Poemas, frases e mensagens de ViriatoSamora

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de ViriatoSamora

Se tu, pena, falasses, que dirias

 
Se tu, pena, falasses, que dirias,
Se meu punho assim te não dominasse?
Buscarias à noite a luz dos dias,
Sem saberes se lhe rutila a face?

Fala, pena! Pinta literatura!
Faz-me o tal tudo, que sou tão pequeno,
Dá voz à minha cativa loucura,
Alenta à vida o meu morrer sereno.

Mas fala, pena! Que me definha a alma,
Este aperto do nada na garganta,
Que eu não sei se é bulício se é calma…

Pena… Amante do vício do verso,
Diz ao tédio que em mim se agiganta,
Que teus riscos são veias do universo.

09 de Abril de 1996
 
Se tu, pena, falasses, que dirias

Perguntaram-me o que queria ser

 
Perguntaram-me o que queria ser,
Quando fosse grande, talvez alguém,
No tempo em que era jovem minha mãe,
E a noite era um simples amanhecer.

Descaía ombros sem nada lhe dizer,
Lá sorria para parecer bem,
Sei que ficava intrigado, porém,
E afastava-me triste sem querer.

Soube anos já volvidos a resposta,
Foi-me enunciada e depois imposta,
Não tenho profissão, só vocação…

E nos mares que singro sem ver costa,
Decidido, mas sem orientação,
Canto coisas da alma e do coração.

03 de Julho de 2011
 
Perguntaram-me o que queria ser

Há um lugar além daquela serra

 
Há um lugar além daquela serra,
Onde se ouvem os gritos de rapina,
Das aves que sobrevoam a terra,
De corpo perfumado e alma divina.

Há, eu sei, um lugar para além de tudo;
Onde fica, meu deus, isso não sei,
Mas sei que de noite um barulho mudo
Cai sobre a terra que nunca deixei.

E nos penedos atentos ao mundo,
E ignorantes da passagem da idade,
Prostro-me olhando o horizonte profundo…

Com os olhos de amor, o vento inundo,
De lágrimas feridas de saudade,
Desse lugar de tão perto oriundo.

10 de Setembro de 1997
 
Há um lugar além daquela serra

Tenho em mim toda a tristeza do dia

 
Tenho em mim toda a tristeza do dia,
Como se todos os mortos lembrassem,
A culpa que carrego e me atrofia,
A mesma que não tenho, se pensassem.

Se uma palavra sou, melancolia,
Tão certa quanto os anos que passassem,
De agora até renascer a alegria,
Nos rostos tristes que se imaginassem.

Mais frias só as pedras sepulcrais,
Onde me sento, adormeço e repouso,
Entre as flores que tanto lhes dão gozo…

O que sou, sinto-o em versos que não ouso,
Cantarolas nos ouvidos mortais,
Imersos nas coisinhas triviais.

02 de Novembro de 2009
 
Tenho em mim toda a tristeza do dia

Só tens de verdadeiro o desengano

 
Só tens de verdadeiro o desengano,
Eis-me agora, eu que sempre te pensei,
Mas nunca te quis, nunca te abracei,
Inexorável causa do meu dano.

És tu, imenso muro de Adriano,
Construído com as dores que te dei,
Mais as que me provocas, que nem sei,
Quem me envolverá num último pano.

Já tantos enfermaste, outros levaste,
Estiveste nas fogueiras que ateaste,
Nos vis olhares de ponto-de-mira…

Assististe a cada alma que tombaste,
Não pode ser por ti que o mundo gira,
Meu pecado assim lembrado, minha ira.

27 de Agosto de 2010
 
Só tens de verdadeiro o desengano

Entardece em mais um ano em que fui

 
Entardece em mais um ano em que fui,
Ou não fui, não sei; talvez tenha sido.
Nem que seja um nada que se dilui,
O nada que aqui mesmo faz sentido.

Um ano a tantos outros mal cosido,
Despontando como um fim que se intui,
Um ano sem ter tempo, foragido,
Fugitivo do meu tempo que rui.

Escurecido amanheceu Janeiro,
Fazem-se apostas, o sol romperá?
Assim se fala entre o café e o chá…

Não se vende o astro-rei por vil dinheiro,
Porque no instante único e derradeiro,
A mais sombria luz triunfará.

28 de Dezembro de 2010
 
Entardece em mais um ano em que fui

À luz da candeia sou um sonhar,

 
À luz da candeia sou um sonhar,
Lesta a pena de que ora sou senhor,
Donde escorre este meu sangue sem dor,
Este desejo de alguém me escutar.

O meu querer ninguém pode imitar,
Existe pintado numa só cor,
Num quadro belo a que chamam amor,
Na arte de embalar a sereia o mar.

