FRAGMENTOS

Data 03/12/2007 22:18:48 | Tópico: Prosas Poéticas

Não sei se já acordei.
Escondo-me do olhar do espelho que me assusta. Não me reflecte para além do escuro que me habita frequentemente. E se o olho, também, envelheço nessa imagem que se me apresenta. Os dias pesam ao canto dos olhos e o sorriso dos mesmos desliza, sinuosamente, como máscara estranha que cai, perante um acto terminado. O palco dos sonhos fica para outra história, onde as personagens sejam outras que não eu. Em que a outra face dada não seja a minha e em que os pés que caminham sobre as águas não sejam estes que se arrastam pelos pântanos. Para além de que estas águas são frias. Profundas. Traiçoeiras. Desdenhosas.
Trago da noite o sussurrar lento de mil asas de anjos perdidos que passam, apenas, por mim, numa auto-estrada até ao Inferno. Tentam resgatar aquela imagem que não sabe se já acordou. Estátua de sal ou mulher que olha para trás: a sua dura e eterna prova será nunca confiar em si mesma.
E se estava escuro, mesmo assim, o espelho procurava-a. Oferecendo-lhe a mão que apenas era sua, sem presentes nem passado, sem lugar onde se recolher. Os seus lábios, frios, soletravam, sem voz, o que eu escutava dentro de mim. Traçavam desenhos de sentido nas paredes embaciadas da minha mente.
Deixei os seus dedos tocarem-me. Aniquilarem-me, sem nexo, porque sentia, também, a sua extrema doçura.
- A morte sabe tão bem…também…

- Tu sabes melhor do que eu…vive-la todos os dias. Deixa-me tocar-te. Para além desta pele, destes dedos, destes ossos. Para além do que possas sentir. Deixa-me adormecer a tua dor, suavizar a tua alma. Tomar-te como a sombra do meu corpo, sendo o meu próprio corpo. Anestesiar-te com a indiferença.

- Serei, somente, o que restar de mim mesma?

- Não serás menos do que restas agora.
Tirei-lhe a mão, suavemente, da minha mente e não aceitei. Não por medo. Apenas por qualquer coisa. A apatia que me corre nas veias bombeia-me em estados sucessivos de indecisão e de projectos adiados. Encosto a face ao espelho e com a outra mão faço estilhaços imunes à dor de qualquer dia ensolarado. Mil estrelas de vidro e de gelo baptizam-me como lágrimas desmanchadas. Rastos brilhantes tatuando a pele a gelo ácido. A aranha que corre, atrás da perda, costurando as feridas com fios de esperança, não vence a letargia sonâmbula que cicatriza ainda mais profundamente.
Fogem fantasmas de mim mesma por entre as novas feridas e poros dementes e, de facto, quando arrisco um novo olhar ao espelho…já nem ele me olha: não resta nada.

- Acorda…acorda…

Agora sei que acordei.

(http://teiadeariana.blogspot.com)


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