Chora-me, Tarde
Chora-me, Tarde!
Na tarde chorosa,
De bruma espessa,
que sendo avessa,
gotejou desgostosa,
talvez furiosa,
sem a promessa,
de felicidade confessa;
e ei-la chorosa!
Chorou de desdita,
ao fastio amoroso
do homem invejoso,
que só acredita
- vaidade maldita –
no "todo-poderoso"
ouro, bem valioso,
chão ou fato catita.
Chora Tarde! Caridade!
Chora-me Tarde! Já não arde,
no meu coração, a amizade
que matei, por loucura e avareza.
De tanta pobreza,
de alguma ternura,
dei-te apenas secura,
doce amiga, e tristeza
em permuta de bondade.
Chora-me, Tarde!
Amor Cruel
Amor Cruel
Ah, este cruel amor,
que feroz me tortura
minha alma de dor;
meu ser de loucuras!
quadra em versos hexassílabos.
Amor Sentenciado
Amor, Sentenciado!
Deixem vós que "Amor" fale,
diga que tormentos m' impôs,
que palavras usou d' enganos?
Deixem vós que "Amor" declare
porque trapaceou meu coração
e me raptou a alma e a razão?
Porque "Amor" me subtraíu sonos,
me contranbandeou todos os sonhos,
e me feriu no meu ser, fatalmente?
Porque m' entregou infeliz cativo
no abraço carinhoso de minh' amante
e me saciou de seus doces beijos?
Que "Amor" seja sim, um sentenciado,
em perpétuo esforço e viço empenho
na união dos amantes, eternamente.
Que "Amor" transforme horas em dias,
dias em meses e anos de felicidade.
Jamais "Amor" poderá ser perdoado!
Deixem que "Amor" sofra julgamento,
não me façam juiz em causa própria,
nem júri de acusação com fundamento.
Eu, "vítima", retiro todas as queixas,
esqueço humildemente as suas afrontas,
porém, jamais inocentem este "Amor"!
Trova de Amor
Trova d' Amor
Ah! Minha senhor distante,
Bela donzela do aquém,
me caluniais de tratante,
de triste, um "zé-ninguém"!
Ah! Minha bela senhor,
dama de todos meus sonhos,
Quando ditareis amor,
de vossos lábios risonhos?
Ah! Minha doce senhor,
Amada de coração,
Por que me dizeides traidor.
E me negais tanta paixão?
Nota: No tempo do trovadorismo, não existia o feminino de "senhor"; era formado pelos pronomes adjuntos possessivos.
Bobo
Bobo
Oh, bobo! Oh, Oh, bobão!
Que não tens nem um tostão,
De riso tão forçado,
Fato mal amanhado...
Oh, bobo, que bobagem!
Nessa triste imagem,
Pobretanas errante,
Que piroso e vil tratante!...
Oh, bobo, oh, trapalhão,
Oh, bobo sem coração,
Canta o fado magoado,
De dor funda e pecado.
E nessa breve mensagem,
Ousa mostrar tua coragem,
Não sejas mais um pinante,
Fala em tom forte, troante.
Bobo, canta a paixão,
Diz sim, mas nunca um não,
Ao amor desejado,
Sublime, tão clamado.
Toma nesta viagem,
A fé de quem, em romagem,
Suplica, delirante,
Um terno ai d’ amante!!
Redondilha Maior, 7 + 7 + 7, etc...
Carta de Amor
Carta d’ Amor
Bela donzela,
matizada d' Outono,
imagem singela,
menina em sono.
Desejo d' água,
Ornado d' inverno,
Louca fuga, mágoa,
Amante eterno.
Osmose de cores,
folhada de estio,
prenha d' amores
e saciar do fastio.
Ais de coração,
Doce primavera,
Serena paixão,
Enlace, nó, d' hera.
Tela d' ilusão,
Éter do desejo,
Vinho, fruta, pão,
Poema e ensejo.
Coração fremente,
Formusura em nu,
Num beijo dolente,
Fada, ninfa - TU!
Correntes
Correntes
Correntes nos unem
No torpor da noite
Tento lhes tocar...
Sem toque!
Tento as ouvir tinir...
Sem som!
Falo para ti, a meu
lado... sem voz!
Tento te sentir
E tocar...
Acorrentado!
Mergulho no sonho.
Do afastamento,
Da negação,
Da sede.
Do desespero,
E trago-te a mim...
A ti suplico;
- Liberta- me!
Sinto a tua mão,
Desesperada,
Frenética,
Sem sucesso,
Me desencadear
De elos cruéis
Que não conheces...
Sinto até lágrimas
Salgadas
Tentando corroer
Com sal amargo
As cadeias.
Em vão…Em ilusão...
E a dor da separação,
no despertar, é tão real…
Almas Gémeas
Almas Gémeas
Cinco horas e treze minutos...
Madrugada!
Olho, pela minha janela, o mar.
O mar majestoso e manso,
por vezes cruel e traiçoeiro.
Raios obscuros numa metaforse de luz
se projectam no seu seio fazendo
parecer mais um mar de pirilampos
que líquido salgado em repouso.
Algo me ocorre no pensamento,
como tantas outras vezes,
(que) deixo vaguear o espírito:
- Se o mar tem alma?
Como nós...
Se ela é igual à nossa?
Alma com a mesma paixão
e defeitos de nós humanos,
de matéria também...
Mas porquê alma?
Porque não espírito,
uma força motriz qualquer
provocada por nervos em vibração!
Porquê alma?
Porque não coração?
Apodero-me do pensamento
bem quente, em ebolição.
Toda a reacção de um cérebro ao rubro
me rebentam na pele, nos dedos,
na boca, nos olhos cheios de maresia.
Ordeno as ideias e transmito
à mão mensagens sem fim.
E escrevinho letras a fim...
Sem tino, palavras que não atino.
Mas escrevo o que penso, que sinto.
Sou louco pensando como agora
em algo sem nexo, descabido...
- UMA ALMA GÉMEA!
Parecidas como duas gotas d' água,
que se encontram e se reproduzem.
Algo utópico...
Seria destino, ou uma força
estranha e poderosa?
Mas para quê lamentar?
Tudo o que resta é sonhar!
Só passar por esta vida deixando
apenas impressa a nossa presença
numa reles fotografia que temos
então "matemo-nos"!
Almas gémeas!
Quem as viu ou as sentiu?
Se conhecerem alguma,
digam-me...
- Diz-me mar!
- Diz-me céu!
- Diz-me chuva!
- Diz-me vento!
Nada? Nada!
Não haverá amor, um par sequer,
para formar uma alma gémea?
Nada? Nada!
Oh! Seis horas e vinte e um minutos.
Vai despontar, da madrugada,
um dia mais. E eu???
Vou voltar à realidade...
"Almas gémeas"?...
A uma "Alma Gémea".
Alegria de Te Amar
Amar-te
Ah, se um sorriso teu
aflora em teus lábios
em promessa de beijos,
é a ventura de te amar!
Ah, se um olhar teu
se esvai radiante
de teus olhos de mel,
é a alegria de te amar!
Ah, se um sussurro teu
se evade de tua boca
ornada de mil desejos,
é o prazer de te amar!
Ah, se com as tuas mãos
me afagas o rosto
e se perdem no toque,
é o desejo de te amar!
Ah, se teus braços lestos
me envolvem em abraços
terna e infinitamente,
é o êxtase de te amar!
Ah, se teu corpo amante
ao meu se entrega afinal
exigindo mútua doação,
é amar-te eternamente!
Amor
Amor
Não fosses amor,
poesia, fado, maresia;
vida um agror.
Estrutura de haiku (5–7–5)