
Pop Star: Um Conto Moderno
Data 29/08/2025 11:59:26 | Tópico: Poemas
| Ufa! Após o último show da turnê mundial, ele pôde, enfim, se sentar defronte ao imenso espelho do camarim oficial. Não poderia se sentir mais feliz, mais realizado. Afinal, foram meses percorrendo o globo em voos intermináveis, de cidade em cidade, de hotel em hotel. Dentro de si, invadia-lhe uma alegria imensa. Sentia-se o maior e o melhor dos mortais. Sentia-se o mais amado e o mais querido do mundo. Chegou a cogitar se não era mais famoso e mais amado até do que o próprio Jesus ou mesmo Maomé. Não achava que exagerava ao se ver no espelho. Era um jovem lindo, de olhos negros iguais às noites sem lua, com cabelos de um negrume igualmente luzidios, saúde impecável e disposição tal que daria para distribuí-la por todo o Universo!
Sobre a mesa de centro, várias revistas em diferentes línguas destacavam seu rosto na primeira página. Na parede ao fundo, uma imagem sua em tamanho real exibia o mais arrojado dos figurinos. Riu-se de si mesmo e quase beijou o reflexo dos próprios lábios na superfície fria do espelho.
Em sua mente ainda ecoavam os gritos neurastênicos e eufóricos da legião de fãs: — Pop Star! Pop Star! Pop Star!
Num devaneio, se viu entre os deuses do Olimpo Musical ou no Panteão das personalidades históricas. Chegou a gritar em voz alta: — Pop Star! Pop Star! Pop Star!
Levantou-se, abriu a porta e olhou para ver se alguém ouvira seu clamor por Narciso. Ao fim do corredor, um velho faxineiro cochilava sobre um vassourão sujo e encardido. Cerrou o cenho e sentiu repugnância ao deparar-se com o mais baixo nível da escala humana, artística e econômica, justamente em seu momento de regozijo. Bateu a porta e voltou-se para o camarim… e para dentro de si.
Após um terço de hora, o telefone tocou. Era o empresário, felicitando-o pela performance majestosa e pela repercussão nas redes sociais do último show. Perguntou se aceitava fazer uma sessão de autógrafos para alguns fãs que aguardavam do lado de fora. Como poderia recusar? Adorava ser adorado. Aceitou sem resistência, voltou-se para o espelho, penteou-se, maquiou-se e quase se beijou novamente.
Abriu a porta. Vários fãs se apertavam numa gritaria histérica e quase doentia. Os seguranças davam suporte para que não houvesse invasão ao recinto sacrossanto daquele Júlio César contemporâneo. Começou a autografar sem sequer olhar a quem. O ego inflado era massageado a cada instante e assinatura.
De repente, reparou num vulto estranho se movendo entre a turba. A figura trazia nas mãos uma espécie de pergaminho que ia sendo enrolado lentamente, já autografado. Pop Star baixou os olhos e percorreu toda a geometria daquele rosto aquilino, daquele corpo mofino, até notar os pés peludos ,como os das cabras. Conteve um grito de horror. Ao levantar o olhar, notou um sorriso maligno.
Desesperado, bateu a porta com força. Parecendo tomado por um tipo de loucura, começou a abrir gavetas, uma a uma, até encontrar uma folha antiga, amarelada pelo tempo. Ali estava sua assinatura e a data: exatamente oitenta e nove anos atrás. Leu o contrato com a visão turva. Após quase um século, esquecera aquele “pacto”. Enfiou uma das mãos nos cabelos com ferocidade e, com a outra, tampava a boca, tentando conter o terror que percorria seu magérrimo corpo.
Ao fim da leitura, sentiu o mundo girar, girar, girar… e desmaiou.
Quando despertou, estava sentado sobre uma cadeira posta no canto do corredor. Segurava, com uma das mãos, um sujo e encardido vassourão. As mãos estavam completamente enrugadas. Ousou um grito. Mas só conseguiu ver um jovem — parecido com o faxineiro que vira no corredor — cercado pelos seus seguranças, desaparecendo com uma jaqueta lustrosa, onde se lia, nas costas, estas palavras em inglês:
“Pop Star.”
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