Sob A Luz Da Lua

Data 29/01/2018 19:51:26 | Tópico: Textos

         As portas das selas, uma a uma iam sendo abertas. Ao longe se podia ouvir os rangidos. A penitenciária tinha três andares, os corredores pareciam infinitos. Quando eram abertas, ficava o vão e  a gente podia ver os presos se ajuntando feito lagartas numa folha de couve se espremendo para dormir. Mesmo assim, nenhum preso se arriscou  sair, se quer,se aproximou para averiguar. Hora de visitas, não era, muito menos banho de sol aquela hora da noite.  Era um silêncio de doer na alma, que foi espalhando pelos corredores. Um suspense de matar o espectador de olhos grudados na tela, se fosse um trilher de ficção. Um lugar de constante vai e vem, agora assim,morto. Batidas de latas nas grades, gritos...até os berros de todas as noites cessaram. Nenhuma viva alma se lamentando pelos corredores. Um grito ao longe, nada. As portas permaneciam abertas e os presos amontoados não tinham coragem de se aventurar a olhar, ou sair. Se um se atrevesse a se aproximar da porta, era puxado para o fundo.

       Amanhece. As luzes permaneciam acesas. O silêncio continuava a dor na pele. Nada, a rotina diária tinha sido engolida por ele. Nenhum grito, ou som de cassetete batendo nas grades para acordar aquele que estivesse dormindo. Aí, um homem do terceiro pavilhão se atreveu a sair e se encostou no parapeito de ferro para olhar para baixo e ao seu redor. Observou meticulosamente cada espaço que os seus olhos podiam ver. Silêncio! Nada, nenhum sinal de vida na parte inferior. Voltou para a sua sela e relatou o que viu e ouviu. Como ratos desconfiados, como se fosse combinado,  foram saindo um a um. Se armando com o que esondera em baixo da cama. . Não se sabia o que havia no fim do corredor.
        Uma multidão de homens, sem camisa, de bermudas, desconfiados. Foram descendo para o pátio Viram que todo estava aberto, e nenhum guarda para os reprimir. Amontoados no pátio, onde tomavam banho de sol,sem  nada entender,  um deles, vestindo roupa de presidiário  subiu em uma coluna e disse:---- A gente não sabe com que intuição essa gente deixou as portas abertas. E uma noite inteira, só pode ser uma armadilha:---É como se quisesse que  a gente fugisse. Ouviram as sirenes? Só tocam quando algum preso foge. Pra ficar deserto é apagamento de arquivo.  Vão diminuir na marra---Disse um no meio da multidão:---Quem disse isso? Apresente. ---Falou o homem de cima da coluna:----Se nem o café teve. Tô com ele  e não quero nem saber o que  tá acontecendo. Na hora que a gente der dois passos, é tiro p'ra todos os lados. Eu não me arrisco. ---Disse outro no meio de todos:----Assim não dá gente. Quem falar tem que se apresentar. Fico eu aqui no topo me arriscando a levar um tiro, se...se é isso mesmo. Se for, não dá p'ra matar esse tanto de uma só vez.
        As discussões tomaram um bom tempo.  Aí descidiram formar uma equipe para sair e averiguar a situação, o resto aguardaria no pátio. Se não voltassem,  podiam fazer o que quisessem. O homem que subira na coluna, escolheu os dois que haviam falado e mais quatro,disseram que sete dava azar.
       Armados de pedaços de paus e estiletes, caminharam três de cada lado do corredor. Pararam na frente de uma sala com muitos monitores desligados. Não havia uma viva alma em parte alguma. Onde foram parar os guardas? O que teria acontecido ali?   Perguntas iam pipocando na cabeça de cada um a cada passo que dava.  Chegaram a uma área espaçosa na entrada da penitenciária. Havia um portão de ferro aberto a alguns metros da rua. Nada, ninguém para os impedir. As viaturas estavam estacionadas, mas os carros particular não estavam lá. O que havia falado com os outros, disse para dois dos que o acompanhava:---Agora quem se oferece para voltar e avisar aos outros que até aqui tudo limpo? --- Dois se ofereceram. Teve um que não concordou:--- Nos arriscamos nos corredores sujeitos a levar tiros, elês que se virem por lá:--- Dissemos que íamos  voltar. Não podemos continuar sem eles.---Disse O homem que os lideravam :----Quer dizer que só nós merecemos o céu? . E do outro lado do portão? Alguém sabe o que nos espera? ----Ele tem razão. Mais gente, é mais armas para enfrentar o estiver lá. Ninguém sabe o que aconteceu aqui. ----  Os dois jogaram os estiletes no chão e voltaram pelos corredores.
       O homem que intuitivamente guiava-os, tinha um corpo atlético. Aparentava uns 40 e poucos anos. Não usava barba, a cabeça era raspada no momento em que o preso entrava na penitenciária. O uniforme que usavam era cor de terra. Alguns presos discutiam as futilidades do momento, diziam que cor de terra não existe, a cor do uniforme era marrom escuro. O que gerava muitas discussões e não leva a lugar nenhum. As celas da penitenciária tinham sido projetadas para abrigar oito presos. As camas eram uma beliche de cimento armado, havia uma pia,um banheiro. Com a lotação, cada uma das celas abrigavam mais de vinte presos. No calor, virava um forno. As facções eram separadas,mas quando se encontravam no momento do banho de sol, corpos ficavam estendidos pelo chão.
     Assim que  os dois entraram no pátio...   por mais sagaz que fosse a mente,não conseguia processar o que os olhos viam pelo chão. Corpos rasgados por estiletes por todos os lados. Sangue esparramado pelo chão. Os dois ficaram paralisados. Um senhor gordo, com o uniforme ensopado de sangue disse:----Como foi? Tá livre ou não tá? --Nem conseguiram falar,balançaram a cabeça pra dizer sim. Como uma boiada estourada,foram atropelado tudo pelos corredores.
