
Vila Embratel - praça das sete palmeiras - III
Data 25/01/2026 16:56:54 | Tópico: Textos -> Amor
| III
Era quase meio-dia. As lojas começavam a se arrumar para fechar. Os estudantes em bando passavam alegremente, assim como os pequenos segurando as mãos de suas mães ou acompanhantes. O movimento intenso dos veículos. Um senhor moreno magro, de cabeça oval com uma barbicha rala enchia uns baldes na torneira e os colocava no carro de mão. Os pardais ciscavam a areia no canteiro. O céu azul e sem nuvens. Um soldado sentado numa cadeira na porta do trailer da PM estacionado no muro dos Leites, na lateral da praça. Seu Queiroz, proprietário da papelaria e lan-house na esquina da rua dezoito, fechava o portão acompanhado pela sua esposa. Na loja de móveis, os vendedores conversavam na porta. As mototáxis estacionadas sobre a calçada do mercado ao lado do sacolão de Merete onde alguns clientes faziam compras sob o olhar vigilante do filho dele. No canto do portão da feira seu Valdecir esperava o funcionário passar o cadeado na porta. Ao lado, no outro sacolão, seu Nezinho cobria os tabuleiros com um encerado amarelo. Os taxistas em pé ao lado de seus taxis estacionados sobre a calçada da praça. Debaixo da frondosa mangueira, numa protuberância do grosso caule, General Perneta observava alguns passageiros no abrigo metálico da parada. Uma viatura da PM contornou o canto da rua dezessete e parou em frente ao trailer. Um soldado desceu, abriu a porta traseira e retirou uma sacola com dois bandecos e entregou ao colega que levantara para apanhá-la e guardar dentro do trailer. Dr. Osvaldo deixara a moto Honda reluzente debaixo do toldo e desceu cheio de ginga com a chave na mão, fazendo charme. Os caras estavam todos sentados ao redor da garrafa e conversavam amenidades. Gato piscava a todo momento. Pezinho, encostado no canto, os olhos esgazeados de álcool, balbuciava umas injurias, estava zangado com alguma coisa que acontecera no mercado enquanto lavava os boxes e de vez em quando, para aliviar, entornava umas doses no finado Bispo. Mas ninguém ligava, todos já estavam tocados. Quatro garrafas vazias encostadas ao lado deles. - Ê, meninos do Brasil - saudou ironicamente Dr. Osvaldo, os olhos vermelhos e a voz um pouco embargada. Apertara ‘unzinho’ em casa e viera fazer uma hora para almoçar. - Tudo bacana, Dr. - responderam em coro. - Vocês já mataram esse otário? – apontou com o beiço, para o chilado Jorginho deitado- Eu tô fudendo a irmã dele – vangloriou-se. – Cadê a cachaça? Um moreno de barba grisalha com um caderno e um livro na mão contornou pelo outro lado. - E aí, poeta? – saudou Gato. – É o nosso poeta. - Tranquilo – respondeu. - E aí, Dr. Osvaldo? - Na boa, professor Raimundo – Eles eram íntimos, conheciam-se há muito tempo. - Cadê a cachaça? – perguntou ao ver as garrafas na parede. - Acabou ainda agorinha, professor – respondeu penalizado Jamanta. Professor ou Poeta tirou do bolso da bermuda uma cédula de cinco reais e entregou para ele que se alteou, passando a mão na bunda para limpá-la. - Esse é o nosso poeta! – apanhou a cédula e ficou hesitando em pé, meio atarantado sem saber onde ir comprar, a maioria das quitandas estava fechando. Gato levantou-se e tomou a nota das mãos dele. - Me daqui otário, vou rapidinho no seu Raposo – e saiu com passos estugados na direção da feira. Poeta sentou-se no banco onde Dr. Osvaldo estava, de frente para a avenida. - E aí, Dr. Osvaldo como vão as coisas? - Pra mim elas estão sempre boas, estou chilado e com um troco no porão. Professor Raimundo, aqueles otários tudo têm inveja de mim -apontou para o canto do mercado, onde tinha umas motos estacionadas sobre a calçada. – Eles não gostam de mim e eu também não morro de amores por eles, eu quero é que se fodam. Eu tô na boa. Sou aposentado. Sou malandro esperto do Rio de Janeiro, Botafogo. Tu sabes, tu me conheces, sou bom