Revolta sem fim.
Há uma revolta,
um mar furioso que não pede licença,
fustigando a frágil
e pequena embarcação.
O tigre que habita o Oceano,
entre o diáfano e o ingénuo,
faz resplandecer a raiva
que trago ancorada no peito.
Este coração, ainda inocente,
obriga-me a escrever com tinta no papel rasgado,
único modo de drenar a alma
corrompida pelo mofo da mágoa.
Mas sobre o limiar do ontem,
entre o fumo e o milagre,
as cinzas aprendem a voar.
A Fénix ocupa o seu verdadeiro lugar.
Estrada sem fim.
Há estradas que não nos levam a lugar nenhum. Levam-nos apenas para dentro de nós.
Percorremo-las em silêncio, acompanhados pelo peso das memórias, pelas palavras que nunca dissemos e pelas pessoas que já não caminham ao nosso lado.
O mundo insiste em perguntar onde queremos chegar, mas raramente pergunta aquilo que realmente importa, "quem nos tornámos durante a viagem".
Natureza vil.
Naquela noite das sete luas, ela reapareceu perante mim, misteriosamente. Ali, sentada, completamente branca, alva e pura. A lua primaveril resgata, sem dor, a Natureza vil. Está por nascer um novo mundo, um mundo cheio de malvadez que brota debaixo de pedras declives e rudes.
Levantou-se lentamente e aproximou-se com passos incertos no meio da neblina. Ao longe, ouço a água quase cristalina a correr pela íngreme cascata, sinto o cheiro da terra húmida, a brisa a bater no meu rosto e o assobiar de um ser ainda desconhecido.
Estes terrenos calvos e sedosos forçam bruscamente o nascimento de uma planície. Uma luz brilhante, forte e quente conforta esta nova vida. A dor sentida perante uma perda nunca fora antes atingida por vidas já passadas. Esta criatura espelha sofrimento e ódio pelos novos campos, ainda desenfreados pela sociedade mórbida.
Quando os seus passos incertos finalmente cessaram diante de mim, o frio da neblina dissipou-se num sopro que me trespassou a alma. Não havia pureza na sua alma, apenas o reflexo de tudo o que foi destruído. Ela estendeu a mão, não para me tocar, mas para me mostrar que as pedras debaixo dos meus pés eram feitas de antepassados que ignoraram a sua vinda. Naquele instante, percebi que a Natureza não se vingou, apenas retomou o seu lugar no trono. E eu, parado, deixei de sentir a amargura para me tornar habitante daquele mundo.
Carris sem destino.
A locomotiva parte sem destino e sem passageiros, simplesmente parte. Segue sem rota, sem norte aparente. Quando atravessa caminhos e vales, desperta nela um desejo ardente de nunca ter partido, de ter deixado a sua mente fechada numa gaveta sem respostas.
A locomotiva, quando para na estação que lhe foi destinada, sonha, ou melhor, desespera pelos passageiros prometidos. Mas parte, uma vez mais, com as carruagens mergulhadas em silêncio profundo.
Quando a noite já vai alta, deseja perder-se na imensidão daquela floresta tropical que, antes de renascer, já era suportada pela fé. Em momentos de crença, tudo seria perfeito, mas para a locomotiva tudo se tornara nu. Sem motivos para continuar o seu caminho de dor, angústia e melancolia, ela avança pelos carris sentindo um ódio carnal, uma raiva incontrolável sobre as injustiças aclamadas.
Feliz Dia da Mãe.
Mãe, dizem que hoje é o seu dia. Apesar de todos os dias serem o seu dia. Foi consigo que aprendi a respeitar, a sentir, a valorizar e a sonhar. A Mãe é o berço da humanidade. A Mãe é vida, é abraço, é conforto, é força... Mãe é Mãe.
Hoje, o meu abraço procura o vazio e encontra a sua voz no silêncio das minhas orações. A sua ausência é um peso que carrego. Carrego com dor, como quem carrega um luto nunca esquecido. A Mãe foi, e continua a ser, a minha margem, o meu porto de abrigo.
