chega-se...
... a mim
formigueiro
disfarçado de fogo
em incandescência
e cresce
invasivo
de tamanho invisível
ou como um olhar
que fogueia
por dentro
com um único nome
inscrito
sem som
e na boca ainda seca
palavras lentas
que sinto
à bolina
(reposição)
reversão
[a pele que nos pensamos
é apenas algo exterior, afinal!]
a verdade que nos veste é cá dentro
sem espartilhos
sem costuras
flexível
com o olhar e o Sorriso
sem pele
...como outrora
crê
a simplicidade escorrida de um querer
[como sempre]
na sombra dos olhos
na ternura de um sorriso
agora involuntário
outrora quase toque
que quer
querendo-te
expulso dessa descrença
aparência controversa
sob uma pedra tosca
desprezível
agreste ao toque
fora do veludo da memória
do sorriso terno
do fechar de olhos
introspetivo
penso na oração que és em cada dia
e adormeço inocente
a memória no olhar
estou de volta à memória
sem armadura
a máscara não se susteve
enrugou-se e eu
sem espelho
vi-te na minha memória
no reflexo do tempo
que saiu sob o tapete
trepou-me
sedutor
aqueceu-me num abraço
nunca esquecido
inconclusivo
Humana condição
3h20 da manhã. Uma urgência em hora de ponta. Sem maca, dormir (?) no cadeirão. A Dor acorda cedo, com medicação, tensões e a simpatia de um grupo azul cansado. De repente e ao longo do dia, parecera que os idosos tinham combinado cair — de escadas, em casa, de andaimes, cair simplesmente. E jovens. Ao longo do dia, juntaram-se em 13 macas e 3 cadeirões, 16 frutos de azares.
A simpatia azul mudara de rosto; não a dedicação, o humor para com os dois casos de 90 anos que teimavam que pedissem ao pai, à mãe, que os viessem buscar. E a paciência do céu, sempre azul, dando cumprimento ao discurso desconexo, prestando atenção, dando atenção quando mais nada havia a fazer, a não ser impedir que caíssem da maca.
Uma delas instalou-se perpendicularmente, agora que já tivera direito também a uma. Um jovem, sem pernas, contorcia-se com dores de estômago ou do que fosse que ainda não tinha sido diagnosticado. O seu olhar desesperado suava, entre os gritos do Alzheimer e os gemidos das três pernas engessadas. O tempo doía-lhe mais do que o mal desconhecido de cada vez que chamavam alguém para o Bloco.
Quando a chamaram — e porque era a única que conseguia deslocar-se sem dores, num dedo condenado, morto, que seria deitado num recipiente qualquer depois da intervenção final —, chamaram-na e os olhares de ambos cruzaram-se. Viu o desespero, uma quase revolta admirada... "Ela está bem, não se queixa, movimenta-se, eu já estou aqui há quase 3 horas de sofrimento. Devia ser eu a ir."
Pensei nas 15 horas de permanência ali, sem comer ou beber, carregando um dedo morto que me iria deixar em breve. Sorrindo... "Vai correr tudo bem", no olhar. Que de nada serviria, mas foi-me necessário.
contigo
com as raízes em ti
de asas no pensamento
o horizonte perde o limite
dádiva
de asas no pensamento
com as raízes em ti
o céu é onde eu quiser
a ser o que tu és
oculto
iria ao princípio de tudo
mesmo sabendo que o fim seria o mesmo
labirinto
devemos fazer sempre o que está certo —
como a cruz no boletim de jogo
que esperamos ser a melhor escolha
o Amor vem de fora
contigo
mas é impossível sentá-lo à mesa
comigo
tu e eu
que também tu sabes
que o mundo dos lugares sentados
quebra-nos os dias
um a um
e eu
acredita
não sou as minhas palavras
apenas o gesto
só Amo-te