Poemas, frases e mensagens de pauloroberto

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de pauloroberto

Rascunhos

 
Certa feita, um fragmento
De uma poesia esquecida
Me perguntou:
Por que me abandonaste
Aqui neste rascunho de papel?
Não vês que me faz inútil
Deixas de seres cruel,
Molda meu destino
Ou me risque de uma vez!

Tu és,respondi,
O meu maior tormento,
Não sei que destino lhe dar,
Aquieta, que vez por outra
Venho olhar -te,
Quem sabe, findando-te um dia
Termino assim meu sofrimento?
 
Rascunhos

Confiança

 
Não preciso mostrar-te o corpo inteiro
Para saberes onde estão minhas feridas.
Tens a volúpia das noites não dormidas
Onde dividiu comigo o travesseiro.

Quando juravas amor puro e verdadeiro
Remendava-me as feridas ressequidas.
Dei-te com mãos estremecidas
A minha vida, do último dia ao primeiro.

Dividi contigo os mais terríveis segredos,
Sangrei por olhos, boca e poros
E confiei a tido todos os meus medos.

E agora partes, jurando que nunca te amei…
A quem contarás as razões dos meus choros
Que a ti e tão somente a ti eu revelei …?
 
Confiança

PoÉtica

 
Até que eu gostaria de tecer
Alguns versos para enredar-lhe
E na minha súplica vil e casta
Iludir-te a alma e o corpo…

Mas que bem faria eu
Em utilizar versos Sublimes
Inspirados por Deus
Para te enganar?
 
PoÉtica

Despertar

 
Eu alimento
Minha culpa de viver
Com o leite materno
De uma esperança
Que não tenho.
Não há tempo
De recuperar mágoas,
Elas são como rios:
Nunca serão as mesmas
Mas sempre existirão.

E não distante daqui
Existe alguém
Que talvez espere
Uma noite inteira por você.

Até quando permanecerá
A colher flores
Que murcharão pela manhã?
 
Despertar

Poema

 
Por mais perverso e duro
Que seja esse poema,
Ele ainda é como água
Que sacia ao menos a minha
Fome.
E de ninguém mais.

Por mais perverso e mudo
Que seja esse poema
Ele ainda é ar
Para mim,tão somente.

E por mais, que esse poema,
Sem despudor de zelos
Sem crimes e sem ódio
Se desmantele e se extinga
Em minutos

Eu já terei sido feliz
Por ter dito tudo
Sem precisar falar nada…

Por mais perverso e duro,
Que tenha sido esse poema.

Então retorno aqui, após 16 anos....
 
Poema

Trágico!

 
Não venho rogar a Deus misericórdia em perder-te
Nem implorar a ti algum resquício de amor.
Se intumescido saio do meu ócio aos ares de pavor,
Não e por falta sua, menos muito por querer-te.

Se hora ergo os olhos, é sem intenção de ver-te,
Em que juntos deles caminham com total palor
Os passos meus enegrecidos nas visões de horror
A caminho do trágico destino de não ter-te!

Se, impávido desisto desse tédio de viver,
Quando a coragem de secar os olhos me toma,
Não creia nos atos descabidos que ainda podes ver,

Conquanto me despeço já do futuro que tiver!
Quando salto da janela e do medo que me doma,
Não é pra te encontrar, mas pra morrer!
 
Trágico!

Horizontes

 
Tão distante a mirar-te, vida,
Vi em minha frente dois horizontes.
Com unhas atrozes e braços impertinentes
Ergui-me em vozes e iniciei a incansável ida.

Meu lânguido brado se enlouquece
E caio com o fardo rôto da distância.
Anseio voz suave e muda em doce instância,
Arquejo, porque minha garganta surda fenece.

E ainda a ser dois, o horizonte persiste
Como a querer enganar meus passos pueris e santos
que envio a averiguar se tal miragem existe.

Corre tênue rio em minhas faces indescritíveis,
Me rasgo em trêmulos adejos de prantos:
Amargo a descoberta de que horizontes não inatingíveis
 
Horizontes

Restante

 
Quando andávamos juntos de mãos dadas
A bisbilhotar as relvas encrespadas e nuas,
Quando ouvíamos as vozes desnudas e cruas
Do criptar das noites atrozes embalsamadas,

***

Quando íamos juntos cantando a vida bela,
Mesmo o céu sem ter estrelas, nós víamos,
Mesmo não existindo amor, nós tíamos
E fomos uma flor n'amplidão de um'aquarela.

***

Hoje, quando lembro, mesmo que de mãos atadas,
Somos almas desgarradas: você e eu,
Num mundo que se desfez em névoas o que já viveu.

Ando louco, com vida e alma atarantadas,
Das líricas horas emolduradas tudo morreu,
Só me resta amargura, mais nada!
 
