Poemas, frases e mensagens de AlmaMater

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de AlmaMater

latência

 
traz de novo as tuas margens ao meu corpo

perdido do amor e das tuas mãos
vive sozinho
comigo
adormecido
de carícias e palavras
recorda o que sonhou
o que nunca passou do desejo

vem:
soa à minha porta
 
latência

coisas d'Alma

 
 
não, não estranhes
não é volúpia

é uma daquelas erupções vulcânicas
com som a pele
quando o corpo se distende
liberto
indefeso
concedendo liberdade ao cheiro
ao gosto
à suave oferta do abraço por que grita

e não, não é volúpia:
é um fechar de olhos em espera
aguardando
 
coisas d'Alma

beijo nu

 
 
no teu beijo nu
despojo-me das armaduras
e o silêncio deixa de doer
enquanto

na penumbra do teu peito
cai o peso do mundo]
na entrega

sou apenas pele
a respirar a tua paz
 
beijo nu

palavras de intenções

 
perderam a cor
As palavras

Balões transparentes
Deixam ver
o azul do céu
a verdade firme da intenção
recebem a indiferença como se fossem mentiras
já deixei de acreditar, mas tirei todas as palavras do caminho
não há nele nada
porque não há nada em que acreditar
nem dor

Já basta a que rodeia este hospital.

:)
 
palavras de intenções

encontro-(…)

 
(sempre que se sai sem bater a porta,
é certo que o encontro será cá dentro)

deixa-me pousar
de novo
no lugar já frio da almofada
no canto moldado do leito
prometo ficar imóvel
em silêncio
como se nunca tivesses sentido
a minha ausência
mais uma fuga
na ponta de um fio preso.
 
encontro-(…)

sem pontuação

 
 
com amor assim suave
sou eu ao encontro da paz
na curva do teu ombro
confiante
sinto que podia pousar aí
o resto da minha vida

porque respondes sem que eu pergunte
porque sorris antes que eu chore
porque estendes a mão antes que eu caia
porque me calas antes que eu diga
porque já sabes
porque chegas antes que eu te chame
porque estás antes de eu chegar
porque és o fim que se antecipa
quando não acredito que sou princípio
por isso assim suave
na curva do teu ombro
sorrio
 
sem pontuação

cumpre-te em mim

 
 
cumpre-me o prometido
que serias voz
silêncio
segredo
ombro
ternura pronta
sem sabor de beijo
calor
sem afago de braços
amor
sem promessas

mas sim
cumpre em mim o prometido
 
cumpre-te em mim

por inteiro

 
sejamos simples

a simplicidade é o corpo:
o que ele dá e como se entrega, sem cálculos
é o contacto quente que no outro se encontra e oferece
o corpo
por si
é quase nada

move-o a alma...
e é nela que ele se faz inteiro
 
por inteiro

segredo

 
este segredo de ninguém
de nós
de dois corpos suspensos
olhares presos pelo silêncio
e um mundo
lá fora
empurrado pelo som fechado das nossas portas
 
segredo

tinha chegado ali...

 
por arrasto

ou arrastada
não sabia bem
colocado o melhor sorriso
vestida a roupinha de sábado
ele trouxera-a até àquela festa

estava tudo preparado
a mesa a doçaria os lugares acertados as pessoas certas
a sala paira no vazio de tudo isto
mas lá estava
e isso era o mais importante
que estava

havia um sulco arado na sola dos seus pés deixado pela vida
pelas marcas
pelo seu ser...
atrás da sua sombra... perseguindo-a

[o seu rosto tinha o milagre de um sorriso... que também apenas lá estava

pendurado com elásticos de cabelo
ninguém notava ninguém via... para quê?
bastava saber que o sítio era o certo]
 
tinha chegado ali...

chega-se...

