Das tripas coração

Data 28/04/2014 15:32:33 | Tópico: Poemas

Para te amar piquei-me numa alcateia de cactos. Uivei como um lobo

Para te amar fiz das tripas coração, juntei cominhos à alfazema da tua boca

Para te amar colhi um segredo que não posso dizer, um confessionário triste

Um rasto de formigas, um pedaço do pão do teu ventre comido por pássaros


Na casa de chocolate, tu eras, na ombreira da porta, um beijo que parecia de mel

Um caçador que disparou sobre a avó da cegueira que não tinha idade nem arte

E depois encheu de pedras o ventre dos sonhos, Gratel cheia de garbo, porcos


Vou contar-te como me sinto: um silvo de bala, uma avó, um sonho não cumprido

E tu, capuchinho vermelho do azul dos olhos, és a lagoa mais bela da casa derrubada

A palha onde os ratos que roem o poema pelos olhos dos leitores, acasalam


E quem me dera, e quem me dera, que tu fosses destas histórias das coisas, Cinderela

Uma espécie da carochinha - quem quer casar, quem casar, com um verbo pequenino?


E eu, meu amor, minha vida, meu teatro de sonhos, fosse apenas o adjectivo mais curto:

- Só poema, só história, só personagem, só gente, só multidão, só tu, só eu


Só.



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