
O Diário de Aparício Anastácio Terra
Data 16/09/2026 22:42:21 | Tópico: Poemas
| "A dignidade de movimento de um iceberg deve-se ao fato de apenas um oitavo dele estar acima da água." (Ernest Hemingway)
"Onde houver trevas, que eu leve à luz." (São Francisco de Assis)
E Virgílio, meu guia, conduzia-me pelo caminho das sombras, mostrando o que o coração não esquece. (Dante Alighieri)
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De: Lucciano Guido Lucero Para: veridianopassos22.12.45@hotmail.com Enviado: 30 de dezembro de 2009 Olá, Dagoberto. Venho por meio desta para desejar um feliz 2010 a você e à sua família. Que o ano seja de muita luz, sabedoria e perseverança! Aproveito a oportunidade para lembrá-lo de que a demolição da Casa de Repouso Portal da Esperança, no centro de Barbacena, está marcada para segunda-feira, 4 de janeiro de 2010, a partir das dez horas da manhã. Você foi o escalado para cobrir o evento inédito em nossa região. O Jornal da Cidade conta com seu comprometimento e com sua proficiência jornalística.
Desfrute do restante do recesso.
Atenciosamente,
Lucciano Guido Lucero Editor-chefe
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05 de janeiro de 2010
Fui convocado pelo Jornal da Cidade para acompanhar a demolição da centenária Casa de Repouso Portal da Esperança, situada no coração da conhecida Barbacena. Chegando lá, deparei-me com outros jornalistas cobrindo o acontecimento e com uma pequena, porém frenética, multidão. A Guarda Municipal e a Polícia Militar formavam um cordão de isolamento humano. Enquanto isso, caminhões basculantes encardidos e tratores ensurdecedores aguardavam o desfecho do episódio. O protesto, consabidamente, não teve a eficácia prometida. O Oficial de Justiça, com o indicador da mão direita em riste e com a outra segurando uma liminar expedida pelo juiz de plantão, exigiu o imediato cumprimento da lei.
O Estado construiria uma repartição pública no lugar da instituição asilar. O Departamento de Organização das Dimensões das Faixas de Veículos Automotores (DODIFAVA) seria responsável pelas cores e medidas da sinalização horizontal em todas as frotas oficiais. Apesar dos esforços de algumas organizações sociais barbacenenses, não foi possível evitar a implosão do obsoleto complexo pavilionar. Em apenas 15 segundos, todas as edificações vieram ao rés-do-chão. Restaram apenas entulhos e ferros retorcidos, entrelaçados ao bolor dos escombros.
Meu instinto de repórter dos anos de chumbo, irrequieto e curioso, vaticinava que eu não deveria partir. Permaneci por ali, em meio à poeira e ao som das sirenes, vasculhando os vestígios, entorpecido pela morrinha do monturo. Tateando com as pontas dos pés sobre os resíduos de concreto, tijolos e blocos, percebi um modesto embrulho firmemente amarrado com gomas elásticas. Tirei o excesso de pó da maçagada, acomodei-a dentro da Pasta Capanga e, por fim, guardei tudo dentro da minha surrada Samsonite.
Em casa, refeito da má impressão que a derrubada do Portal tivera sobre mim, resolvi desamarrar os elásticos para observar melhor a descoberta. Era um maço de reminiscências manuscritas. Eram anotações de alguém que estava hospedado no asilo e que registrava, não de forma contínua, a sua vivência passada e cotidiana. A primeira missiva estava um tanto amarelada, todavia muito bem preservada. Tomado pelo assombro e pela curiosidade, resolvi lê-las uma a uma. Iniciavam-se assim:
12 de outubro de 1959
Meu nome é Aparício Anastácio Terra. Nasci no dia 29 de fevereiro, dia que se repete tão somente de 4 em 4 anos, no ano 1880, ano zero do Realismo brasileiro. Vim ao mundo antes da Abolição e da Proclamação da República, à beira do Rio Doce, na pequena Resplendor. Fui vaqueiro, balseiro, criador de porcos e de bois e, por muito tempo, lavrador. Entrementes, por ter sido coroinha da paróquia da cidade, aprendi as primeiras letras com um padre francês que viera lecionar no Santuário do Caraça e que depois fora enviado para o meu torrão natal. Casei-me aos 21 anos com Maria Rute, três anos mais nova, e com ela vivi até o ano passado. Infelizmente, ela atendeu ao chamado Divino após uma capciosa convalescença, dois anos depois de completarmos bodas de esmeralda. Celebramos uma relação afetuosa, duradoura e de respeito mútuo. Tivemos um casal de filhos. Benedito Antínoo nasceu em 1903 e Antônia das Graças, em 1918, no dia de São Judas Tadeu, cujo milagre na concepção remeteu-me ao romance "Marcoré", lido recentemente. Tenho o hábito de anotar certos acontecimentos em minha vida e acho que o meu primeiro dia no asilo é digno de registro.