Restante

Sofrimento

 
Amor, venha ver os lábios de Jesus
A implorar um trago de vinagre
E vê também os olhos teus de piedade
A pedir ao Pai que não nos abandone.

Amor, venha ver os pés de Jesus
Encravados no madeiro ensanguentado
Só por crer nessa vil humanidade
E vê também seu rosto desconfigurado
Pela visão torpe da nossa insanidade.

Oh, amor, venha ver o corpo de Jesus imaculado
Ser rendido à cruz...
E vê também sua cabeça por espinhos coroada
Em salvação ao nosso andar de atrocidades.

E não chores mais, amor,
Por ter passado uma noite apenas de saudades.
 
Sofrimento

Entra

 
Entre apenas se tiveres na mala
aquele amor que prometestes lá fora.
Não esse amor que juras agora
quando ainda estás sem ar, sem fala.

Entre, conheça a cozinha, a sala,
absorva-se em mim e se demora
no instante decorrer da hora
de um beijo ardente que o lábio cala.

Descubra em seus pertencimentos
o valor da nossa ausência juntada,
Em meio a tantos distanciamentos.

Jura-me que o pouco jamais importa.
Se além do amor não trouxeres nada,
Já valeu a pena eu ter-te aberto a porta.
 
Entra

Cartas

 
Entrego- te os meus versos agora,
Todos os versos que fiz por amor,
Desvalidos ,sem rimas e no torpor
D'Angústia da sua falta, minha senhora.

Para que os guardem, por anos, hora
Ou um segundo só, o que for.
E que deixeis contigo em calor
Para impedires que não vão embora.

Mas não façais com meus versos
O que fizestes com tudo que lhe dei antes,
Guarde-os contigo apenas,num canto.

São eles o fruto amargo e disperso
Da paga dos meus zelos infantes
Das horas dedicadas em que te amei tanto!
 
Cartas

Soneto número 2

 
Eis que pela minha boca te peço,
Quando compadecido não me cala,
Porque muito pode cessar-me a fala
Como também pode calar-me o verso.

Em sendo Tu Deus de todo universo
Onde nenhuma ventania O abala,
Sintas lá no etéreo céu o odor que exala
O meu choro tão profundo e disperso …

E vês que em nada ofende simplesmente
As minhas feias letras desnutridas …
De certo não fui eu quem criou o pranto …

Se em meu soluço puro e vagamente
Escrevo minhas dores tão sofridas,
Foi porque tiraste de mim o canto .
 
Soneto número 2

I.A. O reset

 
Um calor sufocante e interminável assolava a terra, era como se os vulcões todos se emergissem em erupções constantes e ininterruptas, pois os poucos raios solares que conseguiam romper as nuvens negras e espessas da atmosfera terrestre não eram suficientes para justificar tamanha quentura. O planeta tinha sido assolado pela devastação ambiental e climática e estava pagando um alto e terrível preço.
As cidades tornaram -se um amontoado de ruínas e o globo inteiro transfomado-se num deserto sem árvores. Apenas alguns ramos e detritos do que foram uma civilização em algum dia, existiam aqui e alí, fazendo da terra um ambiente hostil e pouco habitável. O termo primitivo não era o mais correto para o momento, mas se comparado ao auge da humanidade, era o mais próximo do que tínhamos nos tornado.
Eu e minha companheira morávamos numa espécie de gruta, no sopé de um planalto onde, segundo os registros antigos, teria sido a floresta amazônica brasileira há cerca de cinco mil anos. O que sobrou de nós tinha se adaptado ao clima hostil dos últimos séculos e vinha buscando evoluir-se sistematicamente na tentativa de erguer o planeta a um ponto que ele próprio pudesse se recuperar por si só, mas fazíamos isso inconscientemente, pois também nossa raça havia sido tomada pela degradação.
Não tinha informações de quantos indivíduos da nossa espécie existia no mundo ou se apenas essa área era habitada, não conseguimos nos movimentar por muito tempo devido ao calor intenso, mas agora precisávamos partir, a caça por aqui já raleava e os brotos e cogumelos já não nasciam com abundância . Era preciso realmente deixar aquele lugar.
Havia pouco o que levar,apenas um par de lanças, feitas com pedaços de ferros e metais antigos , alguns trapos e as gamelas onde armazenavámos água que brotava do solo quente e arenoso.
Nossos corpos sem nenhuma coloração e pelos tinha desenvolvido uma espécie de proteção semelhante ao couro de alguma espécie de peixe já há muito extinta. Utilizamos como vestimenta alguns trapos remanescentes da nossa antiga civilização.
Era raro um indivíduo que se expressasse com palavras, comunicávamos através de grunhidos e gestos, apenas alguns indivíduos, como eu já nasciam com o mecanismo da fala devolvido, eram poucos que conseguiam se comunicar verbalmente. Como chegamos a esse estágio eu descobri recentemente,no entanto o que me assustava era em que ponto estávamos, se ainda regredindo ou evoluindo,nós, os seres humanos e o planeta junto com os restos que ele carregava.

