UM CAFEZINHO E PAPO DESCONTRAIDO

Data 27/08/2014 03:12:53 | Tópico: Crónicas



Quantas reflexoes fazemos no decorrer da nossa vida!
Quantas paisagens passam pelos nossos olhos, atraves da janela da vida...

Lembrei-me agora de um fato engracado quando falei em paisagem. Aqui em casa eu sempre dirijo mais depressa. Meu marido sempre vai mais devagar, ele gosta de apreciar a paisagem, e nunca tem pressa.
Entao quando minha filha era pequena, um dia eu a ouvi falando com uma amiguinha: "quando vou com minha mae para a escola, eu nao consigo ver a paisagem. Mas quando vou com meu pai, eu vejo cada arvore, cada esquilinho". (risos).

Voltando nas paisagens...
Todos os dias vemos tantas coisas diferentes, que quase nao notamos. Que a correria nao nos deixa perceber.

Essa semana sai de bicicleta pela primeira vez, desde o verao do ano passado. E quando passei por uma pracinha, vi um velho que o ano passado estava sempre ali, andando devagar, e depois sentava no banco.
Por um instante senti-me feliz em saber que ele estava vivo. E nem ao menos o conheco. Mas apenas uma antagonia a vida.
Tantas paisagens desaparecem de nossos olhos, tantas pessoas que vemos, nao temos a certeza que iremos ve-las outra vez...nao é assim a vida?

Um dia desses estava estudando uma reacao que tenho, que nao sei se e normal ao ser humano. Ou seja, nao digo normal, mas nao sei se e algo que todo ser humano sente. Voces podem me dizer.
A sensacao que tenho de levar um tombo, leva-me diretamente a infancia. A dependencia. Talvez a primeira coisa que venha na minha cabeca seja minha mae. Porque a mae sempre esta ali para amparar o filho.
Uma sensacao de impotencia diante de algo que nao temos controle. Fico no chao, com uma sensacao de "coitada" (risos), e com uma fragilidade que desconheco em mim.

Um dia fui consertar meu carro, e fiquei esperando no lobby. Havia uma porta de vidro na frente, e sentei-me bem perto, peguei uma revista. De repente eu olhei para fora, e vi uma senhora, rastejando em direcao a porta, toda ensanguentada. Eu, que sou uma patife, de primeira categoria, levantei-me, abri a porta, e a mulher me disse: "me ajude, eu cai!". A cabeca dela estava aberta perto da testa.
Todos que estavam na sala ficaram sentados - digo todos. Impressionante como o americano tem medo de se envolver nessas coisas.
A mulher deitou, e fui no banheiro pegar umas toalhas de papel, embebi em agua e fui la limpar o sangue de sua testa.
O dono da Agencia chamou o 911 (o maximo que um americano pode fazer numa hora dessas, sinceramente). Nao estou generalizando. Sei que que existem pessoas diferentes. Mas o que tenho visto sempre, é isso.
Mas a mulher, fragil, estava ali deitada e todos olhando-a como se ela estivesse contaminada.

Ela me pedia para limpar o sangue dos olhos dela, nao podia enxergar. Fiquei ali, limpando, e pensando na fragilidade do ser humano, quando isso acontece.
E a mesma fragilidade que sentimos ao estar num leito de Hospital. Com aquele camisolao, o que somos mais do que "um ser humano", sem vaidades, sem diferenca social?
A mulher me disse que seu filho estava la dentro, deixando o carro dele. Fui chama-lo.
A coisa mais engracada quando ele chegou. Olhou a mae deitada, (nem se abaixou) e disse: "Mae, o que voce fez?" Como se a mae tivesse sido culpada de ter caido.
Ela havia escorregado.
Chegou o 911 (servico realmente espetacular nos Estados Unidos!) e num instantinho ela ja estava acomodada e medicada prontinha para ir ao Hospital.

Depois disso, um policial me chamou perguntando quem poderia ser testemunha. Todo mundo sumiu. Dei minha carteira de motorista e respondi as perguntas dele.
Naquela mulher eu me enxerguei. E se fosse eu que estivesse ali deitada? Alguem me ajudaria?

Outro sentimento que estava lembrando hoje.
A reacao de cortar o dedo. Perceberam como todos viram meio criancas quando cortam um dedo?
Outro dia meu marido na cozinha cortando uma cebola, de repente virou-se para mim: "Cortei o dedo!".. Me olhou com uma expressao que havia cortado um braco! (risos).
- Onde tem band-aid?
Fiquei olhando para ele, que segurava o dedo, olhando no sangue que saia. Naquele momento o enxerguei-o assim como um menino de 7 anos de idade...
Por que essa sensacao que temos nessas pequenas coisas que nos acontecem, que nos fazem voltar a infancia?

Ontem conversando com uma amiga, estavamos falando que somente uma mae tem amor incondicional. So uma mae, consegue ter esse amor sem pedir nada em troca. Amor gratuito mesmo.
Por que nao podemos ser assim em relacao as pessoas? Um amor sem pedir em troca? Um amor dado assim de bandeja, de graca, sem expectativas?

Janela da vida...
Assim passam-se situacoes diante de nossos olhos todos os dias. Como se estivessemos viajando num trem. As paisagens se apresentam rapidas ou lentas diante de nossos olhos. E vamos a acompanha-las, como se estivessemos bebendo a paisagem, assimilando as coisas importantes.

Nessa minha volta de bicicleta, vi as mesmas flores nascendo, no jardim das mesmas casas... Vi brinquedos de criancas que o ano passado estavam no jardim. Vi os mesmos cachorros latindo quando passo (risos)...

O menino brincando no Parquinho (que sempre cruzo) como cresceu! Era pequenininho e agora ja estava grandinho... O ano passado a mae segurava sua maozinha. Este ano, ele ia correndo pela grama, com uma liberdade, como se dissesse: "mae, nao preciso da sua mao, posso ir sozinho!".

Nao sao assim nossos filhos?
Hoje a minha filha com 25 anos, olha para mim e leio em seu olhar: "Mae, nao preciso mais de voce. Estou pronta para o voo".
Quanta inocencia nesse pensamento! Ela sempre precisa de mim quando seu voo é rasante. E eu sempre estou aqui!

Hoje olhei no meu jardim, e vi a mesma flor do ano passado...
Foi presente de minha ex-chefe da Eagle. Na minha cabeca, passou-se "o filme" do dia em que ela me presenteou.

Assim é a vida. Uma sucessao de lembrancas, de emocoes, de experiencias.
E dentro de nos vamos sempre assimilando, guardando na nossa caixinha de emocoes, tudo aquilo que nos é importante.

E a janela da vida sempre nos mostra paisagens novas. Muitas vezes sao as velhas...mas tudo depende do modo que a olhamos...

*Mary Fioratti*



Desculpem a falta de acentos! Meu teclado nao tem! Alguns eu vou copio e colo, mas nao tenho paciencia!


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