
À Espera Dos Pássaros
Data 13/01/2026 13:50:59 | Tópico: Poemas
| Despertou e olhou para o relógio pregado na parede: seis horas da matina. Como de costume, levantou-se e foi ao banheiro. Lavou o rosto, escovou os dentes e penteou os poucos fios de cabelo que lhe restavam. Ao voltar ao quarto, reparou que o relógio ainda marcava seis horas. Teria estragado?
Pegou o celular que carregava na tomada. Estava desligado. Tentou ligá-lo. Nada. Supôs que a energia elétrica tivesse faltado durante a madrugada. Apertou o interruptor da lâmpada. Nenhuma resposta. Confirmado.
Vestiu a farda e desceu os degraus rumo ao carro. Pela posição do sol, calculou que fossem seis e meia. Entrou no veículo e girou a chave. Nada. Tentou outra vez. O painel permaneceu morto. Nenhuma luz, nenhum som. O carro também não funcionava.
Vociferou impropérios contra os deuses e contra os homens. Saiu do carro e foi para a cozinha. Resolveu fazer um café. O fogão não acendeu.
A inquietação crescia — sobretudo pela ausência da internet. Morava em área rural e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se isolado do mundo.
Não demorou e acordaram a esposa e os filhos. Contou o ocorrido. A família entrou em desespero. Como viver sem televisão, sem geladeira, sem redes sociais? A mulher caiu em prantos e recolheu-se ao quarto. O filho mais novo batia o tablet no chão, como se pudesse ressuscitá-lo à força. O mais velho andava de um lado para o outro, olhos agitados, mãos tensas, já à beira da violência.
Ele sentou-se no sofá, cotovelos apoiados nos joelhos, os dedos enfiados nos cabelos. O que teria acontecido?
Foi então que reparou numa flor bonita sobre a mesa. Parecia morrer por inanição, já sepultada dentro de um jarro de porcelana ricamente ornamentado com caracteres asiáticos. Nunca havia reparado nela. Nem sequer sabia o nome. Foi até a pia, encheu um copo de água e deu de beber à planta, como se cumprisse um rito tardio.
Depois, abriu a porta e olhou para o céu, quase num pedido de milagre — não sabia bem a quem. Percebeu, com certo espanto, que havia muito tempo não levantava os olhos para a abóbada celestial. O dia estava bonito: céu azul, sol radiante, nuvens corredias e acarneiradas atravessando a atmosfera.
Baixou o olhar e deu-se com uma gameleira elegante e frondosa que aflorava no quintal coberto de relva verdejante. Um sem-número de pássaros cruzava o céu em revoada; alguns pardais beliscavam pomos maduros espalhados pelo chão. Apanhou um deles, provou. Achou delicioso. Havia muito tempo que só comia e bebia coisas embaladas.
Uma cadelinha bem preta surgiu no portal da casa. Por um instante, não se lembrou do nome dela. Chamou-a como os homens chamam os cães. Ela veio ligeira, rebolativa, orelhas baixas, cauda alegre, e lambia-lhe as mãos com devoção antiga. Ele a tomou no colo e sentiu o peito encher-se de uma ternura esquecida.
Sentou-se no gramado e ficou ali, aguardando que os pássaros em revoada regressassem.
A esposa observava a cena pela janela do quarto. Os filhos também. Desceram. Sentaram-se junto dele. A mulher pousou o braço sobre seu ombro; os filhos se achegaram. Permaneceram todos em silêncio, fitando o horizonte, encantados com a beleza do dia, aguardando o regresso dos pássaros de arribação, enquanto repartiam, sem pressa, os pomos maduros.
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