Tinha um juazeiro no meio do caminho...

Data 05/11/2022 01:57:40 | Tópico: Crónicas

" Oli, Cabra... Oli bem, raciocine bastante, que você vai empatá comigo. Eu já apertei os zóio aqui umas dez veiz, alisei as pestana bem alisada, olei bem olado, e tenho certeza do que digo:

Da cabeça ao rabo, dos casco inté o costado, não é um burro, é um jegue!
Tá certo que ele bem crescidinho, tá gordinho, mas, sabe? Eu tenho noventa e dois ano. Eu ando por esse sertão desde minino, desde o tempo de Lampião e Maria. Eu conheço bicho, conheço bem.

Ele parece um burro, porque essa turma do tempo de Caetano e Ivete, comeu bem desde pequeno. Lá no sul, principalmente! É muito Neston, leite condensado, pão quadrado e batata frita que as criança do sul come... Aquele queijo minas fresco, minando água feito uma cacimba ambulante... É por isso que os bichim engorda feito capado, cresce feito bambu na beira do velho chico...

Mas deixe eu terminá a história, deixe...
Ele vinha pela estrada com o seu pau de arara, um Fordeco 64 já veinho, carregado daqueles seus Catarina, quando, depois de uma subida, viu uma placa: "Entre à Esquerda"... Ele assustou-se com aquela placona, com o povo todo embaixo dela apontando o dedo pra esquerda, balançou a cabeça pra lá e pra cá rápido feito um calango, e abestalhado, acabou entrando pela direita e deu de cara com um juazeiro de quase cem ano bem no meio da estrada...

E foi uma gritaria, uma choradeira, a catarinada caindo pra todo lado...
Oli, ele confundiu Elezão com Eleição. É por isso que eu lhe digo: Ele não é um burro. É um asno, um jumento, um jegue! “
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-Gabriel Peers - 04.11.22
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