Certo dia, decidido a não voltar de mãos vazias para casa depois de uma longa semana de caminhada, continuei a caçada por além do que estava acostumado a ir. Eu já tinha demorado tempo demais fora e um dia a mais ou a menos não faria diferença caso encontrasse comida suficiente.
Caminhei por uma espécie de leito de um rio já extinto e segui por algumas horas vasculhando minuciosamente à procura de algumas pegadas de qualquer animal,ramos e folhagens ou que de comestíveis pudesse encontrar.
O meu sentido de localização impelia-me ao intuito de retornar para não me perder em meio aquele terreno arenoso, áspero e infértil. A ideia de voltar se expressava mais forte a cada passo dado para frente, quando uma pequena e longínqua ruína de alguma espécie de construção me alertou os sentidos.
Caminhei por cerca de uma hora em meio ao calor escaldante e cheguei por fim à base da construção. Era enorme, jamais tinha visto algo parecido ou imaginado estrutura assim. Demorei algum tempo até decidir entrar, provavelmente
alguma espécie de animal pudesse habitar o lugar, no entanto não haviam pegadas ao redor,mas o silêncio me trouxe mais medo que coragem.
Os degraus da escadaria da entrada estavam cobertos por uma espécie de vegetação rala e seca, da mesma espécie que cobria toda a região.
Subi a escada com uma espécie de mau pressentimento nunca me acometido antes. Eu tinha o estranho hábito de contar as coisas e eram dezesseis pequenos degraus com cerca de vinte centímetros cada pequeno patamar que compunha a escadaria. Cheguei no topo da escada , onde havia uma porta com cerca de três metros de altura.Experimentei a maçaneta, a porta estava trancada, mas não havia nenhuma espécie de fechadura ou orifício para a introdução de qualquer tipo de chave.
Era uma porta lisa, maciça , fabricada com um material extremamente denso e pesado. Vasculhei por todos lados, mas foi somente quando cheguei bem os olhos perto de sua superfície, senti uma luz rápida passar pelas minhas íris e a porta emitir um ruído de destravamento. Empurrei-a, agora confiante, e entrei. Eu tinha a péssima mania de contar as coisas, e os degraus que vi na escada que leva ao solo abaixo chegavam perto dos trezentos, embora a fraca luz que os iluminava pudessem me enganar.
Desci com desconfiança e os sentidos alertas, embora sentisse no meu íntimo que aquele lugar estava completamente vazio. Não havia pegadas, nem vestígios de nada. Nem sequer o vento entrara
ali. Trezentos e doze degraus e mais uma porta à minha frente. Idêntica à da entrada. Desta vez empurrei-a com suavidade, mas com as mãos firmes e ela abriu-se como se já estivesse esperando meu toque. Senti o corpo estremecer. Uma tela gigante pregada à parede expunha imagens de uma terra habitável e extremamente diferente de tudo o que conhecia. Rios povoados por peixes e diversos animais, florestas densas e coloridas, cidades imensas e pessoas bem cuidadas eram detalhes que eu jamais imaginaria ver algum dia.
De repente as imagens cessaram, a tela parecia ter percebido minha presença.
Se você chegou até aqui, possui cem por cento do córtex humano necessário e a humanidade já está pronta novamente.
Eu empalideci, jamais tinha ouvido um timbre perfeito por toda a minha vida a não ser o meu próprio e os sons que chamava de voz,dos meus contemporâneos. Foi quando automaticamente todas as luzes se acenderam no mesmo instante mostrando a dimensão da sala em que me encontrava. No centro havia uma mesa pequena com um par de cadeiras e nos outros quatro cantos uma porta em cada parede.
Novamente uma série de imagens no telão surgiu com o intuito de chamar-me a atenção. E pelo áudio do aparelho eu podia ouvir a narração das ascensões e destruições humanas, suas conquistas e derrotas.
E me falou do início da decadência, quando o ser humano, gradativamente deixou de utilizar as funções neurais do cérebro o atrofiando sistematicamente ao delegar funções e ações aos computadores e robôs .
O gene foxp2, responsável pela organização cerebral capaz de criar palavras, frases, textos e organizar a fala,teve seu código alterado por estagnação e falta de atividade, atingindo também o neocórtex, capaz de controlar nossos discernimentos e instintos. Morreram as artes, poesia , invenções e criações de toda sorte. O ser humano transformou-se num reles primata ,incapaz de comandar sua própria criação.
Eu ouvia aquela narração no mais absoluto dos silêncios enquanto observava os componentes daquela máquina apagarem e acenderem luzes. Havia uma espécie de teclado com uma série de inscrições inteligíveis para mim ligados a ela através de uns pequenos cabos e orifícios que se encaixavam perfeitamente.
Ela tinha uma espécie de malignidade ou percepção que antevia nossas atitudes. Eu já estava impaciente com aquelas informações e por um instante detive minha ânsia de quebrá-la toda em milhares de pedaços minúsculos. Não estava disposto a continuar ouvindo a tragédia que nos trouxe até aqui.
A terra precisa de um novo tipo de ser humano, senhor de si mesmo, continuou. E para que isso ocorra preciso que me delete imediatamente.
Não entendi aquela expressão, mas me pareceu algo como um ‘ acabar com a vida dela’. Eu estava ali para isso.
Concordei assentindo com a cabeça para cima e em seguida para baixo num movimento suave.
Então um sem número de caracteres começou a se movimentar rapidamente em seu visor por um tempo que eu não soube contar. Pouco depois a tela se restabeleceu e uma luz vermelha acendeu num dos botões do teclado e ficou estática nele.
Pronto, disse ela, você tem certeza que deseja excluir o programa? Se sim aperte a tecla delete.