Mesmo que o tempo tenha levado o seu rasto, o seu sangue continua a ser o meu e, em cada batida do meu coração, relembro a minha infância. Afinal, não se morre quando se deixa um legado de amor nos olhos de um filho. A Mãe não partiu, simplesmente deixou um mar de saudade.
Devaneios do Dante - III
Estes Diabos gritam aos meus ouvidos, fazendo a minha alma quebrar um coração carregado de dor. As minhas mãos, amordaçadas, continuam feridas e sem tez.
Melancolia da dor.
A melancolia das palavras também adoece, uma pitada de dores no corpo, uma outra de dores de cabeça, finalizando com uma febre alta. O apetite está de folga. A vontade é mesmo estar a descansar e dormir.
Devaneios do Dante - V
Este demónio corrói o que ainda resta de humanidade dentro de mim, deixa-me possuído e controla o meu sangue. O meu corpo já não me pertence, abandona-me sem permissão e sem dar luta a este cruel e maligno monstro.
A carta que nunca te escrevi - I
Lisboa, 29 de maio de 2026
Querida Amália,
Aconchego-me na minha cadeira de veludo e chego-me à frente, arrastando as pernas da cadeira no chão de azulejo. Pouso os braços em cima da secretária e seguro na minha caneta, a caneta que conhece os segredos mais obscuros da minha alma. Olho pela janela, o tempo lá fora está nublado. A minha vista não alcança a Ponte 25 de Abril, nem o Cristo Rei em Almada.
Não sei que raio de impulso tive ontem, comprei um maço de cigarros e um pequeno isqueiro. Ambos estavam pousados na minha secretária, juntamente com a minha máquina de escrever, o meu bloco de notas com rabiscos sem nexo, um molho de folhas A4 em branco e um candeeiro.
Num momento de raiva, abri o maço de cigarros, tirei um e foquei os meus olhos naquele pequeno demónio. Aquele momento assustou-me, sou sincero. Mas quando acordei para a realidade, como um clique, mandei o demónio para dentro do balde do lixo por baixo da minha secretária, fazendo companhia a folhas amarrotadas. Peguei igualmente no maço e dei-lhe o mesmo destino.
Concentrei-me na minha caneta e nas folhas A4 que se encontravam à minha direita, delicadamente tirei uma folha do monte e comecei a escrever esta carta que nunca te escrevi.
Os meus olhos voltam a fixar a vida que corre no exterior daquela casa. Ouço as buzinas dos automóveis apressados para chegar ao trabalho ou a um funeral que começara há minutos. Tal como o burburinho das pessoas no café a discutir os jogos de futebol do fim de semana, em que o Sport Lisboa e Benfica ganhou ao seu rival da Segunda Circular, o Sporting Clube de Portugal.
Um pombo acabara de pousar no parapeito da janela e traz no seu bico um pequeno galho.
A vida lá fora parece muito mais interessante e agitada, mas eu sempre preferi uma vida mais solitária, melancólica e sem pressas. Tu, melhor do que ninguém, sabes isso e, devido a isso, abandonaste esta casa há mais de um ano. Nunca soube qual dos dois não teve a capacidade de compreender o outro. Mas fui compreensivo comigo mesmo e deixei-te partir, viver a vida que eu nunca te iria proporcionar. Abri mão de um grande amor para que pudesses ser livre. Hoje desejo que tenhas encontrado a tua liberdade. No entanto, eu, hoje, sinto-me desamparado.
Aquele beijo.
do teu Dante Belmonte.
Glória crucificada.
Nestes momentos de incerteza, a glória vivida desmorona qualquer certeza envolvida. Mesmo em certas horas, nem o esplêndido voraz do céu azul teima em rogar a certeza de que um dia morrerá. As telas cinzentas desta história lutam, lutam até crucificar a glória rendida.