02 de novembro de 1959
Dia dos Finados. Nada mais irônico para quem está hospedado em um asilo. Veio -me à cabeça o compêndio do poeta florentino. Irei deslizando minha pena sobre o papel, tentando descrever em lúcidas linhas as impressões sobre onde estou acomodado momentaneamente. De modo que, irei de acordo com minha capacidade de observação. Tentarei relatar o movimento das engrenagens deste mecanismo, das divisões nas tarefas dos funcionários, nas hierarquias e nas alas específicas para os pacientes desta casa, que agora já posso chamar de minha. Nestes dias infindáveis de ócio, tenho sido mais detalhista.
Quem chega à entrada da Casa de Repouso depara-se com um portão em forma de arco, de ferro fundido, de proporções monumentais. Lembra coroas de espinhos entrelaçadas. O umbral é vigiado por seguranças com uniformes idênticos, que mais se assemelhavam a três traiçoeiros cães de guarda. Quando passamos pelo pórtico, os guardas nos tratam muito bem, mas quando eu peço para ir na praça em frente, eles dificultam o acesso. No centro do letreiro da entrada letras escarlate exibem o nome "Portal da Esperança", porém, logo abaixo, um dístico em italiano diz: "Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate". Quando de frente a entrada, veio-me à memória a famosa citação do pai de Sérgio: "Aqui dentro, meu filho, encontrará o mundo", ou seria o submundo?
No quinto andar costumam repousar os pacientes mais irascíveis. Quase nunca descem para o pátio central, mantendo-se isolados, como se suas emoções estivessem contidas entre paredes e corrimãos, invisíveis à maioria. O quarto andar, por sua vez, é reservado para os hóspedes mais abastados. Estranhamente, são também os mais esquecidos. Nunca vi ninguém visitando aquela ala do asilo, como se o peso das posses tivesse soterrado o afeto e a memória em um silêncio quase sagrado.
Os andares são muito bem divididos para o melhor cuidado dos idosos de acordo com as polipatologias de cada um e para facilitar o trabalho dos médicos e dos enfermeiros. No terceiro andar situam-se as pessoas com obesidade mórbida, que exigem equipamentos especiais e monitoramento constante. O acesso só é permitido para os funcionários da Casa.
No segundo andar do complexo ficam os idosos que ainda estão em condições de locomoção ativa e exigem menos cuidados. São pessoas que ainda conseguem manter a vaidade em dia, senhoras bem arrumadas, que ainda têm a preocupação de manter o penteado, as unhas sempre bem cuidadas e senhores que ainda carregam a juventude luxuriosa já adormecida.
O Portal da Esperança também é ecumênico e laico, mas no primeiro andar a direção situou os idosos de outras religiões que não cristãs, para evitar conflitos com os ortodoxos, já que a paróquia do asilo fica no térreo. Não necessitamos de óbolos para a travessia de uma ala para a outra. Somente os funcionários especializados transitam neste Aqueronte.
Agora que eu demonstrei em poucas palavras as divisões que percebi por aqui, continuarei meus relatos, mas em outro dia, pois já é tarde da noite e os efeitos colaterais dos meus remédios me deixaram um tanto sonolento.
03 de novembro de 1959
Como sou muito detalhista, quero lembrar que o dia 03 de novembro é marcado pelo sufrágio feminino e pela morte da Marquesa de Santos, em 1867. Fica aqui o apontamento e o registro. Alguém disse que Garrett viajou pela sua terra e que Xavier de Maistre viajou pela roda no seu quarto. Quero deixar anotado a viagem de olhos que eu fiz pelo meu aposento.
Tem uma cama de ferro com regulagem de altura que fica no canto esquerdo de quem entra pela porta que dá direto ao corredor. Os lençóis são de um alvejante impecável. No lado direito, tem uma mesinha, também de ferro, que é ao mesmo tempo um arquivo. Ao lado da mesinha, uma pequena estante onde trago velhos e novos amigos literários. Na parede em frente à cama, há uma imagem de Cristo crucificado que parece sorrir e sempre me observando, onde quer que eu esteja. Também tem uma suíte com banheiro preparado para acolher idosos, com escoras. As paredes são de um azul que quase chega ao branco gelo. O conjunto da obra é semelhante a um quarto hospitalar. É como se a velhice fosse uma doença e não uma consequência natural.
