
Samedi, 14 de março A sra. Vince passou a noite toda, entrando pela madrugada
Data 15/03/2026 12:30:20 | Tópico: Textos
| A sra. Vince passou a noite toda, entrando pela madrugada abrindo e fechando as portas da sala e do quintal, toda vez que uma gata fulera miava e apanhava no telhado. - Linga, Linga – gritava inocuamente no terraço– Onde essa gata dos diabos se meteu? A casa tá só fedendo a mijo deles – e ia para a cozinha, abria a porta do quintal e repetia o mantra: - Linga, Linga, vem menina – impaciente – Linga, eu não vou mais abrir a porta – e a fechava, gritava também com a cadela doente, deitada debaixo da mesa – Beaut, para de te morder e te deita – e ia deitar-se nos seus aposentos, onde o marido roncava tranquilo como um fole escocês. E assim passou e de hora em hora, a ultima as quatro da manhã quando levantei para urinar no banheiro, nós nos esbarramos na copa-cozinha. E como sempre tive uns sonhos sem pé e nem cabeça e toda vez despertado pelos gritos vindos da extremidade da pensão – Linga, Linga. De manhã cedo, antes do sol raiar, o poeta colocou a sua rede ‘cheirosa’ e as duas camisas de molho no balde com agua, sabão em pó e agua sanitária e foi sentar-se na estropiada cadeira com assento de madeira rachada apoiada na parede externa da ex-casinha no fundo do quintal para ler o húngaro Dragoman – o menino de onze anos, o pai fora preso e enviado para os trabalhos forçados no temível canal do Danubio. Mais de onze da manhã – um menino alegre com duas sacolas cheias de bandecos do Popular – hoje é feijoada e liberado para levar o tanto que quiserem. Ainda pouco passou um pixixitinho com cinco marmitex dentro de uma sacola – E o menino alegre acompanhado por uma meninha de vestido surrado também levava e ambos sorriam a caminho de casa. O poeta dava um tempo no Pére Cardin, merendou um pacote de biscoito recheado de chocolate e um genérico de guaraná da River e ouvindo a prosa dos papudinhos que desgustava uma pura dentro da taverna, sob a vigilância do filho Little Fat. – Do bar ao lado, uma voz feminina indignada de Dona Glause, sobrinha de Pai Cardin. - Todo mundo que te fazer de otaria – desabafou e expulsou o cão felpudo que atravessou ligeiro a pista sem prestar atenção no movimento e quase fora atropelado. Prof. Murilo vindo da barbearia, onde tonsou a parca cabeleira e vacinou-se com um quarto da pura de um só gole e sem cuspir e ainda lambeu os beiços, sentou-se ao seu lado e botaram a conversa em dia. - Diz para esse caboco, falar comigo sem falta na segunda – deu o recado para o poeta transmitir para o velho Samuca.
Rua 17 – rua dos cabarés – O mestre do milho no seu vistoso carrão branco, recolhe as palhas dos milhos num enorme saco preto e os bota no porta -mala. E o velho Samuca o ajudou. E aproveitei e passei-lhe o recado – a venda foi boa e rápida. Raios e trovões caem sobre Vila Embratel aterrorizando a sra. Vince. O poeta recolheu-se cedo trazendo as ultimas doses de vodka de Lasierra e deitou-se agora na sua rede limpa e realmente cheirosa. A sra. Vince acidentalmente derrubou o radio do poeta da escrivaninha e abriu-se em dois, passaram uma fita isolante em seu entorno e parece que ficou melhor. E o poeta relia “O Processo” de Kafka na sua primeira e confusa audiência num pardieiro. Tomou de um só gole a vodka e bodou, levantando-se uma hora depois, almoçou uma boa galinha cozida e retomou a leitura, e finalmente concluiu o clássico “Almas Mortas” do mestre russo Gogol e começou a reler “Pais e Filhos” de Turguêniev – desafeto de Dostoievski e Tolstoi e de repente resolveu apartar todos os livros de escritores russo num só lugar – Pasternak, Tolstoi, Gorki, Tchecov, Dostoievski, Bunin, Soljenitsin – pretendiam lê-los depois.
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