CAFÉ AMARGO

Data 04/02/2026 09:16:18 | Tópico: Textos -> Esperança

CAFÉ AMARGO

Ela era uma mulher deslumbrante, daquelas que chamam a atenção até das estátuas. Tinha nos olhos um brilho de quem já conheceu o amor — e também a dor. Divorciada havia dois anos, morava sozinha num apartamento elegante, herdado da separação. Frequentava cafés discretos, lia romances franceses e escondia nas entrelinhas dos seus suspiros um segredo: estava apaixonada.
Não por um empresário ou um artista. Não por um homem de status, como os que costumava conhecer em jantares ou galerias. Mas por ele, um simples funcionário de escritório, modesto e retraído, que trabalhava no prédio em frente ao dela. Ela observava-o todos os dias pela janela, sempre de camisa amarrotada, olhando para o nada com um misto de cansaço e nobreza. Havia nele uma beleza rara, algo que nascia da resistência silenciosa ao desespero.
Ele, por sua vez, também a via. Era impossível não a ver — uma aparição etérea entre cortinas de linho branco. Quando ela atravessava a rua, seu coração perturbava-se com emoção. Não era apenas a beleza dela, embora fosse hipnotizante. Era a maneira como ela carregava o mundo com leveza, como se dissesse: "Sim, a vida me bateu, mas veja — ainda estou de pé."
Mas ele tinha um problema: não tinha dinheiro. A empresa onde trabalhava estava à beira da falência, e ele estava há vários meses sem receber. Mal conseguia pagar a renda do quarto onde dormia, quanto mais convidar uma deusa para jantar.
Ele rezava em silêncio, às vezes com humor amargo:

— Senhor, que pouca sorte a minha… logo agora que conheci a mulher mais bonita do mundo?
Certo dia, ele cruzou com ela por acaso na porta do prédio. Ela sorriu.
— “X”, não é? — disse ela, como quem já ensaiava essa frase há semanas.

— Sim… como sabe o meu nome? — respondeu ele, com a boca seca e as mãos nervosas.
— Eu o vejo. Todos os dias.
Ele não soube o que dizer. Ela continuou:
— Quer tomar um café comigo?
Ele corou.
— Olhe… eu… estou numa fase difícil. Não tenho como pagar nada, nem um café sequer.
— Ótimo — disse ela com um sorriso enigmático. — Hoje eu pago. Um dia, quem sabe, serás tu.
— Mas não fica mal para ti? Quero dizer…

— A única coisa que fica mal — ela interrompeu — é passar a vida escondendo o que sentimos.
E assim foram. Um café simples, numa esplanada de esquina. Nada de velas ou talheres de prata. Mas ali, entre goles e olhares, começou algo que nem a falta de dinheiro poderia impedir: um amor sincero.



AJSN


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