Os Doze Escudeiros do Apocalipse

Data 11/07/2013 17:48:15 | Tópico: Contos

Estamos no ano de 2666.
O Planeta Terra passa por momentos difíceis e sombrios.
A população dos continentes procurou as regiões centrais para morar, porque, com o descongelamento dos Polos, os oceanos invadiram todas as cidades costeiras.
Portos e ilhas não existem mais e alguns desertos foram invadidos pelo oceano.
O clima está fora de controle e os desastres naturais matam muitas pessoas em todos os lugares.
O stress toma conta da saúde das pessoas, a comida e água estão escassas, a violência deu o seu lugar em troca da solidariedade e sobrevivência.
Não há mais classes sociais. Todos nivelaram seus ganhos de acordo com a necessidade de todos, porque os governantes se uniram para salvar as terras do Planeta.
Por outro lado, há mais mortes por doenças do que nascimentos.
Então, os cientistas inventaram uma pílula chamada Nasciturus com o DNA de humanos. Ela pode ser tomada por homem ou mulher que desejam ter filhos.
Quando a pílula é tomada, ela se instala no estômago e com o calor do corpo, o bebê está pronto para nascer em nove horas através de uma cirurgia.
No prazo de uma semana os filhos já estão adultos e podem ajudar os pais, trabalhando.
Estas pílulas ficam armazenadas nas Máquinas de Sêmen Humano, encontradas nos hipermercados de todas as cidades, basta escolher o perfil do filho no teclado da máquina e comprar a ficha Nasciturus .
Muitos filhos já nasceram desta forma, porque é mais rápido e logo estão adultos.
Mas, para comprar a pílula, a impressão digital da pessoa não pode conter nenhum impedimento com a Justiça.
Caso seja detectado algo, um alarme é acionado e a pessoa tem que pagar uma multa ou será julgada e mandada para um dos navios de presos, longe dos continentes.
Não há mais presídios nos continentes por falta de espaço terrestre, todos os presos são julgados e ficam nos navios em containers, celas em alto mar.
O maior problema são os seres alienígenas invisíveis que estão colocando pílulas de seres alienígenas no meio das pílulas normais, causando nascimentos de monstros alienígenas por todo o Planeta Terra, com a intenção de dominar os terráqueos.
Diante disto, surgiu a Sociedade Secreta Directus, formada por doze escudeiros do Apocalipse.
São homens e mulheres representantes dos signos da humanidade e possuem um canal de comunicação entre si, através de um chip implantado atrás da orelha direita. Eles foram escolhidos através de testes secretos para encontrarem os alienígenas invisíveis e extingui-los.
Mas, para serem iniciados, eles precisam fazer um sacrifício pelo bem da humanidade: amputar o antebraço e a mão esquerda.
Porque quando em ação, eles utilizam um antebraço e mão cibernéticos no lado esquerdo, acoplados a um escudo que os deixam invisíveis.
Este escudo também permite que eles se teletransportem para onde houver sinais sensoriais de alienígenas.
Os doze escudeiros do Apocalipse caçam alienígenas por todo o Planeta.
Ninguém sabe onde eles se reúnem, onde eles estão ou vivem.
O único boato conhecido pela população é o seguinte: quando um deles morre, eles se reúnem em algum local secreto e outro escudeiro entra em seu lugar, trazendo na bandeja sua mão esquerda.

Um chamado pelo chip é transmitido aos escudeiros:
- Atenção todos! Sinais sensoriais de alienígenas na Latitude -15° 46' 47'' e Longitude -47° 55' 47'', teletransportem em 10 segundos.






*Este conto foi escolhido para o "Livro de Ouro do Conto Brasileiro Contemporâneo" - Edição Especial 2013 - CBJE - Rio de Janeiro - Lançamento em 20/09/2013.

*Este conto foi escolhido como um dos melhores contos de 2013 pelo Primeiro Colegiado de Escritores Brasileiros "Lima Barreto" do Rio de Janeiro. Ele está incluido no Panorama Literário Brasileiro de 2013

ÚLTIMO CAPÍTULO

No amplo salão, onde uma mesa para doze estava requintadamente composta, ouvia-se o burburinho das vozes, em respeitosa moderação de timbres. Uma breve gargalhada soou, algures, e todos os olhares se voltaram para a origem dela, com uma estranha atitude de quase consternação e ofensa: fez-se um silêncio pequeno, e, logo depois, as conversas e os rostos voltaram ao tom grave, quase austero, que a ocasião impunha.
Alguém deu voz à ordem de sentar – o jantar ia ser servido. Havia doze lugares à mesa, mas só onze convidados na sala – sete homens e quatro mulheres, todos de idades a rondar a meia vida. O anfitrião, como sempre acontecia naquelas reuniões, serviria a refeição, e só se sentaria no seu lugar, ao topo da grande mesa, quando entrasse com o manjar e o servisse a todos, um por um.

O candeeiro enorme, suspenso sobre a mesa dos onze convivas, pareceu oscilar levemente, concedendo aos cristais que lhe adoçavam a luz, refulgências de curiosidade e espanto. Todos se voltaram para a porta, estranhamente sentindo uma aragem fria, reminiscências de brisa marítima, um gosto quase salgado-seco na boca...

O décimo segundo conviva, erguendo na mão direita uma enorme bandeja, trazia o braço esquerdo enfaixado e seguro ao peito. Uma mancha de sangue vermelho vivo trespassava as gazes brancas, deixando perceber que o acidente fora recente. Mesmo assim, sorria, triunfante, quando entrou na sala. Depois, em silêncio, pousou a bandeja sobre a mesa: uma mão esquerda, cortada com o pulso, fumegava, ainda, na enorme travessa...

Todos bateriam palmas, se tivessem as duas mãos... mas, claro, a todos os restantes convivas, faltava já a mão esquerda, cortada ao nível do antebraço... restou-lhes olhar com respeitosa admiração o “último sacrificado”, e, com estranha e discreta gula, o “último manjar”...


FIM






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