
ELA E ELE - amor em três actos
Data 03/01/2018 20:50:57 | Tópico: Sonetos
| ELA E ELE - amor em três actos
PROÊMIO Diante de nossos olhos acontece Alguma história assim todos os dias: Ela e Ele compartilham-se alegrias À medida que um ao outro mais conhece.
Esta história com muitas se parece... Tanto, que não importam as etnias, Pátrias, lugares, épocas, poesias E nem sequer o deus de cada prece.
Tampouco importará que nomes tomem... Seja Ela só mulher; Ele, só homem. Vós-outros os chamais como quiserdes!
Resta, contudo, a vós eu advertir Que os três actos d'amor logo a seguir Repetem, outonais, os anos verdes.
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ACTO PRIMEIRO – O enamoro PRAZER EM CONHECER
Ele vem sem saber para que vem... Anda tão distraído que por nada Espera que lh’exista alguma estrada Para caminhar junto com alguém.
Ela chega sem qu'Ele olhe. Porém, Quando a vê a percebe inalterada... Ao certo pensa ainda uma hora errada Para o querer consigo Ela também.
Ele conversa, mesmo sendo em vão Manter-se longe o olhar do coração, Deixando de qualquer outra esperança.
Ela — bem mais sensata — se protege Por entender a estrela que lhe rege Não brilhar tanto quanto na lembrança...
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ATÉ BREVE
Caminhos que se cruzam e após vão Aonde for possível e além ir... Ele não foi sequer se despedir Quando Ela partiu com seu coração.
Ela o levou consigo, embora em vão. Por temer consequências no porvir, Afastou-se a melhor se descobrir, Sem saber d'Ele e sua escuridão.
Ele espera; Ela, não. Ou melhor, vê Cada extremo senão, cada porquê, Em face de sua ávida insistência.
Ele, por distraído ou tolo, fala Enquanto, atenciosa, Ela se cala Sem saber que esperar da experiência.
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POR OBSÉQUIO
Ele se derrama em mimos e atenções; Entre lisonjeada e reticente, Ela confronta o homem à sua frente: Uma a uma lhe contesta as ilusões.
Responde ele não ter outras opções: Precisa conhecê-la, tão-somente. E se algo acontecer, qual tem em mente, Não sofreram maiores decepções.
Curiosa, Ela quer saber seu plano Apenas p’ra mostrar com quanto engano Pretendia Ele entrar em sua vida.
Ele se reconhece enamorado D'Ela e, deverasmente, culpa o fado Querer quem quase a si desconhecida.
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ACTO SEGUNDO – os amantes ANTEGOZO
Ela já se deleita em tê-lo ao lado E sente falta d'Ele se se ausenta. Ele, sempre que pode, se apresenta À sua porta com ledo cuidado.
Lá chegando, se sente transportado Ao aconchego que alegre experimenta. Horas gozosas... Quando Ela o contenta E às quais Ele, aliás, se fez rogado...
Ele lhe beija as mãos com tal ternura Qu'Ela enfim se abandona à calentura De o ter tão docemente junto d'Ela.
Mas, sem um mais nem quê, Ela ali chora... E, ao ver sua emoção, logo Ele cora, Beijando o rosto tépido à donzela.
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TONS SOBRE TONS
Ela chora. Dois olhos d'água ao rosto. Ele lhe bebe as lágrimas... E sorri!... Beija-a violentamente aqui e ali Até da própria dor Ela ter gosto.
Ele toma do cinto ao largo posto E ata seus pulsos bem junto de si. Cheira-lhe o pescoço, a colibri... Após, rasga o vestido descomposto.
Suga faminto, pálidos, seus seios... Mais torturando-a até sentir anseios: Faz com que implore ser toda desnuda.
Ele a olha... Ela é mais bela que a beleza! Vê em seus olhos sós a chama acesa E afinal a possui, entregue e muda.
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ÊXTASE
Amaram-se em silêncio, sem ousar Que palavras quebrassem esse encanto. Ela se arqueia e freme... Cai a um canto E abraça-o forte sem nada falar.
Ele logo a aninha, ávido, a secar Aquela última lágrima em seu pranto. Quando beija seus olhos ao acalanto De carícia impossível de findar.
Ela reluz igual gema brilhante Ao palor que Ele exsuda n'esse instante E molha os lençóis sob o casal.
Ela sorri. Lumina-se seu rosto. Ele registra o quadro ali composto E adormece em seus braços afinal.
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ACTO TERCEIRO – o desenlace DEPOIS DO AMOR
Acorda co'o barulho do retrete E levanta, automático, para ir. Espera que Ela saia para partir, Despedindo-se pouco antes das sete.
E, na saída, a cena se repete: Mais beijos estalados a se ouvir! Ela o abraça, querendo lhe impedir. Ele a beija, deixando-a no tapete...
No caminho, remorsos e segredos O acompanham até os arvoredos Onde tenta ocultar todo pecado.
Sob as sombras, mil vezes se maldiz... Infeliz por ter sido tão feliz, Ainda que em lugar ou dia errado!
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ANTES DA DOR
Ela está tão contente! Mal sabe Ela... Pensa qu'Ele saiu para o trabalho. Mas volta n'um horário incerto e falho Enquanto Ela observava da janela.
Passou as horas lívida e singela, À espera d'um patético espantalho, Que volta com cara de paspalho E ainda atucanado para vê-la.
Abre a porta sorrindo e o faz entrar. Ela procura em vão lhe animar, A Ele que vai partir seu coração.
Quando sua mudez enfim se impôs, Percebe o seu silêncio ser o algoz, Que de volta lhe traz a escuridão.
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ENTREOLHOS
Ela olha para Ele: Estava arredio. A conversa sem fio e sem lugar. Ela o acarinha; Ele a repele ao tocar: Enquanto o arde d'amor, gela-a de frio.
Perdido o olhar, Ele a olha vazio. Em si vagou e só foi se encontrar: O coração, medroso para amar; O corpo, seco por saciado o cio.
Ela olha-o, mas já não está ali! Ora chora quem por último ri: Os olhos nos seus olhos não são seus...
Espelham-se sem ver quem bem à frente... Se impossível dizer que têm em mente Só o silêncio, entreolhos, diz — "Adeus..."
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EPÍLOGO
Como vos adverti, conto comum Esse que a vós narrei de amor e dor. Ide de volta ao lar com mais ardor Reviver tudo com alguém ou algum.
Se o gozo d'essa vida for nenhum, Ao menos a lembrança tem valor D'aqueles que se amaram sem supor, Que repetissem um lugar-comum.
Assim também amais e sois amados, Mas vós — por bem ou mal enamorados Ou que buscais no amor algum conforto —
Ouvi, portanto, a luz da narrativa: — "Antes morrer d'amor para que viva, Que avivar o amor depois de morto."
Sapucaia do Norte - 04 01 1994
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