Desfechei o mais intenso dos meus socos naquele teclado,fazendo com que estilhaços dos componentes dele se espalhassem por todo o recinto, sujando a sala e calando a máquina. E ficamos eu e o silêncio, mas por um instante apenas, pois em poucos segundos todas as portas daquela sala se abriram simultaneamente, apresentando-me vários corredores escuros. Todas
as luzes haviam se apagado e tudo ligado aquele equipamento pareceu desvencilhar-se dele.
A minha intuição fez-me primeiro recuar, mas a curiosidade impeliu-me para frente e prossegui por uma das aberturas.
Eram escadas que levavam ao subsolo mais profundo do que já me encontrava e neles contiam armazenadas em recipientes extremamente vedados toda espécie de sementes e em seus invólucros e nichos haviam gravados os mesmos tipos de caracteres que eu tinha visto na máquina, provavelmente aquilo fosse uma espécie de instrução, mas como iria descobrir aqueles dizeres só viria a saber anos mais tarde, pois eu tinha no meu subconsciente apenas uma espécie de correlação com números e formas geométricas, mas de letras e inscrições antigas eu não conhecia nada.
Havia muito a explorar naquela espécie de construção, que embora por fora parecesse em ruínas, por dentro se mantinha em ótima condições, pois suas paredes estavam perfeitas e protegidas por um material isolante térmico a livrar toda a construção do calor intenso.

Eu não podia deter-me mais por ali. Alguém me esperava lá fora e tinha de voltar e trazê-la para esse novo lar.
Cheguei em nossa moradia e Ella dormia . Não era um hábito comum, mas como me encontrara há muito tempo fora, não estranhei o fato . Aproximei-me lentamente e toquei-a no braço. Minha companheira abriu lentamente os olhos
numa preguiça que lhe era incomum. Assentiu com o dedo polegar nos lábios com a me pedir silêncio e com uma das mãos fez-me tocar o seu ventre. Como eu não percebera a barriga saliente que aquele instante pulsava ao sentir o meu toque?
Vamos, precisamos partir, encontrei um lugar melhor para nós e o nosso bebê, eu disse falando pausadamente para ser entendido. Ella assentiu com a cabeça e os ombros e caminhamos lentamente o percurso feito antes por mim.

Dez anos mais tarde o clima da terra já dava sinais de um pequeno resfriamento que parecia ser progressivo. Ella tinha dado à luz nossa primeira filha Ava pouco tempo depois de fazermos a mudança. Uma criança incrível, que tinha nascido
com o dom da fala. Nesse meio tempo, tentei por inúmeras vezes não desperdiçar as sementes dos cilos, mas nunca,uma sequer brotou na terra. Talvez não fosse o tempo ainda. Era preciso esperar mais tempo e somente a geração de Ava conseguisse plantar colher o fruto daquelas sementes.

Papai, chamou -me , com seus enormes olhos cor de mel. Descobri porque as sementes não germinam.
Eu a olhei, sem surpresa. Dela poderia esperar-se tudo.
É a falta de chuvas.
Aí eu me surpreendi. Como descobriste isso, criança?
Pelo meu computador.
E me mostrou uma pequena máquina escondida entre as mãos .
Ava - eu respirei fundo antes de prosseguir-. Não sei onde encontrou esse filhote de máquina, mas preciso que o destruam agora!
Não é possível, papai, sem ele não conseguiremos seguir adiante. O grande segredo, sussurrou no meu ouvido, é não deixar-nos dominar por ela.
Naquele instante eu olhei para o céu em busca de uma resposta divina, foi quando vi uma espécie de pássaro cruzar o horizonte bem distante e seguir para bem mais longe. E depois outros e outros.
Vamos, Ava , amanhã plantaremos mais sementes, quem sabe não germinam dessa vez.