 
... a mim
formigueiro
disfarçado de fogo
em incandescência
e cresce
invasivo

de tamanho invisível
ou como um olhar
que fogueia
por dentro
com um único nome
inscrito
sem som

e na boca ainda seca
palavras lentas
que sinto
à bolina

(reposição)
 
chega-se...

reversão

 
[a pele que nos pensamos
é apenas algo exterior, afinal!]

a verdade que nos veste é cá dentro
sem espartilhos
sem costuras
flexível
com o olhar e o Sorriso

sem pele
...como outrora
 
reversão

crê

 
a simplicidade escorrida de um querer

[como sempre]

na sombra dos olhos
na ternura de um sorriso
agora involuntário
outrora quase toque

que quer
querendo-te
expulso dessa descrença
 
crê

aparência controversa

 
sob uma pedra tosca
desprezível
agreste ao toque
fora do veludo da memória
do sorriso terno
do fechar de olhos
introspetivo
penso na oração que és em cada dia
e adormeço inocente
 
aparência controversa

a memória no olhar

 
estou de volta à memória

sem armadura
a máscara não se susteve
enrugou-se e eu
sem espelho
vi-te na minha memória
no reflexo do tempo
que saiu sob o tapete

trepou-me
sedutor
aqueceu-me num abraço
nunca esquecido

inconclusivo
 
a memória no olhar

Humana condição

 
3h20 da manhã. Uma urgência em hora de ponta. Sem maca, dormir (?) no cadeirão. A Dor acorda cedo, com medicação, tensões e a simpatia de um grupo azul cansado. De repente e ao longo do dia, parecera que os idosos tinham combinado cair — de escadas, em casa, de andaimes, cair simplesmente. E jovens. Ao longo do dia, juntaram-se em 13 macas e 3 cadeirões, 16 frutos de azares.
A simpatia azul mudara de rosto; não a dedicação, o humor para com os dois casos de 90 anos que teimavam que pedissem ao pai, à mãe, que os viessem buscar. E a paciência do céu, sempre azul, dando cumprimento ao discurso desconexo, prestando atenção, dando atenção quando mais nada havia a fazer, a não ser impedir que caíssem da maca.
Uma delas instalou-se perpendicularmente, agora que já tivera direito também a uma. Um jovem, sem pernas, contorcia-se com dores de estômago ou do que fosse que ainda não tinha sido diagnosticado. O seu olhar desesperado suava, entre os gritos do Alzheimer e os gemidos das três pernas engessadas. O tempo doía-lhe mais do que o mal desconhecido de cada vez que chamavam alguém para o Bloco.
Quando a chamaram — e porque era a única que conseguia deslocar-se sem dores, num dedo condenado, morto, que seria deitado num recipiente qualquer depois da intervenção final —, chamaram-na e os olhares de ambos cruzaram-se. Viu o desespero, uma quase revolta admirada... "Ela está bem, não se queixa, movimenta-se, eu já estou aqui há quase 3 horas de sofrimento. Devia ser eu a ir."
Pensei nas 15 horas de permanência ali, sem comer ou beber, carregando um dedo morto que me iria deixar em breve. Sorrindo... "Vai correr tudo bem", no olhar. Que de nada serviria, mas foi-me necessário.
 
Humana condição

contigo

 
 
com as raízes em ti
de asas no pensamento
o horizonte perde o limite
 
contigo

dádiva

 
 
de asas no pensamento
com as raízes em ti

o céu é onde eu quiser
a ser o que tu és
 
dádiva

oculto

 
 
iria ao princípio de tudo
mesmo sabendo que o fim seria o mesmo
 
oculto

labirinto

 
 
devemos fazer sempre o que está certo —
como a cruz no boletim de jogo
que esperamos ser a melhor escolha

o Amor vem de fora
contigo
mas é impossível sentá-lo à mesa
comigo
tu e eu

que também tu sabes
que o mundo dos lugares sentados
quebra-nos os dias
um a um

e eu
acredita
não sou as minhas palavras
apenas o gesto
só Amo-te
 
labirinto

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