O meu dizer perpassa a liberdade,
Quando beija este peito adormecido,
Um rasgar da sombra pela claridade…

O meu viver é um temor sumido,
Que tragando o tempo em perene idade,
Só teu rosto vê no céu esculpido.

30 de Abril de 1995
 
À luz da candeia sou um sonhar,

Contigo acordei na noite pousada

 
Contigo acordei na noite pousada,
Os teus cabelos, tocando-me o rosto,
Desenhavam o abstracto na almofada,
Em raios de sol ao luar de Agosto.

Ouvia-se o silêncio e mais nada,
Beijei-te sem te conhecer o gosto,
Nem cor, nem cheiro nessa madrugada,
Inclinada ao peso do teu encosto.

Sem te possuir, senti-me possuído
Por todos os demónios de ti,
Feras ávidas de que eu não fugi.

Daquela luta exorcista sem ruído,
De descrença no meu acto benzido,
Guardo a memória que aqui escrevi.

10 de Março de 2010
 
Contigo acordei na noite pousada

Pouca luz vela o dia moribundo

 
Pouca luz vela o dia moribundo,
Ainda lampeja o archote ocidental,
Incendeia o céu, fá-lo rubicundo,
O seu calor de fim faz-me imortal.

Em mim mergulha mais do que profundo,
Absorto no ocaso transcendental,
O meu mundo é maior do que este mundo,
Não sei do tempo. Já dois mil e tal?

Sou mais quanto menos houver azul,
A minha espada está no último raio,
Ou na primeira estrela que piscar…

Como as andorinhas aponto ao sul,
Que bem elas vestem o luto em Maio!
Até ao meu regresso! Se eu voltar.

11 de Maio de 2011
 
Pouca luz vela o dia moribundo

Tragando a dor no cálice dum verso

 
Tragando a dor no cálice dum verso,
Lá enxerga o poeta dentre os mortais,
Esse inimigo das coisas banais,
Vivendo em si tudo e o seu inverso.

Como as rugas nos risos dos arrais,
Canta-se a alegria no seu reverso,
Com um lugar cativo no universo,
Para voraz repasto dos chacais.

Quando assim não o chamam, é o louco
Que vem à boca das gentes ingratas,
Também elas da cova candidatas…

Esse pulsar da ida as torna sensatas,
E são já pobres almas num sufoco,
Pedindo-lhe perdão num grito rouco.

21 de Junho de 2009
 
Tragando a dor no cálice dum verso

Na cabeceira o copo de cicuta

 
Na cabeceira o copo de cicuta,
Encimado aquele rosto de Cristo,
Triste por sempre ver o mundo visto,
Prisioneiro comigo na gruta.

Na cama de dossel onde desisto,
Do teu corpo de virgem e de puta,
Tomo o socrático néctar sem luta,
No abraço do fim a que não resisto.

Revejo-me no limbo sem barqueiro,
Sem corpo, sem alma, sem a saudade,
Sozinho com o meu esquecimento…

Ir-se é só um despertar violento,
Conta-me o tempo que me persuade,
Ao repouso de rendido guerreiro.

14 de Junho de 2009
 
Na cabeceira o copo de cicuta

Da folha dum poema faço um sudário

 
Da folha dum poema faço um sudário,
Já tive berço e lar e promontório,
Na certeza de nenhum verso inglório,
Detenho o mundo real e imaginário.

Fui aos infernos, subi ao calvário,
Rebusquei-me e deixei-me ser simplório,
O bom soube sempre que era ilusório,
Se acharem fácil, leiam-me ao contrário.

Musa da escrita bela, quando vens?
Vislumbro papéis nas bocas dos cães,
Não tardes mais, que é tarde e o breu expia…

O meu riso é pranto de pobre mães,
Que embalam filhos doentes noite e dia,
Na solidão da tua companhia.

13 de Maio de 2011
 
Da folha dum poema faço um sudário

Agora que o silêncio impera

 
Agora que o silêncio impera,
Magnânimo, absoluto e sepulcral,
Senhor do tempo, do bem e do mal,
Dos proscritos, de quem se desespera…

Prenhe de ódio, o amor fez-se fera,
Ferido, mas resistente e brutal,
Mais forte que qualquer outro animal,
Sobrevive como mito à sua era.

Silêncio, tu que és todos os sons,
Escuta-te e a mim nesta boa hora,
Que é de dor vinda de dentro para fora…

És meu confidente pela vida fora,
És ritmo e compasso e todos os tons,
Só não és deus, mas tomaste-lhe os dons.

21 de Fevereiro de 2006
 
Agora que o silêncio impera

Dêem-me uma palavra e levanto o mundo

 
Dêem-me uma palavra e levanto o mundo,
O meu, o vosso, mesmo o universal,
Maior do que o do rei João, o segundo,
É tua a rima, Fernando, sem mal.

