
Pai José - Senhor Ferreira e Marie - XXII
Data 24/01/2026 19:22:02 | Tópico: Textos
| XXII Monsieur Ferreira e Marie
Aluguei um quarto mobiliado na Pensão de Dona Joaquina, um casarão de um andar com quatro janelas com varandas. Localizada no meio da Travessa da Lapa entre as ruas Afonso Pena e Palma. Meu quarto era estreito e em frente da escadaria. Havia uma cômoda perto da porta onde coloquei minhas roupas nas gavetas, uma cama de solteiro encostada na divisória e uma pequena mesa. O banheiro no fundo do corredor. Escondi meu dinheiro em uma caixa de sapatos e guardei na última gaveta debaixo das toalhas de banho. Andando a Rua Manga no Portinho, consegui um emprego no deposito do Sr. Ferreira. Comprava e vendia garrafas. O forte cheiro misturado com brandy e vinho barato inundava o ar abafado. Meu trabalho era ensacar e lavar os litros e arruma-los no fundo do depósito até chegarem os caminhões. Meu chefe era alto, forte , honesto e simples. Morava no Caminho da Boiada.Eu acordava às seis e meia quando a corneta no quartel da Polícia Militar tocava. Levantava e banhava na água fria do tanque. Às sete bebia o café da manhã na mercearia de Dona Honoria. café e leite com dois pães, queijo e mortadela. Às oito horas estava na frente do depósito esperando por Sr; Ferreira, chegava no carro conduzido por seu filho mais velho. "Bom dia, Joseph", cumprimentava-me dando as chaves para abrir cadeados das duas portas. – Respondia-lhe "Bom dia Sr. Ferreira!". Ao meio dia, seu filho trazia nosso almoço e por volta das cinco horas fechava o deposito e entrega-lhe as chaves. Então seu filho vinha buscar-lhe no carro. Jantava no restaurante da Dona Maria, no canto das travessas da Lapa e o beco do Portinho. Pagava por mês e todas as noites era o mesmo menu: arroz, feijão, macarrão e assado. Saía do restaurante ainda com fome, entrava na mercearia de Dona Honoria e comprava três pães com manteiga. Subia a travessa até a esquina da Rua Afonso Pena, no "Mata-Homem", onde me sentava para jogar dominó com pessoas conhecidas. Às dez horas da noite, retornava para o meu quarto. Dona Joaquina fechava a porta às onze horas. Um dia vi uma jovem que morava e trabalhava com um casal na mesma travessa e passava todas as noites vindo da escola noturna. O nome dela era Marie, era pequena, um pouco gorda, morena com cabelos pretos lisos. Eu me apaixonei por ela. Uma noite, o dominó terminou cedo, fiquei sozinho ao canto da casa dos Carvalhos, a rua estava deserta ... Eu a vi voltava da escola “Bom dia, Dona Marie!” Cortejei-a em voz baixa quando dobrou o canto. Ela parou então. - "Boa noite, senhor", assentiu, olhando para mim. - "Você me permite falar com você? " - "Diga” Fiquei intimidado e não consegui dizer mais uma palavra. Me desculpei, e continuou o caminho para casa.. Um mês depois, numa noite de sábado, a encontrei, vindo de uma festa de aniversário. Eu estava um pouco bêbado, e declarei-lhe meu amor e a convidei para passar a noite comigo no meu quarto e para minha surpresa, aceitou. No dia seguinte, fomos juntos a casa de seus patrões para dizer-lhes que íamos morar juntos ... Aluguei um quarto no antigo prédio da Rua da Palma. Nosso apartamento era no antigo pátio,. O Sr. Ferreira pediu a um de seus amigos, proprietário de uma loja de móveis de segunda mão, que me vendesse a crédito uma cama de casal, um fogão e um armário. A mesa com os dois bancos de madeira foi feita por um amigo carpinteiro, seu nome era Totonho, e a oficina no andar térreo do prédio do Seu Alexandre, o russo na Travessa Feliz .. Foi um ano de felicidade, mas Marie fez amizade com umas vizinhas que moravam no primeiro andar, e as coisas mudaram de água para o vinho. Quando chegava às cinco horas, Marie nunca estava na quarto. Encontrava-se no apartamento de suas novas amigas. Estávamos em junho, a noite de São João. Eu tinha bebido vários copos de conhaque e adormeci cedo. Acordei por volta das quatro da manhã e ela não estava na cama . Preocupado, levantei-me, abri a porta, mas nada. Somente o ronco dos vizinhos ... Preocupado, sem saber o que fazer, decidi ir buscá-la. A rua estava deserta, carros estacionados na calçada.Desci para o arraial junino na Praça. Mas passando por um bar, surpresa. Ela estava lá dançando com um homem desconhecido e suas amigas estavam com outros homens, sentados à mesa e bebendo cervejas com eles. Olhei para o estranho, um moreno bem vestido sussurrava na orelha de Marie. E ela gargalhava. Travei e, em um instante, apertei meus passos em direção a eles dançavam um bolero de Waldik Soriano. Aproximei-me por atrás dela e toquei no ombro dela. Pararam de dançar e ela se virou para mim, afastando-se do homem e colocando as mãos nos quadris: - "O que você quer? "- Perguntou com um rosto irritado. Suas amigas pararam de conversar e nos olhavam. "Vamos pra casa", Ordenei com uma voz hesitante, eu estava muito nervoso. Ela olhou para mim com um olhar de raiva e me cutucou com o dedo, no meu peito, então determinou: "Vá você e me espere lá!” E ela virou as costas para mim e voltou a dançar com o estranho. Fiquei plantado com o rosto de um palhaço. Olhei por todos os lados, e vi que todos riam de mim Como um cachorrinho, coloquei o rabo entre as pernas e saí do bar com a cabeça baixa cheio de vergonha. Que humilhação! Eu voltei para o quarto muito triste. Deitei-me , mas não consegui dormir de tanto pensar na cena humilhante. Marie chegou na hora da corneta anunciando a alvorada Era seis horas.Deitou-se, não falou nada e dormiu. Angustiado acordei e fui para trabalho, o Sr. Ferreira percebeu minha tristeza e me perguntou o que estava acontecendo, lhe contei toda a verdade e ouviu-me atentamente. - "Joseph, larga essa mulher, ela não te ama!” Aconselhou-me seriamente.. Quando voltei ao quarto, Marie não estava lá, ouvi sua voz no apartamento acima e um som de copos e garrafas. Seu Ferreira me emprestou algumas sacolas onde arrumei as minhas roupas, meus livros e meus cadernos, e saí silenciosamente. No corredor perto da porta da rua, encontrei uma de suas colegas com uma sacola de garrafas de cerveja. "Seu Joseph, o senhor vai viajar?” Interpelou-me com ironia e escárnio "Sim, eu vou viajar", respondi, contendo-me furiosamente e saí enquanto ela ria. Seu Ferreira alugou outro quarto para mim na pensão de Madame d'O, na mesma rua do depósito. Ele era como um pai, ele gostava muito de mim. Marie apareceu duas vezes procurando por mim . E meu amigo lhe disse que estava viajando
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