05 de novembro de 1959
Já se passaram alguns dias desde que cheguei aqui. Não é de todo ruim. Tratam-me com decência e dignidade. Dão-me os remédios no horário correto. Durmo bem, pratico pequenos exercícios e não como mal. Percebo que sou só mais um hóspede nesta Casa. Parece-me que uns estão em estado pior que o meu.
Hoje o dia amanheceu chuvoso, mas no rádio (vi o primeiro em 1927) disseram que haveria sol à tarde. As emanações da terra molhada remeteram-me à Resplendor da mesma forma que um quadro na parede lembrou Itabira ao poeta. Recordei-me também das escandalosas anhumas em seus pascigos e passeios às margens do Rio Doce. Não posso deixar de citar os imponentes jequitibás e nem os pés dos deliciosos jenipapos que davam de comer aos tucanoçus, as aracuãs e as desajeitadas jacutingas. Tudo isso evoca-me as tardes saborosas deslizando com o fiel caíque sobre aquelas águas em busca dos surubins-do-doce, dos dourados, das traíras e dos pacumãs. As lembranças de outrora, daquilo que um dia foi, vêm e vão como as torrenciais chuvas de verão que deixavam mais caudalosas as doces águas do rio da minha meninice que nunca deixaram de correr, nem de morrer, dentro de mim.
Deixamos Resplendor e viemos para Barbacena em 1920, ano do desastroso governo de Epitácio Pessoa. Rute herdara uma pequena propriedade rural dos avós paternos. Iniciamos-nos na engorda de suínos e bovinos sem abandonar a avicultura. Depois nos aventuramos na produção de laticínios e investimos na pequena lavoura. Aproveitamos, igualmente, da localização privilegiada da cidade, com seu estratégico entroncamento ferroviário, para conclusão dos estudos preparatórios de Benedito. Barbacena ficava a quase meio caminho entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro. Por isso ele preferiu concluir os estudos na capital fluminense, o que fez com muito afinco, maternal dedicação, zelo exemplar e verdadeiro louvor.
Meu vizinho, do quarto 8, faleceu há dois dias. Tinha 88 anos. O acontecido reavivou minha memória e lembrei-me de que todos os meus amigos de Resplendor também foram "estudar a genealogia dos campos santos".
09 de novembro de 1959
Hoje o dia amanheceu um pouco melhor. Houve trinado de pássaros e o carteiro deixou uma carta endereçada a mim na recepção. Era do meu filho Benedito, dizendo que em meados de novembro viria me visitar e que Antônia e a doce Domitila viriam com ele. Meu coração se encheu de uma alegria nova e esquecida, tanta que meus fadigados olhos ficaram chuvosos.
16 de novembro de 1959
A data de hoje é simbólica. Meu filho não pôde vir. Vagarosamente desci as escadas e fui até a praça em frente ao asilo. Tenho amigos por lá, senhores aposentados que jogam xadrez e damas nos bancos apropriados para tanto. De repente, ouço gritinhos pueris de alguém chamando — Vovô! Vovô! Vovô!
Era minha netinha amada, acompanhada da babá. Antônia não veio. Domitila largou a mão de Aurora e veio voando em minha direção, saltitante, tilintando os duplos cincerros atados às pontas das longas tranças dos cabelos, expondo as coloridas meias 3/4. Parecia que tinha asas nos pés. Eu estava sentado no banco da praça, observando o espetáculo, quando a criança chegou cheia de graça, distribuindo sorrisos, toda ternura e coração; sentando em meu colo, beijando meu rosto e brincando com minhas tão enrugadas mãos. O nome dela, também fui eu quem o escolheu: Eleonora Domitila Iluminata Terra.
Ela se divertia com minhas mãos. Pareceu-me que as estranhava, enquanto admirava a textura enrugada delas.
Como fiquei feliz no dia de hoje! Aurora contou-me que minha filha precisou alongar o expediente. Não sei se eu disse lá em cima que Antônia cursou o magistério e formou-se professora. Caso não tenha dito, fica aqui o registro. Benedito é cardiologista. Ele optou por não contrair matrimônio nem a paternidade. Preferiu cuidar dos corações alheios e dos corações de outros Adrianos. Só eu e minha falecida esposa sabemos a dificuldade que tivemos para formá-los.
