Ahmet

Data 20/06/2016 00:02:43 | Tópico: Poemas -> Surrealistas

Ahmet

Fica noite cerrada e o frio, meu companheiro, enche-me a alma. A cem metros da fronteira descanso neste leito onde gelado na noite escura, aqueço-me em cada sonho de liberdade. A fronteira fica além, junto ao rio. Sonho voar para lá dos muros. Aqui cheguei à dois meses e aqui permaneço qual pedra descendo o rio empurrado pela corrente.
Sonho amiúde com esse momento em que me aprouver calcorrear essa calçada imaginária, qual alpondra de veludo pintado de vermelho, qual minarete da liberdade. Será o fim do caminho que ousei imaginar possível e tornar-me liberto dos cadeados da terra de onde brotei, pesado fardo de ostracismo, tal sorte foi um dia minha.
Muçulmano, dissidente do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, tinha decidido fugir da montanha curda e procurar uma vida de paz. A opressão do governo era assaz violenta, fazia visitas regulares com F16, noite após noite, em retaliação a ataques dos nossos homens.
No dia em que nasceu Ahmet, meu filho mais novo, tomei a decisão, porque não queria meus filhos subjugados a esta tortura infindável. Quando fez 3 anos, numa noite de tréguas, iniciei a caminhada até ao Reino da liberdade. Pelo caminho amarras de aço puxavam-me de volta, todo o meu corpo chorava invisíveis lágrimas de sangue, que ainda hoje rasgam minha alma de saudade. Vivíamos numa casa pequena e semidestruída, onde a comida escasseava, as janelas eram placas de madeira pregadas ao barro, a luz teimosa passava pelas frestas da madeira e da rede que protegia a casa dos insectos. Minha mulher passava os dias em busca de água e comida. Na escuridão a avô ensinava os netos a ler.
A fronteira abre-nos o caminho da liberdade e no horizonte deixo, na minha terra, a dor da saudade da minha mãe que por lá fica.

JJG, MARÇO 2016


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