
RETROSPECTIVA
Data 03/05/2010 21:29:22 | Tópico: Poemas -> Introspecção
| RETROSPECTIVA
Viro-me para o espelho do passado Como alguém que procura uma definição Na imagem reflectida na penumbra. Perco-me entre as sombras do que foi uma vida Que me insulta de tanto tédio!
Tento discernir os limites ocasionais de um sonho Que pretendo tão real quanto a ambição De transformar o nevoeiro em rochedo.
A realidade esmorece no brilho de um projecto Que arregaça as mangas na fantasia Revela-se na cozinha dos meus sentidos É a alquimia da vontade!
O ocaso do presente à força de repetição Conclui que lhe pertenço de corpo e alma Sem que entenda porquê…
Empurro as emperradas portas de aço Que se arrastam pelo chão do meu sangue Com um ruído estridente e aterrador! Sinto-as sulcar a areia do meu cérebro Impiedosas! Flageladoras! Prenderem-se nas pedras da minha vontade… Teimam manterem-se trancadas!
São as portas do desejo… Podiam ser do céu… As portas por onde terão de passar os meus passos Reciclados na urgência de uma luz que tarda E sem que possa olhar para trás Nem escutar o chamamento de uma voz Enchem-me de punhaladas e defeitos Por cada hora acrescentada a mim!
Eu sei Que a dor rasgará o peito de serena paixão Fará doer a alma Como uma coroa de espinhos a enfeitar a aflição!
Eu sei Da culpa por tudo quanto devia ter dito e calei Apenas porque o mundo me ensinou a revolver no silêncio O obsceno ultraje de ser quem sou Resignando-me ao pouco que recebo Em troca pelo que dou!
Agora Resta-me distribuir pedaços de desculpas Baixar os olhos à alegria complacente Amarrotar o ego às vergastadas do ódio… No cúmulo da chantagem A humilhação de uma aflição total Como se uma Hiroshima sem valores Explodisse numa “Enola Gay” de sabedoria E eu não fosse mais que o cogumelo Resultante da anarquia dos átomos em choque!
Sei Reconheço em todos os crucifixos os meus pregos! Em todas as fogueiras as minhas achas! No carvão o filtro da condenação!
Sei Um pedaço volátil de coisa nenhuma Representará a dignidade ou o que sobrar dela Quando todos os hemisférios representarem a tese De uma plateia patenteada de insultos!
Não quero nada disto…!
Quero apenas uma janela aberta aos plátanos Uma pincelada de luminosidade nos lagos Um céu imenso para voar… Uma viagem intemporal pelo espaço Ou um espaço para repousar…
Não me queixo… Não lamento… Recuso tão-somente o sofrimento de que sou carrasco Quando quero apenas um sorriso em flor…! Porque não é diferente o mundo?! Porque me força o amor a vandalizar O altar-mor da felicidade quando só quero paz!? Que embaciada luz…! Que golpe atenua a culpa Fazendo-me lamentá-la ao invés de o lamentar? Que erro forja horrores na minha tranquilidade?!
Quero ver um sorriso à minha partida! Um naco de sol no meu caminho! Uma mola de esperança no meu estendal – Porque ela é um trevo escondido Numa floresta de vida e cor! Abram alas as nuvens que me cegam! Dissipe-se a névoa que me oculta! Queime a trovoada os silêncios do meu canto! Não quero um xisto de lágrimas! Não quero uma gota de sangue de insultos!
Compreendam… Sou aquela andorinha A quem cortaram as asas E sem desistir de querer voar Nunca castraram!
Abram-se as janelas! Libertem os parapeitos! O meu ninho são todas as árvores!
Quero seguir a rota do sol! O mesmo caminho que as tempestades de areia ocultam Quando as sombras são nuvens de mentiras E a verdade uma semente de cristais e pérolas! Já deixei a vertigem no cimo duma torre! Já não vergo ao peso dos temores! Agora procuro por entre as varandas um poleiro Sobrenatural e distante Onde possa adormecer o coração errante, Pôr a mesa farta de antigos ultrajes, Vestir-me de panteras pelos lodos da intolerância!
Teve de ser assim! Este semblante farto de jubas e vigílias É o resultado de tudo quanto fui! A hora de hoje afastou-me a tempo da obscenidade De temer ser tão fútil quanto a futilidade Das lágrimas retidas dentro de armários De noite trajados! É esta a chave!
Vislumbro ao longe um olhar vazio Parte integrante de um fantástico sonho Intendente na casa da verdade. Como cego sigo-o… Como cego vou… Como cego sirvo-me do cão guia Que pela trela me conduz através da fantasia E faz disparar de emoção o coração.
Quero viajar eternamente nas asas desse sonho!
Que posso fazer? A vontade é aleatória como a consciência E eu nem invento pazes… Apenas debito à vontade o grito de ir… De ir…. Apenas ir!
Amarroto os lençóis da noite à espera de uma voz De um canto Rouxinol suspenso no delírio de ti… Porque tu existes! Porque a tua carne e sangue e alma São tudo o que se acrescenta ao meu sonho Como parte dinâmica da minha força! QUERO O SOL! Esse sol mesclado de iras e sorrisos e esperas! Esse sol inflamado que arde nas veias E é fogo E é inferno Algo que nos enche de desejo e paixão! É amor!
Que sei eu?! Num momento… Em todos os momentos A ribalta da alma exulta um gemido de prazer Um sorriso tímido Na oculta face de um prisioneiro libertado! SÓ QUERO AMAR! Agora que as algemas se quebraram Posso subir às colinas dos homens E voar… Voar… Voar…
Oiço os disparos dos rifles do mundo… Abriu a época da caça… As miras perscrutam o espaço… Só quero voar… Voar… Voar…
Aspiro o perfume dos limites do céu! O mar espelhado no limbo das folhas! A loucura de ser o pássaro sem asas Que destemido se lançou de todos os abismos E cantando voa… Sorrindo voa… Pelo cerne dos mais hábeis instantes!
Por baixo estende-se uma seara de rubis Reflectida no espelho dos lagos Que vibram com a ardente cor da paixão Num manancial de odores e lábios! Um paraíso emerge no cimo de um monte Vestido de branca tolerância e paz! Vibra pelo ar o esvoaçar de um insecto… Uma joaninha confidência à formiga Que apenas quer ser feliz…
Sou o convexo dos espelhos! Concavo das vontades Que querem ser tão livres quanto eu! Todo o meu corpo se abre Num paraíso de estrelas Onde apenas sei voar… Voar… Voar…
antóniocasado
29 Abril 2010
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