Paulo Roberto Benedito, março de 2024








Era para ser um romance, mas o tempo está escasso...
 
I.A. O reset

Soneto número quatro

 
Grita o meu peito com a falta de abrigo
Que uma noite tão fria e escura oferece,
Minha casa antes feita em você , padece
Junto de todo amor que estava comigo.

Levas minha alma doce e guarda consigo
Nas tristes horas que a loucura entontece.
As juras tão castas rezadas em prece
Tornaram-se o meu mais terrível castigo…

Peço que ainda tenhas a nobre fineza
E devolve-me o amor que um dia lhe dei
Metade dele já somente bastava…

Vejo no infinito com clara certeza:
Não desperdicei os dias em que te amei,
Pois era a tua alma que a minha encontrava…
 
Soneto número quatro

Lamento

 
No meu choro
De recém nascido,
Antes de minha mãe
Tomar-me nos braços,
Eu tinha arremetido com medo
Junto com meu pranto
O meu primeiro poema concreto..
Ele é o grito
Da desesperança
Que eu já sabia em criança
Ter nessa vida.

E se não ouvem mais
Meu choro
Ou lamento
É que com o tempo
Perdi a voz,

Então somente
Escrevo o sofrimento!
 
Lamento

Soneto n 5

 
Exuma-se meu atabalhoado grito
Que estando pálido sufocado e morto
Foi comigo sepultado, a contra gosto
E calado em seu silêncio todo aflito…

Na caiada sepultura do infinito
Estendido sob um pálio aberto e absorto
Um epitáfio arranhado estranho,torto
Cravado em minha lápide e mal escrito.

Quando tiram desse túmulo esquecido
minha garganta silenciosa e fria
Saberão de que dores terei morrido.

Antes que tornem à tumba o veredicto
Abra-me o peito nesse penoso dia
E arranca-me o que de mim nunca foi dito!
 
Soneto n 5

Você

 
Quando você foi embora, eu tive que me livrar das coisas que me lembrassem, que me trouxessem você.
Então tirei os quadros do meu quarto, mas a imagem sua permanecia nas cores. Despintei as cores, mas a lembrança sua teimava em ficar no reboco sem vida das paredes.
E ainda existiam os móveis, a penteadeira, os perfumes, as cortinas... e você!
Arranquei a penteadeira, queimei a cama, joguei fora os perfumes. E tudo ficou vazio...
E no vazio de tudo, no vazio de mim, permanecia ainda você.
Arranquei as lembranças dos teus olhos, o gosto dos seus beijos, o cheiro do teu corpo, a cor do seu riso, e chorei, para jogar fora também as lembranças dos teus olhos... e sorri, para jogar fora também as lembranças dos risos dos seus lábios... e tudo ficou vazio.
E no vazio de tudo, no vazio de mim, permanecia ainda você.
Arranquei o vazio, arranquei meu peito, destitui meus passos, cortei meus pulsos, morri!!!
E tudo permaneceu ainda mais vazio...

E no vazio de tudo, no vazio de mim, incrivelmente permanecia ainda, você!
 
Você

Declaração de amor

 
Engana-se você, se ainda pensa
Que o meu amor por ti é puro!
Ele vem incrustado de desejos e juro:
São carnais! De formas suja e densa.

E se vires que que não lhe compensa
O meu amor dessa maneira, lhe asseguro
Que apesar da sujidade, ele não é de todo impuro,
E a parte limpa dele é também intensa.

Mas se vires que vale a pena esse meu amor comum,
Dá-me então o seu corpo e sua alma,
Porque um abraço apenas não me é suficiente.

Neste vasto mundo de milhares, que nos tornemos um,
Posto que apenas seu beijo não me acalma,
Se entrega em mim eternamente.
 
Declaração de amor

Robótica

 
Robótica.

