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Poemas, frases e mensagens de fogomaduro

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de fogomaduro

Arte e cultura.

Separação das Águas

 
As fontes e as águas num só rio
e as margens à esquerda e à direita
e os dias a correr e o desafio
de acarar desaforo ou desfeita

e as estrelas polar e da manhã
e a lua e o sol em cada mão
e o tempo delido com afã
e a noite a crescer no coração

e o avesso às vezes que desponta
e dispara a cegueira e atira um nome
e a palavra mais dura do que a afronta
e a sede revirada contra a fome

e o leito do rio já sem voz
a chegar tão vazio até à foz

© Domingos da Mota

também in http://fogomaduro.blogspot.com/
 
Separação das Águas

O SORRISO

 
Beijo os lábios da fonte pra beber
o sorriso que brota dos seus olhos:
trago a sede e a fome de o ver,
de sentir um sorriso sem antolhos

que me encharque de luz como se cego
levado pelo faro do seu cão,
sorriso que ilumine e aqueça o ego
tal como se massaja o coração.

E na bica da fonte apuro o fio
que sacia e refresca o pensamento,
por vezes é a chama de um pavio
que resiste apesar de tanto vento:

e assim alimento e mato a fome
quando a sede é demais e me consome.

© Domingos da Mota

publicado também no blogue http://domingosdamota.blogspot.com
 
O SORRISO

Elegia em Dó Menor

 
Não procuro dos outros o que tenho,
mas ainda procuro o que me falta
e se sei onde estou e donde venho
(morri no hospital e deram-me alta),

não irei carregar mais o sobrolho,
pôr no prego um verso já maduro
e gastar tanta cera com o olho
que acenda um pavio no escuro;

não minto se disser que além do fogo
são as cinzas que ferram as canelas
e quando os sentir no corpo todo
serei filho do pó e das estelas;

e apesar de escutar os violinos,
não darei mais badalos para os sinos.

© Domingos da Mota
 
Elegia em Dó Menor

Alquimias

 
a Júlio Saraiva

Quem dera que o veneno,
em vez de praga, esconjuro,
fosse vacina, antigénio,
fosse qual soneto duro

(mas para igual é preciso
ser poeta de mão cheia -
não fazer cócegas ao riso
quando o riso se incendeia).

Tomara que o veneno
criasse alguns anticorpos
para avivar, pelo menos,
estes versos quase mortos.

Vou injectá-lo nas meias.
Se não chegar aos sapatos,
fica no meio das teias -
será veneno dos ratos.

E quanto ao coro de vozes
e aos desertos ardentes,
confesso que vejo as nozes,
mas que me faltam os dentes.

© Domingos da Mota

réplica, canhota, com admiração, ao poema «Oitava canhestra», de Júlio Saraiva
 
Alquimias

Filosofia Política

 
Estou farto da poesia
como se renda de bilros
tricotada bonitinha
a alancear a vidinha
com porosos atavios

ou cedilhas timoratas
amarrotadas sem viço
cabisbaixa de alpargatas
e de olhos sempre de gatas
entre a dor e o derriço.

Ai do lirismo que arrima
e nem é carne nem peixe
pois um poema sem espinha(s)
virgulado picuinhas
é bem melhor que se deixe

de navegar no mar alto
no abismo dos sentidos
de atravessar o asfalto
de voar de ir a salto
pra mundos desconhecidos.

O poema deve ser
«uma pedra no caminho»
com as sílabas a arder -
língua de fogo a crescer
e a morder até ao imo.

Mas se a mão o largar
numa toada vazia
desenfreada frenética
há que suster a poética -
e soltar a poesia.

Poetas abaixo a rima
(se ela for a prisão
onde o poema definha).
Estou farto da poesia
«que não é libertação».

© Domingos da Mota

a partir da leitura de dois poemas, respectivamente, de Manuel Bandeira e de Carlos Drummond de Andrade.
 