A tese é grega, a demanda é do Graal,
Tu és pedra e a tua igreja inundo,
De ex-votos sem pedra filosofal,
Dos meus versos ao teu olhar profundo.

Só uma palavra tem tanta força,
Não sou Sertório, nem tenho corça,
Menos bruxo ou beato e mão pouco pia…

Aqui livre e sem lápis que me torça,
Digo-te, ó Atlas, quase em afonia:
A alavanca do mundo é a poesia!

07 de Julho de 2010
 
Dêem-me uma palavra e levanto o mundo

Acordou aos gritos o povoado

 
Acordou aos gritos o povoado,
O doido, espojando-se pelas ruas,
Vomitava raios em frases cruas,
Dizia que era o filho muito amado.

De todos os cantos injuriado,
Prometeram-lhe açoites com mãos nuas;
Como certo é não haver três sem duas,
Num ápice ao luar viu-se cercado.

Velhos, novos, fanfarrões da pedrada,
Rameiras justiceiras sem memória,
A voz do povo esquecida dos seus…

Quando duma varanda debruçada,
A menina doente aguardando a glória,
Sorriu ao louco e ao povo disse adeus.

03 de Junho de 2010
 
Acordou aos gritos o povoado

O luto por quem vive é tormentoso

 
O luto por quem vive é tormentoso,
Não tem exéquias nem orações,
Não tem missas, rituais, libações,
Nem campas para último repouso.

Sem corpo à morte dado nos caixões,
É espectro em cada beco, temeroso,
Molda-se em cada rosto, audacioso,
Num panteísmo sem fuga às abstracções.

A cada dia um ordálio vem,
E a voz que se ouve para se ir além,
Em busca do que não há, mas existe…

O nojo vive-se em vida de alguém,
Ainda que já decesso ao olhar triste,
Pesar que em vida na morte persiste.

05 de Fevereiro de 2026
 
O luto por quem vive é tormentoso

A saudade que eu canto é desencanto

 
A saudade que eu canto é desencanto,
Vive comigo entalada no peito
Escancarado à alegria do pranto,
Mais do que feitio, sendo defeito.

Não passa a vida além dum entretanto,
Deserta margem dum rio sem leito,
Um querer que se quer sem saber quanto
Vale mais; se a causa, se o seu efeito…

Mas como pode a vida assim causar
Tamanha perda feita sentimento,
Incurável por qualquer sacramento?

Sabem os sábios que num momento
Pode-se viver mais que num milhar,
Basta o amor se erguer e nos cegar.

15 de Agosto de 2009
 
A saudade que eu canto é desencanto

No meu peito fendido com um raio

 
No meu peito fendido com um raio,
A luz do último instante alvoraçado,
Brilhou um brilho débil, apagado,
Velando o meu derradeiro desmaio.

Ainda vivo ou talvez ressuscitado,
Porta aberta sem saber se entro ou saio,
Caí no mundo, neste mundo onde caio,
No chão sepultado, no chão pisado.

O meu amor é fonte que não jorra,
A vida perde-se sem ter desforra,
O tempo é só uma palavra: inclemente.

E eu sou nesta página que se borra,
Cantarei no silêncio da gente,
Erguido dos mortos, como um valente.

14 de Dezembro de 2010
 
No meu peito fendido com um raio

O coração é um punho fechado

 
O coração é um punho fechado,
Encerrado à razão e ao pensamento,
O pendão hirto que golpeia o vento,
Cuspindo ódio para todo o lado.

Tem lá dentro o nada ou o sofrimento,
Sendo forte não pode ser quebrado,
Às batalhas vai sempre desarmado,
Nunca virá a ser justo nem isento.

Se ao mundo puder deixar uma marca,
Seja leve, para que ambos carreguem
O peito que sobre si se fechou…

Depois com cuidado metam-no na arca,
E se o virem ressuscitado, neguem;
É feliz, deixem-no ir, pois que já amou.

15 de Junho de 2011
 
O coração é um punho fechado

O silêncio é o primeiro a cair

 
O silêncio é o primeiro a cair,
O eco do nada galga em som crescendo,
Esgota-se em mim, nada mais havendo,
E esgota-me no seu não existir.

A mudez da noite num grito horrendo,
O dia não nasce, não há-de vir,
Os bichos que se unem num só ganir,
Morro-me vivo neste meu morrendo.

Nem o ar respirado e puro se vê,
Todos as coisas passam, se ultrapassam,
Qualquer sentimento se perde à toa…

A saudade dá-me os braços em T,
Duas lanças que afagam e trespassam,
O sonho que aqui fica e já não voa.

04 de Dezembro de 2010
 
O silêncio é o primeiro a cair

Viriato Samora

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