
Vejo olhares
Data 23/01/2026 15:32:06 | Tópico: Poemas -> Reflexão
| Eu ando pelo mundo prestando atenção Em olhares que eu nem sei o nome. Há algo de ancestral nesse hábito, Como se o passado ainda respirasse No intervalo entre um piscar e outro. O olhar precede o nome: Ele chega antes de qualquer vocabulário, Antes da árvore genealógica, Antes das biografias que inventamos para caber. O nome é uma convenção tardia; Os olhos são o primeiro idioma. E nesse idioma, ninguém é exatamente quem diz ser. Vejo olhares que pedem absolvição, Olhares que tentam disfarçar a própria vertigem, Olhares que não suportam o peso da consciência E desviam antes de serem flagrados. Alguns olhares guardam perguntas Que ninguém ousou formular; Outros, respostas que jamais serão pronunciadas. Se o mundo tem um alfabeto secreto, Ele está nos olhos, Um léxico sem gramática, Movido por hesitações, por sustos, Por pequenas intenções que a boca não assume. E eu, que não sei o nome de ninguém, Coleciono esse idioma sem dicionário, Feito de ecos que não se repetem. Talvez seja por isso que os olhos cansam: Porque carregam tudo que escapa à linguagem, Tudo que não pode ser lembrado Sem antes nos ferir. No fim, olho por olhar, Sem esperar conclusão. Pois talvez o sentido não esteja no que se revela, Mas no fato de que algo insiste em olhar de volta. E então compreendo: Não sou eu quem observa, Sou observado pelo mundo, E o nome disso, se é que existe, Não cabe em nenhum nome. Poema: Odair José, Poeta Cacerense www.odairpoetacacerense.blogspot.com
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