de negócio e eles são uns fodidos. – Levantava e andava de um lado para o outro com ginga, dando um chute no vazio. - Moleque, eu, eu sou bom de negócio – repetiu. – E aqueles otários ficam com raiva e não querem que eu bote a moto lá. A minha é uma Ferrari, as deles todas fudidas. Tu sabes como é, o senhor é homem de jornal, menino inteirado do Desterro, tu também és bom de jogo. Gosto de conversar contigo, só papo bacana. As pessoas te olham, assim todo desmazelado e lanzudo, e nem imaginam a tua capacidade. Por isso que te chamo professor. Gosto de ti, camarada – deu uma cusparada. Gato avizinhou-se rapidamente, suado, com a garrafa e um cigarro aceso nos lábios. - Taqui, Professor. - Bota na roda – ordenou e Gato a levou e botou no meio do grupo. - Valeu, Professor – conclamou a rapaziada satisfeita e alegre. Professor caminhou até eles e sentou-se no meio-fio perto de um dos canos de sustentação de toldo que contorna os dois bares. Bacana permaneceu em pé. Professor serviu-se de uma boa dose, entornou e engulhou, quis voltar, mas segurou. - Segura, Professor – disse Gato. – A primeira desce quadrada. Professor entregou o copo para Troira. - E aí quirancias, cadê a pura? Era a voz fina, quase inaudível de Matraquinha, apoiando-se na parede ... - Taqui, Matraquinha – assentiu docilmente Gato. Matraquinha se agachou ao lado de Pezinho que cochilava de boca aberta, um filete de baba escorrendo-lhe pelo canto da boca. Gato encheu o copo pela metade e deu-lhe. Sem cerimônia, virou de vez num gole só. Nem cuspiu ou fez cara feia. Dr. Osvaldo bebeu, despediu-se. Mas antes chamou Professor e o convidou para a noite ir fumar unzinho na casa dele. Professor concordou. - Mas vai mesmo, tem uma boa. – Subiu na moto deu a partida e a manobrou com dificuldade, até a pista. Um soldado PM que estava de plantão no trailer entregou uma sacola para Jamanta com dois bandecos. -Obrigado, autoridade – agradeceu humildemente, fazendo uma pequena reverência. Os outros arregalaram os olhos de contentes. - Esse aí é gente boa. Mas aquele negão é uma filha da puta e brabo - comentou Gato - Guarda esse de Pé – disse, levantando-se e o guardando debaixo de uns farrapos e colocando no fundo da caixa, encostando-o perto das cadeiras. Jamanta abriu o bandeco, era daquele tipo bandeja – uma porção de arroz branco, feijão, macarrão, um bom empanado de frango, um apetitoso bife e o saquinho de farofa. Jamanta cutucou Jorginho. - Levanta, bicho, vamos comer. Jorginho sentou-se ainda sonolento e bocejou. E sorriu ao ver o bandeco. Cada um dava uma colherada e comia sem muita pressa. - Vamos, poeta! Convidou Gatinho com a boca cheia de farofa espalhada na rala barba. - Não, obrigado. Guten Appetit! – agradeceu e serviu-se da segunda dose. Na quarta dose entraria em alfa e na quinta, em amnésia. Poeta ou Professor nascera e se criara no centro, no bairro do Desterro. Os pais foram abastados comerciantes. Depois de dois vestibulares malsucedidos resolveu aprender uma profissão. Escolheu a do pai: serralheiro. Juntos montaram uma oficina no fundo do quintal. Mas sempre acreditando no sonho de ser escritor, que começara aos dezessete anos. Com o declínio do bairro, os pais venderam o casarão, se aposentaram e foram morar no bairro burguês do Cohatrac. Ele permaneceu no Portinho onde o pai montara outra oficina. E nas reviravoltas da vida viera a morar na vila com sua segunda companheira, a eterna Senhora Van Os pais, forçados pelos aumentos abusivos da prestação da casa, venderam-na e vieram também para cá. Depois de dezoito anos separou-se da mulher e voltou para a casa paterna. Tinha uma pequena serralharia na descida da avenida onde trabalhava somente pela manhã. A tarde dedicava-se a escrever, mas na maioria das tardes se embriagava e dormia. Gostava de apertar unzinho. Autodidata, aprendera francês e colaborava num jornal da cidade. Era tranquilo.
|
|