Bendito seja, em nome de Ti
bendito seja, em nome de ti,
os gestos provocantes de beijos, que invade a alma,
e o sopro que me vai pela nuca,
quando faceiro me desnudas ao luar...
bendito seja, em nome de ti,
os cabelos que emaranhas e que não soltas,
quando fociferas o meu nome, antes do badalar do relógio à meia-noite,
e o peito arfa em cansaço e suor.
bendito seja, em nome de ti,
a palavra não dita,
toda ânsia maldita,
a fúria escondida,
e aquele querer, que nunca se ajusta.
bendito seja, em nome de ti,
os caminhos que me empurram pro’s teus afagos,
a estrada passeante dos teus lábios em meu contorcido ventre,
e o gemido sibilante que corta tod’uma madrugada.
bendito seja, em nome de ti,
o que nunca me darás,
a dor que não tirarás do meu corpo,
e a água santa e morna,
que jamais limpará os meus pecados…
bendito seja, em nome de ti,
essa maldita sina, de um dia, me perder em teus braços
e a fraqueza que tenho de nunca mais te esquecer….
Bendito seja….
Algum Lugar
….tudo, por certo, é tão comum…
O dia que nasce,
O sol que aquece,
A frase que nada diz,
A navalha trazendo a cicatriz.
O mundo parece chover – dentro, e não fora.
A procura das coisas, que não se encontra.
O despreparo para as lágrimas.
A confusão entre o ser e o não dizer (para que?).
Sigo o instinto.
Ele me levará a algum lugar.
Nem que seja a lugar nenhum.
Certas incertezas
...o sol parece esconder-se hoje,
embora esteja lá fora, em plenitude…
mas ausente da visão dos considerados normais…
por vezes, o mundo pára…
sinto que preciso descer as escadas,
um pouco mais,
mais…
mais…
e mais…
ficando bem no fundo…
no fundo do meu próprio peito,
das misérias,
das feridas,
das cicatrizes que insistem em doer…
e que teimam em me dizer “olá”,
...dia após dia…
...nunca estou ou chego na hora certa…
...essa hora que a vida sinaliza, registra,
sem que seja necessário haver ponteiros de um relógio,
e que marcam cada instante,
levantando tormentas,
aproximando tempestades,
colocando o astro rei fora do alcance…
(...uma errônea percepção?)…
(...uma estranha certeza de estar sempre atrasada?...)
...espreito de soslaio fora de mim…
...lanço mão da algibeira…
...e sigo…
...sigo aqui, ali e acolá...
...pra lá e pra cá...
...tendo somente as pedras,
como minhas únicas companheiras….
Lembra-te de esperar
E quando ficares a sós
lembra-te que as cotovias ainda estarão a gorjear
e que do céu nada cairá, além das gotas de chuva,
despencadas dos teus olhos murmurantes…
Aquele além não tão distante, em que ficas a espera,
(E que bem poderia ser somente um vocábulo – ainda que mal pronunciado)
Tão logo chegará,
Sem avisos,
Sem melodramas,
Sem nexo qualquer…
Enquanto o tempo teima em passar distraído,
Esqueça-te do amor mal amado,
Das dores infiltrantes na alma,
E dos pequenos sonhos – são pequenos, ilusórios, cambaleantes
Arriba-te e firma-te para a próxima batalha…
A vida – com certeza – tem muito a te dizeres
No silêncio inócuo de tua breve passagem….
Santuário
Meu pensamento é o meu santuário,
Lugar onde me escondo e posso emudecer,
E mesmo,às vezes, sem querer,
Dou de frente com meu adversário.
Prolongo os dias sem a mínima noção,
De que o tempo se esvai levando o meu melhor,
Fatigado fica o meu coração,
Restando-me apenas uma prece ao Criador.
Nas pele enrugada revejo as marcas,
Da vida vivida e não sonhada,
Pouco a pouco vou removendo as farpas,
Prevendo outra vez a triste partida.
Não ouso querer mais um doce porvir,
Ficando quieta no meu santuário sagrado,
Por fim meu corpo se deixa cair,
Aceitando o adeus de muito bom grado.