Filosofia Política

Soneto das Vindimas

 
a Machado de Assis

Descreveste-me o caso e ferrei osso
e peguei-lhe nos cornos pelas pontas
e torci de alguns versos o pescoço
e limpei o poeta das afrontas

É certo que chegou algum reforço
(voaram ovos chocos e até pombas)
e depois do esforço e do desforço
assobias prò ar num faz de conta

Não sei se é descaro ou cobardia
rimar o Dom Casmurro e a sua tia
com as Memórias Póstumas do Cubas

Só vou dizer Machado porque Assis
mas já que esta rima não condiz
melhor é vindimar: pisar as uvas

© Domingos da Mota

29.09.2008, no dia do centenário da morte de Machado de Assis.

(nota: o verso "e torci de alguns versos o pescoço" é uma paráfrase do verso e torce-lhes o pescoço, do poema "Bom e Expressivo" de Alexandre O'Neill).
 
Soneto das Vindimas

Valsa da Lua Cheia

 
Levanta-se e cresce a lua,
lua prestes a agitar
e a mover a terra nua
desejada pelo mar.

Mergulha o sol, põe-se à flor
das águas, da preia-mar
- o sol perdido de amores,
a ponto de se afogar.

E dão à costa, sabidos,
exuberantes, sem peias,
lobos-do-mar perseguidos
pelo canto das sereias.

(Sobem na crista da onda
crinas de vento alazão,
com as narinas redondas,
em busca de excitação).

E de súbito, nas dunas,
nas vinhas do desvario,
casquinam e soltam uivos
exasperados de cio.

E dão-se à noite e às brumas:
coruscantes, comprazidos
incendeiam a caruma
desgrenhada dos sentidos.

Brilham fiapos de lua
nas asas dos pirilampos.
Noite adentro, acesas, nuas
abrem-se olheiras de espanto.

Lua cheia à beira d'água.
Arrebatada a paixão,
um rio de lume lava
o luar em combustão.

© Domingos da Mota
 
Valsa da Lua Cheia

O GRITO - 1893 - EDVARD MUNCH

 
Óleo, têmpera e pastel em cartão,
91 x 73,5 cm

Entre o ser e o nada, não resisto
ao peso imponderável da beleza:
não do sol a brilhar como previsto
e a abrasar duramente a natureza,

nem da lua crescente como a noite,
lua cheia de insónias indolores,
mas da terra varada pelo açoite
dos olhos repletos de pavores.

Entre o ser e o nada, essa algidez
do azul que atravessa a moldura,
e os corpos distorcidos e a nudez
das cores que alucinam a pintura,

como se dos confins do infinito
fossem línguas de fogo, o medo, o grito.

© Domingos da Mota
 
O GRITO - 1893 - EDVARD MUNCH

Oração

 
Oiro da noite
pó das estrelas
chuva de cinzas
à flor da pele
matéria negra
matéria fria
língua de fogo

rogai por nós

© Domingos da Mota
 
Oração

Ensaio sobre o Amor

 
O amor dura sempre enquanto arde
e mesmo quando as cinzas já estão frias
o amor nem é cedo nem é tarde
o amor nunca tem as mãos vazias

o amor qual relâmpago à solta
atravessa a galope o coração
(e deixa tantas vezes a revolta
na boca e na lava do vulcão)

o amor pode ser o desengano
ou o delta de um rio até ao mar
o amor que se veste sem um pano
e apetece despir e mergulhar

o amor permanece enquanto houver
sede e fome entre o homem e a mulher

© Domingos da Mota
 
Ensaio sobre o Amor

Buraco Negro

 
Jaz o poeta no caixão vazio
(foi morto por Caim sem ser Abel)
e sente à sua volta um corrupio
de vultos a carpir num aranzel

e a dizer os seus versos que não leram
(e até os poemas que não fez)
e ouve mesmo alguns que o tresleram
citá-lo entre aspas desta vez

