a ulitma noite de fevereiro e a primeira manhã de março

Data 01/03/2026 12:47:48 | Tópico: Textos

A ultima noite de sábado de fevereiro
A sra. Vince, a senhoria cismou que o marido sofre com o começo de Alzheimer.
- Eu só estou dizendo. A cabeça desse rapaz não tá boa, ele tá como o pai dele. Vivendo numa redoma repetitiva, fazendo a mesma rotina – desabafou para as filhas – Prestam atenção e vejam se vocês não me dão razão.
Uma confusão tipicamente dostoievskiana ( lembrando da cena do Idiota no apartamento dos Ivolgin), tudo por causa da compra de uma tv avariada que o sr. Vince comprou do Mano Vince.
- Eu acho qu’ele não tá normal – vaticina a sra. Vince irritada com o procedimento bobo do companheiro, comprando gato por lebre. O genro irônico espicaça ainda mais. A televisão dele deu chabum, então Mano Vince ofereceu a dele por uma determinada quantia, só que ela avariada, foi consertada e perdeu varias funções =-não pega Netflix e outros penduricalhos. Isso renderá muito pano para manga – Todo negocio dele, dar essas enroladas – até o nome do sr. Con foi arrolado a guisa de comparação.
Mas tarde na mesma noite fria de 23 graus, Sr. Com assistindo os vídeos engraçados do Fala Mundo e vendo o retorno do Taifeiro do petroleiro Marcilio Dias ao lar em João Pessoa, depois de quase noventa dias no mar – a recepção efusiva do filhinho e o beijo da bela esposa e de bandeja o casal de sogros foram espera-los no aeroporto. Ele desembarcou em São Sebastião no Rio de Janeiro, era para ser aqui no Porto do Itaqui, Maranhão, mas ao contornar o cabo da Boa Esperança no sul da Africa do Sul foram avisados de mudança de rota – fiquei triste.
- Te a sossega, minha irmã, tá chovendo – admoesta a consternada sra. Vince para sua cadela teimosa que convalesce de umas feridas que nunca saram – Vai te deitar. Deita! Deita – grita impaciente.
E o chuvisco castiga pesadamente a Vila Embratel e as telhas da pensão, as bacias das goteiras da sala do computador – toc-toc – Uma pausa para a ceia noturna, dois sanduba de bife de panela e café e meia hora depois o oitavo comprimido de Tanduo e de abstinência. E a senhoria bem espirituosa repete o mesmo ritual de todas as noites com suas cadelas e seus felinos – Catita? Catita? -grita – Vem deitar. Tu é Catita ou Linga vai deitar lá, tá fazendo frio e chove.
O problema agora é a porta que dilatou e não quer fechar no trinco, vai buscar mundos e fundos, mas desta vez não acusa ninguém é a natureza. Choveu a madeira incha. Mudou de foco:
- Eu tirei foi dois baldes de agua dai (a sala do computador) quando me levantei, tava tudo alagado. – todas as manhãs, ela faz a faxina, para limpar as cacas e as urinas dos seus animais, assim como no quarto do sr. Com. – Fechou? – perguntou para o ele pela enésima vez – Sim – respondeu o poeta sem tirar os olhos no filme “Vista pela ultima vez em Idaho”.
- te deita ai! E te a sossega, tu não sente frio. Te aquieta ai, então tu entra co cipó, tá chovendo – ameaças inócuas que nunca foram cumpridas, apenas da boca pra fora para intimida-los. Ela nunca maltratou seus animais, apenas ameaça-os e nada mais. Os vizinhos mais abaixo sobre os eflúvios etílicos gritam alegremente comemorando o natalício de alguém.
Minutos depois, a velha guerreira das batalhas perdidas e nunca achadas sucumbe ao cansaço e as cervas e recolhe no aconchego ao lado do marido roncador.
Encantado com o Globo Reporter sobre Nova York no inverno – a cidade de seus sonhos que nunca visitará in loco – os esquilinhos do nevado Central Park com suas arvores nuas sem folhas -um bom lugar para se aquecer com um bom baseado e depois comer nos restaurantes de Chinatown e Little Italy em Manhattan. Ele logico o Brooklin de Wood Allen e o do seu mestre da rua Decatur Henry Miller.
Manhã fria de domingo, o primeiro de março.
O dia não começou muito bem na pensão. O gás acabou, obrigando a sra. Vince se levantar para fazer o fogo no fogareiro para a Pequenina e ainda sonolenta preparar o café. A sacola de pães sobre a mesa.
Sr. Con não banhou apenas abluiu-se com água fria da bacia de alumínio na lavanderia improvisada ao céu aberto no quintal, perto de onde gosta de banhar-se. Desodorante e Leite de rosas, um pouco de Gorki e então a cidade o chamava. Com Rimbaud nas mãos e o seu inseparável caderno de capa dura amarelo e o fone nos ouvidos, escutando o programa sertanejo de raiz da Senado FM, senhor Com embarcou no Paraiso- via Bacanga para um city tour.





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