Na cabeceira o copo de cicuta
Na cabeceira o copo de cicuta,
Encimado aquele rosto de Cristo,
Triste por sempre ver o mundo visto,
Prisioneiro comigo na gruta.
Na cama de dossel onde desisto,
Do teu corpo de virgem e de puta,
Tomo o socrático néctar sem luta,
No abraço do fim a que não resisto.
Revejo-me no limbo sem barqueiro,
Sem corpo, sem alma, sem a saudade,
Sozinho com o meu esquecimento…
Ir-se é só um despertar violento,
Conta-me o tempo que me persuade,
Ao repouso de rendido guerreiro.
14 de Junho de 2009
Da folha dum poema faço um sudário
Da folha dum poema faço um sudário,
Já tive berço e lar e promontório,
Na certeza de nenhum verso inglório,
Detenho o mundo real e imaginário.
Fui aos infernos, subi ao calvário,
Rebusquei-me e deixei-me ser simplório,
O bom soube sempre que era ilusório,
Se acharem fácil, leiam-me ao contrário.
Musa da escrita bela, quando vens?
Vislumbro papéis nas bocas dos cães,
Não tardes mais, que é tarde e o breu expia…
O meu riso é pranto de pobre mães,
Que embalam filhos doentes noite e dia,
Na solidão da tua companhia.
13 de Maio de 2011
Agora que o silêncio impera
Agora que o silêncio impera,
Magnânimo, absoluto e sepulcral,
Senhor do tempo, do bem e do mal,
Dos proscritos, de quem se desespera…
Prenhe de ódio, o amor fez-se fera,
Ferido, mas resistente e brutal,
Mais forte que qualquer outro animal,
Sobrevive como mito à sua era.
Silêncio, tu que és todos os sons,
Escuta-te e a mim nesta boa hora,
Que é de dor vinda de dentro para fora…
És meu confidente pela vida fora,
És ritmo e compasso e todos os tons,
Só não és deus, mas tomaste-lhe os dons.
21 de Fevereiro de 2006
Dêem-me uma palavra e levanto o mundo
Dêem-me uma palavra e levanto o mundo,
O meu, o vosso, mesmo o universal,
Maior do que o do rei João, o segundo,
É tua a rima, Fernando, sem mal.
A tese é grega, a demanda é do Graal,
Tu és pedra e a tua igreja inundo,
De ex-votos sem pedra filosofal,
Dos meus versos ao teu olhar profundo.
Só uma palavra tem tanta força,
Não sou Sertório, nem tenho corça,
Menos bruxo ou beato e mão pouco pia…
Aqui livre e sem lápis que me torça,
Digo-te, ó Atlas, quase em afonia:
A alavanca do mundo é a poesia!
07 de Julho de 2010
Acordou aos gritos o povoado
Acordou aos gritos o povoado,
O doido, espojando-se pelas ruas,
Vomitava raios em frases cruas,
Dizia que era o filho muito amado.
De todos os cantos injuriado,
Prometeram-lhe açoites com mãos nuas;
Como certo é não haver três sem duas,
Num ápice ao luar viu-se cercado.
Velhos, novos, fanfarrões da pedrada,
Rameiras justiceiras sem memória,
A voz do povo esquecida dos seus…
Quando duma varanda debruçada,
A menina doente aguardando a glória,
Sorriu ao louco e ao povo disse adeus.
03 de Junho de 2010
O luto por quem vive é tormentoso
O luto por quem vive é tormentoso,
Não tem exéquias nem orações,
Não tem missas, rituais, libações,
Nem campas para último repouso.
Sem corpo à morte dado nos caixões,
É espectro em cada beco, temeroso,
Molda-se em cada rosto, audacioso,
Num panteísmo sem fuga às abstracções.
A cada dia um ordálio vem,
E a voz que se ouve para se ir além,
Em busca do que não há, mas existe…
O nojo vive-se em vida de alguém,
Ainda que já decesso ao olhar triste,
Pesar que em vida na morte persiste.
05 de Fevereiro de 2026
A saudade que eu canto é desencanto
A saudade que eu canto é desencanto,
Vive comigo entalada no peito
Escancarado à alegria do pranto,
Mais do que feitio, sendo defeito.
Não passa a vida além dum entretanto,
Deserta margem dum rio sem leito,
Um querer que se quer sem saber quanto
Vale mais; se a causa, se o seu efeito…
Mas como pode a vida assim causar
Tamanha perda feita sentimento,
Incurável por qualquer sacramento?
Sabem os sábios que num momento
Pode-se viver mais que num milhar,
Basta o amor se erguer e nos cegar.
15 de Agosto de 2009
No meu peito fendido com um raio
No meu peito fendido com um raio,
A luz do último instante alvoraçado,
Brilhou um brilho débil, apagado,
Velando o meu derradeiro desmaio.
Ainda vivo ou talvez ressuscitado,
Porta aberta sem saber se entro ou saio,
Caí no mundo, neste mundo onde caio,
No chão sepultado, no chão pisado.
O meu amor é fonte que não jorra,
A vida perde-se sem ter desforra,
O tempo é só uma palavra: inclemente.
E eu sou nesta página que se borra,
Cantarei no silêncio da gente,
Erguido dos mortos, como um valente.
14 de Dezembro de 2010
O coração é um punho fechado
O coração é um punho fechado,
Encerrado à razão e ao pensamento,
O pendão hirto que golpeia o vento,
Cuspindo ódio para todo o lado.
Tem lá dentro o nada ou o sofrimento,
Sendo forte não pode ser quebrado,
Às batalhas vai sempre desarmado,
Nunca virá a ser justo nem isento.
Se ao mundo puder deixar uma marca,
Seja leve, para que ambos carreguem
O peito que sobre si se fechou…
Depois com cuidado metam-no na arca,
E se o virem ressuscitado, neguem;
É feliz, deixem-no ir, pois que já amou.
15 de Junho de 2011
O silêncio é o primeiro a cair
O silêncio é o primeiro a cair,
O eco do nada galga em som crescendo,
Esgota-se em mim, nada mais havendo,
E esgota-me no seu não existir.
A mudez da noite num grito horrendo,
O dia não nasce, não há-de vir,
Os bichos que se unem num só ganir,
Morro-me vivo neste meu morrendo.
Nem o ar respirado e puro se vê,
Todos as coisas passam, se ultrapassam,
Qualquer sentimento se perde à toa…
A saudade dá-me os braços em T,
Duas lanças que afagam e trespassam,
O sonho que aqui fica e já não voa.
04 de Dezembro de 2010