Domitila logo cabriolou do meu colo e foi brincar com uma poça de água. Tentou segurar o líquido com a mão. Ao perceber que era impossível prendê-lo entre os dedos, desistiu. Ela tem outras irmãs adultas, as Três Marias: Helena, Lúcia e Clara, uma constelação distante daqui, resplandecendo luzes cintilantes, porém, arrefecidas. Domitila é a "rapa do tacho". Só tem cinco aninhos. Agora o seu capricho é tentar capturar os raios de sol. Frustrada outra vez, faz beicinho de choro, mas não chora. Ao invés de chorar, olha dentro dos meus olhos, com 'um quê de Capitu', e pergunta-me o porquê de eu não morar mais com eles. Digo a ela que aqui tem pessoas especializadas para cuidar de mim, não assim com essas palavras, mas de forma mais infantil, para que ela pudesse compreender.
25 de dezembro de 1959
Natal. A administração do asilo enfeitou a sala principal, os quartos e os corredores com adornos natalinos e recebemos presentes. Meu genro Santiago (que tem menos do Santo e mais de Yago) enviou-me um par de meias e um cartão como quem busca um discreto alívio moral. Quase esbocei um sorriso ao ler a formalidade do cartão.
Ontem à noite ceamos e fizemos uma oração. Dona Soledad, a confinante do 6, lamentavelmente nos deixou anteontem. Ninguém veio me visitar. Não reclamo. Quase ninguém recebeu visitas.
01 de janeiro de 1960
Fim de uma década e início de outra. Juscelino está querendo mudar a capital para o centro do país e no centro deste asilo nada muda. Houve fogos na virada da noite. O mundo está mudando e nós estamos na estação esperando a locomotiva para nos levar para o "undiscovered country" de Shakespeare. Li a citação num livro de Machado de Assis. Nunca me saiu da cabeça. Muita água desaguou e aqui estou. Sobrevivi a duas guerras mundiais, vi o despontar da aviação, dos regimes autoritários e do sufrágio feminino. O tempo polvilhou os poucos cabelos que me restaram, diminuiu meus passos e calejou minhas mãos. Como é sofrível escrever estas notas com minha pouca visão.
20 de abril de 1960
Quarta-feira. Passei alguns meses na enfermaria, mas já estou restabelecido. A data é especial: Hoje é dia de visitas! Minha filha disse que viria com Benedito. A netinha também virá. São sete horas da manhã e estou que não me contenho de ansiedade.
Três horas da tarde. Eles chegaram! Neste momento as minhas mãos tremem tanto que mal consigo escrever estas palavras que, por hora, vou deitando sobre o papel. Minha filha me trouxe docinhos, meu filho, sorrisos, e Domitila, vida. Fomos os quatro para o banco da praça. Ficamos os três a admirar a vitalidade da menina, que corria entre os jardins, furtando flores e oferecendo-as, cheia de ternura e inocência. Amo os meus filhos e sei que eles amam o pai. Sei que o cotidiano afasta as pessoas umas das outras. Todos nós temos compromissos pessoais, financeiros e as despesas são recorrentes. A única forma de fugir à velhice é deixar o mundo pela manhã. É morrer jovem, pois quem se despede no solstício evita a penumbra que assombra e enregela quando o inverno se torna eterno.
Nos despedimos com lágrimas nos olhos e aperto nos corações. Quando estavam partindo, Domitila se virou e me deu um "tchauzinho". Disse que voltava semana que vem. Um misto de alegria e de tristeza profunda invadiu todo o meu ser. Fiquei completamente contemplativo, pensativo e me questionando: Até quando?
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05 de janeiro de 2010
Li e reli as confidências de Aparício. Confesso que meus fadigados olhos também ficaram chuvosos. Os outros escritos eram relativos às despesas domésticas, registros em francês sobre trechos de livros que ele havia lido (e não foram poucos) e algumas reminiscências relativas ao seu labor diário, todas observações dignas de comentários que, talvez, farei em outra ocasião. A minha curiosidade jornalística fez-me buscar por "citações de Machado de Assis" no Google. Não que eu não conhecesse o renomado escritor. Devo confidenciar que também fui obrigado a lê-lo no colegial, mas não me recordava. Surgiram inúmeras biografias e citações literárias do famoso escritor carioca. Separei uma que está em Dom Casmurro. Vou deixá-la aqui, para possíveis reflexões das gerações futuras: "O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência." O leitor arguto certamente trocará "adolescência" por "infância".
Busquei nos arquivos da cidade e na internet informações sobre Aparício. Não achei quase nada, somente a data do seu falecimento, que, por uma triste ironia, foi no dia 21 de abril de 1960, de causas naturais.
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