
A Nova Vizinha
Data 27/01/2026 02:56:17 | Tópico: Poemas
| Capítulo I – A Vizinha
Eram duas horas da manhã e ela não pregara o olho. O barulho era insuportável. Não entendia — e menos ainda suportava — o som que reverberava da mansão vizinha. Ao se levantar, percebeu que o marido roncava uma melodia antiga , conhecida e quase, digamos, reconfortante. Foi até a janela e, mais uma vez, surpreendeu-se com a ostentação: carros importados e jovens estranhos faziam arruaça dentro do condomínio. Era outra festa em plena quarta-feira.
A vida já não era a mesma desde que aquela influencer se mudara para o Recanto do Sossego — que agora, ironicamente, parecia um palco de tortura chinesa. Camilinha viera da Baixa Pampulha, de um bairro chamado Shangrilá, que, apesar do nome mítico, figurava entre os mais pobres e violentos da Grande BH.
Antes não era assim. Na Alta Pampulha, lugar de gente educada, de família tradicional e cristã, não se viam tais disparates. Tudo mudara quando pessoas da periferia passaram a ter acesso aos privilégios que antes eram exclusivos das diluvianas castas mineiras. Camilinha era carismática; seus vídeos engraçados viralizavam, atraindo anunciantes e uma ascensão tão rápida que, em apenas um ano, permitiu-lhe comprar aquela mansão no famoso "Recanto do Sossego", o mais renomado da região.
A mãe de Camilinha trabalhara ali, justamente naquele condomínio, por vários anos. Não foram poucas as vezes que a menina a acompanhava e ficava pelas cozinhas das madames, invisível, comendo pelos cantos, algum resto de broa ou pão dormido. Agora, era proprietária de uma residência dentro daquele condomínio onde, um dia, sua mãe fora funcionária e, Camilinha, sabia desfrutar da oportunidade. Gostava de funk — o ritmo que retratava sua origem — e, agora enriquecida, não esquecia as raízes: quando festejava, trazia os amigos da Baixa Pampulha e outros influencers que, como ela, também tinham ascendidos.
Já a Mulher da Janela nascera na Alta Pampulha. Fora educada nos melhores colégios e, com sacrifício e mérito, formara-se em medicina aos vinte e quatro anos. Doía-lhe ver o Recanto ser "invadido". Os bárbaros não teriam causado maior dano a Roma do que aquele povo vinha causando ao condomínio.
Sem suportar o desaforo, ligou para o 190. — Polícia Militar. Em que posso ajudar? — Quero fazer uma denúncia anônima, urgente. Som alto no Recanto do Sossego em plena madrugada impedindo as pessoas que movimentam as engrenagens deste país de terem o descanso merecido.
Aguardou. Em menos de uma hora a viatura policial chegou. Observou a abordagem por trás do blindex italiano, fria como o vidro que a protegia. O som cessou. Um sorriso leve surgiu em seu rosto enquanto as primeiras luzes do dia filtravam pela veneziana. Apenas o ronco confortante do marido ecoava no recinto. Ela fechou as cortinas e, enfim, deitou-se feliz. O silêncio retornara ao Recanto.
|
|