Diario de um velho bardo

Data 26/07/2025 11:58:04 | Tópico: Textos

Friday, 25 de julho
Enfim a visão esplendorosa ao longe de um grande navio entrando no canal a caminho do porto do Itaqui ou da Vale. A lancha Bahia Star zarpou a todo vapor para Alcantara, lotado. A maré ainda enchendo. O cheiro salutar da água salgada bom pra os pulmões vitimas do bacilo de Koch – eu sofri em 2014, começo de tuberculose. A lancha “Barraqueiro” balança no ritmo das furiosas ondas. A silhueta em miniatura dos edifícios da little Manhatan noutro lado, na península da Ponta D’areia. O navio e a lancha desapareceram cada um seguindo o seu curso náutico. A mochila pesada e cheia de livros que tenho a esperança de troca-los ou vende-los.
Ainda pouco uma garça encardida e solitária equilibrava-se na ponta da velha rampa, fugindo do refluxo das ondas. Outro navio de grande porte entrando na barra e sumindo por trás de uma ilha. A garça alçou voo poeticamente numa rasante sobre a maré.. Um irmão deitado no meu banco favorito no alto da praça declivada.. Nos navios a faina do cozinheiro, desde as cinco da manhã preparando o café reforçado para os companheiros de bordo.
Urino num banheiro publico na calçada do antigo casarão colonial do Tesouro na rua Portugal – dizem que o governo o negociou com uns grupos estrangeiros para transforma-lo num hotel. Não é um irmão, mas uma velha conhecida da Vila Embratel deitada no banco.
- Cadê a merenda dai? Perguntou-me ao me reconhecer.
- Ainda estou correndo atrás – respondi sem parar e fui sentar mais adiante, onde um fedor forte de mijo reinava.
A cerimonia solene do hasteamento da bandeira nacional no pátio da Capitania dos Portos. O assovio fino e ao badalar de um sino, ela é lentamente içada, com os seis marinheiros perfilados e em continência.
Os funcionários atrasados do egrégio Tribunal de Justiça, galgando apressado os três degraus debaixo das colunas gregas, que presumo serem jônicas. Nem imaginam que um dia fui colega deles – serventuário da justiça de 1997 a 2000 com datilografo.
Deu tudo certo e agradeci na Igreja do Carmo e aproveitei para conferir a “Mufunfa” e separar uma cédula. Uma branca de feições finas procura pelo celular que esqueceu na missa.
Atravesso a Praça João Lisboa novamente e com fome entro numa lanchonete no começo da rua do Sol e olhares desconfiados convergiram para mim. Um rapaz me atendeu gentilmente, sem me segregar pela minha aparência, como fizeram os patrões. E para fechar dei-lhe uma gorjeta de dois reais que o deixou bem feliz.
E seguir para os sebos na rua do Egito. No primeiro conseguir trocar quatro por dois – Um J.M. Coetze, sul africano, prêmio Nobel de literatura “O homem Lento” e um de Amim Klink e a sua fantástica aventura de atravessar o Atlantico a remo em cem dias. No Poeme-se, o rapaz despachou-me alegando a má conservação dos livros. Ok tudo bem. E para coroar, na banca em frente ao Terminal da Praia Grande – na promoção leve dois e pague cinco – encontrei um best-seller dos anos 80 – a autobiografia de Lee Iacocca, o homem que salvou a Chrysler da falência, depois de ser demitido da presidência da Ford e Konsalig, o escritor alemão que escreve os romances ambientados na Rússia.
De volta a minha aldeia do outro lado do rio Bacanga, onde todos os meus débitos foram quitados – começando pela pensão, depois o sacana do Lasierra, Ed Paul e Pai Cardin. Compro duas linguiças para almoçar e vou molhar a garganta.




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