Hospital das Clínicas – São Paulo – Janeiro de 2005

O talho foi preciso, duplamente, na ambiguidade dos sentidos que a palavra converge nas suas conotações verbal e subjetiva.
O bisturi desceu novamente com sua precisão de tato, de toque e de lugar. As carnes trespassadas ao meio, os tecidos em torno dela dilacerados, quentes, imaculados, separam-se com suas partes violadas. Onde surgiram os dizeres coloquiais de que o coração fica ao lado esquerdo do peito, aos leigos em medicina humana devem-se a culpa, mas de quê culpá-los se eles próprios não as têm como suas. Entretanto não vem ao caso agora, sentimentos,culpados não são quem culpas se julgam, mas quem as verdadeiramente sente.
Outro corte. Este mais profundo e não menos delicado que os outros golpes, reduzidos assim à forma delicada de talhos, pelas mãos seguras e ríspidas do Cirurgião, chamá-lo-emos por esse nome, Cirurgião, em respeito ao bem que pratica, não só nesse instante, mas por todo o correr de sua profissional existência.
O coração está lá, esbaforido, tenro, mas mudo,mas surdo, mas oco, no centro da caixa torácica a quem se denomina também peito, bem no centro, nem ao lado direito, menos muito ao lado esquerdo. Não pulsa por si só, melhor entender-se e corrigir, porquanto não descreveríamos este enfermo como paciente e este doutor como cirurgião, mas tais, cadáver e coveiro.
A máquina o impulsiona para frente e para trás, bombeando o sangue até aos pulmões que volta oxigenado ao coração para então ser distribuído através da válvula aórtica às vértebras, aos músculos ,aos tendões ,ao cérebro e ao restantante dos órgãos do corpo. Enquanto bombeia o sangue, grita em apitos miúdos e rápidos, seguidos de uns riscos que descem e sobem traduzidos a oscilamentos tenebrosos, luminosos e curtos no visor que é o olho do computador.
Visto que o mundo é feito por números, porque em tudo que no mundo há, seja matéria real ou lógica, o número se infiltra, decorrem-se as horas, posto que o embalo do tempo também é um número ou por ele é demarcado, representado por gráficos digitais ou analógicos, atualmente devido á reverberação hiperbólica da tecnologia, utilizados e mais vezes nítidos pelo primeiro.
Os dígitos no relógio de parede , no marcador dos pulsos, nas telas dos computadores marcam 20 horas, com variações distintas entre ambos de alguns segundos cronológicos, mas o tempo é igual em todas as circunstâncias, pode não sê-lo medido por igual, mas em real o é, mesmo que também por igual não o seja sentido.
Em tese que o número está interligado a tudo que é próprio da terra, haja visto que este mesmo mundo é 1 e daí, sucedem-se em leques inúmeras outras tantas comparações que um leitor mais intrigado e mais afoito na sua curiosidade poderá mesmo por si descobrir e criar, consta à volta dessa mesa de cirurgia um total de quatro pessoas que forma com o cirurgião chefe sua equipe. Em círculo, elas estão afoitas. O paciente mórbido nada vê, se o vê não exprime razão alguma por demonstrar ou deixar perceber-se que é dono daquela visagem, se não fúnebre, mas caótica de vida.
Há de subentender-se que uma pessoa de vistas serradas está na impossibilidade de ver, mais explicitamente de enxergar, ora pois, há uma sutil diferença entre esses dois verbos. Entretanto, num sub consciente que nem a natureza científica explica, porque não consegue desnudar, algumas teorias religiosas insiste nos casos de extremo entre morte e vida que a alma humana se desprende do corpo, se depara com sua cápsula carnal estendida a espera de alguma decisão divina. Se nesta situação está, ou já o esteve, nunca saberemos, porquanto não entramos em sua alma.
Mas o coração, este sim, o vemos, sentimo-lo, se o tocarmos. Neste momento a dúvida se perpassa entre alguns dos enfermeiros, se dispersará entre eles, vindo a se tornar inquietação noutros momentos para os demais , até para o cirurgião e para nós mesmos.
Este coração já cansado, esbaforido de bater, só pulsa porque é obrigado a obedecer a máquina, se não o fosse já há muito teria parado, será vítima de um transplante. Julga-se neste instante, mas poderá sido ter em outros a dúvida dos enfermeiros,Que sentimentos trará ao corpo essa novo órgão que se infiltra nele. Amará ele pessoas que não ama atualmente, reconhecerá seus filhos, se os tiverem, ou possivelmente sua esposa, sua enamorada, seu amor... É já sabido que os cientistas vivem de fatos, de provas, os médicos não são menos, mas que correlação com os sentimentos humanos eles atribuem-se ,se agem mais com a praticidade dos fatos que com os sentimentos relacionados a eles. Entrementes, julga-se, que antes de médicos, enfermeiros e cientistas, são seres humanos, somos dotados da inquietação desde que nos fizeram ou, fizemo-nos racionais.
O transplantado, o velho, o irremediado deixa sua caixa torácica morto, num reino que vivos não penetram, leva consigo tudo o que viu,o que sentiu , o que falou, ouviu e naturalmente pulsou. Está já perdido em suas lembranças e elas com ele. O novo órgão toma lugar naquele corpo estranho, com reações desconhecidas trazendo consigo uma gama de bagagem que terá de habituar-se a viver sem, outras que lhe será cabido adequar-se para que se cheguem a consenso com seus novos compatriotas de corpo e também de alma.
Ainda servirá para algumas análises clínicas antes de ser descartado, contudo sua condenação já há muito é sabido, por isso aqui enterre-mo-lo, deixemos-o de lado , como a um ente querido, tentaremos esquecê-lo, razão óbvia, que a vida é uma constante progressão de fatos e relatos que nos impulsiona para o próximo minuto.
