
2013
Data 29/08/2025 20:06:36 | Tópico: Textos
| Quinta-feira, 21 de novembro de 2013 Começo da noite Nada de novo no front da Pensão Vince, apenas prenúncios de coisas ruins. - Quem está me chamando? – pergunta Antoine da sala de computador, levanta-se e vai em direção a porta do terraço. - Je ne sais pas, monsieur Antoine – respondi. A senhora Vince e a bacia para meter a mão na massa e preparar a mistura de seus animais. Ele abre a porta e sai para o terraço repetindo a mesma pergunta. Um gato pula sobre a estante que estremece com seu peso. Novamente a síndrome da solidão, do abandono e de outras coisitas. Quase seis meses sem fumar marijuana, uma coisa que nunca imaginei, mas as circunstancias circundantes me forçaram a refletir sobre o risco que corria desnecessariamente. E aos poucos fui relaxando. A coleguinha de filhota entra meio desconfiada e timorata atrás de Antoine. O peido fedorento da senhora Vince enquanto jantava. A coleguinha teme o abusado do cão Duque. O encontro casual pela manhã no box de Seu Raposo no mercado com uma velha amiga e uma cliente: - Seu Constantino, o senhor é muito solicitado! – exclamou Seu Raposo surpreso e irônico. A coleguinha senta-se na antiga cadeira de plástico vermelha que era a preferida da finada matriarca Vince, que Deus a tenha em bom lugar. - Sai daqui, sai, sai – esbraveja a senhora Vince para seus bichanos que a rodeia – Vão comer o comer de vocês, vão, vão – entre uma colherada e outra sem tirar o olho da novela das seis. Queria desabafar toda a minha angustia, mão não encontro coragem e me fecho em copas. Estou muito preocupado com o meu incerto futuro nebuloso. Deixo o tempo correr, a ameaça do senhor das caixas que me adiantou 60 reais para comprar os ferros, então acidentei-me, quebrando o dedo mindinho da mão esquerda e não quer nem saber de meu estado atual – a mão está enfaixada. - O quê esses gatos estão comendo? Grita a senhora Vince enquanto traçava uma laranja. Antoine e a coleguinha de filhota vão para o terraço espera-la. Solto barulhamente os meus gases. Tenho receio desse trabalho piorar o dedo. Bem que eu poderia achar uma cédula de cem reais, a primeira coisa que faria seria encaminhar-me até a casa do dito cujo e devolver-lhe o adiantamento. Não ocorrendo esse milagre, serei obrigado a sacrificar-me para fazer essas malditas caixas. Mas Deus é bom. - Caçulinha bota o jantar de Antoine, um pedaço de carne e do fígado – ordena a senhora Vince. Filhota chega acompanhado por outro coleguinha. O odor forte de urina de gato. - A senhora já jantou mamãe? Pergunta filhota. O problema é suspender a pesada porta de rolo da oficina, ela que é o meu pesadelo. Vou ler “Os Últimos dias de Charles Baudelaire” 21:10 – a mente estiolada pelo longo consumo de canabis por mais de 32 anos de uso constante e diariamente. Não consigo reter nada, lapsos de memória, esquecendo coisas triviais. Leio e logo esqueço. Mesmo assim luto para não esquecer, faço o possível para não cair no retardamento mental. Os gatos se estapeiam-se na sala de jantar. Sexta-feira, 22 de novembro de 2013 Manhã – feriado municipal Para remediar o bodum da minha insuportável catinga, sigo o conselho da saudosa Mama Grande – colocar meu cuspe nas axilas. Me encabulo comigo mesmo, toda vez que me deito vem uma ideia pronta de um texto, bem limpinho – mas quando acordo ou vou por no papel não recordo nadinha. 08:45 – Não posso sofrer antes da hora, mas a minha mente doentia não funciona como desejo. Sonhei que estava numa boca de fumo, comprando um tof-tof – o medo de ser preso era tão grande que não resisti e sai rapidamente do local. 09:15 – enquanto lia “Os Últimos dias de Charles Baudelaire”, deu uma vontade enorme de reler um romance que gosto muito do escritor francês Jacques Borel – “L’Adoradotion” – j’aime ce livre. As vezes me inquiro se realmente sou escritor, acredito que sou somente uma pessoa que gosta muito de escrever e que encontra na escrita o balsamo para meus sofrimentos existenciais. Noite 19:45 Ouvimos um barulho igual ao disparo de bala que ecoou no ar secamente, vindo lá de baixo. Corremos todos para o terraço. Grupinhos aglomeravam-se nas portas das casas – um mal sinal. Minutos depois entra filhota esbaforida e desabafa impressionada: - Mataram alguém lá embaixo. 