Jaz o poeta no buraco negro
da memória varrida pelo vento
e caído no fundo desse pego
no meio do lençol do esquecimento

o que sobra por fim desata o nó
da espessura do tempo: e fica em pó

© Domingos da Mota

do livro em preparação, Matéria Negra, e publicado também no blogue http://morcegoseolhimancos.blogspot.com/
 
Buraco Negro

Epigrama

 
Não me digas da paz
sequer da guerra

não decantes o amor
com tanto ódio

não apontes o céu
quando é na terra

que se atinge o fim
(depois do pódio)

© Domingos da Mota

do livro em preparação "Matéria Negra"
 
Epigrama

Arte Poética

 
Um poema tomara: e que fosse
à raiz das raízes ou mais alto,
temporão ou serôdio: e se precoce
que andasse por aí em sobressalto

a abalar, a criar desassossego,
mesmo à beira da fonte d'água pura,
desvelasse o mais íntimo do ego
e mostrasse o porquê da abrasadura

que ferra este pobre zé-ninguém,
pois em busca de rumo perde o passo
(com a perna mais curta vai além
do que pode o seu pé e o seu braço):

um poema tomara eu fazer
que fosse ao coração do próprio ser.

© Domingos da Mota
 
Arte Poética

Bestiário/1

 
Grandes tubarões:
fervilham, fervem nas águas
amassadas: exploram.

Agitam os cardumes
que perseguem, e apavoram
o peixe miúdo.

Tantas, tão hiantes as piranhas:
eléctricas, vorazes, espectrais,
no mundo feroz dos canibais.

Infestam. Abocanham-(se).
Alardeiam. Arreganham os dentes.
Banqueteiam-se.

© Domingos da Mota

do livro inédito, Bestiário & outros Poemas Bissextos
 
Bestiário/1

Elegia para um Lugar Vazio

 
Vou ali e já venho ou talvez nunca:
enquanto dou a volta ao bilhar grande,
retenho do passado o que se junta
ao peso do vazio que se expande:

com a mala de achados e perdidos
(mais perdidos que achados os meus versos)
e a memória dos dias e dos idos,
por vezes revirados do avesso,

levo os olhos cansados e as retinas
em busca de outros céus, de outras cores
(não quero que despertem as mofinas,
nem vou incendiar mais dissabores):

e uma vez que o lugar fica em pousio,
deixo aqui o pesar do meu vazio.

© Domingos da Mota
 
Elegia para um Lugar Vazio

O Sol Negro

 
Esse ontem como se hoje na memória,
a cela da prisão tão presa à vida
e o nó cego da esperança quando a história
calçava uma bota desmedida,

quando o tempo feroz da ditadura
pisava mesmo o sol e o sol negro
espalhava uma luz cuja negrura
se afundava e perdia nesse pego,

esse ontem como se hoje não morreu,
ronda à esquina dos dias qual secreta
e pode desabar do próprio céu,
se o passo perde o pé, não está alerta:

(se há mesmo assassinos, tantos, tantos
que são feitos beatos e até santos).

© Domingos da Mota

a partir da leitura do poema "hoje há 28 anos fui preso", de Júlio Saraiva, e da crónica de Manuel António Pina, "Fila à porta do Paraíso", no Jornal de Notícias, de 29.10.2008
 
O Sol Negro

SONETO DE PASSAGEM

 
Das águas corredias da memória
emergem os liames da incerteza:
retêm lendas, mitos e a história
das crenças, das ideias e a beleza

das artes, dos ofícios, da cultura
e de terras fecundas e até sáfaras
que foram ou serão a sepultura
de quem partiu do fio das diásporas.

É veloz o decurso desta vida:
um dia após o outro e, de repente,
já fomos, e o que sobra à despedida
oxalá fosse pasto de semente:

de novo sentiríamos o sol,
quem sabe se flor, se rouxinol.

© Domingos da Mota

publicado também em http://antoniocicero.blogspot.com/ e
http://domingosdamota.blogspot.com/
 
SONETO DE PASSAGEM

«Entre a taça e o lábio muitas coisas acontecem.»

Páladas de Alexandria