Homem de família

Data 15/08/2020 15:57:14 | Tópico: Homenagens

Homenagem a Minha mãe

Indivíduo casado na faixa de 30 anos, três filhos, duas meninas, uma com cinco anos outra com sete e o menino com três anos. A esposa o amava e eram uma família bem harmoniosa.
Ele uma pessoa bem ajustada no cuidado da esposa e filhos. Era um pai amoroso e marido fiel, não havia nada de errado, nem com ele, muito menos com a sua família.
Sua profissão era ser motorista de ônibus. Muito bom profissional, educado, gentil com os passageiros, cauteloso na direção, não corria, trafegava sempre em velocidade moderada. Paciente com o trânsito e passageiros. Tudo fluía bem em sua vida.
Contudo, a vida as vezes nos pega completamente de surpresa e nos coloca diante fatos bastante desafiadores, foi o que aconteceu com ele.

Em um dia como outro qualquer pega o ônibus na garagem e vai por sua rota, como fazia todos os dias. De ponto em ponto vai parando e pegando passageiros.
De repente, em uma descida, uma bicicleta desgovernada contendo duas crianças, um menino e uma menina na faixa de nove anos, atravessa na frente do ônibus. O motorista de pronto põe o pé no freio e tenta imobilizar o veículo.
Não houve tempo e acidentalmente, sem ter culpa alguma, as crianças morrem sobre as rodas do veículo. Foi uma das cenas mais horripilantes que já se tinha visto nas redondezas.
Diante de tamanho confronto emocional o motorista fica paralisado ao volante. Quando a polícia chega e isola o local ele ainda está em estado de choque.
Mãe, pai e familiares das crianças chegam ao local e são contidos pelos policiais, pois queriam linchar o motorista.
A perícia chega e os policiais levam o motorista detido para a delegacia. Diante o delegado ele conta a verdade dizendo que elas simplesmente atravessaram de repente na frente do ônibus.
Testemunhas que foram relacionadas no local pelos policiais confirmaram a versão do motorista. O mesmo não é preso e responde ao processo em liberdade.
Quando o caso vai a justiça o mesmo é inocentado. Contudo, o ocorrido afeta por completo a vida daquele homem de família.

Noite após noite ele tem pesadelos com as crianças, um sentimento brutal de culpa invade seu coração e alma. Ele então entra em profunda depressão, agora já não dirige mais, desenvolve um trauma profundo pela direção de veículos.
Não trabalha mais, perde o sentido e o gosto pela vida. Recorre a bebida com forma de aliviar o tormento de sua alma.
Por fim se torna um alcoólatra, nada mais o tira da embriaguês. A família entra em penúria financeira, o provedor da família já não se importa mais. Sua esposa faz de tudo para sustentar sua família, passa a lavar e passar roupa para terceiros, faxina e tudo que lhe possa render algum tostão.
Dois anos se passam e como o marido não para de se consumir na bebida e fica agressivo com todos da família, ela o coloca para fora de casa e se separa dele judicialmente.
Jogado nas ruas nosso ex homem honrado de família se torna um mendigo. Sempre é visto perambulando pelas redondezas, bêbado, maltrapilho, caído na calçada ou em um lote vago no meio do mato.
É aí, quando tal homem encontra-se no fundo do poço, que a minha mãe, hoje falecida entra na vida e história dele. O lema de vida da minha mãe era: Lutar pelos pobres, fracos e inocentes.
Foi com ela que aprendi o valor de uma vida dedicada a amenizar o sofrimento alheio. Ela começou seu trabalho com ele indo onde ele estava, levando esperança, amizade e comida.
Depois de um tempo, após passar a confiar nela, ele mesmo passou a ir na nossa casa em busca de comida, remédios, roupas e amizade.
O normal dele era sempre estar embriagado, como ele conseguia a bebida era o que ninguém sabia. Depois de anos nessa lida, ela conseguiu um lugar que internava alcoólatras para tratamento, não era gratuito, não contava com ajuda governamental.
Ela conseguiu mobilizar pessoas e os recursos necessários para o tratamento dele. Ele foi por ela convencido e se deixou levar para o internato. Poucos dias depois ele fugiu de lá e voltou as ruas.
Ela ficou firme na proposta dela. Ele fugia, ela o convencia a voltar. Foi anos assim. Quantas vezes me irritei com ele, mas minha mãe tratou minha irritação da seguinte forma: “O homem está lá em baixo caído no lote vago, pega ele e trás aqui para mim”, obedecia.
De tanto ir para lá e fugir, um dia ele não fugiu mais, ficou. Quando ninguém mais acreditava na recuperação dele, o homem larga a bebida, arruma um serviço e recupera sua vida de volta.
Eu sentia um certo orgulho, no bom sentido de o ver bem arrumado, hora indo trabalhar, hora voltando do serviço.
A pura e única determinação da minha mãe em não desistir daquela alma, o trouxe de volta à vida. Ela fez isso, de forma impessoal, incondicional e desinteressada, ela era assim, muitas vezes se privava de bens em função de levar, amor, esperança e alívio ao sofrimento de quem quer que fosse.
Este texto é também uma homenagem a ela, apenas e do meu jeito, dei continuidade a sua obra.



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