20:00 – Mudo de canal e sintonizo na SKY – um desenho animado. Segundo informa Tia Redonda, a vitima morava no final da rua 15. Uma multidão desce para ver o cadáver, ainda pouco desceu uma ambulância do SAMU, seguido por um camburão da PM. Filhota e as amigas ficam no terraço para verem o movimento. A sra. Vince colheu mais informações com os vizinhos – a vitima chamava-se Inaldinho. Não o conheço. Dizem que foi briga de gang. 22:50 – Lendo Defoe (autor do clássico Robinson Crusoé) – o maravilhoso romance Moll Flanders. Hoje fez cinquenta anos do assassinato do jovem presidente americano John Kennedy em Dallas, Texas – ao meio dia. Sabado,22 de novembro de 2013 Manhã – 06:30 Pronto para mais um longo e ocioso dia. Tudo contra mim, mesmo assim sigo em frente. Tudo funciona ao contrário, se me encanto, logo em seguida sofrerei algo desagradável. Estou acostumado a esses reverses, esses caminhos que não me levam a lugar nenhum. Este é um dos motivos que deixei de sonhar e de me programar – simplesmente vou de acordo com o vento do meu destino. O7;10 – a voz melodiosa e grave do mestre Nelson Gonçalves cantando a clássica “Cabocla” – viva Defoe e a incrível estória de Moll Flanders. Vou vestir-me para ir a Unidade Mista do Bacanga fazer o curativo no dedo. 10;00 – Volto a penha onde o incrível e pirado Dom Quixote nu vai pagar uma penitencia em louvor da formosa Dulcineia del Toboso, sua amada, enquanto o seu fiel parceiro Sancho Pança leva uma mensagem para ela. 10:45 – uma rápida passagem por Petersburgo com Vania, auto ego do mestre Dostoievski, acompanhar o drama da pequena órfã Nelli e da bela e indecisa Natasha com seu pseudo noivo infantil filho do malévolo Príncipe Volkonski. 11:30 – os papudinhos na Praça do Bacurizeiro: Jamanta, K.Suco e Boca Nua jogam palito apostando doses, sob o olhar mortiço do sonolento Jorginho de boca aberta como um debiloide. Indio, o vigia da Praça do Cemitério ao lado de Jamanta sem camisa. Da Igreja Batista Manancial do meu ex-parceiro pastor Cicero Jorge vem o coro, estão ensaiando. Entorno a terceira no exato momento que tia Redonda passou. Tenho que ser meticuloso e não me embriagar. O homem das panelas me saúda: - Ei! Escritor. Estar escrevendo uma poesia – e vai para debaixo da barricudeira, improvisa o leito com papelão e deita-se. O dedo quebrado lateja. Vou até o vendedor de panelas que meio-arredio responde-me com evasivas. È piauiense, está aqui dez meses e tem quatro namoradas. Compro um real de cachaça e retorno para ouvir as quixotescas aventuras do mitômano Jorginho que viaja na maionese. Para o meu deleite profissional contemplo as grades que fiz para Dona Odila bem no canto da rua São Felix. A morena das sacolas passa garbosamente com suas ancas largas contidas dentro de um apertado jeans. 13:21 – um pouco acima do chão, me sento no banco dos mototaxistas na calçada do sacolão de seu Berrete ao lado de uma senhora que me olha desconfiada. Noite 21:15 – Triste, muito triste. Fui a praça das Sete palmeiras no intuito de encontrar alguém e vi os casais abraçados e felizes – entrei em depressão, lembrei-me dos momentos felizes ao lado de Dona Van e de Madame Rameaux. Tinha a nítida impressão que as verias sentadas nas mesas ao lado de seus novos amores – felizes e rindo – enquanto eu sentindo no fundo da minha lama tristeza de estar sem ninguém – triste a minha sina. Pago pelos meus pecados. Será que não encontrarei mais uma mulher para chama-la de minha. Che tristessa! 21:45 – Ao assistir uma cena da novela, lembrei-me de uma que passei com Madame Rameaux num quarto da Pousada Nazaré, o ‘nosso ninho do amor’. Foi outra que me relaxou por que eu era liso, trocou-me por um baixinho motoqueiro. A alegria floresce em minha alma por que acredito que um dia a minha sorte vai mudar. Ainda bem que tenho um mundo paralelo, onde posso me refugiar e viajar por lugares que nunca irei e conhecer pessoas interessantes – Bruxelas, Petersburgo, la Mancha e Bath são os meus destinos....
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