       Quando chegaram na área da entrada, o portão tinha sido fechado e o homem os aguardavam em cima da carroceria de um caminhão. Os detentos que iam chegando,iam se juntando aos outros aglomerados diante do caminhão. Assim que o último chegou, o homem começou a falar:---- Vendo a euforia latente em cada um de vocês, achei que era o meu dever dizer alguma coisa. Quando cada um de nós atravessar este portão, podemos ganhar a liberdade, ou sermos metralhados. Não sabemos o que nos espera do lado de lá. Não medimos a facilidade de chegarmos até aqui. Vocês não têm curiosidade? Não acha mamão com mel essa facilidade? Estamos aqui, e lá? Alguém tem alguma idéia? ----O silêncio imperou por um bom tempo. E o homem continuou:----Vamos imaginar que alguma coisa saiu errado. Um momento de guerra, uma força estranha tomou conta da cidade. Tudo é Possível! ----Um jovem se adiantou e falou:---A superlotação gente. Olha quantos homens, o pátio nem cabe. Assim que abrir o portão a gente é metralhado:----Somos rejeitos. ---O homem olhou para o jovem e continuo:--- A sociedade não nos quer. Aqui há assassinos, estupradores, ladrões. Não entra santo neste lugar. Se vamos atravessar este portão, temos que nos prevenir para o que vier. Dei umas voltas e vi na sala dos guardas muitas armas e roupas, fardas.----Até então, ninguém tinha falado da chacina no pátio onde tomavam banho de sol. A multidão de homens engolidos pelas palavras do homem em cima da carroceria do caminhão, continuava sem fala. Não tinham tempo de pensar, ou fazer. O que o homem dissera era o certo. Ele continuou:----Quero ver aquele que tem, ou teve um dia o sonho de ser um policial. Passe para a frente do portão. -----Quase a metade dos homens foram para a frente do portão:----Estão vendo. Todo homem atrás da máscara sonha por algum momento ser um tira. Deve ter alguém aí que sabe aonde fica a sala dos policiais. Se não sabe, fica daquele lado----Aponta a direção da sala:------Você que aceitou o desafio é quer ser um deles. Vá agora até lá, se vista e se arme, volta aqui para juntos sairmos para enfrentar o desconhecido. Os homens saíram aos gritos, gritos de alegria. Minutos depois, voltaram armados e fardados, mas nem todas conseguiram fardas, se armaram com o que encontraram:----Agora, vocês são defensores da cidade. Ele desceu do caminhão, com a ajuda dos companheiros, abriu o portão. Os homens fardados foram na frente como se estivessem numa área de guerra.
       O tempo não espera nem socorre ninguém. E passou feito um soluço. Era quase noite. Depararam com uma cidade completamente vazia. Nenhum cão, um gato, nada. Lojas com tudo dentro, supermercado lotado de artigos para o consumo e ninguém para comprar. Casas vazias. Uma cidade fantasma. Os homens foram para a praça no centro. Mais uma vez,o homem subiu no lugar mais alto para falar. Quando seus olhos ganharam a avenida central não podiam crer no que vira. Mulheres vestindo roupas de prisioneiras enchia a avenida. Muitas delas se vestiam como policiais, armadas, corriam em direção à praça. O vulcão majestoso com as lavas petrificada assistia o reboliço de pessoas se reencontrando,abraçando o que conhecia, comemorando, pulando ,gritando. Outros entravam no supermercado, nas lojas. Tudo era festa. E a lua lá do alto parecendo um queijo canastra,  jogava seus primeiros fachos de luz sobre a cidade.
          Era quatro horas da manhã do maldito horário de verão. O silêncio imperava solitário sob as luzes artificiais enquanto todos dormiam. Subitamente, a cidade foi invadida por gritos de sirenes ensurdecedor. Como num palco para o início do espetáculo,  as luzes das casas iam sendo acesas uma a uma. O serviço de sismologia tinha detectado perigo vindo das estranhas do vulcão.
        A milhares de anos,a cidade tinha sido construída ao pé do vulcão. A última erupção tinha sido a mais de cem anos, mas naquela manhã, antes que o sol iniciasse o seu turno, ele resolveu acordar e acordou a cidade.  Naquele momento, nenhuma fumaça havia, ou chama em seu topo, mas o serviço avançado e certeiro denunciara que as lavas estavam subindo para a superfície. A cidade inteira seria destruída. Para que todos...todos pudessem ser salvos quando esse dia chegasse, foram colocado detectores sismológicos em toda a sua extensão. Agora esses detectores estão dizendo que o gigante acordou. Já se podia ver uma fina camada de lava descendo sorrateira pela parede e se olhasse bem, a fumaça subindo com algumas chamas. O corre corre foi acelerado. A pressão aumentada e a população se agitava em toda a cidade.  Quando o sol bateu o seu cartão de pontos para entregar o seu turno por mais um dia de trabalho, a cidade já etava vazia. Cada cidadão colocou o que pode em seu carro e fugiu para não morrer.  Veículos fora  disponibilizados pelo prefeito para aqueles que não tinham como carregar os seus pertences. Antes que alguém pudesse parar para refletir, já tinham evacuado a cidade.
                                                                                                                Camuccelli.

 


      
      

 


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