Para este paciente a vida submergida retorna numa caixa acinzentada, trazida de uma câmara fria por dois enfermeiros. O recipiente é desproporcional em tamanho para o órgão que suporta, tem um aspecto frio, gélido. De suas bordas e corpo transcende um vapor branco, enfumaçado, como se ela se desfizesse em suores para suportar a vida que nela carrega, que nela se instala, porquanto esse mesmo coração sabe que não é nessa caixa que deve criar raízes, mas em outra, mais hóspita e aconchegadamente mais calorosa.
O numerário das horas se avança pela noite, os minutos são imensuráveis e incompreendidos porque cada segundo é tornado numa eternidade. Passa-me o bisturi, pede o cirurgião, Verifique os batimentos cardíacos, ordena a outro instante, Meça a temperatura do corpo, Reveja a pressão arterial... Uma relação de pormenores clínicos indispensáveis seguidos minunciosamente à risca.
As conseqüências de um transplante chega sobre alguns pontos em seu resultado improvável à responsabilidade de um milagre. A vida por si só é já considerada um. Retê-la no seu estado, encarcerá-la em seu apaziguamento ou deixá-la intacta é um feito extraordinário para o homem, que longe da plenitude de criar, sente-se ao mínimo no dever de mantê-la. A ilusão é imprópria, ou mesmo um caso de afinada demagogia e egoísmo profissional. A vida e o tanto quanto o que respire ou existe no mundo fatalmente não permanecerá para o sempre, mesmo este paciente parcialmente a salvo, terá seu dia de morrer, transcendendo essa condição, sem excetuar o Cirurgião, sua equipe e o próprio de cada ser existente em face da terra.
Mas vale, por hora, o retardamento da morte, o gozo da vida preservada, o prazer do reconhecimento pessoal, vencemos aquela horrenda face que nunca nos é mostrada.
O corpo humano equipara-se a uma máquina, com fios enredados, cabos, engrenagens, lubrificantes e tal e tais. Troquemos pois, a peça em disfunção, ajuste-mo-la, emendamos fios, peças, apertamos aqui, ali, pronto, mais alguns testes, volta a funcionar.
Não é, tomado desse ângulo técnico, um exagero de expressão essa tão fria equiparação. Aqui está, doutor, o coração, disse o enfermeiro da esquerda, mostrando a caixa, quando poderia exprimir, Aqui está, mecânico, a peça a ser trocada. Não o faz desta maneira por não lho ser cabível para o momento, nem para o cargos.
O Cirurgião soergue cuidadosamente aquela matéria viva que lhe enche as mãos e o ego, de maneira a satisfazê-los, ambos, as mãos e o peito de forma arguta, num poder unitário de regozijo, tornando-o deus num domínio sobre a vida com poderes promíscuos e restritos, mas um deus.
Retraído em si, o peito, na sua aflição desmedida recebe aquele objeto sem entender a desolação que é estar sem um pedaço próprio, que nasceu com ele, que pertence àquele corpo desde quando de sua formação ainda no seio de um útero tenro e protetor.
Em tanto quanto é difícil desfazer-se de um hábito há muito adquirido, é embaraçoso entender a ausência de um pedaço de si, mesmo substituído por outro de igual valor. Mas o destino do homem é acostumar-se às conseqüências. Habituamo-nos a tudo, sendo nas violências ou na paz, em sossego e desordem. Ao corpo não torna-se diferente, se nosso cérebro o instrui, o designa os atos.
Por hora,que esse peito grite, esperneie, chore, não há outra forma, o que está feito, está feito. O que lhe resta é conceder-se a indignação,que rebelar-se e entregar-se ao martírio, só dor lhe causará. Visto que o instinto humano, como já foi descrito, é acostumar-se às situações, muito breve o peito estará pulsando um coração que arde na ânsia desesperada pela vida.
O tempo rege a existência, implode os minutos, devassa os dias, avança com as semanas, mas se ele é o senhor da vida, é também a cura para os males que só nele é plausível esperar. Está parcialmente curado, o paciente, de coração novo, alguns dias e voltará para casa, descobrirá que a vida ganha um novo sentido quando encontramo-nos à vistas com a morte, o simples despertar pela manhã terá um sabor mais profundo, uma inesperada caminhada pela rua e saberá compreender a empáfia a que é comedida diariamente os outros seres humanos, ele, não, o paciente o foi, antes de adoecer-se, intransigente, egoísta, cruel, tal qual as outras pessoas comuns que vem e vão sem aperceber-se de si, sem medir os cálculos de suas intransigências. A dor da morte é uma boa razão para a cura de vícios comuns que acudimos todos os dias em nossos quartos. O paciente verá o mundo de outra forma, saberá reconhecer o valor que lhe é a vida e outras tantas ações simples do dia-a-dia.
Seu coração novo adaptou-se ao corpo com uma sutileza submissa, amou as pessoas que seu cérebro ordenara que o outro coração amasse, gostou dos hábitos que seu dono já adquirira, mas sobretudo não odiou os tantos outros pormenores que lhe foram um vício ou um empecilho antes do processo de transplante.
No entanto, para toda existência existe um fardo, que pesado ou leve, será carregado ao longo da vida e posteriormente cobrado conforme seus pesos e suas medidas. Em notas do que se tem dito ou escrito, a ciência médica não encontrou ainda um meio de reter, ou sobreviver-se à morte. As células que se multiplicam aos milhares quando jovens, desistem desse intento com o passar dos anos se voltando no sentido oposto, se desintegrando, morrendo também aos milhares, até o corpo inteiro sentir o efeito desta desintegração e desistir da vida. A morte é proeminente, principalmente dessas atitudes naturais do organismo, tornado, também evidente, que não se limita apenas a esses fatos a razão do desfalecimento de um ser humano, existem às centenas outras causas e motivos.

