
O Roubo dos Poemas
Data 04/02/2026 08:25:03 | Tópico: Textos -> Desilusão
| Ele trabalhava com as mãos sujas de graxa e o bolso cheio de palavras. Durante o dia, o ruído das máquinas; à noite, o silêncio do papel. Escrevia poemas em folhas soltas, guardanapos esquecidos, margens de cadernos velhos. Não escrevia para ser famoso — escrevia porque, se não o fizesse, sentia que algo dentro dele se desfazia. Os amigos sabiam. Riam-se, elogiavam, diziam que aqueles versos “tinham valor”. Um deles, mais prático, aconselhou-o: devia registar os poemas, proteger a autoria. O poeta assentiu, animado, até ao dia em que entrou no balcão certo e ouviu o preço. Saiu de lá menor, como se lhe tivessem arrancado um verso do peito. Era caro demais para quem contava moedas no fim do mês. — Não te preocupes — disseram os amigos. — Nós tratamos disso. Temos dinheiro. É só uma formalidade. Ele acreditou. Acreditava porque ainda não tinha aprendido a desconfiar de quem lhe batia no ombro com demasiada facilidade. Os meses passaram. Continuou a trabalhar, a escrever, a confiar. Um dia, numa pequena celebração improvisada, ofereceram-lhe um livro. Capa simples. Nome desconhecido. Um novo poeta, disseram, alguém promissor. Ele sorriu por educação. Só começou a ler em casa. No primeiro poema, sentiu um arrepio. No segundo, o coração acelerou. No terceiro, já não havia dúvida possível. Cada verso era seu. Cada pausa, cada imagem, cada ferida exposta. Reconhecia até os erros que nunca corrigira. O nome na capa, porém, não era o dele — era um pseudónimo elegante, vazio como um espelho que não devolve reflexo. No dia seguinte, foi procurá-los. Encontrou apenas mensagens truncadas, chamadas sem resposta. Quando chegou ao aeroporto, já era tarde. Viu-os ao longe, para lá do vidro, leves, sorridentes. Um deles levantou o livro no ar. Outro acenou com os passaportes, como quem se despede de um negócio bem-feito. O poeta tentou gritar, mas a voz ficou presa. Ali, entre partidas e chegadas, percebeu que lhe tinham roubado mais do que poemas. Tinham-lhe roubado a confiança — essa matéria-prima que não se regista, não se vende, e raramente se recupera. Voltou ao trabalho no dia seguinte. As máquinas continuavam ruidosas. À noite, voltou ao papel. Escreveu de novo. Agora, porém, cada verso carregava uma verdade mais dura: a de que nem todos os ladrões roubam no escuro — alguns fazem-no à luz da amizade. E esses são os que deixam as feridas mais fundas.
(Cortesia dos algoritmos da IA.)
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