstro.
 
Devaneios do Dante - V

A carta que nunca te escrevi - I

 
Lisboa, 29 de maio de 2026

Querida Amália,

Aconchego-me na minha cadeira de veludo e chego-me à frente, arrastando as pernas da cadeira no chão de azulejo. Pouso os braços em cima da secretária e seguro na minha caneta, a caneta que conhece os segredos mais obscuros da minha alma. Olho pela janela, o tempo lá fora está nublado. A minha vista não alcança a Ponte 25 de Abril, nem o Cristo Rei em Almada.

​Não sei que raio de impulso tive ontem, comprei um maço de cigarros e um pequeno isqueiro. Ambos estavam pousados na minha secretária, juntamente com a minha máquina de escrever, o meu bloco de notas com rabiscos sem nexo, um molho de folhas A4 em branco e um candeeiro.

​Num momento de raiva, abri o maço de cigarros, tirei um e foquei os meus olhos naquele pequeno demónio. Aquele momento assustou-me, sou sincero. Mas quando acordei para a realidade, como um clique, mandei o demónio para dentro do balde do lixo por baixo da minha secretária, fazendo companhia a folhas amarrotadas. Peguei igualmente no maço e dei-lhe o mesmo destino.

​Concentrei-me na minha caneta e nas folhas A4 que se encontravam à minha direita, delicadamente tirei uma folha do monte e comecei a escrever esta carta que nunca te escrevi.

​Os meus olhos voltam a fixar a vida que corre no exterior daquela casa. Ouço as buzinas dos automóveis apressados para chegar ao trabalho ou a um funeral que começara há minutos. Tal como o burburinho das pessoas no café a discutir os jogos de futebol do fim de semana, em que o Sport Lisboa e Benfica ganhou ao seu rival da Segunda Circular, o Sporting Clube de Portugal.

Um pombo acabara de pousar no parapeito da janela e traz no seu bico um pequeno galho.

A vida lá fora parece muito mais interessante e agitada, mas eu sempre preferi uma vida mais solitária, melancólica e sem pressas. Tu, melhor do que ninguém, sabes isso e, devido a isso, abandonaste esta casa há mais de um ano. Nunca soube qual dos dois não teve a capacidade de compreender o outro. Mas fui compreensivo comigo mesmo e deixei-te partir, viver a vida que eu nunca te iria proporcionar. Abri mão de um grande amor para que pudesses ser livre. Hoje desejo que tenhas encontrado a tua liberdade. No entanto, eu, hoje, sinto-me desamparado.

Aquele beijo.

do teu Dante Belmonte.
 
A carta que nunca te escrevi - I

Glória crucificada.

 
Nestes momentos de incerteza, a glória vivida desmorona qualquer certeza envolvida. Mesmo em certas horas, nem o esplêndido voraz do céu azul teima em rogar a certeza de que um dia morrerá. As telas cinzentas desta história lutam, lutam até crucificar a glória rendida.
 
Glória crucificada.

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