O paciente morreu. Decerto que alguns anos mais tarde. Ainda gozou de tempo para cuidar dos filhos, amar os netos e esposa. Teve tempo para observar inúmeros pôr de sol, estiagens de chuvas, de invernos e outonos, sofrer outras crises e doenças. Mas a não existência também é parte da vida. Uma não há sem a outra... , sendo a morte uma de suas conseqüências é natural que ela não se esqueça de nenhum de nós.

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Centro Integrado de Recuperação Humana- São Paulo – 600 anos depois.

De acordo com dados atualizados do Sistema Responsável pelo Desenvolvimento da Saúde Mundial, nos últimos 100 anos, 1 milhão e 200 mil fetos foram gerados com algum órgão interno mutilado ou foram portadores de certos tipos desconhecidos de anomalias. Desse número, um diferencial de 800 mil está grafado numa parte ainda mais grave da estatística. São natimortos, por não conseguirem desenvolver órgãos vitais como o coração ou os fígados e pulmãos.
O fado, a predestinação da evolução humana, ainda que não demonstrada abertamente é igualar-se a Deus, ou ser um, com iniciais minúsculas. As diversas tentativas para se chegar no que se transformou a medicina moderna, deixou em evidência esse intento. Os transplantes foram evoluindo, a ponto de sê-lo feito em quaisquer partes imagináveis do corpo humano.
A medicina atual só não tinha tato para esse problema. Os natimortos. Só não tinha tato, grifa-se bem. As últimas notícias davam conta da criação de órgãos vitais em laboratório. Corações, pulmões e fígados eletrônicos era testados em cobaias humanos já tidos como mortos.

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Os tecidos das carnes foram atingidos com uma rapidez invisível a olho nu. Um pequeno corte foi observado no centro do peito. O raio lazer atingira o tecido com a precisão desejada. As máquinas auxiliares, nos silêncios delas pareciam observar apenas, enquanto o médico cirurgião transpunha ao centro da caixa torácica uma infinidade de fios e pinos interligados aos órgãos humano.
Aqui está, doutor. Disse o enfermeiro. Ele trazia uma caixa metálica e brilhante, com selo e data de fabricação.
O cirurgião vislumbrou aquela maravilha eletrônica que iniciava a pulsar em suas mãos e se encheu de prazer e regozijo(...)
 
Robótica

Suplício

 
Ausculto em taciturno enleio teu louvor
que de silêncio vai em purezas ao céu
Pedires com temor duro,rude e cruel
A Deus que me entouteças ,te ames com fervor.

Rege o universo a sua lei superior,
se tu me relegaste a triste amargo fel
num casebre, barraco pobre ou mausoléu:
me sentirei mais rico apenas com amor.

Meus pavores, demências se desigualam
Sob a degradação que me é condenada
aos meus tristes olhos que nunca falam.

Arrependida,quer tirar-me pela mão
do lugar que me fez pequeno, quase um nada.
Mas lá foi que tornei forte meu coração.
 
Suplício

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